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1.9.10

Vinte contra um, parte 1

O filósofo francês René Descartes é considerado o fundador do dualismo moderno. Para ele, o mundo material estaria separado do campo da mente, que abrange os pensamentos, as emoções, o prazer e a dor. Se as coisas da “mente” não têm tamanho, forma nem movimento, elas podem interagir com o mundo material, de forma que os pensamentos são capazes de causar ações, e os estímulos materiais, pensamentos. Segundo Descartes, essa interação ocorreria na glândula pineal, um pequeno núcleo cerebral que, à época, não se acreditava ter outra função.

Os monistas aparentemente representam o extremo oposto do dualismo cartesiano. Segundo o monismo, a consciência é parte do universo material, sendo idêntica à atividade cerebral relacionada a ela. Desenvolveu-se quando se aperfeiçoaram os mecanismos cognitivos, mas apenas como resultado destes, e não por qualquer outro propósito... Enquanto os dualistas creem que o cérebro nada mais é do que um rádio capaz de sintonizar a mente através da glândula pineal (ou através do cérebro como um todo), os monistas confiam em outra aposta: a de que é o rádio que gera as suas próprias ondas.

Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

Se o homem do “quarto chinês” fosse tão somente um autômato cerebral capaz de levar e trazer mensagens, talvez o dualismo de Descartes faça todo o sentido afinal: o que quer que interprete as informações enviadas por nossos sentidos, e as envie de volta através de respostas complexas e emocionais, este sim seria o pianista da consciência. A consciência não geraria a si mesma, mas antes seria o som das teclas de quem dedilha o piano cerebral com maior ou menor desenvoltura... De fato, apesar da ciência moderna estar se intrometendo cada vez mais em nosso cérebro, o “gerador dos pensamentos” ainda não foi localizado em parte alguma. Vemos, sem dúvida, um baile frenético de eletricidade dentre bilhões de neurônios, e às vezes conseguimos associar um fluxo elétrico a uma resposta consciente, mas não quer dizer que saibamos de onde se originou efetivamente a resposta – principalmente quando ela tange questões morais e complexas.

Por isso esta questão é chamada de “o problema difícil da consciência”. Compreender as respostas reflexivas, ou comandos motores, etc., isso é até mesmo trivial quando comparado às respostas que envolvem uma interpretação da personalidade, uma resposta moral... Ainda assim, os críticos do dualismo cartesiano encontraram um caso estranho, ocorrido há muito tempo atrás, mas que possuí boa base de relatos de testemunhas, e com ele (e praticamente apenas ele) criaram uma teoria que postula que nossa moral, afinal, é apenas fruto do agitar de partículas em nosso lóbulo frontal.

Em “O erro de Descartes”, por exemplo, o cientistas português António Damásio vale-se especificamente deste caso para sustentar sua crítica ao dualismo... No ano de 1848, Phineas Cage, respeitado trabalhador de uma companhia ferroviária americana, teve a parte frontal do cérebro perfurada por uma barra de ferro, que usava para comprimir pó explosivo. Ele sobreviveu, com poucos danos à maioria de suas faculdades. Entretanto, houve drástica mudança de comportamento. De homem educado, responsável e respeitador, tornou-se perigoso, rude e socialmente irresponsável. Os mais próximos (testemunhas do caso) notaram que ele “não era mais o Cage”. A mudança devia-se, segundo os médicos, aos danos cerebrais. Reconstruções modernas (toda a gama de gráficos 3D que possam imaginar) demonstram que o ferimento afetou o lóbulo frontal – associado à sensibilidade moral.

Você deve estar imaginando que, ainda que o lóbulo frontal seja o responsável por nossas respostas morais, se a consciência for um “quarto chinês”, é bem possível que apenas o tradutor interno tenha sido prejudicado, e que isso nada teria a ver com a mente. Ou seja, o rádio estaria avariado, captando as ondas de forma errônea... Claro que essa discussão seria infindável. Não seria o “quarto chinês” argumento suficiente para encarar os defensores do monismo que se baseiam nesse acidente de 1848 como principal evidência. Seria preciso uma evidência tão forte quanto a favor do dualismo...

Em 1974, o bioquímico e psiquiatra canadense Ian Stevenson nos trouxe 20 evidências. Todas consideradas as evidências mais fortes dos milhares de casos estudados em diversos continentes nas décadas anteriores. Ian estudava crianças, mais precisamente as que afirmavam se lembrar de vidas passadas. Seu livro lançado naquele ano se chamava “20 casos sugestivos de reencarnação”.

Ora, não eram casos de evidência baixa: desde crianças que se lembravam de nomes de parentes e até do endereço de suas casas em vidas passadas, até crianças que relatavam terem tido mortes violentas na última encarnação, e traziam marcas de nascença exatamente onde os ferimentos letais os levaram a morte na última vida. Tudo registrado e, principalmente, estudado, de forma genuinamente científica... Se uma criança se lembra de uma vida passada, é necessário considerar que a informação registrada no cérebro de sua última vida foi transmitida, de alguma forma estranha, para um outro cérebro, um novo cérebro. Quando falamos nisso, estamos aparentemente dando um xeque-mate no monismo.

Na continuação, o que Carl Sagan tinha a dizer sobre o assunto, e os possíveis pontos de encontro entre o monismo e o dualismo.

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Crédito da foto: Ryan Southen (um quarto chinês)

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30.8.10

A ciência da inspiração, parte 3

Continuando da parte 2

Metáfora: Figura de linguagem em que há a substituição de um termo ou conceito por outro, criando-se uma dualidade de significado.

Devoradores de maçãs

Um dos mitos mais conhecidos da humanidade trata de jardim do Éden, onde os primeiros humanos criados por Deus, a sua imagem e semelhança, viviam imortais, ociosos e aparentemente felizes. Isso foi até que eles resolveram comer os frutos (o mito fala em maçãs) da árvore do conhecimento do bem e do mal, da qual Deus havia alertado que eles não deveriam comer, ou conheceriam a morte. E o resto todos já sabem: Deus ficou furioso e os expulsou do Éden apenas com alguns trapos feitos de couro de animais, pois que agora um se envergonhava da nudez do outro. E Adão e Eva povoaram o mundo, muito embora o pecado de Eva tenha nos amaldiçoado por muitos e muito anos, até que Jesus veio pagá-lo para nós.

Joseph Campbell, grande estudioso do assunto, dizia que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Ele provavelmente queria dizer que os mitos tratam de verdades que existem fora do tempo, ou seja, que existem sempre. Todo grande mito da humanidade fundamenta-se em uma ou mais dessas verdades, dessa partícula de essência que emana da eternidade. Foi exatamente por isso que os sábios antigos tiveram o cuidado de popular suas histórias com vários desses mitos. Eles sabiam, certamente, que muitos aldeãos e camponeses ignorantes de sua época iriam interpretar tais histórias ao pé de letra, de forma literal – mas sem dúvida também tinham a esperança de tocar a alma dos outros sábios que viriam a Terra em épocas posteriores.

O mito do Éden é repleto de metáforas. Talvez a mais interessante delas seja exatamente o paradoxo do pecado pelo qual Eva foi condenada. Ora, antes de devorar a maçã, ela era sem dúvida ignorante do conhecimento (seja do bem, seja do mal). Se nunca houvesse comido o fruto proibido, estaria ociosa e imortal, por toda eternidade, em um jardim onde poucas coisas interessantes acontecem – mas seria feliz, acredita-se. Animais ignorantes também são "felizes" vivendo no meio selvagem; Entretanto, as pressões do meio-ambiente nunca os deixaram relaxar: na guerra do sofrimento e da fome, mesmo em meio a sua “felicidade”, presas e predadores lutaram pela sobrevivência por longos e longos anos. Não fosse por essa pressão da natureza, talvez a Terra estivesse até hoje populada por hominídios, ou nem mesmo isso, por roedores e outros pequenos mamíferos...

