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15.8.14

Lançamento: A vontade de crer

As Edições Textos para Reflexão tem o orgulho de lhes trazer A vontade de crer, um dos livros mais conhecidos de William James, traduzido do original em inglês pela nova integrante de nossa equipe, Kamila Pereira (Hipátia).

William James, um dos fundadores da psicologia moderna, foi um daqueles raros homens que soube transitar com igual destreza entre a Academia e o Templo, entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava, de fato, em casa no universo. Mas o seu universo não se resumia ao que residia lá fora. Ele sabia, pois também contemplou tal caminho, que haviam espaços infinitos, ou quase infinitos, também dentro de nós. 

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle:

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Abaixo, o Prefácio da nossa edição, escrito por Kamila:

William James (1842-1910) nasceu em Nova York, em uma família rica e influente. Os membros de sua família foram conhecidos pelo interesse intelectual em história, biografias e críticas; inclusive seu pai, Henry James Sr., foi um teólogo do cristianismo de Swedenborg. Esse contexto intelectual gerou frutos em James e seus irmãos: seu irmão, Henry James, tornou-se um importante romancista, enquanto sua irmã, Alice James, ficou famosa como cronista.

William James se aproveitou da educação cosmopolita que recebeu e se formou em Medicina, mas nunca a exerceu. Porém, seu interesse e estudos em filosofia e psicologia o levaram a se tornar professor de Harvard. Nesse posto, tornou-se o primeiro professor a ministrar um curso de psicologia nos Estados Unidos, como também foi considerado um influente pensador do século XIX, notável por seus trabalhos com a filosofia do pragmatismo. Entre seus mais notáveis livros, encontram-se The Principles of Psychology e Essays in Radical Empiricism. Além disso, James também se interessou pela filosofia da religião. Como importante obras escritas pelo autor nessa área existem The Varieties of Religious Experience e The Will To Believe. Esta última obra está aqui apresentada com uma nova tradução e novos comentários, sendo intitulada como A Vontade de Crer.

A Vontade de Crer é uma palestra realizada por William James e, posteriormente, publicada como livro. Nessa argumentação, o autor discute criticamente o pensamento científico e a adoção da fé. James inicia a obra apresentando a definição de hipótese e opção e segue argumentando como as nossas escolhas, mesmo aquelas feitas por cientistas, não são apenas pautadas na razão e em nossa vontade, mas também podem ser influenciadas por medos, esperanças, preconceitos e paixões. O autor continua seu discurso argumentando que a crença em alcançar certos resultados, por parte dos cientistas, é uma das principais alavancas da ciência, levando-a a alcançar muito de seus avanços. Entretanto, a ciência também está preocupada em evitar erros ao longo de seu percurso na busca da verdade. Para o autor, esse medo pode gerar um afastamento e/ou indiferença em relação a algumas questões, gerando uma dessincronização de ideias: por um lado, cientistas procuram ser cautelosos com o estudo de algumas áreas, por outro lado, eles se utilizam da crença em obter certas verdades como estímulo para alcançar respostas.

Enfim, esta obra apresenta uma bela crítica ao modo imparcial que muitos de nós agimos. Se lido com uma disposição em acompanhar à discussão de William James e em refletir profundamente quanto às suas conclusões, este livro pode gerar no leitor reflexões quanto às nossas crenças e modos de pensar e agir, assim como trazer novos paradigmas à nossa vida. Portanto, sugiro que iniciam essa leitura com a mente aberta à novas possiblidades e aproveitem as futuras reflexões geradas pela obra.

Kamila J. Pereira


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29.7.14

Em casa no universo

O melhor que podemos fazer de nossa vida é empregá-la em alguma coisa mais duradoura que a própria vida.


A primeira vez em que ouvi falar do autor desta frase, William James, foi num livro póstumo de Carl Sagan, famoso astrofísico e divulgador de ciência do século XX. Ao organizar o livro com a transcrição de algumas palestras do marido já falecido, Ann Druyan o intitulou Variedades da experiência científica; segundo ela, como forma de homenagem a obra prima de James, Variedades da experiência religiosa.

Sagan admirava a definição de religião de James, “um sentimento de estar em casa no universo”, e a citou na conclusão de um de seus livros mais conhecidos, Pálido ponto azul. Mas as conexões entre Sagan e James não param por aí, ambos foram seres plenos de espiritualidade, e grandes investigadores do Cosmos. Talvez a diferença primordial entre o cientista e o psicólogo seja a de que o primeiro olhou, sobretudo, para as estrelas mais distantes, enquanto que o último tratou de desbravar os astros internos da mente e da alma humanas. Há espiritualidade suficiente em ambos os casos.

Apesar de ser considerado “um dos pais da psicologia moderna”, James costumava se sentir mais a vontade referindo-se a si mesmo como um filósofo. Embora a Academia se esforce para esquecer, foi também um grande estudioso da parapsicologia (de fato, pode-se dizer que foi um de seus fundadores) e, particularmente, do misticismo.

