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7.1.25

Para estar com nosso Amigo

Há um bebê em seu carrinho
passando do outro lado da rua.
Ele me observa, e me pego indagando
o que será que vê:
uma parte dele, com pernas, braços,
cabeça e coração;
uma parte dele
a olhar de volta.

Sei que também já fui assim,
recém-nascido na Criação,
consciente de tudo,
inconsciente de mim.
Sei que também já fui assim,
anjo, santo, inocente:
haverá Céu maior que este?

Por que será, então, que temos de despencar
cá abaixo?
Por que será que temos de provar
do chumbo do mundo?
Seria essa toda a história:
cair e, desde ali, lutar para retornar?

Ou não seria justamente neste mundo
que deveríamos achar o Céu?
Não na vida que nos mandam viver,
não no dinheiro que nos mandam ganhar,
não nas quinquilharias que nos mandam comprar,
mas na essência da vida em si,
esta que jamais foi guiada por mandamentos,
por promessas de ganhos eternos
ou pelo medo de fogaréus.

Sim, na essência de tudo,
no encantamento que sentimos
em simplesmente observar
a brisa passar, as folhas farfalharem,
as formigas marcharem, pé ante pé;
no que quer se dê em nosso coração
quando percebemos que há partes de nós
que vivem, sempre, nos amigos e nas amigas
que amamos.

Para mim o Céu não poderia ser uma colônia de férias,
nem qualquer lugar específico na Criação,
mas antes um hometruck, um trem, um dirigível,
o que quer que possa levar a mim,
a minhas amigas e meus amigos
por todos os cantos e paragens,
por todos os céus e infernos,
por todas as partes de Deus.

E eu lhe digo, meu coleguinha de viajem:
não é preciso voltar a caber neste carrinho;
não é preciso morrer, nem renascer,
para estar com nosso Amigo.


raph'25

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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24.4.24

Quando foi que nos esquecemos de tudo isso?

Esses olhos atentos,
sedentos de ver como tudo é visto
a primeira vez:
quando foi
que os perdemos?

Dizem que as crianças viam partes de si
no todo que há lá fora.
Freud considerou que todo misticismo
vinha daí, que era algo infantil.
Ora, há grandes pensadores que se esqueceram,
evidentemente, da grandeza dos pequeninos.

O que, afinal, eles viam ao seu redor?
Não partes de si mesmos, infantil seria crer nisso,
mas partes de tudo o que existe:
há profundo misticismo em enxergar a Alma
em todas as coisas.

Em baldes de areia com suas joaninhas escavadoras.
Em poças d’água e potes de ouro no final dos arco-íris.
Em fadas e duendes, dinossauros e dragões;
em magias que existem, magias cantadas,
magias faz de conta:
quando foi que nos esquecemos de tudo isso?
Quando foi, afinal, que deixamos nossa alma
trancada neste casulo
de “tem de ser assim, porque me disseram”?

Toda criança é um ser iluminado
que não sabe, não se importa com essa historinha
de “temos de buscar a iluminação”...

E todo iluminado tão somente
voltou sua lanterna para dentro,
viu, e se calou.

(não há nada que possa ser dito sobre isso.)


raph'24

***

Obs.: Freud fala brevemente sobre o assunto em O mal-estar na civilização.

Crédito da imagem: Jeremiah Lawrence 

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17.10.23

Sofia

Quando a luz precisa se manifestar
não há nada que se interponha em seu caminho:
ai de quem tentar!
Mas benditos são os que nela se banham
por inteiro.

Por esse dias houve aqui
um encontro de almas que,
se não eram afins,
se não se viam afins,
foram afinadas pelo destino.
É isso o que a luz faz!

Por esses dias
vimos mulheres que se põe firmes, de pé,
questionando livros sagrados,
e também vimos homens
que se permitem chorar.

Por esse dias
vimos quem recitasse a Tábua de Esmeralda de cor(ação),
e quem nos transportasse de volta
à época da Arte das Musas.

Por esses dias
vimos que a via esquerda também pode ser mística,
e a direita, rigorosa.

Por esses dias a luz veio e refletiu em todo lugar,
em toda profundeza,
em bruxos e romanis,
em magos e monjas,
em poetas e médiuns,
em vivos e mortos.

Por esse dias
vimos que a Revolução do Haiti
é aqui: no coração;
e que dia virá em que faremos tudo o que os iluminados fizeram
e muito mais;
para que o Céu se assente neste mundo
e não no próximo.

Bendita seja Sofia.
Bendita é esta luz
que foi criada
para se refletir.
Bendita é a alma
que sabe que é espelho.


raph'23

(inspirado em experiências do Simpósio Sofia)

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Crédito da imagem: Google Image Search

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20.9.23

O pão que um demônio amassou

Diz o Padeiro como fazer pão:
jogue a farinha numa vasilha
e vá adicionando água aos poucos;
então trabalhe a massa com as mãos
acariciando-a enquanto ainda está mole.

Aqui o ingrediente mais essencial
é o tempo!

