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24.12.12

Os anjos de Swedenborg

Texto de Jorge Luis Borges em "O livro dos seres imaginários” (Ed. Cia. das Letras) – trechos das pgs. 16 e 17. Tradução de Heloisa Jahn.

Durante os últimos vinte e cinco anos de sua estudiosa vida, o eminente homem de ciência e filósofo Emanuel Swedenborg (1688-1772) fixou sua residência em Londres. Como os ingleses são taciturnos, adquiriu o hábito cotidiano de conversar com demônios e anjos. O Senhor lhe permitiu que visitasse as regiões ultraterrenas e trocasse ideias com seus habitantes. Cristo havia dito que as almas, para entrar no céu, devem ser justas; Swedenborg acrescentou que deveriam ser inteligentes; Blake estipularia depois que fossem artísticas. Os anjos de Swedenborg são as almas que escolheram o céu.

Podem prescindir de palavras; basta que um anjo pense em outro para tê-lo junto de si. Duas pessoas que se amaram na Terra formam um só anjo. Seu mundo é governado pelo amor; cada anjo é um céu. Sua forma é a de um ser humano perfeito; a do céu também é. Os anjos podem olhar para o norte, o sul, o leste e o oeste; sempre verão a Deus frente a frente. São antes de mais nada teólogos; seu maior deleite é a prece e a discussão dos problemas espirituais. As coisas da Terra são símbolos das coisas do céu. O Sol corresponde à divindade. No céu não existe o tempo; as aparências das coisas mudam segundo os estados de ânimo. Os trajes dos anjos resplandecem de acordo com sua inteligência.

No céu os ricos continuam sendo mais ricos que os pobres, já que estão acostumados à riqueza. No céu, os objetos, os móveis e as cidades são mais concretos e complexos que os da nossa Terra; as cores, mais variadas e vívidas. Os anjos de origem inglesa têm propensão à política; os judeus, ao comércio de joias; os alemães andam com livros que consultam antes de responder. Como os muçulmanos estão acostumados à veneração de Maomé, Deus lhes propiciou um anjo que finge ser o Profeta. Os pobres de espírito e os ascetas estão excluídos dos gozos do paraíso porque não os compreenderiam.


Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza (O Evangelho de Tomé, versículo 3).

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Crédito da imagem: Ole Graf/Corbis

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3.8.10

Quase morte, parte 1

A morte é para alguns o cessar da consciência, para outros uma passagem para outra dimensão da realidade, e para muitos o fim da vida orgânica.

O fim de todos os milagres

Em seu conto “O Imortal”, o mestre das palavras Jorge Luis Borges narra o encontro ficcional com um povo de seres imortais:

“A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais.”

Certamente a morte é um paradoxo – muitos de nós a abominam, e fogem do olhar direto ao assunto como se ele fosse uma medusa prestes a lhes petrificar; entretanto, é impossível estar vivo sem estar morrendo. A morte dos organismos humanos é uma questão de tempo, assim como a vida é também uma questão de viver no tempo que nos é dado.

Biologicamente falando, a morte é um processo que perdura por toda nossa vida. Muitas células individuais vivem por apenas pouco tempo e a maior parte das células de um organismo são continuamente substituídas por novas células. Ao fim de certo número de divisões (mortes) celulares, não é mais possível ao nosso organismo substituí-las, e então chegamos ao envelhecimento avançado e eventualmente a falência de algum órgão vital para a atividade de nosso cérebro – eis a morte da matéria. Se tudo o que somos é matéria, este é o fim, o sonho sem volta, o sonho sem sonho algum...

Entretanto, estranho de se pensar, se tudo o que somos é matéria, o que diabos a consciência faz para que possamos permanecer quase sempre os mesmos, enquanto praticamente todas as células de nosso corpo morrem e se renovam continuamente ao longo da vida? Obviamente que para respondermos essa pergunta, falta-nos um maior entendimento do que forma o processo de consciência.

