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18.9.17

A filosofia para viver bem (parte 2)

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2. Só sei que nada sei, e nem mesmo disto estou certo

Além do estoicismo e do epicurismo, existiu uma terceira escola que por muitos séculos foi ignorada na tradição clássica, até ser recuperada no Renascimento por Michel de Montaigne – que talvez pudesse ser considerado um praticante de todas as três doutrinas.

Trata-se do ceticismo.

Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, o ceticismo filosófico não se refere apenas aos ateus, cientistas e acadêmicos materialistas. Apesar de muitos deles se considerarem céticos, a filosofia cética vai para além disso.

A escola filosófica do ceticismo iniciou com Pirro, muitos séculos antes de Cristo. Pirro entendia que era impossível conhecer a real natureza das coisas.

O que é belo? O que é bom? O que é verdadeiro? Pirro refletiu muito sobre essas questões, e após viajar para outros locais, percebeu que aquilo que é certo num lugar ou para uma pessoa, pode ser errado para outra. E vice-versa. Nossos juízos tratam-se, acima de tudo, de construções que os homens fazem sobre o mundo. E todos os homens parecem igualmente possuírem argumentos válidos para acreditar naquilo que pensam.

Na impossibilidade de dizer o que é verdadeiro, Pirro entendia que o filósofo deveria evitar fazer juízos sobre o mundo, e através da suspensão deles (epokhe), se tornar indiferente às questões que não são realmente importantes. Afinal, é inútil discutir com seu amigo quem é a atriz mais bonita de Hollywood ou quem vai ser campeão da Liga dos Campeões.

Indiferente ao que é duvidoso, o homem alcança a ataraxia, não se perturbando com aquilo que ele não pode ter certeza. Como dizer quem é a mais bela se cada um possui seu próprio critério de beleza? Como saber quem será o campeão do futebol se muitas coisas ainda podem acontecer no futuro e mudar nossas previsões?

É importante dizer que os céticos não são relativistas em relação à verdade. Enquanto os dogmáticos acreditam que a verdade é uma só e conhecida, os relativistas defendem que a verdade é múltipla, possuindo muitas interpretações. Os céticos, por sua vez, entendem que tanto os dogmáticos quanto os relativistas estão enganados: a verdade é impossível de ser conhecida, seja ela única, múltipla ou mesmo inexistente.

Quando Sócrates diz “só sei que nada sei”, Pirro complementa “e nem mesmo disto estou certo”.

Os céticos estão sempre recorrendo à dúvida para colocar o que acreditamos em questão. Isto não significa que não podemos acreditar em determinadas coisas. O conselho cético é apenas para não se levar tão a sério.

Preocupamos-nos excessivamente com coisas das quais não temos realmente como saber. Será que vamos encontrar o amor? Conseguirei passar na prova? Será que eu sou belo aos olhos dos outros? Ao desacreditarem num juízo absoluto sobre esses assuntos, os céticos eram despreocupadamente abertos a todo tipo de situação que a vida pudesse oferecer. Aconteça o que acontecer.

Pirro não se preocupava com os erros. Encarava os enganos com a mesma leveza que os acertos.

Os filósofos encontraram no ceticismo uma espécie de terapia. Diante dos problemas da vida, recorriam à epokhe. Quando não sabemos exatamente o que é certo ou errado, ou nos preocupamos com o que pode acontecer no futuro, a suspensão de juízo nos liberta da necessidade de encontrar uma resposta clara para tudo. Há coisas que talvez estejam para além da nossa compreensão ou controle.

A impossibilidade de um conhecimento objetivo sobre qualquer assunto, ou mesmo nossa tentativa vã de prever o futuro, revela que nossas reações são exageradas na maior parte das vezes. A ataraxia dos céticos conduzia a uma vida despreocupada.

Parece estranho pensar que não saber ou não possuir uma resposta exata para algo seja tão tranquilo assim. Afinal, quando somos acometidos pela dúvida, pela incerteza, geralmente nos sentimos angustiados. Quando não sabemos se nosso amor será correspondido, se nossa carreira profissional está crescendo, ou se as pessoas pensam corretamente sobre nós.