O seu Variedades da experiência religiosa é um estudo denso e profundo da mente e da alma de diversos místicos que passaram pelo seu olhar cuidadoso. Apesar de se encontrar muito longe dos costumeiros extremismos religiosos, focava suas pesquisas exatamente naqueles que passaram pelas experiências mais “radicais” no campo religioso, citando casos como os de São João da Cruz e Santa Teresa D’Ávila.

Mas, embora tratando dos astros internos, o seu método de estudo se aproximava tanto de um método científico, e suas análises eram tão profusas em racionalidade e lógica, que não é mesmo surpresa que Sagan tenha sido um de seus entusiastas, assim como alguns dos grandes intelectuais do século XX, entre eles Émile Durkheim, Edmund Husserl, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein.

Já em sua época, na transição dos séculos XIX e XX, James se esforçava para combater o materialismo científico, não num sentido de menosprezar a ciência e o empirismo, mas antes num sentido de reconhecer que a experiência mística e religiosa é de fato algo real e profundamente impactante na vida dos seres, particularmente daqueles que realmente praticam a religião. Também em sua época, James já esboçava as bases do conceito de inconsciente, que ainda seriam aprofundadas por grandes sucessores, como Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.

Em A Vontade de Crer, também a transcrição de uma de seus conferências, dirigida aos grêmios filosóficos de duas universidades americanas (Yale e Brown), James foca exclusivamente na defesa da importância da fé religiosa, e da crença em geral, como ferramentas vitais da mente para galgar grandes conquistas. De certa forma, se nunca ninguém houvesse acreditado em nada sem antes obter comprovação empírica, e se diante de grandes desafios todos os homens e mulheres se resignassem ante as perspectivas de fracasso, talvez nem houvesse uma civilização de pé.

É óbvio que a capacidade de crer, e mais profundamente, a vontade de crer, desempenham papéis vitais em nossas vidas, ainda que muitos não queiram admitir. Nem sempre, é claro, todas as crenças serão racionais. E quase sempre, igualmente, encontraremos aqueles que exploram as crenças alheias. Mas nada disto impede que existam seres que conseguem se observar, se compreender, e viajar dentro de si, e encontrar tesouros e mistérios grandiosos, imateriais, e além de qualquer descrição que possa ser dada somente por palavras.

James foi, afinal, um daqueles raros homens que soube transitar com igual destreza entre a Academia e o Templo, entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava, de fato, em casa no universo. Mas o seu universo não se resumia ao que residia lá fora. Ele sabia, pois também contemplou tal caminho, que haviam espaços infinitos, ou quase infinitos, também dentro de nós.

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Texto escrito para o Epílogo de A Vontade de Crer, de William James, o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

Crédito da imagem: Google Image Search (William James)

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29.5.14

Projeto William James

Há mais um projeto atualmente em andamento nas Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

O livro em questão é The Will to Believe (A Vontade de Crer), de William Janes, e trata de uma discussão quanto às filosofias e crenças presentes no mundo acadêmico e científico. Como Kamila trabalha na área de psicologia, pensamos que seria uma boa ideia ela estrear por aqui traduzindo um dos fundadores da psicologia moderna.

Abaixo, segue um trecho da sua tradução (lembramos que os direitos da tradução pertencem inteiramente a tradutora, estaremos somente a editando e publicando)...

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Vamos dar o nome de hipótese a qualquer coisa que seja proposta a nossa crença; e, assim como os eletricistas tratam de fios vivos e mortos, vamos tratar qualquer hipótese como viva ou morta. Uma hipótese viva é aquela que se mostra como uma possibilidade real àquele a quem ela é proposta. Se eu lhes pedir para acreditar em Mahdi [1], essa ideia não faz qualquer conexão elétrica com sua natureza – ela se recusa a cintilar com qualquer credibilidade. Como uma hipótese, está completamente morta. Para um árabe, todavia (mesmo que ele não seja um dos seguidores de Mahdi), a hipótese está entre as possibilidades da mente: ela está viva. Isto mostra que a morte e a vida em uma hipótese não são propriedades intrínsecas, mas se relacionam ao pensador individual. Elas são medidas pela disposição do indivíduo em agir.

O máximo de vivacidade em uma hipótese significa disposição em agir de forma irrevogável. Na prática, isto significa fé; mas há alguma tendência em crer em qualquer lugar que haja disposição em agir.

Em seguida, vamos nomear qualquer decisão entre duas hipóteses como opção. Opções podem ser de vários tipos. Elas podem ser: 1) vivas ou mortas; 2) forçadas ou evitáveis; 3) momentosas ou triviais; e, para nossos propósitos, podemos chamar uma opção como genuína, quando ela for do tipo forçado, viva e momentosa.

1. Uma opção viva é aquela em que ambas as hipóteses estão vivas. Se eu lhes digo: “Sejam teosofistas ou sejam muçulmanos”, essa é provavelmente uma opção morta, porque para vocês nenhuma das hipóteses tem probabilidade de estar viva. Mas se eu digo: “Sejam agnósticos ou sejam cristãos”, acontece o contrário: dada a sua formação, cada hipótese tem seu apelo, ainda que pequeno, à sua crença.