Dizem que Deus também nos fez assim:
nos pegou da terra mole
e acariciou, acariciou, acariciou,
até que surgissem homens e mulheres,
cada um único na Criação.

Mas faltou dizer em que tempo
isso se deu; e também responder:
“E Deus por acaso tem mão?”

Seja como for, não vale ter pressa
na feitura do pão. Pois que, ao fim,
é esta massa que vai ao forno
arder, arder e arder,
até dourar.

Após dourado, cada pão é o que é,
e devemos agradecer pelo pão de cada dia,
seja ele da massa que for,
ou mesmo o pão
que um demônio amassou.

Pois se saímos da terra mole inacabados,
há que se ter alguém para nos socar,
e socar, e socar, e socar,
até que fiquemos assim,
bem amassados,
prontos para ir ao forno.

E daí, quem sabe, possamos concordar
com o Padeiro: o tempo é, de fato,
absolutamente essencial
para que cada pão-alma
seja dourado.


raph'23

(inspirado por trecho da peça Seco, do grupo teatral Fulano di Tal, em Campo Grande/MS)

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Crédito da imagem: Annie Spratt/Unsplash

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1.7.22

Astros dançarinos

Vem querida, vamos dançar novamente.
Vem, me dê a mão, giremos assim
devagarinho
em torno deste amor.

Nesse giro meus pensamentos
são como um batalhão de abelhas
prontas a adentrar a Terra do Mel:
bem na pupila dos seus olhos.

Nessa dança meus instintos
são como aves dinossauros
ávidas por bebericar cada uma
de suas infindas flores.

Dancemos então;
dancemos no ritmo da música
do silêncio primaveril das matas.

Abaixo de nós, o que há de mais sagrado;
em nosso entorno, o fluir do tempo das montanhas,
a eternidade sussurrada pelas brisas.

Onde estaremos a girar?
Que é esta existência, afinal?
O que começou tudo isso,
até onde vai esta dança?

O amor, este amor que nos abraça e abarca,
que nos preenche e acalenta:
o amor não é uma resposta para nossas questões;
o amor é uma experiência.

Vivamos então, e dancemos,
até que já não exista mais nada
além do cintilar dos sóis mais longínquos.

Eu e você: astros dançarinos do amor
da humanidade inteira.


raph'22

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Crédito da imagem: Ahmad Odeh/Unsplash

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3.2.22

Tempo cíclico

Através de você meu tempo bagunçou:
já não se trata de uma sucessão de olimpíadas e copas do mundo,
mas algo que circunda a eternidade
e dança e sorri
e vai e volta
e é aqui e agora,
e lá, e acolá.

Quando você veio e o segurei nos braços
como uma pequenina parte de minh’alma,
eu logo o entreguei à enfermeira;
e, quando estive novamente só,
me ajoelhei no chão e agradeci;
não sei a quem ou ao quê:
uma oração que se faz sem dizer nada,
algo que simplesmente irrompe.
Se pudesse colocar em palavras,
diria assim:
“Muito obrigado, ó você que veio
da Mansão do Amanhã!”

Através de você eu me vi na passagem do meio,
não como se pudesse haver antes, ou depois,
mas antes como alguém que já não é um homem:
é pai e é filho
ao mesmo tempo,
tal um espírito santo
que existe para sempre.

Quando você cresceu e fui lhe deixar
em seu primeiro dia na escola,
já não sabia se era você que conhecia sua nova turma
ou eu que estava lá de volta,
na doce timidez dos primeiros encontros,
na revoada da alma
que desvela o mundo
(outra vez).

Através de você eu cumpri o destino
dos descendentes do Kalahari.
Quantos dias de caça,
quantos reinos e quantas noitinhas sob as estrelas
de lá até aqui?

Ó meu filho, você também é filho
das histórias dos primeiros xamãs
e do fogo sagrado
das primeiras fogueiras.

Isso não acaba nunca!


raph'22

***

Crédito da imagem: CHUTTERSNAP/Unsplash

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24.8.21

Amor sob vontade

Há uma praga lá fora, pelas ruas.
Um inimigo que mata sem ser visto;
e, como tudo o que é invisível,
está aberto à interpretações:
nesse momento, teólogos e cientistas debatem
se tal mal foi obra de Deus, do acaso ou do homem.
Entra um pensador na sala e pergunta:
“Mas Deus, o acaso e o homem não são a mesma coisa?”

Fato é que estamos em quarentena,
isolados uns dos outros. De modo que se antes
nós perambulávamos sem rumo pelas vielas e estradas,
agora estamos sem rumo dentro de quatro paredes:
há uma grande diferença!

Assim, tanto tempo dentro de casa, dentro de nós,
quem sabe a roda da carroça enfim deixe de perseguir o boi,
e passe a rodar pelos velhos sulcos
deixados no Caminho.
Quem sabe nesses dias e noites tenhamos a preciosa chance
de desvelar o homem e a mulher e tudo o mais.
Nada disso precisa rimar,
a única rima necessária
é a da alma com a consciência dela mesma.

