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18.12.19

Jesus e Buda viviam na multidão

Qual é a melhor: a vida ativa ou a vida contemplativa? O simbolismo dessa pergunta está presente na história de Maria e Marta. Falo um pouco mais sobre isso aqui.

A resposta politicamente correta, a resposta mais bela e que vai agradar mais a todos é dizer simplesmente: um caminho não é melhor que o outro; um precisa do outro, um se alimenta do outro. Ninguém é completamente ativo ou completamente contemplativo. Os dois são importantes e cada pessoa se inclina um pouco mais para um ou para outro, conforme seu coração se sinta chamado, ou Deus te chame.

Eu concordo com essa resposta. Não vejo nada de errado nela. Não acho que discutir essa questão em termos de melhor ou pior vá trazer benefícios, mas disputas desnecessárias.

Porém, se buscamos alguma clareza para investigar nosso próprio caminho e inclinações, quem sabe ajude refletir um pouco sobre tudo isso.

A tendência da época em que vivemos é sermos mais ativos do que contemplativos. Mas as pessoas estão tão estressadas e cansadas que encontram uma cura em atividades como meditações. Assim, elas encontram um equilíbrio e descobrem que meditar alguns minutos por dia na verdade as tornam ainda mais produtivas na vida ativa.

Esse também é o valor de se ter períodos de lazer e de descanso. Não é apenas um grande número de horas de ações, sem intervalos, que vai te tornar mais produtivo. Madre Teresa costumava dizer que desde que se adicionou uma hora diária de Adoração Eucarística para as irmãs, as Missionárias da Caridade, tudo se tornou melhor e mais leve, e parecia que havia ainda mais tempo para as outras coisas.

Dependendo do meio em que você está, a tendência é se defender mais a vida ativa ou mais a vida contemplativa. Como já foi dito, no período em que vivemos há um grande foco em ser “Marta”, em ser ativo ou “produtivo”. Por outro lado, se você está num mosteiro ou falando de espiritualidade em geral, é comum se focar na importância de períodos de silêncio e solidão.

Onde podemos buscar uma resposta, então? Podemos observar como Jesus e Buda viveram.

Jesus passou a maior parte de sua vida “escondido”. Não sabemos quase nada sobre os primeiros 30 anos de sua vida. Mas sabemos que logo antes de iniciar sua vida pública, ele fez um jejum por 40 dias no deserto.

Depois disso, ele passou a maior parte dos próximos 3 anos de sua vida ensinando, junto com a multidão. Mas mesmo nessa época mais agitada e ativa de sua vida, ele sempre se recolhia em alguns momentos do dia para rezar.

Disso talvez possamos concluir que a parte mais importante da vida de Jesus foi sua vida pública. Mas ela não se iniciou antes de uma grande preparação contemplativa. E mesmo na época pública, Jesus tinha seus momentos de contemplação.

Buda, assim como Jesus, passou os primeiros 29 anos de sua vida com sua família, tendo uma vida normal. Foi somente depois disso que ele iniciou sua etapa contemplativa. No caso de Jesus, ela durou 40 dias. No caso de Buda foram em torno de 4 ou 5 anos, até ele atingir a iluminação.

Conforme nos conta a história, o demônio Mara tentou convencer Buda a continuar meditando para sempre após atingir a iluminação, porque os olhos das pessoas estavam cheios de poeira e elas não iriam entender seus ensinamentos. Porém, por mais que fosse confortável continuar ali meditando e guardar tudo aquilo para si, Buda replicou para Mara: “algumas pessoas vão entender”.

Buda levantou-se e passou as próximas décadas de sua vida, até os 80 anos, vivendo com a multidão. Ele ensinou tanto para seus discípulos, os monges, como para o povo e para os reis. Da mesma forma que Jesus ensinava tanto para os apóstolos como para o povo.

Buda também alternava períodos de vida ativa com uma vida contemplativa. Na estação das chuvas ele e seus discípulos permaneciam num único lugar e passavam esse tempo focando-se nas meditações.

Enquanto Jesus passou por 40 dias de vida exclusivamente contemplativa seguidos por 3 anos de vida predominantemente ativa (com momentos de contemplação a cada dia), Buda passou por 5 anos de vida exclusivamente contemplativa, seguidos por cerca de 45 anos de vida predominantemente ativa (com períodos de meditação todos os dias e cerca de 2 meses de retiro por ano, na estação das chuvas).

Eu acredito que a vida dessas duas figuras extraordinárias nos mostra a importância da vida ativa. Porém, também nos mostra um detalhe fundamental: o quão relevante é termos um período exclusivo e intensivo de retiro, de vida contemplativa, antes de mergulharmos numa etapa mais longa de vida ativa. E como é imprescindível, mesmo em meio à vida ativa, termos um período a cada dia para contemplação. E, a cada ano, reservarmos alguns dias ou semanas para uma contemplação um pouco mais longa, pois isso nos alimenta, nos fortalece.

Essa contemplação pode se dar de muitas formas: meditação, oração, solidão, silêncio, leituras espirituais ou alguma outra maneira que nos inspire.