2. Em seguida, se eu lhes digo: “Escolham entre sair com ou sem guarda-chuva”, eu não lhes ofereço uma opção genuína, pois não é forçada. Vocês podem facilmente evitá-la ao não sair. Da mesma forma, se eu disser “Amem-me ou me odeiem”, “Chamem minha teoria de verdadeira ou a chamem de falsa”, sua opção é evitável. Vocês podem permanecer indiferentes a mim, nem me amando nem me odiando, e vocês podem se recusar a fazer qualquer julgamento a respeito da minha teoria. Porém, se eu digo “Aceitem esta verdade ou a deixem para trás”, eu lhes dei uma opção forçada, pois não existe escolha além das alternativas. Todo dilema baseado em uma disjunção lógica completa, sem a possibilidade de não se escolher, é uma opção do tipo forçado.

3. Finalmente, se eu fosse o Dr. Nansen e lhes propusesse se juntar a minha expedição ao Polo Norte, sua opção seria momentosa; pois esta seria provavelmente sua única oportunidade semelhante e sua escolha presente iria excluí-lo totalmente do grupo imortal do Polo Norte ou dar-lhes-ia alguma chance disso ocorrer. Aquele que se recusa a aceitar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se ele tivesse tentado e falhado. Ao contrário, a opção é trivial quando a oportunidade não é única, quando a aposta é insignificante ou quando a decisão é reversível se ela se mostrar imprudente posteriormente. Tais opções triviais abundam na vida científica. Um químico considera uma hipótese viva o suficiente para gastar um ano em sua comprovação: ele acredita nela a esse ponto. Mas se seus experimentos se mostrarem inconclusivos de qualquer maneira, ele está redimido de sua perda de tempo, sem qualquer dano vital.

Facilitará a nossa discussão se mantivermos todas as distinções em mente.

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[1] Nota da tradutora: Mahdi, de acordo com as versões xiitas e sunitas da escatologia islâmica, é o redentor profetizado do Islã, que chegará a Terra alguns anos antes da chegada do juízo final, o Yawm al-Qiyamah (“Dia da Ressurreição”). Os muçulmanos acreditam que o Mahdi, juntamente com Jesus, livrará o mundo do erro, da injustiça e da tirania.


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10.4.12

Comentário: que é a fé?

Comentário das respostas da pergunta “que é a fé?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos em alguma parte relativamente gélida do globo, e existe um lago aquecido pelo calor que brota do solo, para onde alguns se dirigem e mergulham durante as tardes de vento mais frio. Lá, os nadadores dizem que são mais felizes do que aqueles que estão de fora, pois não são obrigados a suportar todo o rigor do inverno... Os que ficam de fora, porém, alegam ter uma excelente razão para tal: dizem que os vapores que brotam das águas do lago também são psicoativos, e provocam alucinações que, com o tempo, terminam por minar a racionalidade dos nadadores. Já os nadadores se defendem: na realidade, é o frio intenso que acabou por congelar o coração daqueles que se abstiveram do mergulho, e por isso mesmo não foram escolhidos pelo “espírito do lago” para essa tal benção consoladora.

É assim que muitos dos que se alistaram em guerras entre a fé e a razão, o ceticismo e a crença, a espiritualidade e a ciência, gostariam que você imaginasse tal cenário... E por acaso alguém não poderia simplesmente mergulhar no lago dia sim e dia não, para que não se acostumasse demasiadamente nem com o calor da fé, nem com o frio da razão, ao ponto de se esquecer de uma dessas potencialidades do ser? Não, é óbvio que não, dirão os radicais, os dogmáticos: ou você crê, e é salvo, ou estará condenado ao inferno gelado; ou você se abstém por completo de mergulhar, ou estará infectado pelo veneno dos vapores da fé... São apenas dois lados de uma mesma moeda. O caminho do meio, apesar de ser talvez o mais árduo de se seguir, é de longe o mais recompensador – ou, pelo menos, foi seguindo o caminho do meio que muitos de nossos grandes cientistas e espiritualistas entraram para nossa história como alicerces do nosso conhecimento.

Em seu curto e demolidor A vontade de crer [1], o filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia e do pragmatismo, nos traz uma explicação um tanto quanto “vulgar” para o real motivo de nossas crenças, mas que, não obstante, parece ser o caso na grande maioria das vezes: “Nossa razão estará perfeitamente satisfeita, em 999 em cada 1.000 de nós, se puder encontrar alguns argumentos para apresentar no caso de nossa credulidade ser criticada por alguém. Nossa fé é a fé na fé de outro e, nas maiores questões, esse é quase sempre o caso. Nossa crença na própria verdade, por exemplo, de que existe uma verdade e de que nossa mente e essa verdade são feitas uma para a outra – o que é isso senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que nosso sistema social nos dá suporte? Queremos ter uma verdade; queremos acreditar que nossas experiências, nossos estudos e nossas discussões devem nos colocar numa posição continuamente melhor para isso [...] Mas, se um cético pirrônico [2] nos perguntar como sabemos tudo isso, será que nossa lógica poderá encontrar uma resposta? Não! Certamente não poderá. É apenas uma volição [vontade] contra a outra – nós, dispostos a encarar a vida com base em uma confiança ou pressuposição que ele, por seu lado, não acha importante adotar”.

