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5.12.17

Milan Kundera e a Astrologia

Trecho de A Imortalidade, romance de Milan Kundera. Os comentários ao final são meus.


Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.


Comentários
Mesmo que permaneça para mim essencialmente como um idioma alienígena, a Astrologia ainda é um enigma que, creio eu, alguns estudiosos de fato adentraram, mesmo que apenas com os tornozelos na água rasa. A primeira vez que ouvi falar no Zodíaco como uma espécie de marcador dos ponteiros do relógio celeste, foi através dos textos do meu amigo Marcelo Del Debbio. Neste sentido, muito mais de fotografia do estado atual da mente universal, do que de "previsões do futuro e influência dos astros", creio que a Astrologia possa de fato servir como um poderoso instrumento de autoconhecimento. Quisera eu ter a fluência em tal língua. Como não tenho, ao menos posso me dar por satisfeito em admirar a elouqência daqueles que estão no beabá deste Alfabeto da Alma. Milan Kundera demontra ser mais um deles.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Relógio Astronômico de Praga)

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9.1.15

O Mapa Natal

Por: Colorado Teus [1]

Textos para Reflexão é o nome de uma das fontes de conhecimento que mais me interessaram desde que comecei a estudar Filosofia e Espiritualidade; o primeiro contato que tive com o blog foi através do Projeto Mayhem, como uma coluna do blog Teoria da Conspiração.

Lembro-me de sua primeira série de textos que li, chamada 4 amores. O conhecimento ao que tive contato lendo esta série foi tão bom e empolgante que “obriguei” cerca de 10 amigos a ler e a compartilhá-la, depois disso virei um fã declarado e leitor assíduo desse blog. Porém, conhecimento científico e pesquisas profundas com fontes sérias é apenas um dos pilares deste blog. A beleza com que Raph Arrais escreve é de encantar, suas construções são poéticas, suas metáforas divinas, ao lermos seu blog sempre nos deparamos com trechos incríveis como:

“Como uma estrela cadente em meio a um vazio pleno de paz, como uma memória, uma imagem daquilo que será lembrado para sempre, uma vez que sempre esteve em nossa volta. O amor de todos os seres, conscientes e à beira da consciência. O amor de todos os cânticos, de todas as orações, de todas as poesias, de todos os pensamentos, colocado aos pés de uma fonte de água cristalina, que jorra em cascata preenchendo todos os átomos e todas as galáxias do Cosmos. O amor em movimento, a ponte entre um mundo de morte e um mundo de vida.” – Raph Arrais, 4 amores (parte 4)

Mas nem só do blog vive o Textos para Reflexão, esperei por um bom tempo e comprei assim que saiu o livro Ad infinitum, um livro que mudou de certa forma meu jeito de ver o mundo e, principalmente, como construir discursos para não ofender pessoas que não compartilham das mesmas crenças que eu.

Sendo assim, sinto-me lisonjeado por receber seu convite para escrever um pouco sobre o blog e sua relação com o Mapa Natal, agradeço profundamente pela oportunidade. O Mapa se refere a data e hora exatas da primeira postagem do blog (27/11/2006 às 19:33 do horário de Brasília):

Começando da parte mais baixa, o Ascendente está em Gêmeos, o que significa que a maneira como o blog se coloca no mundo físico é através de uma grande variedade de conhecimentos, é uma boa janela para a multiplicidade de áreas e interdisciplinaridade, grande capacidade comunicativa e postagens muito frequentes.

A Lua recebe as influências de Aquário e Peixes, combinação também conhecida como Rei de Copas, na casa 9, a Lua do Artista Inteligente. Esta é uma combinação excelente para a criatividade aplicada ao raciocínio lógico, para a arte premeditada e preparada. Por estar na casa 9, este aspecto tende a aparecer quando se busca uma visão profunda e filosófica sobre algum assunto, quando faltam palavras para explicar uma energia que chega através de uma nova metáfora.

Mercúrio em Escorpião na casa 5, o Mercúrio do Detetive Perspicaz, que busca os detalhes mais profundos e inacessíveis. Como mercúrio rege a comunicação, isso se manifesta como uma comunicação muito bem detalhada e esmiuçada, de forma bela e harmoniosa.

Vênus em Sagitário na casa 7, o Vênus do Amante Filósofo, que busca o melhor de cada situação, eleva o astral de onde quer que esteja e tenta reunir partes que se sentem separadas.