Pois foi exatamente quando adquiriu à consciência e o conhecimento do bem e do mal que o ser humano se tornou quem é. Por um lado, portanto, a metáfora do fruto proibido é apenas uma história fantasiosa, por outro, é uma explicação surpreendentemente avançada para a época em que foi escrita. Será que os rabinos judeus tinham ideia de que estavam a antecipar um dos grandes mistérios da evolução das espécies? Será que tinham pleno conhecimento daquilo que escreviam talvez guiados pela pura intuição? Acredito que a resposta não esteja nem tanto lá, nem tanto cá. Certamente os sábios antigos tinham noção de que lidavam com assuntos sagrados, e que os estavam passando adiante “cifrados” em metáforas dentro de mitos. Mas da mesma forma eles certamente tinham consciência de que não tinham como saber tudo, e é exatamente por isso que passavam tais símbolos para as gerações futuras – como uma mensagem numa garrafa arremessada no oceano, a espera de alguma praia onde existam seres mais sábios para decifrar seus enigmas.

Nós já ficamos com nós na cabeça ao abordarmos o conceito de programação genética. E, da mesma forma, já consideramos com carinho a possibilidade da mente humana ser o resultado da interseção de módulos mentais (naturalista, técnico e social). Além disso, também falamos sobre como a neurologia compreende a criatividade: o foco mental em novos estímulos e ideias, em fluxo e trocas constantes com as ideias que já dominamos em nossas respectivas artes ou disciplinas... Ora, em posse dessas informações, talvez o processo misterioso dos algoritmos genéticos não seja mais tão insondável.

Vamos falar, por exemplo, de poesia: da mesma forma que gerações de algoritmos se digladiam no meio-ambiente do problema a ser resolvido, todos os estímulos que os poetas enviam para suas mentes – através de seus olhares sempre atentos aos menores detalhes da natureza à volta – nada mais são do que algoritmos em busca da solução de sua próxima poesia. A grande diferença é que, ao contrário dos programadores, os poetas geralmente sequer tem ideia de qual é o problema a ser resolvido – de certa forma, para eles, as soluções chegam junto com os problemas, embora nenhuma solução seja realmente a derradeira, e todos os problemas sejam quase sempre infinitos. Nessa batalha mental travada por estímulos ambíguos e aparentemente sem relação uns com os outros, ninguém sai derrotado, pois o fruto é sempre uma nova legião de metáforas. E estas maçãs são divinas, jamais proibidas... Os poetas são verdadeiros devoradores de maçãs!

Vejamos uma dessas “soluções”, pelo grande poeta místico, Gibran Khalil Gibran: “Na floresta só existe lembrança dos amorosos / Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, / seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos / Conquistador entre nós é aquele que sabe amar / Dá-me a flauta e canta! / E esquece a injustiça do opressor / Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue”. Neste belo trecho do poema “A floresta”, é impossível chegar a uma compreensão efetiva do que o poeta quis dizer sem usar ao menos parte de nossa emoção e nossa intuição juntamente com nossa razão... Mesmo assim, ficará sempre aquela dúvida se realmente compreendemos todo o bem e todo o mal deste belo fruto da inspiração de Gibran. O lírio é uma taça para o orvalho, e não para o sangue – quantas e quantas interpretações e conceitos contidos em apenas uma frase.

Há ainda outros poetas que conseguem inserir metáforas dentro de metáforas dentro de ainda outras metáforas... Quando Fernando Pessoa diz que “o poeta é um fingidor, finge ser dor a dor que deveras sente”, ele está nos trazendo para uma análise existencial da qual a solução jamais será algo racional, objetivo, tal qual 2+2=4. Nesse sentido, é possível que os algoritmos genéticos sejam extensões de nossa racionalidade, aplicadas a problemas descobertos por nossos cientistas e matemáticos, e que tudo o que fazem é poupar seus cérebros de rodar trilhões de cálculos, antecipando uma solução que em séculos passados seria inviável. Entretanto, na poesia pode ser mais depressa ainda: a solução chega junto com o problema. A diferença é que na poesia a solução jamais será final, e após termos devorado todas as maçãs do Éden, teremos de sair nós mesmos em busca de mais conhecimento – ainda que o velho barbudo tenha se esquecido de nos expulsar...

Muito do debate acerca da existência de Deus se resume ao ancião das metáforas do antigo testamento bíblico – sim, pois o Deus de Jesus é sempre um coadjuvante, que intervém apenas por emanação de pensamentos, e não de forma “direta”. Esses debates se parecem mais com debates entre crianças que brincam em uma praia – uma delas constrói um castelo de areia e diz que “esta é a cidade de deus”... Enquanto outras crianças com senso crítico mais desenvolvido esperam as ondas da maré chegar e destruir os castelos, e então bradam convictas: “Viram! Não lhes disse que este deus tinha pés de barro?”.

Ora, mas e se o reino de Deus estiver em sua volta? E se ele abarcar não só os castelos de areia, como cada grão de areia da praia, e cada gota de água do mar, e cada nuvem e cada pássaro a planar pelo céu, e cada sol a flutuar pelo Cosmos, e cada partícula a bailar por nosso cérebro e nossa alma?

Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Ora, um dos grandes cientistas de nosso tempo, em sua maturidade, defendia uma “religiosidade cósmica”, baseada na presença de um poder racional superior, revelado no universo ainda oculto ao conhecimento da ciência. Muitos outros cientistas e filósofos foram teístas, deístas, panteístas, agnósticos, etc. Para quem possuí muita ciência, fica muito difícil apostar que tudo o que há surgiu do nada como numa “passe de mágica cósmico”. No mínimo, é preciso admitir que tal questão não pode ser compreendida hoje, e talvez jamais possa... De qualquer forma, pela lógica, também se faz necessário concordar com Espinosa (como Einstein, aliás, concordou) quando este afirma em sua “Ética” que “uma substância não pode criar a si mesma”...

E se Deus for um grande programador cósmico? E se nós formos parte dos algoritmos divinos que ele inseriu em sua criação? E se no núcleo de cada átomo, nos filamentos de cada DNA, em cada um de nosso neurônios, nas partículas etéreas de nossa alma, não estiverem inscritos códigos sagrados que ditam que este Cosmos nada mais é do que um problema em solução? E se formos nós mesmos os personagens e co-criadores desta poesia infinita? Navegando dentre raios cósmicos e poeira de estrelas, é impossível participar deste problema sem estarmos encharcados de Deus por todos os lados e a todos os momentos...

O reino de Deus sempre esteve a nossa volta. Nós jamais fomos expulsos do Éden. Tudo o que falta é compreendermos isso – que o Éden jaz, antes de mais nada, em nossa consciência... E que Deus ou o Cosmos jamais foram uma solução, jamais uma muleta na qual pudéssemos nos acomodar, mas sim um grandioso problema que vem sendo solucionado passo a passo, inspiração por inspiração. Nós devoramos uma maçã de cada vez...


Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Gibran Khalil Gibran, trecho de “A floresta”.

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Crédito das fotos: [topo] Guto Lacaz (exposição "Einstein no Brasil"); [ao longo] Marcos Homem

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27.8.10

A ciência da inspiração, parte 2

Continuando da parte 1

Mente: 1. Conjunto das idéias e convicções de uma pessoa, concepção, imaginação, intelecto; 2. Capacidade de raciocinar ou aprender, inteligência.

Após a caçada

Retornemos aproximadamente 200 mil anos no tempo, e observemos uma pequena comunidade de caçadores-coletores nas planícies africanas, berço de todos nós, os humanos. São ainda hominídios, humanos arcaicos, mas já possuem seus módulos mentais relativamente desenvolvidos: a inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Tais hominídios acabaram de retornar de uma boa caçada, e estão aproveitando o pouco tempo que resta de luz do sol no final da tarde... Alguns estão retalhando as carcaças para que a comida possa ser compartilhada; As mulheres e anciãos estão descansando, conversando, ou ensinando as crianças algumas regras básicas da vida em sociedade tribal; Já aqueles mais hábeis com os cinzéis estão afiando as pontas das lanças utilizadas na última caçada, ou ainda criando novas... Todas mais ou menos no mesmo formato, projeto de algum gênio primordial que se espalhou e manteve-se inalterado por dezenas de milhares de anos. Não havia muita criatividade, não havia muita inspiração, praticamente não existia a arte, nem a religião...