A importância da contemplação não é apenas descansar, mas nos conectar com o sagrado, dentro e fora de nós. Também é um período de reflexão.

A importância da ação é nos voltarmos para o mundo, para as outras pessoas, e trocarmos experiências, na forma de palavras e vivências. Cada um vai descobrir a sua forma única de fazer isso.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Bijoy Thomas

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15.10.19

A cultura de jamais sentir dor

Uma das coisas que mais me impressiona no cristianismo é o valor dado à prática das penitências: jejuns, vigílias, orações, esmolas, peregrinações, autoflagelação, etc. Algumas ainda são feitas por cristãos hoje em dia, enquanto outras já não são tão aceitas ou estão simplesmente fora de moda. Nesse post eu falo mais sobre a prática das penitências, incluindo as realizadas nas religiões indianas.

Atualmente há uma maior valorização das penitências, como jejuns, por razões de benefício à saúde ou questões estéticas (obter massa muscular ou emagrecer). Isso se deve a um maior culto ao corpo do que ao espírito.

É verdade que a saúde e a beleza também são importantes e elas foram valorizadas nas mais diferentes sociedades e épocas, como na Antiguidade Clássica. Cristo nos mostrou a importância do corpo ao vir a esse mundo como ser humano. Ele também curou muitas pessoas, indicando que devemos ajudar os outros tanto no corpo quanto no espírito.

Sendo assim, o fato de nos sentirmos belos e felizes com nosso corpo, e também saudáveis, sentindo menos dor e com a possibilidade de desfrutar os prazeres da vida, que Deus nos deu, é realmente uma bênção. Todas essas coisas devem ser buscadas e não devem ser condenadas.

O cristianismo não é uma religião contra o prazer, mas mostra que devemos adorar, acima de tudo, o Criador e não a criatura. O que isso significa?

Se Deus existe e criou o mundo, significa que deve haver um sentido para o sofrimento. Mesmo que não seja ele o criador do sofrimento, o fato de ele permiti-lo deve ter um significado.

É fato que a dor existe. Ela jamais poderá ser completamente eliminada desse mundo. Desde desconfortos físicos até sofrimentos mentais, ela acontece em diferentes intensidades ao longo da vida, por mais que nos esforcemos para evitá-la.

Então o primeiro passo é aceitar a existência da dor. Não nos fará nenhum bem fugir dela o tempo todo e jogá-la para baixo do tapete, fingindo que ela não existe. O mesmo deve ser dito sobre a morte: ela ocorrerá em algum momento conosco e com as pessoas ao nosso redor. Por isso, dor e morte devem ser abordadas e aceitas de modo sincero, desde o começo.

Os cristãos dizem que se houvesse outra forma melhor de viver, evitando a dor e a morte, Jesus teria nos mostrado. Pelo contrário, Jesus nunca optou pelo caminho mais fácil. Ele fez um jejum de 40 dias no deserto logo antes de começar sua vida pública, para enfrentar de frente o diabo. E ao longo dos anos seguintes descansava pouco e seguia ajudando as pessoas, ensinando, curando, dando esperanças. Ele não fugiu da morte e muito menos de uma morte cheia de dor e humilhação.

O que isso nos mostra? Como será que devemos viver? Será que devemos passar nossa vida buscando confortos o tempo todo e sempre fingindo que a dor e a morte estão distantes de nós? Se não treinarmos formas de lidar com elas, quando elas acontecerem não estaremos preparados.

Por isso é importante para muita gente ter uma religião: religiões são muito boas não somente em lidar com os problemas do dia a dia, mas ir mais fundo. Uma religião vai para a raiz do problema do sofrimento, como o budismo, que diz de forma clara: “A vida é sofrimento”. Buda não tenta embelezar a verdade, mas mostra as coisas como elas são.

É verdade que na vida podemos ter muitas alegrias, mas também teremos muitas dores e o final da nossa história e da história de todo mundo não é exatamente um final feliz. Nosso final é a morte. O único motivo para não ficarmos tristes com isso é se descobrirmos que esse não é realmente o fim da história.

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5.4.19

O homem universal

O que é o homem universal?

O polímata, aquele que conhece várias áreas do saber, geralmente é identificado com o homem renascentista, a exemplo de Leonardo da Vinci. No Renascimento (entre os séculos XIV e XVI, aproximadamente) houve um retorno a ideais da Antiguidade Clássica e uma perspectiva mais centrada no homem (humanismo) e não em Deus. Porém, não seria o monge medieval também um homem universal? Um verdadeiro polímata?

Os mosteiros, com suas grandes bibliotecas, eram o centro do saber na Europa antes do surgimento das universidades. Na verdade, foi a partir deles que algumas das primeiras universidades surgiriam. O que torna o monge medieval um homem universal? Por influência da Antiguidade Clássica, na Idade Média ensinava-se as Sete Artes Liberais, aprimoradas nesse período, que eram a base do saber: o Trivium (lógica, gramática e retórica) e o Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). O clero era educado nelas, principalmente os padres. Era um requisito indispensável para os padres aprender o latim e algumas vezes também o hebraico e o grego, para um estudo aprofundado da Bíblia.