Por que os céticos encontraram a ataraxia justamente em algo que parece nos incomodar tanto: a dúvida?

Talvez porque ainda sejamos pouco amigos da dúvida. Diferente de Michel de Montaigne.

Nos seus Ensaios, Montaigne questionava tudo. Colocava em dúvida os costumes de seu país, de seus amigos, até de si mesmo. Sobre qualquer assunto ele ponderava.

Ao se questionar se preferia estar sozinho ou em companhia, ele dizia primeiro que era uma pessoa muito social, e gostava de conversar e estar feliz com seus amigos. Depois lembrava que muitas vezes sentia a necessidade de estar sozinho, pois nem sempre podia ser tão compreendido pelas pessoas como quando estava refletindo intimamente em suas caminhadas. Diria então que ora preferia estar com amigos, ora sozinho. Finalmente, revelaria ainda assim não ter muita certeza sobre isso.

Montaigne duvidava que o homem fosse tão racional e elevado como as pessoas acreditavam. Na realidade, somos imperfeitos, confusos, contraditórios, ambivalentes, por vezes ridículos. E não há nenhum problema nisso.

A vida para Montaigne (assim como para Nietzsche) devia ser vivida através do amor fati: as coisas são como são, e não cabe a nós mudá-las, mas aceitá-las com alegria. Talvez o mundo seja estranho e imperfeito, por vezes injusto e incompreensível, mas de nada adianta nos arrependermos de algo. A vida nos conduziu exatamente ao ponto que estamos hoje, e sem dúvida há inúmeras razões para amá-la assim.

Mas um homem não se deu muito bem com um mundo de dúvidas... Dele falaremos no próximo texto.

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Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Estátua de Montaigne em La Sorbona, Paris)

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28.11.15

Pirro e o ceticismo

Trechos do artigo de José Francisco Botelho para a revista Vida Simples. Os comentários ao final são meus.

Em Élida, no oeste da Grécia, vivia um pintor de minguados recursos e parcos talentos chamado Pirro. Ganhava a vida fazendo afrescos, mas é de se imaginar que sua clientela fosse pouco exigente: os antigos cronistas garantem que suas pinturas eram perfeitamente esquecíveis. Pirro compreendeu, decerto, que seus dotes pictóricos nada tinham de olímpicos; talvez embalado pela desilusão artística, resolveu tornar-se filósofo.

Foi uma decisão propícia: a nova ocupação levou-o – literalmente – longe. Naquela época, um rapaz baixote e megalomaníaco ocupava o torno da Macedônia, a maior potência militar da Europa. Em 356 a.C., o monarca de 22 anos marchou rumo ao Oriente, com o plano de espalhar seus domínios até os confins do mapa-múndi. Além dessas ambições desmedidas, Alexandre – que, apesar da estatura mínima, foi apelidado de “o Grande” – nutria veleidades literárias e filosóficas. Mesmo nas barracas militares, costumava dormir com um exemplar da Ilíada embaixo do travesseiro; e gostava de alardear que seu professor de retórica e metafísica fora o sublime Aristóteles.

Pois bem: em sua jornada de conquista universal, Alexandre alistou não apenas lanceiros, arqueiros e espadachins, mas também pensadores abstratos. E, dessa forma, o pintor frustrado tornou-se turista global: no séquito de Alexandre, Pirro embrenhou-se pela Pérsia, pela Arábia, pelo Egito; atravessou o árido coração da Ásia, molhou os pés no Ganges e respirou as brisas geladas do Himalaia. Ao longo da travessia, deparou-se com a indomável variedade da espécie humana: conheceu povos que veneravam crocodilos e chacais, outros que adoravam o fogo, outros que conversavam com as estrelas; na Índia, encontrou sábios que viviam no meio da floresta, alimentando-se de folhas secas e vestidos com cascas de árvores.