Avancemos então para cerca de apenas 50 mil anos atrás. No tempo da evolução das espécies terrestres apenas um piscar de olhos de meros 150 mil anos... Ainda estamos nas mesmas planícies do continente mãe, só que agora observando o retorno da caçada – igualmente bem sucedida – de uma comunidade de homo sapiens, humanos como nós, nossos avôs e avós ancestrais. Percebemos que eles continuam cortando as carcaças recém-abatidas (embora com instrumentos mais anatômicos e afiados, ainda de pedra), continuam fabricando novos instrumentos e afiando os desgastados, e as mulheres e anciãos continuam dando instruções básicas de vida social para os infantes. O que mudou, afinal?

Para os arqueólogos, os registros do solo dizem que mudou muita coisa, embora para os leigos talvez essa mudança passasse desapercebida. Ocorre que, na tribo de hominídios, cada grupo realizava sua tarefa em uma área em separado da aldeia; Já nos homo sapiens, todos faziam as atividades uns próximos aos outros, geralmente em torno da fogueira... Nessas longas noites de conversas e atividades após a caçada, muito do que somos hoje tornou-se possível.

Segundo o arqueólogo (sim, arqueólogo mesmo) Steven Mithen em “A pré-história da mente”, foi essa intercessão entre os módulos da mente primitiva que catapultou nossa inteligência a patamares inimagináveis para os humanos ancestrais. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

Esta é apenas uma teoria de Mithen, mas acredito que seja muito bem fundamentada. Essa união de módulos mentais, essa divina fluidez cognitiva, faz-se representar até os dias de hoje... Já se parou para perguntar por que a maioria das pessoas passa cerca de 2/3 de seu tempo de convívio com qualquer outra pessoa falando sobre relacionamentos com outras pessoas, ou os relacionamentos de famosos, ou quem morreu e quem nasceu? Ou porque revistas com fotos imensas de modelos de beleza que não possuem muito espaço para texto vendem que nem água? Ou simplesmente porque apreciamos tanto uma boa fofoca? Ora, Mithen sabe: porque nossa fluidez cognitiva nasceu de nosso convívio social ancestral – nada mais justo que dediquemos tanto tempo a ela ainda nos dias atuais. Ou pelo menos, se ainda nos identificamos com nosso lado animal...

Nós trocamos idéias, trocamos palavras, trocamos símbolos uns com os outros constantemente. Nosso maior dom não é a visão ou a audição ou nem mesmo a racionalidade, mas antes de tudo, a capacidade de interpretar símbolos. Um dom sim, mas que muitas vezes pode se tornar também uma maldição – principalmente quando mal fazemos idéia da extensão de tal capacidade.

A criatividade é a capacidade de reformular o que conhecemos, em geral sob a luz de uma informação nova, e de desenvolver um conceito ou uma idéia original. A fim de ser criativa, uma pessoa precisa ser crítica, seletiva e inteligente.

O processo criativo transcorre, segundo a ciência, da seguinte forma: nossos cérebros são bombardeados de forma contínua com estímulos, sendo que a maior parte é ignorada. Essa “exclusão” garante que usemos as informações mais relevantes para direcionar nossos pensamentos. A abertura de nossas mentes para informações novas promove o arranque do processo criativo. Para isso, o cérebro desativa a atenção aguda, identificada por eletrencefalograma como ondas beta (estado de alerta) e permite o aparecimento de ondas alfa, amplas e lentas (estado de relaxamento mental e ociosidade). Desse modo, os estímulos, que de outra forma poderiam ser ignorados, tornam-se conscientes e ressoam com as memórias, gerando novos pensamentos e idéias que podem ser tanto originais quanto úteis. Pois é, deve ser por isso que as pessoas têm a maioria das boas idéias no cafezinho, e não durante um dia estressante de trânsito e trabalho nas grandes cidades...

Os artistas que dominaram suas disciplinas têm uma base de conhecimento que sustenta melhorias e mudanças a partir da repetição e/ou reorganização dos padrões simbólicos que eles já dominam. Tal habilidade permite que esses processos rodem na inconsciência, liberando a consciência para a absorção e reconhecimento de estímulos inteiramente novos. Pessoas assim possuem uma alta capacidade de retornar a um estado de alerta mental quando reconhecem uma nova idéia, pois de forma recorrente as submetem a uma avaliação crítica rigorosa – “será que isto combina ou acrescenta algo a minha arte?”. Os estímulos, os símbolos que sobrevivem a esse segundo processo de pensamento criativo tendem a ser valiosos e, portanto, julgados como genuinamente originais.

Sejamos então todos artistas de nossa própria vida, pois que ela sempre será nossa obra mais importante. Após a longa caçada, após tantas noites de conversas em fogueiras amedontrados e extasiados com a imensidão da noite a volta, de alguma forma fomos guiados por essa vasta natureza a uma certa fluidez de pensamento. Em todos esses dias de homens, aprendemos passo a passo a compartilhar símbolos, idéias, pensamentos, e emoções... Nem sempre temos sido bem sucedidos em reconhecer tudo isso que há de sagrado em torno e mesmo dentro de nós – seja no mecanismo, seja no sentido. Mas o que importa é que podemos aprender com nossos erros, e melhorar um pouco, um pensamento de cada vez.

Idéias, idéias são tudo o que há além da natureza que aqui já estava quando chegamos. Idéias são tudo o que iremos deixar em retribuição. Reconheçamos então quais são as idéias que nos levarão a frente, e quais são âncoras disfarçadas de pipas, prontas a nos deixar fixados no mesmo lugar por mais uma vida inteira.

Sejamos caçadores então, e façamos de nossa caça uma verdadeira arte: cacemos não para sobreviver simplesmente, mas para viver, viver plenamente, viver em harmonia, conectados com a infinita teia da vida a nossa volta. Cacemos idéias que se escondem além da galáxia mais distante e no menor pedaço de átomo que fomos capazes de enxergar. Cacemos o horizonte à frente, cacemos os mecanismos e o sentido desse turbilhão universal, cacemos a nós mesmos, cacemos ao amor. Enfim, cacemos pela enorme felicidade e a enorme paz que essa caçada nos proporciona.

Na continuação, metáforas, poesia e o grande programador cósmico...

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Crédito das imagens: [topo] Becoming Human; [ao longo] Werner Backhaus/dpa/Corbis

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26.8.10

A ciência da inspiração, parte 1

Inspiração: 1. Ato ou efeito de inspirar; 2. Pensamento ou idéia que nos vem de repente; 3. Produto da imaginação ou entusiasmo criativo.

A arte dos algoritmos

A ciência da computação nasceu com o conceito de algoritmo, criado conjuntamente em 1936 pelo experimento mental de Alan Turing, conhecido como Máquina de Turing, enquanto quase ao mesmo tempo Alonzo Church criava o cálculo lambda. Um algoritmo é uma seqüência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais pode ser executada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita.

O conceito de algoritmo é freqüentemente ilustrado pelo exemplo de uma receita, embora muitos algoritmos sejam mais complexos. Eles podem repetir passos (fazer iterações) ou necessitar de decisões (tais como comparações ou lógica) até que a tarefa seja completada. Um algoritmo corretamente executado não irá resolver um problema se estiver implementado incorretamente ou se não for apropriado ao problema.