Além de padres e muitos monges terem essa base nas Sete Artes Liberais e conhecimento de idiomas, eles estudavam filosofia e teologia. Nos mosteiros, os monges repetiam, e repetem até hoje, os salmos na Liturgia das Horas tantas vezes por dia que alguns sabem os 150 salmos de cor. É comum que citem de cor muitas passagens dos Evangelhos ou mesmo algumas do Velho Testamento. Houve vários monges que também foram cientistas. Um dos exemplos mais óbvios é Gregor Mendel, o pai da genética: biólogo botânico e monge agostiniano. E um padre e físico belga, Georges Lemaître, criou a teoria do Big Bang. 

Mas voltemos aos monges. Além de muitos terem inúmeros conhecimentos intelectuais em diversas áreas do saber, todos eles possuem uma categoria muito especial de conhecimento: o manual. Assim como os pintores renascentistas, vários monges, frades e padres se destacaram na habilidade com a pintura, a exemplo de Fra Angelico, frade dominicano. Nos mosteiros sempre foi muito comum que os monges aprendessem as artes da pintura e da caligrafia e preparassem as belas iluminuras dos pergaminhos medievais. Mas os conhecimentos do monge medieval não acabam aí. Eles aprendiam a cozinhar, preparavam as próprias comidas e até vendiam artigos como pães, biscoitos, geleias e cervejas artesanais, tudo feito por eles mesmos. E fazem isso até hoje.

Isso é tudo? Não, alguns monges fazem esculturas, costuram, dentre outras habilidades manuais, dependendo dos artigos que vendem nas lojas dos mosteiros. E além disso, eles também fazem sua própria limpeza: varrem e lavam o chão, lavam os pratos. Lavam a própria roupa.

Aristóteles e outros filósofos da Antiguidade Clássica colocavam os trabalhos intelectuais acima dos manuais porque tinham escravos para fazer para eles trabalhos como cozinhar, lavar e limpar. Na Idade Média e com o cristianismo houve uma valorização de trabalhos do campo como a agricultura. E aqui encontramos mais uma habilidade de muitos monges medievais: plantar, já que muitos plantavam e colhiam a própria comida. E cortavam a própria lenha para se aquecer no inverno. Além disso, sempre foram excelentes anfitriões, recebendo e hospedando viajantes que chegassem. 

Portanto, o monge medieval, além dos conhecimentos intelectuais em várias áreas, também sabia pintar, esculpir, fazer caligrafia (os monges copistas), costurar, cozinhar, limpar, plantar e tudo mais que fosse necessário à sobrevivência, pois eles não tinham nenhum empregado para fazer isso para eles. Num mosteiro todos devem fazer um pouco de trabalho intelectual, manual e braçal. 

Será mesmo que o homem urbano renascentista, que conhece a fundo filosofia, ciência e engenharia, sabe pintar e esculpir, mas talvez não saiba plantar, cozinhar, costurar e limpar, é mais universal que o homem medieval, principalmente se falamos de um monge medieval?

E será que não é particularmente interessante que todos saibam um pouco dos trabalhos braçais e auxiliem com eles, como ocorre em mosteiros, ao invés de considerá-los em segundo plano, como inferiores, enquanto o homem universal renascentista se coloca num pedestal com seus trabalhos intelectuais e artísticos superiores?

Respondendo nossa pergunta inicial: o que é o homem universal? Depende das crenças do pequeno universo no qual ele foi criado, educado e ensinado a valorizar.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Pintura de Fritz Wagner

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27.12.18

O Segredo e a Aventura da Vida

Desde crianças ouvimos fantásticas histórias de fantasia. Lemos sobre grandes heróis corajosos que partiram numa grande jornada para ajudar alguém ou mesmo salvar o mundo. Esses heróis enfrentaram perigos inimagináveis: lutaram contra dragões, se feriram, arriscaram a vida. Até que, a muito custo, conseguiram cumprir seus objetivos. Nós admiramos esses heróis e desejamos ser como eles.

Joseph Campbell fala a respeito da “Jornada do Herói” em seus livros, mas em vez de explorar cada etapa da aventura, optarei por refletir a respeito do que significa esse símbolo e exemplo do herói para a vida de cada um de nós.

Thomas Cole fez uma série de pinturas chamada “The Voyage of Life”, representando os quatro estágios da vida humana: infância, juventude, maturidade e velhice. As pinturas mostram um viajante num barco, no Rio da Vida, acompanhado por um anjo da guarda. A paisagem de cada pintura reflete as estações do ano relacionadas a cada estágio da vida.

Na primeira pintura, a Infância, a criança e o anjo saem de uma caverna, que simboliza “nossa origem terrena e o Passado misterioso”. A paisagem é calma e ensolarada, lembrando a alegria e inocência da infância. É o amanhecer da vida.

Na segunda pintura, Juventude, em pleno dia, o anjo permite que o jovem assuma o controle de sua vida. O anjo o observa e abana, enquanto o aventureiro está ansioso por partir em sua jornada. A responsabilidade é assustadora e ao mesmo tempo empolgante.