Do Mar Mediterrâneo às praias do Índico, o ser humano buscava a verdade; mas, em todo o vasto mundo, Pirro não encontrara uma única verdade igual a outra. Convenceu-se de que nada é convincente: de volta a Grécia, passou a pregar uma nova e estranha doutrina, segundo a qual todo conhecimento humano é mera suposição. Já não existe verdade segura, só nos resta esmiuçar o mundo de forma incansável, sem jamais nos determos em conclusões inquestionáveis: da infinita insegurança nasce a incabível curiosidade. Por isso, os seguidores de Pirro ficaram conhecidos como os céticos – do grego sképtomai, que significa “examinar” ou “investigar” [1].

A incerteza, para muita gente, é sinônimo de angústia – mas, para os seguidores de Pirro, ela é uma eficaz terapia. Ao longo da história, dogmas inumeráveis estontearam a humanidade; nós, pobres mortais, vivemos correndo atrás de certezas que sempre se encontram na curva do horizonte. A necessidade de ter razão pode nos tornar desarrazoados: quantas vezes não percebemos que andamos esbravejando sobe coisas que só conhecemos pela metade (ou nem isso) [2]?

Perante essas agruras, a terapia cética é de uma simplicidade implacável: antes de afirmar qualquer coisa, deveríamos admitir que não podemos afirmar tudo. Aceitar os limites do conhecimento humano é uma forma de libertação: quem abraça a eterna dúvida encontra a paz de espírito ou ataraxia, virtude que os antigos valorizavam sobe todas as coisas.

[...] O ceticismo, como tantos vocábulos profundos, perdeu um tanto do sentido original, à força de ser repetido ou mesmo sequestrado: Pirro consideraria dogmáticas muitas pessoas que hoje se declaram céticas. Digamos que alguém pergunte a um Pirro moderno se ele acredita em Deus. À primeira vista, existem duas respostas possíveis: sim ou não. O senso comum diria que a posição cética corresponde à segunda alternativa. Mas, nesse caso, o senso comum está enganado: para um cético clássico, devemos suspender o juízo a respeito de assuntos logicamente insolúveis.

É possível imaginar um universo criado por uma inteligência transcendente, além da compreensão humana; é também possível imaginar um cosmos solitário e materialista, sem outro sentido além do bailado dos átomos. Ou seja: ambas as hipóteses são verossímeis, mas nenhuma delas é verificável. Não podemos bater uma radiografia do universo e constatar a presença ou ausência de Deus, como quem identifica um órgão ou uma cartilagem; logo, tanto o sim quanto o não correspondem a um salto de fé.

O ateísmo, nos olhos pirrônicos, é apenas uma crença, igual às outras. Pirro, aliás, tornou-se sacerdote da antiga religião grega, após seu retorno a Élida; e George Berkeley, um dos nomes mais célebres do ceticismo moderno, era bispo da Igreja Anglicana.

Mas não precisamos nos alçar a enigmas metafísicos para testas a terapia pirrônica. Mesmo que deixemos o sentido do cosmos à escolha de cada um, veremos que o método tem efeitos salutares quando aplicado às coisas do dia a dia. Os céticos da Antiguidade colocavam em dúvida até mesmo o testemunho dos sentidos; alguns questionavam o brilho do Sol, a doçura do mel, ou a vermelhidão das coisas vermelhas [3] – mas não precisamos ir tão longe. Será suficientemente cético quem se ativer a esta máxima: somos criaturas finitas, enquanto a verdade é infinitamente complexa – e o universo talvez não caiba em uma casca de noz.

Isso não implica renunciar a toda a opinião – podemos deixar a suspensão total do juízo ao velho Pirro, em suas divagações. [...] Para nós, basta recordar que toda perspectiva humana é parcial. A visão completa das coisas só pertence aos deuses – e, bem, eles costumam guardar seus segredos com muito afinco.