Roger Alsin é um programador sueco bem menos conhecido, mas que aborda a arte dos algoritmos de uma forma impensável na época de seus criadores... No final de 2008, ele resolveu brincar um pouco com alguns algoritmos, mais precisamente algoritmos genéticos. Ele criou um pequeno programa que evolui cadeias de “DNA digital” para renderização de polígonos, eis as instruções aplicadas:

(0) Cria uma cadeia de DNA aleatoriamente (início do programa); (1) Copia a seqüência de DNA atual e aplica uma pequena mutação; (2) Usa o novo DNA para renderizar polígonos em uma tela; (3) Compara a tela com a imagem original (a ser copiada); (4) Se a imagem se parece mais com a imagem original do que a imagem gerada pelo DNA pai, substituir o DNA antigo pelo DNA atual; (5) Repetir a partir do passo 1.

Então, Alsin colocou como meta aos seus algoritmos tentar recriar (ou copiar da melhor forma possível) a Mona Lisa de Da Vinci usando apenas 50 polígonos semi-transparentes... Após 904.314 gerações, o algoritmo genético de Alsin chegou a uma imagem bastante próxima da original, se considerarmos que algoritmos não são exatamente mestres da pintura (ou pelo menos, ainda não são). Você pode ver a imagem final no início do artigo, ou ver as diversas gerações no weblog de Alsin.

Em 1992, John Koza – cientista da computação – usou algoritmos genéticos para desenvolver programas para realizar certas tarefas. Ele chamou seu método de programação genética. Koza foi pioneiro neste método de programação, que hoje é cada vez mais utilizado no mundo.

O aspecto mais bizarro e intrigante da programação genética é que seus algoritmos – verdadeiras “entidades de software” – não sofrem as restrições dos hábitos de pensamento e das inclinações intelectuais sutis dos programadores humanos. Como exploram irrefletidamente todo o espectro de soluções possíveis para um determinado problema, os algoritmos genéticos podem trazer soluções puramente alienígenas. Por exemplo, a NASA utilizou a programação genética para produzir o projeto ideal de um suporte a ser usado na Estação Espacial Internacional. Como relatou o U.S. News and World Report, o resultado parecia ter saído de um romance de ficção científica:

“Surgiu, de 15 gerações e 4.500 projetos diferentes, um suporte que nenhum engenheiro humano projetaria. O conjunto grumoso e com a extremidade arredondada lembrava o osso de uma perna, irregular e um tanto orgânico. Testes em modelos confirmam sua superioridade sobre os projetos humanos com suporte estável. Nenhuma inteligência fez os projetos. Eles apenas se desenvolveram.”

Outro exemplo espantoso da total estranheza da programação genética bem-sucedida é o código e computador que foi desenvolvido para ajudar um paciente a controlar uma mão protética com base em sinais nervosos erráticos captados por eletrodos presos ao pulso do paciente. O software desenvolvido analisava misteriosamente os sinais nervosos e os traduzia com precisão perfeita nos movimentos que o paciente queria fazer.

Mas aqui está a parte realmente estranha – o método pelo qual o software realizou esse feito incrível está totalmente além da compreensão dos pesquisadores humanos. Como relatou a Scientific American:

“O código desenvolvido era tão confuso e indecifrável quanto um inseto esmagado. O programa que prevê os gestos consiste numa única linha de código tão longa que enche uma página inteira e contém centenas de expressões parentéticas embutidas. Ele nada revela sobre por que o polegar se move de uma certa maneira – só revela que se move.”

Eis que, como num passe de mágica, essas receitas de bolo que ajustam a si mesmas acabam por trazer resultados imprevisíveis, bolos de sabores que nós humanos jamais poderíamos imaginar.

Para alguns ateus entusiastas de inteligência artificial, esta é a prova cabal de que o argumento do Design Inteligente está descartado, e de que os problemas podem ser solucionados através de gerações aleatórias de algoritmos – assim como a vida pode ser explicada como uma evolução aleatória da matéria inorgânica que, de alguma forma, tornou-se orgânica.

Estão mal-informados, pois conforme o próprio Alsin – ele mesmo um ateu – explica em seu weblog, a programação genética não prova absolutamente nada além de que pode ser utilizada para resolver problemas além da atual capacidade humana:

(1) Não existe um objetivo claro nos algoritmos, pois o problema que estão tentando solucionar é o seu próprio meio-ambiente de desenvolvimento. Eles não possuem um sentido, são mero mecanismo de solução de um problema específico; (2) A réplica da Mona Lisa não é a imagem do DNA digital e muito menos do “corpo” dos algoritmos genéticos, ela apenas demonstra o seu nível de adaptação ao meio-ambiente, ou o quanto foram bem sucedidos na solução do problema; e finalmente: (3) A programação genética nada diz sobre o problema da Criação, pois toda ela foi desenvolvida por seres humanos, e nós fomos criados por um evento químico extremamente fortuito nos primórdios do planeta, ou por um ser (ou seres) além de nossa compreensão atual, mas certamente não por uma máquina humana!

Da mesma forma, a magnífica capacidade computacional de nossa tecnologia nada nos diz sobre o que diabos são a inspiração e a criatividade humanas. Nossas máquinas são produto de nossa criatividade, mas não podem (ao menos por enquanto) criar elas mesmas. Tudo o que podem fazer é computar informação, seguirem receitas de bolo e, quando muito, modificar tais receitas para trazer resultados inesperados. Mas quem dita à receita somos nós. Mesmo que um dia máquinas possam nos imitar quase que a perfeição, ainda assim serão imitadores, computadores, e não seres que interpretam e reavaliam a informação de forma subjetiva, única.

Ainda assim, o mistério, a magia das soluções trazidas pelos algoritmos genéticos permanece insondável. Isso irá requerer uma análise mais profunda sobre como exatamente à mente humana cria novos conceitos e idéias a partir de outros já existentes – ou algumas vezes, aparentemente a partir do nada...

Na continuação, como a relação dos módulos da mente primitiva nos tornou humanos, demasiadamente humanos.

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Pequeno glossário de alguns termos técnicos utilizados no artigo:

Máquina de Turing – Modelo abstrato de um computador, que se restringe apenas aos aspectos lógicos do seu funcionamento (memória, estados e transições) e não à sua implementação física. Numa máquina de Turing pode-se modelar qualquer computador digital.

Cálculo lambda – O cálculo lambda pode ser considerado como uma linguagem de programação abstrata, isto é, as maneiras como funções podem ser combinadas para formar outras funções, é uma linguagem pura, sem efeitos colaterais, e sem complicações sintáticas.

Algoritmo – é explicado nos primeiros parágrafos do artigo :)

Polígono – Um polígono é uma figura geométrica plana limitada por uma linha poligonal fechada : p.e. o hexágono é um polígono de seis lados. A palavra “polígono” advém do grego e quer dizer muitos (poly) e ângulos (gon).

Mutação – Em Biologia, mutações são mudanças na sequência dos nucleotídeos do material genético de um organismo. No caso da programação dos algoritmos genéticos, as mutações são induzidas propositadamente (e não aleatoriamente) a cada nova geração.

Linha de código – Em Programação, são as linhas de código que contém as informações (código fonte) que determinam como um programa deve proceder. No caso do software que analisa sinais nervosos, todo o código está agrupado (desde a origem) em uma única linha, sendo incompreensível para a cognição dos próprios programadores (é o resultado dos algortitmos genéticos).

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Crédito das imagens: [topo] Roger Alsin (sim, pois foi ele quem criou o programa que copiou a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci); [ao longo] Andrea Ruester/Corbis

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10.8.10

Quase morte, parte 3

Continuando da parte 2

E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido – Dalai Lama

Neófito, não há morte

O reino de Hades, na mitologia grega, é o local para onde seguem os mortos. Existe um conceito bastante interessante desta travessia simbólica, que fala sobre o julgamento dos recém-chegados. Em seu entendimento mais profundo, este mito narra uma espécie de auto-análise da consciência sobre os atos da vida pregressa. Desta forma, o assassino é assombrado pela repetição incessante de seus atos criminosos, como se todas as vítimas estivessem ao seu entorno – ao mesmo tempo sendo assassinadas e amaldiçoando-o. Aquele que enviou pessoas (inocentes ou não) para a fogueira pode se encontrar ardendo no fogo juntamente com elas. Aquele que esteve na Terra julgando-se um “semi-deus”, tratando a todos como escravos, desta feita é ele mesmo um escravo, enquanto seus antigos escravos agora são seus donos, etc.