Sol em Sagitário na casa 6, o Sol do Filósofo, a essência deste grupo é a Filosofia, o amor pela vida e pelo conhecimento. A busca de sentido e de compreensão de tudo ao redor é uma força primordial desta combinação, a utopia aqui é o esclarecimento sobre a importância da equidade e da justiça para uma vida harmônica e livre. Como está na casa 6, esta energia se manifesta através da perfeição e da lógica.

Marte em Escorpião na casa 6, o Marte do Guerreiro Intenso, aquele que persegue seus objetivos de maneira implacável e ultra diligente.

Júpiter recebe a influência tanto de Escorpião quanto de Sagitário, energia também conhecida como Rei de Paus, o Guru Filósofo, aquele que traz algo totalmente novo para a humanidade. Na casa 6 significa que este novo conhecimento terá suas melhores oitavas quando forem aplicáveis à rotina e ao dia-a-dia.

Plutão recebe a influência tanto de Sagitário quanto de Capricórnio, energia também conhecida como Rainha de Moedas, a Administradora, na casa 7. A imagem aqui seria uma vilã que vive cobrando aluguel, impostos, etc. Esta combinação indica que os maiores desafios que este blog precisa enfrentar é o de desenvolver sua essência para ajudar na melhoria dos relacionamentos das pessoas em questões físicas e burocráticas.

Saturno em Leão na casa 3, o Saturno do General Autêntico. Esta combinação indica dificuldades com o excesso de autoconfiança e orgulho, mas, quando bem desenvolvida, alguém que não foge forçadamente de seus princípios e valores mesmo perante a morte.

Urano em Peixes na casa 9, o Urano do Pai Bondoso, aquele que nunca deixa faltar aos outros o que tem para si, pois é capaz de doar sem o menor apego. Na casa 9 indica que o que mais tem para doar está ligado à área da Filosofia e Espiritualidade.

Para terminar, Netuno em Aquário na casa 9, o Paraíso para este blog é um local onde se vibra União e Filosofia, um local em que todos podem entrar e expor suas ideias sendo tratados igualmente.


Ao Textos para Reflexão e ao Raph Arrais meus sinceros agradecimentos por tudo que me proporcionaram em questões de conhecimento, amizade, apoio, auxílio e, principalmente, esperança por um mundo melhor. Apoio totalmente tudo que vem deste blog e vibro em sua direção minhas melhores energias.

Vai dar certo!


Comentário
Enquanto refletia sobre o tema do segundo volume do Livro da Reflexão, uma inspiração surgiu e praticamente me “ordenou” a pedir esta análise ao meu amigo Colorado Teus, que claramente tem muitas capacidades nesta área da astrologia hermética.

Para mim, que pouco entendo do assunto, é quase assustador como um Mapa bem interpretado pode se tornar um verdadeiro espelho de um momento do Cosmos, e de como aquele momento carrega sementes cheias de potencial de florescimento. Hoje, pouco mais de 8 anos depois, não tenho dúvida de que algumas dessas sementes têm germinado em solo fértil...

Vocês também fazem parte deste jardim!

raph

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[1] Colorado Teus é um dos autores do blog Queremos Querer, colunista do Teoria da Conspiração e palestrante na área da espiritualidade.

Crédito das imagens: raph

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1.7.10

O que dizem os astros, parte 2

continuando da parte 1

E o que é o futuro, senão a conseqüência do que se faz – do que se escolhe – no presente? Que a astrologia tenha se popularizado como uma forma simples de se prever a sorte diária não é culpa dos grandes sábios e cientistas (a astronomia veio da astrologia) de diversas épocas que a consideravam com seriedade, mas sim da superficialidade com que os ignorantes tratam do assunto. A Astrologia funciona através do que Carl Gustav Jung chamou de sincronicidade. As mesmas energias universais responsáveis por todo o mecanismo de gravitação dos corpos celestes e emanações solares fazem com que a cada determinado instante, a Terra seja imantada com uma determinada gama energética, que é representada através de arquétipos (signos).