Para o jovem, o rio parece calmo e promete levá-lo diretamente ao castelo ao longe, para realizar seus sonhos e ambições. Ele tem uma visão romântica conforme a mente eleva o comum ao magnífico, antes de experimentar a realidade.

Alheio aos desafios que esperam por ele, o homem, em sua maturidade, ousadamente tenta chegar ao castelo, emblemático dos sonhos da juventude e aspiração por glória e fama. Conforme o aventureiro prossegue em sua jornada, a fúria do rio o desvia de seu destino e o carrega para experimentar a fúria da natureza, com seus demônios e as dúvidas a respeito de sua existência.

Apenas a oração, sugere Cole, pode salvar o viajante de seu destino escuro e trágico. A série parece intrinsecamente ligada à doutrina cristã de morte e ressurreição.

A última pintura, Velhice, é uma imagem da morte. O homem envelheceu e sobreviveu às provações da vida. As águas se acalmaram e o rio corre para as águas da eternidade. Ao longe, anjos descem do céu e o anjo guardião que acompanha o homem no barco faz um gesto na direção dos outros.

O homem está alegre com o conhecimento que a fé lhe deu e sustentou ao longo da vida. Cole descreve a cena: “As correntes da existência corpórea estão caindo; e a mente já tem vislumbres da Vida Imortal.”

(Fonte para a descrição da série The Voyage of Life: artigo da Wikipedia, adaptado)

Não é somente na infância que somos expostos a grandes histórias de aventuras, retratando admiráveis heróis. Quando crianças, escutamos belos contos de fadas. Na adolescência temos super-heróis. Na idade adulta continuamos a ver incontáveis filmes e séries que, de uma forma ou de outra, retratam histórias fascinantes nas quais o personagem principal, muitas vezes uma pessoa comum, precisa superar seus medos para vencer uma difícil batalha e atingir seu objetivo.

Não vemos isso somente em filmes. Livros de literatura, jogos de videogame, muitas coisas de alguma forma parecem representar essa sede de partir numa jornada. Até mesmo jogos de tabuleiro, esportes, parece que estamos rodeados com esse imaginário.

Mas nossa vida não é uma história de fantasia. Sem dúvida, nós temos nossos momentos fantásticos. Mas em boa parte do tempo temos que lidar com as questões diárias da vida real: estudar e trabalhar, que, dependendo dos nossos estudos e ocupação, podem ter certa carga de diversão e emoção.

Ainda assim, parece sempre que o herói da história de fantasia está se divertindo mais que nós e fazendo coisas mais grandiosas. É óbvio que, se estivéssemos vivendo a vida dura que ele vive, dormindo ao relento, passando fome, sede, desconforto, frio, calor e arriscando a vida a todo momento, não seria tão divertido quanto parece.

E como medir a grandiosidade de um ato? Todo trabalho pode ter seu valor e ser grandioso. Mas sempre parece que o herói que sofre desconforto e arrisca sua vida ficou com a melhor parte.

Faço um paralelo disso com o foco nas penitências e no martírio que existe no cristianismo. Ainda assim, para o cristão é possível ser um herói e se martirizar através de outros meios. Não somente o martírio vermelho, que busca a tortura e morte reais, mas existe também o martírio branco e outros tipos de serviço a Deus: aquela vida que, através da repetição de pequenos atos diariamente, com fidelidade (oração, leituras, trabalhos manuais, etc) se pode chegar a ser digno do céu.

Em poucas épocas o ato de partir numa aventura foi tão romantizado como na Idade Média, época em que eram populares os romances de cavalaria, de caráter místico e simbólico e repletos de espiritualidade cristã.

O cavaleiro resgata a dama, após derrotar o dragão. Mas ele não fez isso de mãos vazias: tinha sua armadura, sua espada, talvez um escudo e um cavalo.

Uma forma de interpretar essa história é: o cavaleiro somos nós. A espada é nossa fé, o escudo são nossas penitências. O dragão são os três inimigos clássicos: o demônio, a carne e o mundo. E a princesa é a alma, o Espírito Santo, o próprio Deus.

No entanto, há outro simbolismo escondido, ainda mais profundo: o cavaleiro é Deus. A princesa somos nós. O dragão é nosso orgulho, que impede Deus de se aproximar. Afinal, não somos nós que vamos até Deus. É Deus que vai até nós. Porém, Deus é um cavalheiro. Ele só vai se aproximar se permitirmos. Se formos humildes e rezarmos, pedindo ajuda. Se sinceramente o amarmos. Ele sempre nos amou e só está esperando que esse amor seja correspondido. E ele vai esperar até o fim do mundo se for preciso.

Quando penso nos romances medievais de cavalaria, eu imediatamente lembro de muitos dos grandes santos, que gostavam de lê-los na infância e na juventude, como Santa Teresa e Santo Inácio de Loyola.

É interessante lembrar que tanto Santo Inácio de Loyola quanto São Francisco de Assis serviram no exército na juventude antes de entrarem para a vida religiosa. Isso significa que eles já tinham essa sede de aventura, essa vontade de partir numa grandiosa jornada e morrer por um ideal há muito tempo.