Já os bem-aventurados, os que tocaram a vida com a leveza de alma necessária, seja por serem almas simples, seja por serem seres de grande sabedoria, praticamente não se afligem nesta passagem derradeira. Acostumam-se ao “lado de lá” como quem chegou de uma longa viagem em uma nação estrangeira. Não têm o que temer nem o que duvidar, pois continuam existindo, e não se encontram em débito com as próprias consciências. Apenas continuam a tocar a vida, em uma nova dimensão da realidade. O Hades não lhes pesa a alma, pois a alma que não é em si mesma pesada, nada tem a ver com a escuridão...

Porém, este mito foi cuidadosamente erradicado pela nova ordem da igreja de Roma, aos cuidados de Constantino... Curiosamente, é exatamente o Apocalipse bíblico – um verdadeiro hino pagão – que afirma que o “Hades cristão” é quase exatamente igual ao mito; No entanto era necessário lhe dar um outro nome, e mudar o seu sistema para que ficasse verdadeiramente assustador.

Assim nasceu o Inferno, governado não por um deus secundário, mas pelo verdadeiro anticristo, o grande adversário, o supremo bode expiatório – aquele de quem era conveniente sequer citar o nome! Mas não era somente isso, agora o julgamento nas portas do Inferno era sumário: ou iremos para o jardim da Árvore da Vida, admirar ao Criador eternamente em uma aparente ociosidade sem fim; ou seremos condenados a arder eternamente em um Lago de Enxofre. Curioso imaginar como os santos do Céu poderiam estar em paz sabendo que qualquer reles mentiroso ou adúltero estaria ardendo eternamente logo abaixo de seu jardim. Tudo bem, você pode até crer que nunca mentiu ou que nunca traiu, mas será que não conhece, será que não ama alguém que cometeu tais pecados? Pois é...

Essa pequena história do Hades e do Inferno diz muito sobre a diferença entre dois conceitos fundamentais: a religião e a igreja.

A religião, etimologicamente vinda do latim re-ligare, significa um caminho de volta, de eterno retorno, de re-ligação a Deus ou ao Cosmos. De compreensão de nossa própria origem e, conseqüentemente, de união com todas as outras coisas e seres, pois que mais dia menos dia neste caminho percebemos que estamos todos conectados. Somos filhos não apenas do mesmo Pai, mas da mesma substância, aquela mesma que o grande Espinosa compreendeu como “o que não poderia criar a si mesmo”... A religião é essencialmente uma experiência subjetiva, e precisa ser assim. Não se pode querer ditar o seu rumo, pois assim como cada um tem a sua impressão digital, sua menina dos olhos e sua própria crença ou descrença, a religião precisa ser livre – ou corre o risco de se tornar dogma.

Já a igreja vem do grego ekklesia, e significa algo como “a comunidade dos escolhidos por Deus”. Em sua forma pura e não dogmática, como é muito comum encontrarmos em doutrinas orientais, a igreja é simplesmente uma comunidade de irmãos e seres afins, que se unem em torno de algum guru ou mestre espiritual, ou em torno de si mesmos, para buscar de forma conjunta, em grupo, o caminho que pertence à religião. É nesse sentido que todo eclesiástico é religioso, embora nem todo religioso pertença a alguma igreja...

Mas é na forma hierárquica, dogmática, que a igreja tem se portado como uma verdadeira seção do Hades na Terra. São nas doutrinas “editadas” por imperadores e governantes evidentemente distantes da religião que nasceram os grandes dogmas e os ultimatos mais irracionais: “ou crê em nosso Manual da Verdade Absoluta, ou estará condenado ao Inferno”; “ou está conosco, ou contra nós”; “ou marcha conosco em nossa Cruzada para converter os infiéis, ou será tu mesmo um infiel”... Nada disso faz sentido, nunca fez, nunca fará. Para qualquer verdadeiro religioso, isso é evidente. Nem Moisés nem Jesus nem Maomé jamais marchariam com exércitos para “evangelizar” seus próprios irmãos, nem tampouco afirmariam que “só será salvo aquele que se converter para este ou aquele grupo eclesiástico”.

É precisamente nessa batalha entre a liberdade e o dogma, entre o conhecimento que se busca e o que se julga já ter, entre a dúvida e a “certeza”, que muitas almas tem se esfacelado desde que o primeiro sacerdote julgou-se a única via entre os homens e Deus. Para quem é espiritualista e reencarnacionista, é até mesmo esperado e compreensível o crescimento do anti-teísmo – para aqueles que foram dizimados pela irracionalidade, não basta hoje não crer no “deus barbudo senhor dos exércitos”, é preciso contra atacá-lo, é preciso fazê-lo pagar, é preciso “evangelizar” aos outros que ele é o pior Diabo que já pisou em nossas terras...

Mas, e para aqueles que já se cansaram de alistarem-se em guerras (santas ou não), o que resta fazer? Será que ainda vale à pena tentar dialogar neste mundo polarizado? Será ainda possível fazer aos seguidores de dogmas perceberem que não se pode matar em nome de Deus? Que Deus não quis nos trazer revelações, mas quis que nós mesmos as encontrássemos em seu Reino – debaixo de uma pedra, dentre um galho de árvore? Que não faz sentido existir um rival do próprio Criador, e que o Céu e o Inferno, e inclusive o Hades, sempre estiveram inscritos em nossa própria consciência profunda?

É nesse momento que a ciência e a observação cuidadosa dos fenômenos espirituais e/ou paranormais (mas nunca sobrenaturais) pode ser o grande elo de um verdadeiro ecumenismo universal. Pois desta vez não estamos mais falando de povos no deserto que eventualmente entraram em contato direto com eventos e seres miraculosos, não estamos falando de fenômenos que se perderam em eras pregressas e hoje só podem ser vislumbrados pela fé – estamos falando de coisas que acontecem aqui e agora, todos os dias, em todos os cantos do planeta. As experiências de morte são apenas uma delas...

Sendo elas um evento conhecido tanto da ciência “oficial” quanto das alternativas, tanto de céticos e ateus quanto de espiritualistas e teístas, e que ocorrem com crianças, adultos e idosos, elas podem ser um elo, um campo de estudo em que (quase) tudo é ainda possível – onde não existe um “deus barreira” ou um dogma a ditar: “é assim!”.

Não, não é assim. Talvez seja mais ou menos como afirmam os espíritas e reencarnacionistas em geral, talvez seja uma ante-sala do purgatório ou uma mensagem dos anjos de Deus, talvez seja um sonho panteísta, talvez apenas um delírio da consciência em sua despedida rumo ao sonho sem sonhos... A única verdade é que ainda não sabemos, mas podemos saber, juntos!

A questão da Criação, do “porque existe algo e não nada”, da natureza exata de Deus, talvez esteja ainda além do nosso alcance – mas o estudo do que acontece quando morremos é um campo promissor tanto da ciência quanto da religião, tanto da neurologia quanto da parapsicologia. É algo palpável, é algo que ocorre em diversos hospitais em todo o mundo. Só não vê quem não quer, só não procura compreender quem tem medo do desconhecido, ou quem se fossilizou abraçado ao seu precioso Manual da Verdade Absoluta.

Mas para todo neófito, não há morte.

***

Crédito das imagens: Maxfield Parrish

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6.8.10

Quase morte, parte 2

Continuando da parte 1

Apenas passei ao outro mundo

Historicamente, tentativas de definir o momento exato da morte foram problemáticas. A identificação do momento da morte é importante, entre outros casos, no transplante de órgãos, porque tais órgãos precisam ser transplantados o mais rápido possível.