Então vemos uma foto nossa na parede,
e notamos que já não há nada em comum entre a antiga imagem
e o que somos hoje: nada, exceto pelo fato
de serem a mesma pessoa.
E, se morremos tantas vezes em vida,
por que imaginar a morte como um fim?
Por que temer que o sol se ponha para nunca mais nascer?
Faz algum sentido,
se toda aquela antiga vida, em todo caso,
não passava de um poema de rimas forçadas?

Há uma praga lá fora, pelas ruas,
mas o único inimigo sempre esteve aqui,
e ele é um muro que construímos à duras penas:
um muro entre o que pode ser nomeado
e o que simplesmente é.
Desde então, cada movimento da vida é dedicado
a derrubar paredes, romper casulos:
um tijolo, um pensamento de cada vez.
Até que não reste em nós nada além de amor,
amor sob vontade.


raph'21

***

Crédito da imagem: Sasha Freemind/Unsplash

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3.8.20

Trinta e nove

Lá fora corre um vírus.

Enquanto uns dizem ser boato,
outros discutem a sua nacionalidade
em debates sem fim.

(Mas tudo é secundário
quando seu filho tem
trinta e nove de febre.)

Lá fora corre um vírus;
e há gente querendo morrer
isolada e sem ar,
desde que tomando o remédio
anunciado como salvação;
e há também gente
que não se importa em zarpar
agonizando sem dignidade,
desde que com o emprego garantido,
e o salário para pagar o cartão.

(Mas tudo é pequeno
quando seu bebê tem
trinta e nove de febre.)

Lá fora corre um vírus;
e nas ruas há embates
acerca da liberdade de se morrer
com mais eficiência:
sem máscara na multidão;
e há também homens de bem
e justiceiros sociais
denunciando a hipocrisia
uns dos outros:
ambos têm toda razão.

(Mesmo assim, não interessa,
o meu filho está com trinta e nove de febre,
e eu tenho mais o que fazer
aqui dentro.)

Lá fora corre um vírus
que se alimenta de ignorância e desunião,
de messianismo e desinformação,
mas o que realmente me importa, queriam me desculpar,
é que a febre do meu bebê
já passou.

Haja coração!


raph'20

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Crédito da imagem: Getty Images/Google Image Search

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17.2.20

Tudo o que há

Uma névoa sem forma
flutuava num espaço sem espaço;
e, no tempo do sonho
fez-se a luz, e lá havia alguém:
“Isto sou Eu”

Esta foi a primeira reflexão.

Então Eu tive medo de estar só
por toda eternidade;
e, no sonho do tempo
aglutinou-se a escuridão, é lá estava Eu:
“Não posso, não posso ser somente um!”

Esta foi a primeira dor.

E assim, Eu chorei,
e tenho chorado desde então;
mas, quando vi que de minhas lágrimas
nascia uma espiral de seres
e tempo e espaço e energia e matéria,
passei a contemplar aquilo que Eu mesmo
havia imaginado:
“Vida, vida e mais vida, é o que Eu desejo!”

Esta foi a primeira iluminação.

Eis que da pedra ao arcanjo,
do mais Abaixo ao mais Alto,
tudo o que há sou Eu,
tudo o que há é este momento
em que todas as minhas lágrimas perdidas
retornam como cocriadoras –
a sua vontade já é a nossa Vontade.

Mas, quando Eu decidir cerrar novamente os olhos,
tudo isso terá fim.


raph'20

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» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Martin Pugh

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25.6.19

A chuva

Há pouco você via pela primeira vez a chuva
a cair do mesmo céu de onde veio;
aguando o mundo indistintamente, sem julgar
qual solo cá abaixo é mais ou menos digno.

Olhos de pequenino a fitar a imensidão:
me pergunto em quantas vidas nossas almas
viram a chuva desaguar;
quantas vindas e quantas criaturas foram necessárias,
quantas caçadas e quantos amores,
para que cá estivéssemos,
pai e filho
a fitar as gotas que o ar chora.

No entanto nenhuma chuva é igual
a chuva que passou,
e nenhuma gota, e nenhum alma, e nenhuma era
são as mesmas: apenas se assemelham.
Pois que em todos os tempos
houve pais e filhos
que se entreolham e reconhecem
a primeira vez.

Penso nas constelações de neurônios
que já estão aí dentro,
erigindo nova consciência, uma nova vida,
um novo "eu":
eu, seu filho; eu, seu pai.
A verdade é que entre eu e você
há somente poeira de estrelas
e gotas de uma eterna e peculiar
chuva de almas.

Nós dois aqui, em plena tardinha;
a chuva desaguou, o sol se foi,
nossas irmãs já bailam cintilantes
pela noite sem fim.
Você chora, tem fome...
e, enquanto mamãe não chega
eu lhe embalo em meu colo,
coração a coração:
por um momento, observando seus olhos entreabertos,
sinto estar em meus braços
toda a humanidade.


raph'19

***

Crédito da imagem: Cole Keister/unsplash

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