Porém, Santo Inácio de Loyola foi ferido na guerra e teve que retornar. Enquanto estava se recuperando dos ferimentos, começou a ler muitos livros espirituais, incluindo “A Imitação de Cristo” e foi imediatamente fisgado para a vida religiosa. Ele descobriu uma aventura ainda mais profunda que servir no exército: era a aventura que lhe daria não somente uma medalha e honra e glória terrenas, mas a coroa da eternidade.

São Francisco de Assis ficou doente na guerra e teve que retornar. Enquanto estava doente, teve muitas experiências espirituais e se transformou completamente.

Recentemente eu estava assistindo alguns vídeos de competições de pessoas que jogam videogame muito rápido e tentam terminar o jogo com o menor tempo possível. Muitos dedicam muitos anos a isso, talvez a vida toda, e treinam diariamente.

Não é difícil entender porque as pessoas fazem isso, assim como não é difícil entender porque alguém pode se dedicar a um jogo de xadrez ou futebol. Existe, sem dúvida, a sede do desafio, e as pessoas têm feito isso com jogos em todas as épocas: competições para desafiar seus próprios limites, o que pode gerar, mais do que rivalidades, verdadeiros laços de amizade.

Por que escalar uma montanha? Por que tocar um instrumento? Por que fazer coisas difíceis? Eu escrevi sobre isso num post, falando sobre o encanto das religiões difíceis.

Antigamente as pessoas desejavam partir numa aventura se alistando no exército ou se dedicando à religião. Eis duas formas de arriscar a vida. Elas fazem isso até hoje, embora atualmente existam novas formas de fazer isso, como se dedicar a esportes radicais e tantas outras coisas.

Além de buscar adrenalina, acredito que fazemos tudo isso numa jornada de autoconhecimento. Estamos entediados e vazios com tanto conforto e prazer. Estamos desapontados com as injustiças do mundo e com nossa incapacidade de resolvê-las todas de uma vez.

Nós queremos ser parte desse mundo, fazer alguma coisa, nos conectar com os outros, com a vida em si. Ou, no mínimo, queremos nos sentir vivos e não como cadáveres que andam.

Eu acredito que muito disso resume minha própria busca religiosa: o desejo de aventura, a ânsia de descobrir algum grande segredo sobre o mundo, sobre a vida, ou sobre mim mesma.

E onde estão os segredos e as aventuras? Os livros nos contam um pouco, mas há mais. Na experiência de nosso corpo e de nossos limites, na interação com os outros e com Deus aos poucos as coisas ficam mais claras.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Joel Robinson

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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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3.9.18

Chá com Abramelin

Quando a Wanju Duli aceitou meu convite para ser colunista deste blog, ela já estava bem no meio do chamado Ritual da Sagrada Magia de Abramelin, uma das práticas místicas mais minuciosas e demandantes do ocultismo (principalmente da maneira que está sendo conduzida). O texto que trago aqui é a introdução de um de seus blogs (e, acreditem, ela já teve muitos!), chamado Chá com Abramelin, onde ela vem nos trazendo resumos diários do Ritual. Eu raramente trago textos tão longos neste blog sem separá-los em várias partes, mas neste caso abrirei uma exceção. O texto foi originalmente publicado na Páscoa de 2018:


Enfim, o grande dia!

Nessa auspiciosa ocasião, dia da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A gloriosa Páscoa!

Eis que Abraão, o Judeu, recomenda que se inicie a Sagrada Magia de Abramelin no primeiro dia após a Páscoa cristã ou judaica. Optei por iniciá-la após a Páscoa cristã, uma vez que estou mais conectada ao cristianismo.

Mas o que é a Magia de Abramelin? Por que resolvi iniciá-la? E quem sou eu, afinal?

São perguntas que merecem respostas consideravelmente longas, mas irei me esforçar para ir direto ao ponto. Raramente consigo fazer isso, uma vez que sou mais conhecida por minhas digressões. Ainda assim, me proponho a tentar.

Sempre gostei de religiões. Talvez meu problema seja amá-las demais. Na adolescência li muitos livros religiosos, como a Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita, Dhammapada, Tao Te Ching, dentre outros.

Por que eu precisava ter apenas uma religião? Eu amava todas, queria mergulhar em todas, até me afogar.

Aparentemente meu tempo aqui nesse mundo (meu Kronos), nesse plano, seria finito, teria um limite. Poderia ser uma boa coisa optar por uma direção de acordo com minhas inclinações.

Acabei me envolvendo mais com o budismo Theravada e com o catolicismo. Isso não me impediu de continuar admirando todas as outras religiões. Particularmente o hinduísmo e o judaísmo, que seria como uma mãe dessas outras duas.

Aos 13 anos me envolvi com leituras e práticas de ocultismo. Li e reli muitas das obras de Eliphas Levi. Foi ele que me ensinou a admirar o cristianismo, já que ele foi seminarista e teve muito contato com a teologia e a filosofia dessa religião.