Para os primeiros céticos, seguidores do pirronismo na antiga Grécia, o “caminho do sábio” consistia em refletirmos sobre três questões fundamentais: Primeiro devemos perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Os próprios pirrônicos respondiam: Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima. A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Dessa conclusão radical, enraizada nos primórdios da própria filosofia, podemos retirar que a única certeza de que temos é a certeza de que existimos, de que somos um ser pensante, e assim o sendo, de que podemos tão somente refletir e filosofar acerca do mundo sem, no entanto, jamais termos certeza de qualquer outra coisa... Os empiristas, grandes entusiastas do método científico, jamais chegaram a um ceticismo tão radical: para eles, o fato de algo poder ser detectado por nossos sentidos já é alguma boa indicação de que efetivamente exista. E este algo, se puder ser visto por muitos outros de nós, e em todos concordando em que ele realmente é deste ou daquele jeito, podemos talvez afirmar, enfim: sim, isto existe!

Mas pode não ser tão simples. Digamos que os nadadores do lago tenham visto muitos cisnes nadando de uma margem à outra, até que saíssem para outros cantos. Ora, ao longo dos anos, centenas de cisnes passaram pelo lago, e todos eram brancos. Aqueles que estão fora do lago prontamente chegaram a uma conclusão inteiramente baseada na observação: “Interessante, cisnes existem, e todos os cisnes são brancos”. Mas uma criança que mergulhava no lago sempre insistia: “Não, uma vez eu vi um cisne negro, mas ele passou sorrateiro na margem oposta e ninguém mais o viu”. Ora, ocorre que apenas alguns poucos nadadores tinham fé na afirmação do menino, aqueles racionais encasacados do lado de fora somente davam de ombros, irônicos: “É, pode ser, quem vai saber? Ah, as crianças e a sua imaginação!”... Até o dia em que um cisne negro nadou em meio a todos no lago, e foram forçados a mudar de opinião, e de crença (ou descrença).

Karl Popper, um filósofo austríaco do século XX, tentou resolver tal problema através do falsificacionismo. Segundo ele, o que existem são teorias que podem ou não ser confirmadas em experimentação, e não conclusões finais e derradeiras. Por exemplo, no caso dos cisnes: para Popper o fato de todos os cisnes serem brancos seria tão somente uma teoria, incompleta no que tange aos cisnes, como sabemos... A partir do momento em que um único cisne negro é descoberto, a teoria se ajusta e adapta, e passa a afirmar: “A grande maioria dos cisnes é branca, mas existem alguns cisnes negros”. Se acaso um dia viessem centenas de cisnes negros, ou amarelos e azuis, nadando pelo lago, a teoria teria de ser novamente revista [3].

Ora, se estendermos essa ferramenta do pensar elaborada por Popper para a região da crença, e não somente da ciência, teremos algo muito parecido com um caminho do meio, um certo equilíbrio entre a fé e a razão: Podemos, sim, crer em muitas coisas que jamais foram detectadas, porém, na medida em que muitos de nós experienciam tais coisas subjetivamente, e trocam ideias entre si acerca delas, e muitas dessas ideias se assemelham umas com as outras, podemos dizer que chegamos a hipóteses, teorias lógicas acerca de tais experiências. E, naturalmente, umas serão mais embasadas do que outras, embora todas estejam ainda além da experimentação científica, além da “prova cabal” de que efetivamente existam nalgum lugar. No fundo, tudo o que existe é o que nossa própria mente é capaz de detectar, conceber, elaborar, interpretar, imaginar, e crer... Não há como realmente escapar do risco de crermos em algo que, no fim, jamais existiu. Decerto, na verdade, fazemos isso o tempo todo. A grande questão é que devemos sempre considerar que podemos estar errados, e que dogmas e textos infalíveis nunca foram saudáveis, nem para a espiritualidade, nem para a ciência.

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[1] Publicado no Brasil pelas Edições Loyola (coleção Leituras Filosóficas).

[2] Pirro de Élis foi um filósofo grego da antiguidade (360 - 270 a.C.), fundador do pirronismo, e considerado por muitos como o primeiro cético. Sim, o ceticismo nasceu da filosofia, e não da ciência.

[3] Mas mesmo o falsificacionismo de Popper não está imune a erros graves. Se considerarmos, por exemplo, a teoria copernicana de que a Terra gira em torno do Sol, temos que quando ela foi inicialmente elaborada, críticos indicaram duas observações que poderiam falsificá-la:
Primeiro, se a Terra se move, um objeto derrubado de uma torre alta deveria cair em ângulo, não na vertical. Pois se a Terra se move um pouco enquanto o objeto está caindo, ele deveria cair a certa distância do ponto diretamente abaixo daquele em que foi solto. Mas, claro, quando objetos são soltos de torres, caem sempre na vertical. Essa observação parece falsificar a teoria de imediato.
Segundo, se a Terra gira em torno do Sol, as estrelas fixas deveriam parecer se mover de um lado para o outro do nosso campo de visão ao longo de um ano. No entanto, nenhum movimento aparente como esse, ou “paralaxe”, era observado. Alguns tentaram defender Copérnico insistindo que as estrelas deviam estar distantes demais para que a paralaxe fosse detectável pelos instrumentos da época (o que de fato é verdade). Mas essa era, é claro, uma resposta ad hoc (assim como ocorre atualmente com a Teoria das Cordas).
Ainda assim, apesar dessas e outras objeções, a teoria de Copérnico não foi rejeitada, e mais tarde cientistas provaram que estava correta. Se, entretanto, todos os cientistas seguissem a risca o falsificacionismo, a evolução da ciência se atrasaria por muitos e muitos anos, ao ignorar a teoria copernicana.