Agrippa via o universo como o unus mundus, onde o que ocorre no mundo celestial chega até o mundo dos fenômenos, intermediado pela esfera dos corpos celestes. Nesta concepção, a relação entre a esfera dos corpos celestes e a esfera humana não é de causalidade, mas de analogia ou sincronicidade. Astrólogos de orientação biológica procuram a explicação nos ritmos e ciclos biológicos, como os circadianos e lunares. John Addey realizou vários levantamentos estatísticos em busca da comprovação de conceitos astrológicos, como o de quase mil nonagenários e a relação Sol-Saturno. Descobriu, assim, o significado das relações harmônicas entre períodos cósmicos. Outra concepção é que a influência se dá através da variedade de raios cósmicos que chegam ao nosso planeta. Ebertin é um dos defensores desta hipótese... Por mais que tais suposições e nomenclaturas soem estranhas para os astrônomos atuais, há que se admitir que possuem muito mais lógica do que a astrologia de jornal – independente de serem reais ou não.

Em todo caso, ao que me parece, a totalidade dos astrólogos sérios considera que o movimento celeste não exerce influência direta sobre os eventos cotidianos... Não é porque Vênus está neste ou naquele local do céu que teremos maior ou menor sorte em apostar na loteria. E, em todo caso, o que seria a sorte senão a conseqüência futura de escolhas presentes?

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” – esta era a inscrição no Oráculo de Delfos, um dos centros religiosos da Grécia antiga. Me parece que ele encerra o conceito primordial em que se baseia toda a Astrologia: conhecer a si mesmo é análogo a conhecer os deuses e o universo (Cosmos). O que está em cima, os corpos celestes, é como o que está embaixo, os corpos neuronais... O céu noturno é uma emanação física da mente cósmica (isso é uma analogia!) assim como o baile elétrico das sinapses é uma emanação física de nossa alma (isso também é uma analogia).

Se o futuro é fruto de nossas escolhas presentes, de nada adiantam previsões que sempre serão algo incertas. O que importa é compreender o mecanismo pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender o sentido pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender a nós mesmos, que perto de tal compreensão todo o futuro é secundário. Exatamente por isso sempre houve esse consenso entre os grandes sábios... Mesmo o Rabi da Galiléia nos afirmou que somos deuses (João 10:34), que faremos tudo o que ele fez e muito mais ainda (João 14:12). O universo interior é ainda mais vasto que o exterior, compreendê-lo é a nossa divina jornada.

"Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do eu" – Esta não é uma citação de um religioso ou astrólogo, mas de um neurologista... Sir John Eccles, vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Somos seres que interpretam informações de acordo com nossa vontade, e não máquinas que computam informações de acordo com nossa programação.

Nós não fomos programados, não formos criados como robôs ou fantoches. Fomos criados livres, e com um caminho infinito de evolução à frente. Nossa liberdade não é absoluta, da mesma forma que uma criança precisa brincar apenas em sua caixa de areia, nossas escolhas são locais e não globais – ainda assim, são escolhas! Perto da magnitude do Cosmos, perto da abrangência desse sistema que nos conecta a todos em uma trilha de luz, que importância poderia ter o futuro? Que importância poderia ter saber se vamos casar, ou com quem, se vamos ter mais ou menos dinheiro, se vamos sofrer acidentes ou doenças, se vamos tirar a sorte grande, se vamos ter tranqüilidade ou angústia, se vamos amar ou odiar, se vamos viver ou morrer? Se tudo passa pela nossa sagrada capacidade de escolher as escolhas que nos são dadas, e sermos inexoravelmente empurrados pelos ventos que não são possíveis de se evitar, honestamente eu dispenso a previsão.

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Crédito da foto: Mark Miller e The Virgo Consortium

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O que dizem os astros, parte 1

“Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.”

O texto acima é de autoria de Pierre Simon Laplace – grande matemático, astrônomo e físico, conhecido como “o Newton francês” –, um ávido defensor filosófico do determinismo. Segundo algumas doutrinas religiosas, Deus criou o universo e comanda absolutamente todos os eventos – cada fio de cabelo que cai e cada estrela cadente que penetra a atmosfera terrestre são fruto de um determinismo divino sob o qual não temos nenhum controle ou escolha.

Em sua crítica a astrologia, na série de TV Cosmos, Carl Sagan afirma que ela implica num perigoso fatalismo: “se nossas vidas são governadas por um conjunto de sinais de trânsito celestes, porque tentar mudar algo?”. Ora, há muitos céticos que criticam a astrologia ou a existência de um “ditador divino”, porém a idéia do determinismo não vem apenas de fontes ditas “místicas”.