Eventualmente ouvi falar da Operação de Abramelin e dos rumores do quanto ela era perigosa e difícil de realizar.

O que uma adolescente de 14 ou 15 anos faria com essa informação? Na época eu já havia lido algumas dezenas de famosos livros de filosofia, literatura, ocultismo e religião. Já havia testado algumas práticas e estava ansiosa por algo mais profundo, que não tocasse apenas a mente ou a carne, mas o espírito.

A perspectiva de essa magia ser árdua e um desafio à sanidade era imensamente atraente. Era um bônus que me tentava e me convidava.

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19.7.18

Há uma religião verdadeira?

Hoje estreia em nosso blog mais uma colunista. Com vocês, Wanju Duli:


“A grande diversidade de religiões que existe no mundo dá origem ao que, na filosofia da religião, costuma ser chamado de problema do pluralismo religioso. A existência de ampla diversidade religiosa em várias culturas inevitavelmente nos obriga a perguntar quais são as implicações dessa diversidade para a verdade da religião em geral. Será que o fato de haver uma variedade de religiões no mundo significa que, de alguma forma, uma religião é tão legítima quanto qualquer outra? Ou significa que nenhuma delas pode pretender ser a detentora da verdade?”

(Religião. Conceitos-chave em filosofia, por Brendan Sweetman)

Nessa postagem eu irei me basear essencialmente no referido livro. Algumas vezes eu irei resumir conceitos apresentados nele. Porém, em boa parte das vezes irei reproduzir parágrafos inteiros da obra (entre aspas), tendo como finalidade que o argumento seja apresentado de forma mais detalhada, uma vez que o autor é um filósofo que conhece o tema em profundidade.

Brendan Sweetman apresenta três visões possíveis para responder a pergunta “Há uma religião verdadeira?”. São elas: exclusivismo religioso, pluralismo religioso e inclusivismo religioso. Iremos analisar cada uma delas.

Exclusivismo Religioso

Essa é a visão de que o caminho correto para a salvação só pode ser encontrado em uma religião. A posição estreita sustenta que só uma determinada denominação pode alcançar a salvação. A posição ampla aponta que membros de uma religião específica (digamos, cristã, independente do tipo de cristianismo) será salva.

Os exclusivistas religiosos de hoje se opõem ao termo “exclusivismo”, sugerindo em vez disso o termo “particularismo” (mais neutro).

Os exclusivistas defendem que pode haver verdades profundas em outras religiões, mas que não se pode alcançar a salvação seguindo a religião errada.

Para eles, o trabalho missionário é muito importante. Afinal, estaria em jogo a alma eterna das pessoas.

Quais são os argumentos dos exclusivistas? Primeiro, eles defendem que é razoável acreditar em Deus, usando argumentos da teologia natural. Uma vez que Deus existe, seria razoável esperar que ele revele seus planos aos seres humanos. Assim, seria preciso investigar, na história, evidências dessa revelação. Seria feita a análise das várias candidatas à verdadeira revelação e a argumentação que uma delas seria superior às outras (incluindo análise textual, teologia moral, argumentos filosóficos, etc).

Eles defendem que, por uma simples questão de lógica, nem todas as religiões do mundo podem ser verdadeiras. Mesmo que exista alguma verdade em todas elas, ainda há contradições diretas, de modo que algumas dessas religiões devem estar erradas em determinadas questões. Poderia ser o caso de que todas estivessem erradas, mas mesmo assim uma delas poderia muito bem estar mais próxima da verdade do que as outras.

O exclusivista muitas vezes rejeita as críticas modernas ao exclusivismo, alegando que muitos estão intimidados pelo multiculturalismo e pelo politicamente correto, evitando fazer perguntas difíceis sobre pontos de vista diferentes, com medo de ofender os outros. Dessa forma, os críticos do exclusivismo evitariam uma exploração mais profunda sobre a questão.

Quais são os argumentos contra os exclusivistas? Uma objeção é que, embora a lógica por trás da posição exclusivista tenha sentido, não seria possível fazer um julgamento preciso e razoável sobre qual seria a religião mundial verdadeira. Há muitos aspectos obscuros sobre evidências históricas, datação de textos, relatos de testemunhas, etc.

Outra objeção é a de que muitos não veem dificuldade lógica nem teológica na visão de que Deus pode ter se revelado de diferentes maneiras em diferentes religiões. Os exclusivistas rejeitam essa visão porque não veem dificuldade para um Deus poderoso se revelar substancialmente da mesma maneira para culturas diferentes. Por que ele chegaria ao ponto de revelar mensagens diferentes?

Uma das razões mais fortes para se rejeitar o exclusivismo segundo seus críticos é que ele parece muito injusto para os membros das religiões equivocadas. E sobre os que não seguem a religião correta por nunca terem ouvido falar dela?

A isso os exclusivistas respondem com o argumento do “conhecimento intermediário de Deus” , conhecido como “molinismo”. Segundo essa visão, além do conhecimento passado, presente e futuro, Deus também tem um conhecimento intermediário e sabe o que você teria feito se tivessem sido apresentadas às opções certas em sua vida. Para muitos, essa é uma doutrina especulativa, incompatível com o livre-arbítrio humano.