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Crédito da foto: Peter Johnson/Corbis

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29.1.12

Para ser um médium, parte 4

« continuando da parte 3

Estudos místicos trazem consigo, assim como a música ou poesia – embora em grau muito mais elevado –, uma estranha euforia, como se nos levassem para mais perto de uma poderosa fonte de Ser, como se estivéssemos finalmente na iminência de desvendar o segredo que todos buscamos. (William James em Variedades da experiência religiosa)

Anjos de cima, demônios de baixo

O termo misticismo é uma das palavras mais mal empregadas na linguagem popular. O filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia, observou que ele se tornou abusivo, geralmente sendo aplicado a “qualquer opinião que tomemos como vaga, exagerada e sentimental, e sem base nos fatos ou na lógica”. Em Mysticism, a escritora britânica Evelyn Underhill nos trouxe uma explicação mais profunda acerca do termo [1]:

“O misticismo [...] não é uma opinião: não é uma filosofia. Nada tem em comum com a busca de conhecimento oculto. Por um lado, tampouco é apenas o poder de contemplar a Eternidade: por outro, não se deve identificá-lo com qualquer tipo de esquisitice religiosa. É o nome desse processo orgânico que envolve a perfeita consumação do Amor a Deus: a realização aqui e agora da herança imortal do homem. Ou, se preferirem – pois significa a mesmíssima coisa –, a arte de estabelecer nossa relação consciente com o Absoluto.”

Podemos, talvez, dizer que os transes mediúnicos, em seus diferentes graus, fazem parte do misticismo conforme delineado por Underhill. Pode parecer estranho que o contato com outros seres seja algo análogo ao contato com Deus – mas, no fundo, um dia talvez você também compreenda: o Reino de Deus já preenche a tudo desde sempre, e ao nos dedicarmos ao contato, a amizade, a compaixão, ao amor, com outros seres, vivos ou “mortos”, estamos aos poucos nos aproximando cada vez mais de Deus, mesmo que não o compreendamos muito bem.

Ainda assim, é preciso analisar cuidadosamente os pensamentos e sentimentos que nos assaltam a mente durante tais experiências, ou mesmo fora delas. Pois é preciso nos assegurar que estamos nos dedicando a mediunidade por uma boa razão, e não por uma razão egoísta – que ao contrário de nos aproximar do Absoluto, nos afasta. O maior perigo para um médium é algo que costumeiramente nos passa de forma desapercebida, de modo que mesmo os médiuns com décadas de atividade podem estar ainda afundados nesse problema sem que o percebam. Na falta de um nome melhor, eu o chamo de “complexo de santo”...

Você pode achar que isso só ocorre com os médiuns “ignorantes”, mas mesmo Divaldo Pereira Franco, um dos grandes expoentes do espiritismo no Brasil, admitiu que no início de sua mediunidade queria “se sacrificar pela causa”, até mesmo com a própria vida... Esse tipo de pensamento é muito próprio do meio religioso, particularmente no cristianismo e islamismo – parece haver um “céu assegurado” para os mártires, os profetas, os santos, e para ser um santo todo sacrifício seria válido!

Mas a questão é que, infelizmente, muitos recaem no “complexo de santo” não por um sentimento genuíno de entrega aos desígnios da espiritualidade, mas simplesmente por um motivo bem mais mundano e egoísta: ora, da mesma forma que um aspirante a ator quer ser um grande astro de Hollywood, um aspirante a espiritualista quer ser um grande santo. Desnecessário dizer: é o talento e a ardorosa dedicação que constrói um grande artista e, da mesma forma, é a disciplina e a lenta e constante afloração do amor que constrói um santo. De modo que um santo jamais se considera um santo – são os outros que o chamam assim. Pense nisso: quanto antes perceber que os espíritos de cima querem amor, e não sacrifício, tanto melhor...

Além deste conselho primordial aos que se iniciam na mediunidade, acredito que alguns outros sejam também importantes, embora secundários:

Não se vira médium ativo da noite para o dia
Apesar de já ter tocado neste assunto ao longo da série de artigos, é algo importante de ser lembrado: se você é um médium iniciante, principalmente se for ainda ignorante da parte teórica de sua doutrina espiritualista (seja espiritismo, umbanda sagrada ou outras) e/ou se sua mediunidade lhe causa desequilíbrio e desconforto emocional (nos mais variados graus) [2], jamais aceite convites de dirigentes ou coordenadores de casas espiritualistas para “começar a trabalhar na semana seguinte” (ou em qualquer período de tempo muito curto).
Rejeite respeitosamente a oferta, e não se sinta desafiado se lhe disserem que “precisa começar a trabalhar logo, pois seu mentor espiritual assim o quer”, ou ainda que “precisa começar a trabalhar, do contrário coisas ruins se sucederão na sua vida”, etc. Na verdade, se insistirem muito, seria melhor você procurar alguma outra casa espiritualista... O ideal é que procure primeiro as aulas teóricas, caso existam, ou pelo menos informações acerca de alguns livros que poderia ir lendo em casa enquanto frequenta a casa espiritualista (notadamente, os de Kardec, que em todo caso você já pode ler por conta própria desde hoje).
Mas, independente da parte teórica, que nem sempre é a essencial, é preciso que desenvolva sua mediunidade de forma gradual. Ou seja: em reuniões frequentadas apenas por médiuns experientes e “discípulos”, de modo que algum “mestre” possa lhe auxiliar no afloramento gradual de sua mediunidade. Assim, quem sabe após uns 6 a 12 meses, você já possa efetivamente começar a atender o público como um médium da casa. E, quem sabe, após uns 10 a 15 anos, você descubra coisas dentro de você mesmo, e no Cosmos ao redor, que jamais teria imaginado conhecer um dia...

Não se vira um médium comprando manuais de conhecimento oculto
Apesar de acreditar que a maioria das casas espiritualistas seja idônea, não podemos ignorar que existem “espertalhões” por aí, principalmente no meio religioso. Fuja de qualquer casa que procure lhe vender “manuais de conhecimento oculto” (do tipo que não se encontra em livrarias comuns) e/ou cobre quantias fora do normal por suas aulas teóricas... Na verdade, a imensa maioria das casas espiritualistas sequer cobrará alguma coisa. Algumas podem lhe pedir uma contribuição mensal de, quem sabe, até uns 20 reais, para cobrir despesas com manutenção e contas de água e luz. Outras podem lhe pedir que compareça a almoços beneficentes ou a palestras pagas de tempos em tempos – mas desconfie de quaisquer valores exorbitantes, dízimos (valores percentuais baseados em sua renda mensal) ou pedidos extraordinários de doações materiais (como doar uma TV LED, ou qualquer coisa relativamente cara).
Dito isso, se você por acaso goza de boa situação financeira e sente a vontade genuína de ajudar materialmente a casa espiritualista que frequenta, sinta-se a vontade (doações de ar condicionado, por exemplo, seriam muito bem-vindas na maioria das casas).

Faça caridade
Alguns médiuns podem, pelas mais variadas razões, se abster de desenvolver sua mediunidade, e não há nenhum problema específico nisso (nem nenhuma futura “punição” de Deus ou de algum mentor espiritual). No entanto, a caridade é algo que todos, sem exceção, podem e deveriam pensar seriamente em fazer.
A grande maioria das casas espiritualistas tem atividades semanais, quinzenais ou mensais de caridade. Seja visitar um hospital, um asilo, uma creche, uma instituição de doentes mentais, etc. Embora não necessariamente a caridade seja “a única salvação” – embora muitos espíritas a entendam dessa forma –, ela é sem dúvida muito, muito importante para o afloramento da empatia e, por consequência, de nossas potencialidades no amor. E são essas potencialidades, mais do que quaisquer outras, o grande objetivo, o grande sentido de estarmos retornando a Terra por tantas vezes, aprendendo a amar: uma vida de cada vez.
A visita a instituições de doentes mentais pode ser particularmente reveladora para os que ainda têm dúvidas do alcance efetivo da própria mediunidade. Afinidades quase que instantâneas poderão surgir, e talvez um dia compreendam toda a beleza que há nisso tudo.

Esteja preparado para a descida...
No atendimento aos “mortos”, mesmo durante as sessões de desenvolvimento mediúnico, e particularmente nas que envolvem médiuns de incorporação total [3], desde o início ficará muito claro que a intensidade da dor e da angústia trazidos pelos espíritos em desequilíbrio é alguns graus de magnitude superior a toda a dor e angústia que você algum dia pensou existir na Terra. As dores da alma não se comparam as dores do corpo físico, sobretudo quando o espírito passa para o outro lado do véu ignorante, sem fazer ideia do sistema de reencarnação e, muitas vezes, crendo piamente que suas dores serão eternas...
Não acho necessário entrar em detalhes, até porque palavras são apenas cascas de sentimento, e seriam incapazes de lhe transmitir o tipo de dor de que estou falando. Mas, esteja preparado para a descida ao pântano negro e pegajoso de desejos desenfreados e escuridão da alma – ou, em outras palavras, esteja preparado para descer ao inferno.
Dependendo da casa espiritualista e do tipo de trabalho espiritual realizado nela, pode ser que esse tipo de coisa jamais ocorra, ou ocorra raramente – por outro lado, principalmente nas casas mais engajadas na real caridade espiritual, esse tipo de coisa é até mesmo trivial, de modo que, infelizmente, somos obrigados com o tempo a aceitar que os seres fazem suas escolhas, e arcam com as consequências... Simples assim.
Para os seres aturdidos com seus pensamentos obsessivos, complexos de culpa e lembranças contínuas de seus atos pregressos de ignorância do bem, toda e qualquer luz que chega do alto é, quase sempre, muito bem vinda – ainda que eles muitas vezes não aceitem tal luz de início, se não os julgarmos, se tivermos a devida compaixão que efetivamente merecem (a compaixão que Deus têm nos ensinado), com o tempo aceitarão beber de nossa água, e quem sabe, poderão mesmo ter uma nova chance ainda antes do previsto.
Para os demônios de baixo, nós seremos os anjos de cima. E, ainda que isso seja obviamente um absurdo – pois sabemos que de anjos não temos nada (ou deveríamos saber) –, de certa forma, nos pântanos lodosos das dores antigas, nós de alguma forma somos mesmo anjos. Nessas ocasiões divinas, é importante lembrar que um dia, nalguma vida, estivemos em situação muito semelhante, ou até pior, a situação daqueles seres que naquele momento nos imploram ajuda... Então talvez percebamos que é o inferno, e não o céu, o local de trabalho de todos os anjos do Cosmos.