Os antigos cartógrafos tinham o hábito de escrever, nas bordas dos mapas marítimos, o lema latino nec plus ultra – “daqui não passarás”. O objetivo era assustar os navegantes audazes – e lembrá-los de que toda viagem tem de chegar ao fim. O dogmatismo também anda, sempre, a rabiscar términos e limites na geografia da mente; com regra e esquadro, ele insiste em tascar pontos-finais à aventura do pensamento.

Nessas horas, um gole do antídoto pirrônico vem a calhar. Pois ele nos devolve a medida certa de modéstia e ousadia: não sabemos tudo; e, por isso mesmo, temos de acreditar que a busca continua. Sejamos então como Alexandre, que não quis se deter na Babilônia, nem em Persépolis, nem nos desertos do Afeganistão; seguiu marchando enquanto pôde e, ao olhar as estrelas, exclamava com sonhadora melancolia: “Há muitos mundos lá em cima; e não poderei conquistar nem mesmo este mundinho nosso, aqui embaixo”.

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[1] O ceticismo original nasceu, com Pirro, de uma constatação tão simples quanto profunda e humilde: a de que nenhum ser humano detém a verdade absoluta. Há uma parábola sufi que diz que Deus carregava um espelho e esse espelho era chamado “Verdade”. Um dia, ele deixou cair, e seu vidro se quebrou em inúmeros pedacinhos. Cada pessoa que descobriu um desses pedacinhos acreditou que havia descoberto toda a verdade, e foram raras as que chegaram à conclusão de que a verdade absoluta não pode nunca ser a propriedade de uma só pessoa, de uma só doutrina ou filosofia. É isto precisamente o ceticismo de Pirro: não uma negação da verdade, mas um reconhecimento de que ela só pode ser encontrada em parte, e somente por aqueles que não desistiram de continuar investigando.

[2] Infelizmente é muito comum encontrarmos entre os que se satisfazem com dogmas e certezas absolutas gente que não está aqui em busca de uma verdade para satisfazer as suas dúvidas internas, mas antes para expô-la aos demais, por vezes de forma grosseira e violenta, numa necessidade quase que insaciável de “ter razão”. Ironicamente, tais pessoas são as que se encontram, quase sempre, mais distantes da razão.

[3] O ceticismo moderno está, talvez irremediavelmente, contaminado pelo positivismo da Academia. O que isto quer dizer, basicamente, é que hoje é muito comum crermos que nossas dúvidas só podem ser solucionadas por comprovações objetivas, muitas vezes em um laboratório, e acompanhadas por calhamaços de estudos científicos e/ou estatísticas. Isto é bom, por exemplo, para o desenvolvimento da tecnologia; mas é muito ruim para o desenvolvimento do ser humano. Os céticos antigos questionavam tudo, é verdade, mas também aceitavam as comprovações subjetivas de suas próprias experiências pessoais, ainda que não pudessem, com isso, “evangelizar” suas comprovações adiante. Ocorre que Pirro e seus seguidores não perdiam seu tempo tentando convencer os outros de nada – nem do que existe, nem do que não existe.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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10.4.12

Comentário: que é a fé?

Comentário das respostas da pergunta “que é a fé?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos em alguma parte relativamente gélida do globo, e existe um lago aquecido pelo calor que brota do solo, para onde alguns se dirigem e mergulham durante as tardes de vento mais frio. Lá, os nadadores dizem que são mais felizes do que aqueles que estão de fora, pois não são obrigados a suportar todo o rigor do inverno... Os que ficam de fora, porém, alegam ter uma excelente razão para tal: dizem que os vapores que brotam das águas do lago também são psicoativos, e provocam alucinações que, com o tempo, terminam por minar a racionalidade dos nadadores. Já os nadadores se defendem: na realidade, é o frio intenso que acabou por congelar o coração daqueles que se abstiveram do mergulho, e por isso mesmo não foram escolhidos pelo “espírito do lago” para essa tal benção consoladora.