Pluralismo Religioso

É a visão de que há muitos caminhos diferentes à salvação nas várias religiões e todas têm certa legitimidade. Um forte defensor dessa visão é John Hick, que foi fortemente influenciado pela metafísica de Kant.

Kant distinguiu o mundo numênico e o fenomênico, que é o mundo como ele é e como aparece a nós. Ele afirmou que só conhecemos o mundo fenomênico, que, embora se baseie no mundo numênico, é modificado de forma significativa no ato do conhecimento. A mente humana não poderia escapar a esses atos de alteração com o objetivo de conhecer o mundo tal como ele é.

Hick argumenta que a natureza da realidade de Deus ou Realidade Última equivale ao mundo numênico. Em sua perspectiva limitada, os humanos tentam descrever o numênico, o que daria origem às diferentes religiões. De acordo com Hick, nenhuma delas detém toda a verdade sobre o Real, porque isso é impossível, mas cada uma delas tem uma perspectiva legítima sobre o Real, e por isso nenhuma religião pode pretender ser mais verdadeira ou alegar ter o caminho verdadeiro para a salvação. Isso é verdade, Hick argumenta, mesmo quando as religiões se contradizem, pois cada religião estaria tão distante de uma descrição correta do Real que as diferenças seriam irrelevantes. Elas seriam mais bem descritas como “distorções”, já que representam uma verdade que estaria muito além da compreensão humana.

Para mostrar como isso funciona, Hick e muitos pluralistas apelam para a história dos cegos e do elefante. Sua visão se tornou atrativa a muitos e é motivada por várias ideias atrativas à mente moderna: a liberdade de cada um de escolher sua própria visão de mundo, a rejeição da verdade literal das reivindicações religiosas, o aumento do relativismo moral e o desejo de não ter uma postura de julgamento em relação aos outros.

No entanto, é uma visão que vem com sérios problemas. Ela recorre a uma epistemologia antirrealista, como a de Kant, ou a um ceticismo em relação à possibilidade de os seres humanos conseguirem conhecer a verdade sobre qualquer coisa em sua experiência. Embora tenha popularidade hoje, em várias disciplinas acadêmicas (e tenha penetrado na cultura popular), devido aos problemas dessa posição epistemológica muitos relutam em se comprometer com ela.

Segundo Brendan Sweetman:

“Um problema enfrentado pela visão kantiana é que ela parece contraditória, pois está dizendo, por um lado, que, como ilustra claramente o exemplo do elefante, não há perspectiva final a partir da qual possamos julgar qual religião mundial possa ser verdadeira. Por outro lado, o próprio Hick está assumindo uma perspectiva maior, pois nos apresenta uma descrição de como as coisas realmente são! Em outras palavras, Hick está dizendo que a mente humana não consegue escapar do mundo fenomenal para descrever o mundo numênico e, ainda assim, é capaz de nos apresentar uma descrição supostamente verdadeira da realidade (e não uma descrição modificada pela mente): a de que ela consiste dos mundos numênico e fenomênico e de uma relação específica entre eles. Isso é uma contradição no âmago de todas as teorias antirrealistas: a pessoa que propõe a teoria sempre consegue escapar das estruturas relativizantes e da mente cognoscente, das quais o autor defende que ninguém pode escapar! O pluralismo também flerta abertamente com o ceticismo em relação ao conhecimento, porque se baseia na visão de que não é possível examinar as religiões do mundo da forma defendida pelo exclusivista — para ver qual delas tem mais probabilidade de ser verdadeira. Vai mais longe, argumentando que as afirmações factuais diretas nas religiões mundiais são todas falsas, como a de que Jesus ressuscitou dos mortos ou de que o anjo apareceu a Maomé, e são mais bem entendidas como metáforas para expressar o Real. Portanto, a literalidade da maioria das afirmações religiosas — que está no centro de quase todas as religiões — teria de ser abandonada. Então, para um cristão pensar que Jesus era Deus e realmente ressuscitou dos mortos para salvar a humanidade e que devemos, portanto, orar a Deus, essas crenças não devem ser consideradas literalmente verdadeiras, de acordo com Hick, e sim ‘perspectivas’ sobre o Real, que é, em si, incognoscível. E o mesmo acontece com todas as religiões. É fácil ver como essa visão convida ao relativismo e ao ceticismo sobre a religião em geral, e seria difícil distinguir do ateísmo”.