» A seguir, concluindo a série: a reforma íntima...

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[1] Este livro será o próximo lançamento digital da Editora Alta Cultura, uma tradução de meu amigo Alfredo Carvalho. O título traduzido, como era de se esperar, será Misticismo.

[2] A mediunidade é uma potencialidade sagrada, e não deve jamais ser compreendida como um “fardo”. Existe a mediunidade e o desequilíbrio mental, e embora eles possam andar juntos, particularmente nos médiuns iniciantes, não devem ser compreendidos como “a mesma coisa”, nem mesmo como “coisas que não existem em separado”.

[3] A incorporação total é uma forma de mediunidade ativa que, ironicamente, pode envolver a passividade total do próprio médium. Muitos sequer se lembram do que ocorreu enquanto estavam “desligados de si”, ou seja, enquanto outros espíritos ocupavam suas mentes e boa parte das funções motoras de seus corpos. Mas o ideal seria tentar manter a consciência, ou semiconsciência, de tudo o que ocorre durante a incorporação.
Há muitas casas espiritualistas mais “ortodoxas” (principalmente as casas espíritas) que não irão aceitar incorporações de seus médiuns – apesar de às vezes elas ocorrerem de maneira “forçada”, ou sem que os próprios coordenadores percebam (em médiuns particularmente hábeis)... Se você tem algum receio de participar de sessões onde há incorporação (ainda que você mesmo não seja, de forma alguma, “obrigado” a incorporar), a melhor coisa é procurar uma casa espiritualista onde não exista esta prática. Ou seja, usualmente o trabalho envolverá apenas orações, música, passes magnéticos e, por vezes, psicografia ou psicopictografia.

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Crédito da imagem: Jari Schroderus

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9.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 2

continuando da parte 1

Conversão religiosa é a adoção de uma nova identidade religiosa, ou uma mudança de uma identidade religiosa para outra. Isto envolve tipicamente o devotamento sincero a um novo sistema de crença, mas também pode ser concebido de outras maneiras, como a adoção em uma identidade de grupo ou linha espiritual.

Pequeno manual para a conversão do infiel

Todos os sistemas de crença ou doutrina religiosa se baseiam em espécies de guias, manuais passo a passo para uma vida de religiosidade mais profunda e verdadeira, em suma, uma religação mais eficiente e efetiva. Porém, me parece que podemos dividi-los em dois grandes grupos: aqueles em que o campo de aprendizado se dá única e exclusivamente por vontade e esforço próprios de cada um, sem a possibilidade de atalhos ou barganhas; e aqueles em que existe uma possibilidade de se avançar por meio de bênçãos e milagres, por barganhas diretas com Deus, em troca deste ou daquele benefício divino – um arrebatamento ao Céu, algum milagre ou salvação de última hora, ou simplesmente uma iluminação espiritual.

No segundo grupo se encontram a maior parte das igrejas ou sistemas eclesiásticos. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Ocidente do que no Oriente. Por exemplo, quando determinada doutrina afirma que “só seremos salvos se aceitarmos Nosso Senhor Jesus Cristo em nosso coração”, ela opera por forma de barganha: aparentemente, o único caminho será esse, e o mérito da salvação não será exclusivamente nosso, mas muito mais uma forma de “retribuição divina” por nossa fidelidade. Ainda assim, aceitar o Senhor ainda é algo que tem mais lógica do que simplesmente doar quantias enormes de dinheiro a alguma igreja em troca da benção direta desse mesmo Senhor. Afinal, o que diabos Deus fará com seu dinheiro? Afinal, porque somente este ou aquele eclesiástico é responsável pela contabilidade divina?

No primeiro grupo, se encontram a maior parte dos religiosos que não necessariamente tem igreja. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Oriente. Tais fiéis são antes fiéis a Deus, e mesmo que tenham alguma igreja ou grupo de estudos, e um dia os venha a abandonar, não necessariamente abandonará a própria doutrina em si. Estes fazem de suas casas, seus corações, suas mentes, sua única e inabalável catedral – onde sempre poderão orar, onde confessam antes de tudo a si mesmos.