É assim que muitos dos que se alistaram em guerras entre a fé e a razão, o ceticismo e a crença, a espiritualidade e a ciência, gostariam que você imaginasse tal cenário... E por acaso alguém não poderia simplesmente mergulhar no lago dia sim e dia não, para que não se acostumasse demasiadamente nem com o calor da fé, nem com o frio da razão, ao ponto de se esquecer de uma dessas potencialidades do ser? Não, é óbvio que não, dirão os radicais, os dogmáticos: ou você crê, e é salvo, ou estará condenado ao inferno gelado; ou você se abstém por completo de mergulhar, ou estará infectado pelo veneno dos vapores da fé... São apenas dois lados de uma mesma moeda. O caminho do meio, apesar de ser talvez o mais árduo de se seguir, é de longe o mais recompensador – ou, pelo menos, foi seguindo o caminho do meio que muitos de nossos grandes cientistas e espiritualistas entraram para nossa história como alicerces do nosso conhecimento.

Em seu curto e demolidor A vontade de crer [1], o filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia e do pragmatismo, nos traz uma explicação um tanto quanto “vulgar” para o real motivo de nossas crenças, mas que, não obstante, parece ser o caso na grande maioria das vezes: “Nossa razão estará perfeitamente satisfeita, em 999 em cada 1.000 de nós, se puder encontrar alguns argumentos para apresentar no caso de nossa credulidade ser criticada por alguém. Nossa fé é a fé na fé de outro e, nas maiores questões, esse é quase sempre o caso. Nossa crença na própria verdade, por exemplo, de que existe uma verdade e de que nossa mente e essa verdade são feitas uma para a outra – o que é isso senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que nosso sistema social nos dá suporte? Queremos ter uma verdade; queremos acreditar que nossas experiências, nossos estudos e nossas discussões devem nos colocar numa posição continuamente melhor para isso [...] Mas, se um cético pirrônico [2] nos perguntar como sabemos tudo isso, será que nossa lógica poderá encontrar uma resposta? Não! Certamente não poderá. É apenas uma volição [vontade] contra a outra – nós, dispostos a encarar a vida com base em uma confiança ou pressuposição que ele, por seu lado, não acha importante adotar”.

Para os primeiros céticos, seguidores do pirronismo na antiga Grécia, o “caminho do sábio” consistia em refletirmos sobre três questões fundamentais: Primeiro devemos perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Os próprios pirrônicos respondiam: Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima. A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Dessa conclusão radical, enraizada nos primórdios da própria filosofia, podemos retirar que a única certeza de que temos é a certeza de que existimos, de que somos um ser pensante, e assim o sendo, de que podemos tão somente refletir e filosofar acerca do mundo sem, no entanto, jamais termos certeza de qualquer outra coisa... Os empiristas, grandes entusiastas do método científico, jamais chegaram a um ceticismo tão radical: para eles, o fato de algo poder ser detectado por nossos sentidos já é alguma boa indicação de que efetivamente exista. E este algo, se puder ser visto por muitos outros de nós, e em todos concordando em que ele realmente é deste ou daquele jeito, podemos talvez afirmar, enfim: sim, isto existe!

Mas pode não ser tão simples. Digamos que os nadadores do lago tenham visto muitos cisnes nadando de uma margem à outra, até que saíssem para outros cantos. Ora, ao longo dos anos, centenas de cisnes passaram pelo lago, e todos eram brancos. Aqueles que estão fora do lago prontamente chegaram a uma conclusão inteiramente baseada na observação: “Interessante, cisnes existem, e todos os cisnes são brancos”. Mas uma criança que mergulhava no lago sempre insistia: “Não, uma vez eu vi um cisne negro, mas ele passou sorrateiro na margem oposta e ninguém mais o viu”. Ora, ocorre que apenas alguns poucos nadadores tinham fé na afirmação do menino, aqueles racionais encasacados do lado de fora somente davam de ombros, irônicos: “É, pode ser, quem vai saber? Ah, as crianças e a sua imaginação!”... Até o dia em que um cisne negro nadou em meio a todos no lago, e foram forçados a mudar de opinião, e de crença (ou descrença).