“Os pluralistas, muitas vezes, respondem a essas críticas dizendo que, na religião, o que importa não é tanto em que você acredita, mas como vive, ou, nas palavras de Hick, o que importa é que a religião possa transformar a vida de uma pessoa, de autocentrada a centrada em Deus. Se você seguir o código moral correto em sua vida, vai encontrar a graça aos olhos de Deus, independentemente de suas crenças metafísicas, teológicas e doutrinárias (e por isso essa abordagem pluralista também teria espaço para secularistas e ateus). Essa é uma visão pela qual mesmo quem não é pluralista tem alguma simpatia, mas parece que seria necessário que soubéssemos qual é a maneira certa de viver (isto é, que saibamos o que significa ter uma vida centrada em Deus). Contudo, parece que para isso teríamos que ser capazes de fazer duas coisas que os pluralistas acreditam não poder ser feitas. Primeiro, teríamos que conseguir julgar as várias religiões de acordo com seus códigos morais, mas, se pudermos fazer isso com os códigos morais delas, por que não poderíamos fazer o mesmo com suas características teológicas, sociológicas e históricas? Em segundo lugar, de modo mais geral, teria de ser possível saber qual é a verdade objetiva na moralidade e, se pudermos conhecer a verdade objetiva na moralidade, por que não podemos conhecê-la em outras áreas do conhecimento, como história, teologia e descrições da revelação?”

“O pluralismo, em suma, é ‘exclusivista’ à sua maneira, no sentido de que o pluralista quer que o exclusivista e o inclusivista aceitem a sua visão como verdadeira, e não apenas em geral, mas também em relação ao que está envolvido em viver uma vida centrada em Deus. O pluralista acredita que tem a resposta correta a isso e que as outras respostas estão incorretas. Em outras palavras, na história do elefante, o pluralista é o homem com visão, que consegue ver o quadro inteiro, incluindo a natureza do Real (o elefante), mas todos os outros são cegos! Se não fosse esse o caso, o pluralista não poderia saber que as descrições do Real apresentadas pelos cegos eram distorções inadequadas. Esses problemas são graves para o pluralismo e tem levado muitos a propor um meio-termo entre exclusivismo e pluralismo”

Inclusivismo Religioso

“Muitos consideram graves os problemas identificados tanto no exclusivismo quanto no pluralismo e, assim, gravitam em torno de uma visão que nos permita dizer tanto que a salvação pode ser alcançada em muitas religiões diferentes, mas que, no entanto, nem todas as religiões podem ser verdadeiras. Ainda pode haver apenas uma religião verdadeira. Essa visão é conhecida como inclusivismo religioso. Os inclusivistas afirmam que há apenas uma visão verdadeira de como a salvação pode ser alcançada, mas que pessoas de diferentes religiões podem ser salvas por causa da natureza dessa visão da salvação. Por exemplo, um inclusivista cristão acreditaria que a morte e ressurreição de Jesus Cristo tornam a salvação possível, não apenas para os cristãos, mas também para os membros de outras religiões. Isso é verdadeiro mesmo se os membros das outras religiões não reconhecerem Jesus ou o cristianismo: é verdade mesmo se eles acharem que Jesus não foi Deus ou que as principais afirmações do cristianismo são falsas. O teólogo católico Karl Rahner (1904–1984) e o filósofo católico Jacques Maritain (1882–1973) tinham, ambos, essa concepção”.

“O inclusivismo é atrativo para a mente moderna, porque parece preservar os pontos fortes das outras visões, evitando as suas fragilidades, mas não está isento de críticas”.

Os exclusivistas rejeitam a ideia de que não podemos investigar quais religiões do mundo provavelmente sejam verdadeiras. Também não concordam em afirmar que não há necessidade de conexão real ou essencial entre a doutrina e as crenças teológicas da religião e as suas crenças morais (como se as crenças teológicas e doutrinárias fossem falsas, mas as morais não fossem afetadas). Essa posição seria negativa para o ponto de vista lógico e enfraqueceria a posição geral da religião no debate com o secularismo, principalmente na política.

Os pluralistas, por outro lado, também não são entusiastas do inclusivismo, porque têm problemas com a ideia de que podemos descobrir qual religião é verdadeira, o que é preciso fazer para quem quer ser inclusivista. Mas reconhecem seu valor pragmático, tornando o debate de qual religião é verdadeira menos premente e menos polêmico.

Conforme Brendan Sweetman:

“Outra dificuldade para o inclusivita é que, para dizer que as pessoas de outras religiões podem ser salvas, deve-se apresentar alguma visão do que é a salvação para que a visão inclusivista tenha qualquer conteúdo e não continue a ser uma abstração vaga e impraticável. Isso vai envolver tanto uma visão teológica de salvação quanto alguma visão da vida moral correta que é necessário para a salvação. Também exigirá um argumento de que não é preciso acreditar na visão teológica para ser salvo, que viver moralmente é o suficiente, e que Deus é revelado de forma imperfeita em várias tradições religiosas. Mesmo se não pudermos chegar a um acordo sobre a visão teológica, a visão sobre a maneira correta de viver parece ser urgente, ou cairíamos rapidamente no relativismo moral”

“Concluindo, não nos esqueçamos de que todas as visões que abordamos exigem algum trabalho missionário, porque os seus defensores precisam converter os outros ao que consideram a posição correta sobre a questão da diversidade religiosa, e, como vimos, essa tarefa parece exigir que se saiba o que é verdade em matéria religiosa, pelo menos em algum nível. Essa última questão ilustra mais uma vez porque o problema do pluralismo religioso é um assunto fascinante, mas complexo, para as várias religiões do mundo moderno”.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito das imagens: [topo] Android Jones; [ao longo] wikimedia.org

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