A morte foi anteriormente definida como parada cardíaca e respiratória mas, com o desenvolvimento da ressuscitação cardiopulmonar e desfibrilação, surgia um dilema: ou a definição de morte estava errada, ou técnicas que realmente ressuscitavam uma pessoa foram descobertas (em vários casos, respiração e pulso cardíaco podem ser restabelecidos). A primeira explicação foi aceita, e atualmente, a definição médica de morte é conhecida como morte clínica, morte cerebral ou parada cardíaca irreversível. A morte cerebral é definida pelo cessar da atividade elétrica no cérebro. Porém, alguns dos que defendem que apenas o neo-córtex do cérebro é necessário para a consciência argumentam que só a atividade elétrica do neo-córtex deve ser considerada para definir a morte. Na maioria das vezes, é usada uma definição mais conservadora de morte: a interrupção da atividade elétrica no cérebro como um todo, e não apenas no neo-córtex, é adotada, por exemplo, na "Definição Uniforme de Morte" nos EUA.

Paul é um garotinho alemão de 3 anos, em 2010 ele estava brincando perto do lago nos jardins da casa do avô no pequeno paraíso de Lychen, Brandenburgo. Paul acabou escorregando no lago e se afogando. Algumas horas depois seu avô o encontrou sem vida a margem do lago – e prontamente levou-o de helicóptero a um hospital próximo a Berlim...

Na emergência, 4 médicos lutaram para reanimá-lo, mas sabiam que era uma batalha perdida – teoricamente o tempo máximo em que uma pessoa pode ser reanimada de uma parada cardiovascular é de aproximadamente 30 minutos, as vezes um pouco mais, mas já haviam se passado mais de 3 horas! Porém, após exatas 3 horas e 18 minutos, seu coração voltou a bater, e o garoto simplesmente “voltou da morte”.

O mais interessante, entretanto, é o que o garotinho de 3 anos disse que “ficou fazendo” durante o tempo em que estava clinicamente morto: “Eu estava com a vovó Emmi no Céu. Ela disse que eu teria de voltar a Terra novamente, e que não poderia ficar com ela por muito tempo.” – Trata-se de um relato típico de uma experiência de quase morte (EQM). Ao longo dos registros recentes da medicina, temos milhares de casos assim – entre crianças, entre adultos, entre idosos, entre crentes, ateus e céticos, ricos e pobres, homens e mulheres, enfim, entre todos nós mortais...

Até muito recentemente, este fenômeno era considerado pela ciência oficial um assunto vulgar, fruto de lendas, crendice popular ou religiosidade. No entanto, pesquisas como a do Dr. Raymond Moody, principalmente após o seu livro “Vida Depois da Vida” (que gerou o filme homônimo), levaram ao início de uma nova corrente de pesquisas em todo o mundo sobre o fenômeno.

As pessoas que viveram o fenômeno relatam, geralmente, uma série de experiências comuns, tais como: um sentimento de paz interior; a sensação de flutuar acima do seu corpo; a percepção da presença de pessoas (conhecidas ou não) à sua volta; visão de 360º; ampliação de vários sentidos; a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no fundo (efeito túnel); uma “recapitulação” dos eventos de maior carga emocional em sua vida até então (às vezes como uma espécie de “cinema mental”).

Nesse espaço atemporal, a pessoa que vive a EQM percebe a presença do que a maioria descreve como um “ser de luz”, embora esta descrição possa variar conforme os arquétipos culturais, a filosofia ou a religião pessoal. O portal entre estas duas dimensões é também descrito como “fronteira entre a vida e a morte”. Por vezes, alguns pacientes que viveram esta experiência relatam que tiveram de decidir se queriam ou não regressar à vida como a conheciam.

A comunidade médica foi forçada a olhar para a morte e a sobrevivência da consciência sob uma nova perspectiva. Em seu livro “O que acontece quando morremos” (Ed. Larousse), o cientista britânico Dr. Sam Parnia traz um relato de seus estudos na área, prosseguimento direto dos estudos iniciados por Moddy – “Nós agora temos a tecnologia e o conhecimento científico para explorar essa questão definitiva”.

Parnia considera inclusive a possibilidade da consciência sobreviver e operar mesmo sem uma atividade elétrica no cérebro, enquanto o corpo se encontra clinicamente morto. No caso do garotinho alemão, numa análise cética podemos supor que ocorreu algo de muito estranho, mas que o relato do menino se tratou apenas de um sonho, de um devaneio produzido por sua mente pouco antes ou após do período em que entrou em inatividade elétrica total. Mas, e o que dizer de pacientes que relatam conversas entre os médicos durante cirurgias de anestesia total, ou mesmo durante tentativas de reanimação? E nos casos em que trazem descrições detalhadas de instrumentos cirúrgicos ou detalhes da decoração do hospital – ou ainda quando informam sobre eventos ocorridos no quarteirão em torno do hospital? Tudo isso enquanto estavam clinicamente mortos, sem atividade elétrica alguma... Esses exemplos são descritos no livro de Parnia, mas todo clínico geral certamente terá uma ou outra história estranha para contar sobre o assunto... Dá o que pensar...

Mas a pesquisa de Parnia será ainda longa, durará anos e anos, e até o momento é inconclusiva. Embora ele considere a possibilidade da consciência “flutuar” pelo ambiente em torno do corpo inerte (parte da pesquisa consiste em esconder figuras randômicas por cima de luminárias no teto dos leitos, de forma que somente alguém “lá no alto” poderia vê-las para contar a história), ele considera igualmente às explicações mais tradicionais e céticas – na verdade as considera até com maior importância, embora sua coragem para se arriscar nesse outro tipo de estudo mais heterodoxo seja louvável...

A questão central é que a morte em si é apenas uma experiência que se tem ainda em vida. Se uns tem a sorte de voltar para contar a história, outros que se foram para uma outra dimensão da realidade, ou para a aniquilação final, certamente devem ter passado por algo semelhante – muito embora nenhuma experiência seja a mesma, assim como ninguém irá descrever uma peça de teatro ou filme de cinema exatamente da mesma forma.

Há muitos casos de pessoas que retornaram das EQMs mais espiritualizadas, ou pelo menos com um ânimo renovado para viver a vida (mesmo as céticas, podem se tornar mais sensíveis e amorosas ainda que continuem não crendo em Deus ou algo do tipo). Eis que, iludidas ou não, elas parecem trazer uma quase certeza de que a morte não é mesmo o fim – e que o “lado de lá” é até mesmo muito parecido com o lado de cá. No fim, cada consciência parece estar sempre onde seus pensamentos a sintonizam.

De certa forma, não há nada de tão novo do outro lado. “Apenas passei ao outro mundo” – alguns poderão dizer, como quem saiu de um oceano para mergulhar em outro, apenas as águas estavam menos turvas. Talvez, sejamos mesmo como rádios que sintonizam pensamentos vindos de algum lugar – ocorre que, finda a energia que mantinha a recepção radiofônica, passamos a ser sintonizados em algum outro canto do Cosmos.

Não confundamos a aparência da casca da árvore com a luz que a ilumina. A casca sempre foi invisível, o que é visível é a luz!

Na continuação, porque os relatos das experiências de morte são importantes para uma visão ecumênica das religiões (e até mesmo das doutrinas agnósticas)...

***

» Veja também este vídeo onde o Dr. Sam Parnia fala sobre sua pesquisa e o problema Mente-Corpo (em inglês)

Crédito das imagens: [topo] Divulgação/Bild.com (o pequeno Paul); [ao longo] Wikipedia (Parte de quadro famoso de Hieronymus Bosch que dá força a teoria de que relatos de EQMs são encontrados mesmo séculos atrás – Bosch viveu na Renascença).

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3.8.10

Quase morte, parte 1

A morte é para alguns o cessar da consciência, para outros uma passagem para outra dimensão da realidade, e para muitos o fim da vida orgânica.