Karl Popper, um filósofo austríaco do século XX, tentou resolver tal problema através do falsificacionismo. Segundo ele, o que existem são teorias que podem ou não ser confirmadas em experimentação, e não conclusões finais e derradeiras. Por exemplo, no caso dos cisnes: para Popper o fato de todos os cisnes serem brancos seria tão somente uma teoria, incompleta no que tange aos cisnes, como sabemos... A partir do momento em que um único cisne negro é descoberto, a teoria se ajusta e adapta, e passa a afirmar: “A grande maioria dos cisnes é branca, mas existem alguns cisnes negros”. Se acaso um dia viessem centenas de cisnes negros, ou amarelos e azuis, nadando pelo lago, a teoria teria de ser novamente revista [3].

Ora, se estendermos essa ferramenta do pensar elaborada por Popper para a região da crença, e não somente da ciência, teremos algo muito parecido com um caminho do meio, um certo equilíbrio entre a fé e a razão: Podemos, sim, crer em muitas coisas que jamais foram detectadas, porém, na medida em que muitos de nós experienciam tais coisas subjetivamente, e trocam ideias entre si acerca delas, e muitas dessas ideias se assemelham umas com as outras, podemos dizer que chegamos a hipóteses, teorias lógicas acerca de tais experiências. E, naturalmente, umas serão mais embasadas do que outras, embora todas estejam ainda além da experimentação científica, além da “prova cabal” de que efetivamente existam nalgum lugar. No fundo, tudo o que existe é o que nossa própria mente é capaz de detectar, conceber, elaborar, interpretar, imaginar, e crer... Não há como realmente escapar do risco de crermos em algo que, no fim, jamais existiu. Decerto, na verdade, fazemos isso o tempo todo. A grande questão é que devemos sempre considerar que podemos estar errados, e que dogmas e textos infalíveis nunca foram saudáveis, nem para a espiritualidade, nem para a ciência.

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[1] Publicado no Brasil pelas Edições Loyola (coleção Leituras Filosóficas).

[2] Pirro de Élis foi um filósofo grego da antiguidade (360 - 270 a.C.), fundador do pirronismo, e considerado por muitos como o primeiro cético. Sim, o ceticismo nasceu da filosofia, e não da ciência.

[3] Mas mesmo o falsificacionismo de Popper não está imune a erros graves. Se considerarmos, por exemplo, a teoria copernicana de que a Terra gira em torno do Sol, temos que quando ela foi inicialmente elaborada, críticos indicaram duas observações que poderiam falsificá-la:
Primeiro, se a Terra se move, um objeto derrubado de uma torre alta deveria cair em ângulo, não na vertical. Pois se a Terra se move um pouco enquanto o objeto está caindo, ele deveria cair a certa distância do ponto diretamente abaixo daquele em que foi solto. Mas, claro, quando objetos são soltos de torres, caem sempre na vertical. Essa observação parece falsificar a teoria de imediato.
Segundo, se a Terra gira em torno do Sol, as estrelas fixas deveriam parecer se mover de um lado para o outro do nosso campo de visão ao longo de um ano. No entanto, nenhum movimento aparente como esse, ou “paralaxe”, era observado. Alguns tentaram defender Copérnico insistindo que as estrelas deviam estar distantes demais para que a paralaxe fosse detectável pelos instrumentos da época (o que de fato é verdade). Mas essa era, é claro, uma resposta ad hoc (assim como ocorre atualmente com a Teoria das Cordas).
Ainda assim, apesar dessas e outras objeções, a teoria de Copérnico não foi rejeitada, e mais tarde cientistas provaram que estava correta. Se, entretanto, todos os cientistas seguissem a risca o falsificacionismo, a evolução da ciência se atrasaria por muitos e muitos anos, ao ignorar a teoria copernicana.

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Crédito da foto: Peter Johnson/Corbis

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