Até lá, se nos atermos somente ao que a ciência já é capaz de explicar, podemos apenas afirmar que a consciência é como uma lâmpada que se mantém em funcionamento enquanto o corpo é capaz de lhe suprir com energia. Através de reações químicas nos mantemos conscientes e existe este baile imensurável e misterioso de eletricidade pelo cérebro... Apesar de já sabermos aproximadamente sobre os comandos mais simples, como mover um braço ou proteger os olhos, falta-nos à compreensão do que quer que em nossa consciência determina as decisões ou respostas morais, interpretativas, poéticas, espirituais...

Para o materialismo nós somos mais ou menos como um rádio que gera as suas própria ondas. Se o rádio para de funcionar, as ondas também cessam.

Para muitos esta já é uma explicação suficiente. Estão certos de que a consciência é apenas o resultado do agitar de partículas pelo cérebro, e que esta não pode existir sem ele... Apesar de nunca termos achado a verdadeira “usina” de todos esses pensamentos que os homens tiveram desde a pré-história, para muitos basta saber que ele se origina no cérebro e que não pode perdurar sem ele. Segundo o filósofo Daniel Dennet, a própria subjetividade é uma ilusão – tudo o que fazemos é pré-determinado por esse misterioso agitar de partículas no cérebro. Não existe, em realidade, algo como vontade ou responsabilidade. Tudo que existe é o baile da matéria, a dança da poeira de estrelas longínquas que nos parece com algo que chamamos de vida. Mas esta é apenas uma doce ilusão com os dias já contados desde nosso nascimento.

Para quem é realmente materialista, fica muito complicado discordar de Dennet...

Para quem é, no mínimo, agnóstico em relação ao assunto, ficam os caminhos abertos para a investigação, as ondas a serem captadas e decodificadas...

Carl Sagan dizia que viver na memória e nos pensamentos daqueles que nos admiram e nos amam é efetivamente viver para sempre. Sagan tinha razão, ainda que a morte seja o sonho sem sonho, ainda viveremos na memória dos que sentirão saudades, e mesmo que a raça humana se extinga ou o sol cesse de nos iluminar, nossos átomos – aqueles mesmos que emprestamos das estrelas distantes – ainda vão flutuar por esse Cosmos infinito por muito, muito tempo.

E, se nos parece algo inútil adquirir conhecimento e experiência de vida, se no fim temos quem sabe pouco mais de um século (com sorte) para tentar chegar a alguma conclusão, e sabemos perfeitamente que não chegaremos a nenhuma em definitivo; ao menos nos resta o consolo de perceber que o que importa é o caminho, o meio, o trilhar, e não o fim. O fim será sempre a morte, é importante nos atermos a vida – esta não cessará, mesmo que não estejamos mais aqui para admirar sua festa.

Se a vida é um conjunto de milagres, a morte é o fim de todos os milagres.

Porém, assim como o dia insiste em suceder a noite, assim como a morte é parte vital do ciclo de espécies que evoluíram para possibilitar que o homo sapiens despertasse do longo sono da animalidade inconsciente, é possível que o sono final não seja uma noite destituída de sonhos... Em realidade, não são apenas as religiões que falam em vida após a morte. A ciência também parece ter algo a nos dizer – e quem traz as informações são precisamente aqueles que experimentaram a morte, ou a quase morte.

Na seqüência, a experiência da morte sob o olhar atento de um cientista de certa curiosidade...

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Crédito da imagem: Wikipedia ("Tudo é Vaidade" por C. Allan Gilbert. A vida, a morte e o significado da existência estão interligados).

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13.5.09

Alguém constrói a Deus na penumbra

Falando de Espinosa, encontrei (e traduzi) este lindo poema em sua homenagem, do grandioso mestre das palavras - Jorge Luis Borges:

Benedito Espinosa

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais)


Baruch Spinoza

Bruma de Oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios em la penumbra.
Um homem engendra a Dios. Es un judio
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el rio
Una hoja en el agua que declina.
No importa. El hechichero insiste y labra
A Dios con geometria delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo a Dios com la palabra.
El más pródigo amor le fue ortogado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges

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Crédito da foto: roel1943

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