O fim de todos os milagres

Em seu conto “O Imortal”, o mestre das palavras Jorge Luis Borges narra o encontro ficcional com um povo de seres imortais:

“A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais.”

Certamente a morte é um paradoxo – muitos de nós a abominam, e fogem do olhar direto ao assunto como se ele fosse uma medusa prestes a lhes petrificar; entretanto, é impossível estar vivo sem estar morrendo. A morte dos organismos humanos é uma questão de tempo, assim como a vida é também uma questão de viver no tempo que nos é dado.

Biologicamente falando, a morte é um processo que perdura por toda nossa vida. Muitas células individuais vivem por apenas pouco tempo e a maior parte das células de um organismo são continuamente substituídas por novas células. Ao fim de certo número de divisões (mortes) celulares, não é mais possível ao nosso organismo substituí-las, e então chegamos ao envelhecimento avançado e eventualmente a falência de algum órgão vital para a atividade de nosso cérebro – eis a morte da matéria. Se tudo o que somos é matéria, este é o fim, o sonho sem volta, o sonho sem sonho algum...

Entretanto, estranho de se pensar, se tudo o que somos é matéria, o que diabos a consciência faz para que possamos permanecer quase sempre os mesmos, enquanto praticamente todas as células de nosso corpo morrem e se renovam continuamente ao longo da vida? Obviamente que para respondermos essa pergunta, falta-nos um maior entendimento do que forma o processo de consciência.

Até lá, se nos atermos somente ao que a ciência já é capaz de explicar, podemos apenas afirmar que a consciência é como uma lâmpada que se mantém em funcionamento enquanto o corpo é capaz de lhe suprir com energia. Através de reações químicas nos mantemos conscientes e existe este baile imensurável e misterioso de eletricidade pelo cérebro... Apesar de já sabermos aproximadamente sobre os comandos mais simples, como mover um braço ou proteger os olhos, falta-nos à compreensão do que quer que em nossa consciência determina as decisões ou respostas morais, interpretativas, poéticas, espirituais...

Para o materialismo nós somos mais ou menos como um rádio que gera as suas própria ondas. Se o rádio para de funcionar, as ondas também cessam.

Para muitos esta já é uma explicação suficiente. Estão certos de que a consciência é apenas o resultado do agitar de partículas pelo cérebro, e que esta não pode existir sem ele... Apesar de nunca termos achado a verdadeira “usina” de todos esses pensamentos que os homens tiveram desde a pré-história, para muitos basta saber que ele se origina no cérebro e que não pode perdurar sem ele. Segundo o filósofo Daniel Dennet, a própria subjetividade é uma ilusão – tudo o que fazemos é pré-determinado por esse misterioso agitar de partículas no cérebro. Não existe, em realidade, algo como vontade ou responsabilidade. Tudo que existe é o baile da matéria, a dança da poeira de estrelas longínquas que nos parece com algo que chamamos de vida. Mas esta é apenas uma doce ilusão com os dias já contados desde nosso nascimento.

Para quem é realmente materialista, fica muito complicado discordar de Dennet...

Para quem é, no mínimo, agnóstico em relação ao assunto, ficam os caminhos abertos para a investigação, as ondas a serem captadas e decodificadas...

Carl Sagan dizia que viver na memória e nos pensamentos daqueles que nos admiram e nos amam é efetivamente viver para sempre. Sagan tinha razão, ainda que a morte seja o sonho sem sonho, ainda viveremos na memória dos que sentirão saudades, e mesmo que a raça humana se extinga ou o sol cesse de nos iluminar, nossos átomos – aqueles mesmos que emprestamos das estrelas distantes – ainda vão flutuar por esse Cosmos infinito por muito, muito tempo.

E, se nos parece algo inútil adquirir conhecimento e experiência de vida, se no fim temos quem sabe pouco mais de um século (com sorte) para tentar chegar a alguma conclusão, e sabemos perfeitamente que não chegaremos a nenhuma em definitivo; ao menos nos resta o consolo de perceber que o que importa é o caminho, o meio, o trilhar, e não o fim. O fim será sempre a morte, é importante nos atermos a vida – esta não cessará, mesmo que não estejamos mais aqui para admirar sua festa.

Se a vida é um conjunto de milagres, a morte é o fim de todos os milagres.

Porém, assim como o dia insiste em suceder a noite, assim como a morte é parte vital do ciclo de espécies que evoluíram para possibilitar que o homo sapiens despertasse do longo sono da animalidade inconsciente, é possível que o sono final não seja uma noite destituída de sonhos... Em realidade, não são apenas as religiões que falam em vida após a morte. A ciência também parece ter algo a nos dizer – e quem traz as informações são precisamente aqueles que experimentaram a morte, ou a quase morte.

Na seqüência, a experiência da morte sob o olhar atento de um cientista de certa curiosidade...

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Crédito da imagem: Wikipedia ("Tudo é Vaidade" por C. Allan Gilbert. A vida, a morte e o significado da existência estão interligados).

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21.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 4

Continuando da parte 3

O caminho do pólen

Se há algo de comum em todas as doutrinas religiosas, é a idéia do retorno, de re-conexão com Deus, o Cosmos, um Éden perdido nos confins de nossas origens... Alguns de nós podem sentir a fornalha cósmica que arde em nosso ser, e vislumbram a perfeição na totalidade da obra divina, em eterna vibração, em eterna construção, em belas simetrias e assimetrias, em leis imutáveis... Entretanto, onde estará o Éden. Onde se encontra o Reino de Deus?

Esse sentimento, entretanto, não é exclusividade dos religiosos. Aqueles que não conheceram pouca ciência também o expressam. Carl Sagan, apesar de ter sido agnóstico, foi uma dos autores com maior espiritualidade expressa e evidente em seus textos:

"Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo."

Sim, existem seres que não conheceram pouca religião, e buscam o Reino de Deus em todas as formas e todos os campos, pois que sabem que em nenhum lugar estaremos nalguma dia fora dele... Mas decerto também existem seres que não conheceram pouca ciência, e O buscam nos limites dos átomos e nas ondas luminosas mais antigas do Cosmos. Buscam-No mesmo sem acreditar Nele? Que seja – como julgar? Deixem que busquem o próprio Cosmos!

Mas então, como se religar? Como retornar ao Éden perdido? Talvez o primeiro passo seja reconhecer que o julgamento da perfeição, a reconciliação com tal paradoxo, esteja ainda além de nossa compreensão atual...

Existe um conto espiritualista, de autoria desconhecida, que fala da importância da espontaneidade:

“Agora, eu lhe pergunto, quão longe você acha que uma flor chegaria se de manhã ela virasse sua face para o céu e dissesse:

"Eu exijo o Sol. E agora eu preciso de chuva. Então eu a exijo. E exijo que as abelhas venham e tomem meu pólen. Eu exijo, portanto, que o Sol deva brilhar por certo número de horas, e que a chuva deva verter-se por certo número de horas... E que as abelhas venham – as abelhas A, B, C, D e E, pois não aceito que nenhuma outra abelha venha.

Eu exijo que a disciplina opere, e que o solo deva seguir meu comando. Mas eu não permito ao solo qualquer espontaneidade própria. E não permito ao Sol nenhuma espontaneidade própria. E não concordo em que o Sol saiba o que está fazendo. E exijo que todas estas coisas sigam minha idéia de disciplina"

E quem, eu lhe pergunto, iria ouvir? Pois, na espontaneidade milagrosa do Sol, há uma disciplina que lhe escapa totalmente, e um conhecimento além de qualquer um que você conheça.

E na espontaneidade da atuação das abelhas, de flor em flor, colhendo ao pólen mesmo sem saber, há uma disciplina além de qualquer uma que você conheça, e leis que seguem o conhecimento delas, e contentamento que está além de seu comando.

Pois a verdadeira disciplina, veja, é encontrada apenas na espontaneidade. E a espontaneidade conhece sua própria ordem.”