O intelecto ao qual Laplace se referia em seu experimento mental foi batizado de Demônio de Laplace pelos seus biógrafos. Segundo a cosmologia de sua época, todas as partículas e planetas e estrelas exerciam influência gravitacional (e de outras forças) umas sobre as outras. Isso, e somente isso, poderia explicar todo o movimento dos corpos celestes e atômicos – exatamente por isso o Demônio teria em sua mente todo o passado e todo o futuro, todo o movimento do universo, como se fosse o presente. Para tal Demônio, nada que já ocorreu ou resta ocorrer será alguma novidade...

Laplace também esteve próximo a propor o conceito de buraco negro. Ele observou que poderiam existir estrelas maciças cuja gravidade seria tão grande que nem mesmo a luz escaparia de sua superfície. Na cosmologia moderna, sabe-se que tais singularidades existem, mas ainda não se sabe se a informação que é engolida por sua gravidade se perde ou é reaproveitada em algum outro lugar do universo. Essa é uma questão fundamental, pois se alguma informação é perdida, não seria mais viável conceber uma previsão do futuro como a de seu Demônio, pois ele não disporia mais de toda a informação necessária para sua previsão (embora decerto ainda disporia de muita informação).

Já a física quântica nos demonstrou o quão bizarro é o universo em suas partículas fundamentais. Hoje se sabe que é impossível prever o movimento (momentum) e a posição de partículas como um elétron: quanto mais se sabe sobre uma informação, menos se sabe sobre a outra. Tudo o que podemos determinar é uma probabilidade de tais partículas estarem neste ou naquele local – não podemos analisar a trajetória de uma única partícula como uma linha reta (física clássica), e sim como uma função de onda.

Finalmente, os neurologistas já descobriram que temos tantos neurônios no cérebro quanto estrelas em nosso horizonte cósmico. Segundo o filósofo Daniel Dennet, não existem coisas como experiências subjetivas; em vez disso ele propõe que o cérebro é um computador que possui informações de diferentes fontes com uma disposição para um comportamento particular e uma habilidade para distinguir entre estímulos diferentes. Esse é o ápice do determinismo: não apenas um determinismo divino ou a influência derradeira dos corpos celestes, mas a redução total de seres a coisas. Somos como poeira espalhada pelo vento, tudo o que fazemos, tudo o que pensamos, é determinado pelas reações químicas de partículas dentro de nossa cabeça. Eis o determinismo materialista.

Ante o evidente absurdo do determinismo – seja divino, astrológico ou material – tudo que posso dizer é isto: Ora, se tudo o que fazemos, todo nosso movimento e nosso pensamento, toda nossa razão e emoção, todas as nossas escolhas, são previamente determinadas, de que diabos adiantaria discutir o assunto filosoficamente? Se estaremos a discutir alguma coisa, não será por nosso livre-arbítrio (inexistente), mas sim porque fazemos parte de um teatro de fantoches... E nossa discussão, e todas as discussões, seriam apenas mais uma encenação de um Mestre dos Fantoches. Nossa angústia seria fruto do movimento dos corpos celestes. Nosso medo do futuro seria o resultado de alguma reação química em nosso cérebro. Seria o fim de toda a responsabilidade, o fim de toda liberdade, o fim da vida como algum dia foi compreendida... E isso é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

No entanto, se o livre-arbítrio de fato existe, se somos parcial ou totalmente responsáveis por nossas próprias escolhas, então a filosofia de Dennet cai por terra, o fatalismo dos astros se reduz a fantasias inapropriadas, e o Demônio de Laplace torna-se apenas mais um pretendente a Deus. Ora, se a física quântica nos demonstra que o futuro é feito de probabilidades, se as singularidades cósmicas nos deixam na dúvida se a informação é ou não perdida, me parece que o determinismo é uma ilusão... O que temos, em realidade, é um sistema. Um sistema cósmico muito bem orquestrado para que todo movimento gere outro movimento, toda ação gere outra ação, e todas as coisas e todos os seres sigam eternamente conectados em sua harmonia cósmica. Se alguém sabe do futuro de forma perfeita (como Laplace postulou), precisaria ter criado tudo o que há a partir de si mesmo, precisaria ser Deus.

Na continuação, a sincronicidade de Jung, o Oráculo de Delfos e o porque de não precisarmos nos preocupar com a previsão do futuro...

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Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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