Por exemplo, os dois primeiros versos do Livro do Caminho Perfeito, a obra principal do taoismo, dizem que “o caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito”. Superficialmente isto é um tanto paradoxal, é como se fosse apresentado um manual passo a passo para algum Céu em que, logo de início, já fosse afirmado que este manual não poderia ser seguido... No entanto, o que Lao Tsé queria dizer é análogo ao que muitos grandes sábios sempre afirmaram: que o caminho espiritual é próprio de cada um. Ou seja, o discípulo jamais poderá seguir o mesmo caminho do mestre, ele poderá no máximo utilizar seu exemplo de vida como base para construir o seu próprio caminho. Pois assim como não existem seres idênticos na criação, da mesma forma não existem caminhos idênticos para a religação ao Cosmos.

A mim me parece que a abordagem do primeiro grupo tem muito a ensinar ao segundo. Em realidade, existe uma disparidade tão grande e evidente à nível de profundeza espiritual entre tais grupos, que há de se perguntar se o segundo não é, em sua maioria, um grande agrupamento de visões equivocadas da religião mais aprofundada, universal, cósmica...

Há muitas igrejas, por exemplo, que foram edificadas inteiramente sobre textos sagrados aos quais se atribuí uma espécie de “ditado” direto de Deus. Não são como o Livro do Caminho Perfeito, uma mera tentativa de um sábio aconselhar aos outros sobre sua própria experiência de tentar compreender a Deus, mas antes a própria palavra de Nosso Senhor, verdadeiros Guias da Verdade Absoluta [1].

Se é que tais textos sejam mesmo o que os eclesiásticos pretendem que sejam, se é que não tenham sido enormemente adulterados com o passar do tempo, a evolução das sociedades, ou simplesmente por inúmeras traduções e compilações, ainda assim há que se pensar: se temos um nossa frente a Verdade codificada em palavras, em símbolos de escrita, será que isso nos bastará? Será que teremos plenas condições de interpretar corretamente tal Verdade? Acredito que a história das guerras religiosas nos traga uma boa resposta a essas perguntas – afinal, nenhuma guerra, nenhuma matança poderia, jamais, ser santa!

Obviamente que mesmo no Ocidente, que mesmo em tais igrejas com seus Guias Infalíveis, encontram-se os moderados, os da “ala mística”, ou que compreendem a religião, o religare, de forma mais aprofundada. Tenho certeza que esses jamais ergueriam uma espada, obrigando algum pobre coitado a se “converter” a sua doutrina...

Pois como poderia alguém, nalgum dia insano, converter outro alguém ao seu próprio pensamento, a sua própria doutrina, pela força? Pela sedução das palavras? Pelo terror anunciado de um lago de enxofre eterno aguardando todos aqueles que não se salvarem, que não aceitarem Nosso Senhor?

Ora, perguntem aos índios da América, perguntem aos negros da África, se eles nalgum dia se converteram ao Deus desses homens que os trataram como mercadoria, como escravos, como selvagens “sem alma”, mas nunca como irmãos, como seres na mesma caminhada para o Cosmos de onde todos foram catapultados na imensidão infinita. Dizer, da boca para fora, “eu aceito Nosso Senhor”, não significa que tenham aceitado. A liberdade jaz na mente e, assim como o caminho espiritual, é exclusiva de cada um, graças a Deus.

William James, um dos fundadores da psicologia, em seu grandioso tratado “Variedades da experiência religiosa”, postula que a conversão religiosa verdadeira pode aparentemente ocorrer de uma hora para outra, do dia para noite, em algum insight momentâneo, mas que quase que certamente já vinha sendo edificada, lentamente, nos calabouços ocultos do inconsciente. Que nossa questão com Deus é universal, todos temos de seguir este caminho, ainda que alguns o sigam inconscientemente ou o chamem de estudo da natureza – o importante é que, a nossa maneira, estamos todos caminhando à frente, aprimorando nossas potencialidades.

Lao Tsé e outros sábios sempre souberam que jamais poderiam converter alguém – o máximo que poderiam fazer era dar o exemplo, falar sobre sua própria experiência espiritual, sobre os percalços e as consolações do caminho, e esperar pacientemente que cada um, por si só, a seu próprio momento, convertesse a si mesmo.

Que não existe manual para o caminho alheio, apenas para o nosso próprio. O único infiel que tem de ser convertido é aquele que se encontra em nossa própria alma. Somos o juiz e o escravo, o apóstolo e o seguidor, o mestre e o discípulo, de nossa própria causa. Temos de ser fiéis ao nosso próprio ser, ao nosso tanto de fagulha divina que, ainda assim, é e sempre foi a única maneira com que Deus falou conosco – como o vento que sempre nos envolveu, embora não saibamos ao certo por onde ele tem passado.

A seguir, o evangelho do agnóstico...

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[1] Muito embora, mesmo no taoismo existam lendas que colocam Lao Tsé como uma espécie de deus na Terra. Da mesma forma que existem religiosos superficiais no Ocidente, existem também no Oriente. Este texto não pretende ser, portanto, uma exaltação da religiosidade oriental como “superior”. Apenas procura atestar que a religiosidade pura, não eclesiástica, é muito mais comum na cultura oriental – independente de seus seguidores as terem compreendido ou não.

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Crédito das imagens: [topo] Trinette Reed /Corbis; [ao longo] Ma Dan/XinHua/Xinhua Press/Corbis.

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