Viver o aqui e agora – esta é a condição para que possamos visualizar os portais do Éden... Mas como adentrá-lo finalmente?

Epicteto e os estóicos diziam que não devemos nos preocupar com aquilo que não nos é dado escolher. No entanto, ao que nos é dado escolher, devemos nos portar da melhor forma possível. Devemos reconhecer nossa imperfeição, mas devemos também ter sempre em nossos horizontes a perfeição do “vir a ser”...

E nesse momento, admirando a perfeição estendida pelo horizonte, poderemos dar os primeiros passos no caminho do pólen – apenas um dentre tantos outros cantos sagrados dos indígenas (ou de qualquer outro povo) que servirá para nos guiar nessa trilha:

Na casa da vida eu me aventuro
No caminho do pólen
Com um deus enevoado eu me aventuro
No caminho do pólen
Para uma dimensão sagrada
Com um deus à frente eu me aventuro
E um deus atrás de mim
Na casa da vida eu me aventuro
No caminho do pólen

Ah! A beleza à minha frente
A beleza atrás de mim
A beleza a minha direita, e a minha esquerda
A beleza acima e a beleza abaixo
Eu estou no caminho do pólen!

O Éden não foi, nem será, mas o Éden é este momento – o único momento que sempre existiu. A eternidade irradia-se por todos os cantos do espaço e do tempo, todos os pontos estão igualados – eis a bela simetria que a ciência vislumbra...

Mas o caminho para o centro, para a essência, para a divina flor que espalhou todo esse pólen pelo infinito – este está e sempre esteve em nossa própria consciência. Quando adentramos esse caminho, pouco importa quanto tempo resta para chegar ao céu, pois que compreendemos que a perfeição se encontra no caminhar, e não no chegar. Eis que mesmo este paradoxo pode ser reconciliado. Eis que todas essas meias-verdades apontam para uma única verdade – que infelizmente não pode ser descrita por cascas de sentimento...

É preciso se aventurar no caminho!

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Crédito das imagens: [topo] Lauren Bishop, [ao longo] Joel Nakamura (ilustração baseada no mito do caminho do pólen, dos índios navajo)

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20.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 3

Continuando da parte 2

Em busca da Teoria do Tudo

Tenho um amigo matemático – Guilherme Tomishiyo – que ousa afirmar que a matemática é mais arte do que ciência. Vejamos seu pensamento acerca do assunto:

“O motivo pra mim da matemática não ser uma ciência, ao menos uma ciência natural – que estuda a natureza –, é que ela não parte de observações da mesma.

Um matemático não analisa um aspecto do mundo natural e tenta traduzir aquilo. Ele parte de axiomas e constrói daí um sistema lógico. Eu diria que ela é o estudo dos padrões. Quem estuda matemática sabe que números são apenas uma parte, a grande maioria dela não está nem um pouco relacionada com isso.

Uma coisa que eu acho estupidamente bela na matemática é o seu aspecto ontológico. Daqui a mil anos, podemos descobrir que Einstein esteve errado, e a sua teoria inteira não passava de um caso particular de uma teoria mais geral (como foi com Newton), mas daqui a 10 mil anos, o Teorema de Pitágoras continuará sendo verdadeiro, assim como todos os teoremas já demonstrados até o momento.

O teor artístico da matemática é inegável. A criatividade – mesmo para conjecturar alguns fatores – é sublime.”

Por muitos e muitos anos a física experimental esteve sempre à frente da física teórica – primeiro a natureza era observada, experimentada, e somente após os cientistas tentavam explicar o mecanismo natural através de suas equações e teorias... Ultimamente, entretanto, isto se inverteu...

Desde a formulação das teorias da relatividade e da mecânica quântica, os físicos vêm tentando unir todas as forças da natureza em uma espécie de Teoria do Tudo. Assim como Maxwell conseguiu unificar a eletricidade e o magnetismo em uma elegante matemática, Einstein e muitos outros gênios científicos vêm tentando unir o eletromagnetismo as forças nucleares (forte e fraca) e a gravidade. Até agora, a única teoria que obteve sucesso considerável foi à teoria das supercordas ou Teoria-M (não me pergunte sobre o que significa o “M”).

Essa teoria postula que os elementos mais fundamentais da matéria não são pontos e/ou partículas, e sim cordas muito, muito pequenas, em eterna vibração... Da amplitude de suas vibrações partículas de maior ou menor massa são criadas, e o universo se trona uma elegante sinfonia cósmica.

O grande problema da Teoria-M, entretanto, é que ela não pode ser testada! Não dispomos da tecnologia necessária para chegar sequer próximo da energia necessária para detectarmos uma supercorda (ou p-brana). Entretanto, físicos de toda a parte do mundo a estudam a décadas, simplesmente porque sua matemática lhes parece bela e simétrica, com a vantagem de que a gravidade se adequou as suas equações desde os primeiros esboços da teoria. Mas, seria esse sentimento de beleza suficiente para garantir a veracidade de uma teoria?

Brian Greene, um dos grandes defensores da Teoria-M, admite que a simetria da natureza atraí certos cientistas:

“Os cientistas descrevem duas propriedades das leis físicas - o fato de que elas não dependem da ocasião (tempo) ou do lugar (espaço) em que foram invocadas - como simetrias da natureza. Com isso eles querem referir-se ao fato de que a natureza trata todos os momentos do tempo e todos os lugares do espaço de forma idêntica - simétrica -, fazendo com que as mesmas leis estejam em operação em todas as partes. O efeito causado por essas simetrias é o mesmo que exercem na música e na arte em geral - o de uma profunda satisfação; eles revelam ordem e coerência no funcionamento da natureza. A elegância, a riqueza, a complexidade e a diversidade dos fenômenos naturais que decorrem de um conjunto simples de leis universais é parte integrante do que os cientistas querem dizer quando empregam o termo "beleza".”

Já o físico brasileiro Marcelo Gleiser recentemente passou a criticar ferozmente esse tipo de “utopia estética” na ciência:

“A noção de que a natureza é perfeita e pode ser decifrada pela aplicação sistemática do método reducionista precisa ser abolida. Muito mais de acordo com as descobertas da ciência moderna é que devemos adotar uma abordagem múltipla, e que junto ao reducionismo precisamos utilizar outros métodos para lidar com sistemas mais complexos. Claro, tudo ainda dentro dos parâmetros das ciências naturais, mas aceitando que a natureza é imperfeita e que a ordem que tanto procuramos é, na verdade, uma expressão da ordem que buscamos em nós mesmos.
 
É bom lembrar que a ciência cria modelos que descrevem a realidade; esses modelos não são a realidade, só nossas representações dela. As "verdades" que tanto admiramos são aproximações do que de fato ocorre. As simetrias jamais são exatas. O surpreendente na natureza não é a sua perfeição, mas o fato de a matéria, após bilhões de anos, ter evoluído a ponto de criar entidades capazes de se questionarem sobre a sua existência.”

Espinosa concluiu que o conceito de perfeição só pode ser aplicado às obras humanas, pois que essas podem já ter terminado... Como os quadros e as esculturas dos grandes artistas da Renascença. Talvez o mesmo possa ser dito dos teoremas matemáticos – que são perfeitos porque já foram terminados... Mas, e o que isso tem a ver com a natureza, com a imensidão cósmica a nossa volta?

Eu disse que muita ciência e/ou muita religião nos aproximam e desvelam a Deus... Mas não seria então um “deus imperfeito”? Um “deus ausente” que irradiou o Cosmos à partir de si mesmo somente para deixar-nos a mercê desse eterno baile de partículas e poeira? Existe algum sentido em todo esse infinito a nossa volta? Onde estará à perfeição prometida pelos profetas, o céu que aguardamos para descansar?

Isso nós descobriremos a seguir, seguindo pelo caminho do pólen (dentre outros)...

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Crédito da imagem: mib_hr

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