Pular para conteúdo
10.3.17

As filósofas

É estranho como o termo “filósofa” é tão pouco visto por aí. No entanto, se as grandes pensadoras da história humana pouco são mencionas ou lembradas pelos historiadores da filosofia, isto não significa que elas não existiram, significa apenas que aqueles que escreveram a história as ignoravam, ou não acreditavam que tenham sido “filósofas de verdade”.

No entanto, o próprio termo “filosofia” (amor [philos] ao saber [sophia]) surgiu da doutrina de uma filósofa, e assim é bem provável que tenhamos tido a primeira filósofa antes do primeiro filósofo.

Temistocleia foi uma eminente sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos no século 6 a.C. (portanto cerca de dois séculos antes da famosa questão feita a outra pitonisa, que daria o pontapé inicial ao caminho de Sócrates na filosofia). Em sua época, Delfos era “o umbigo do mundo” não somente por conta do mito [1], mas porque se tratava de uma das principais cidades da Antiguidade e, ao centro dela, o oráculo mais importante era justamente aquele onde Temistocleia “batia ponto”.

E isto é quase tudo o que sabemos sobre ela, além é claro de provavelmente ter sido a mestra de Pitágoras, o “pai da filosofia”. A tradição atribui a ele a criação da palavra. Conforme essa tradição, Pitágoras teria criado o termo para modestamente ressaltar que a sabedoria plena e perfeita seria atributo apenas dos deuses; os homens, no entanto, poderiam venerá-la e amá-la na qualidade de filósofos.

A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador do século III d.C. Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

Há historiadores que afirmam que Temistocleia pode ter sido irmã de Pitágoras, mas embora isso seja improvável (Pitágoras era nativo da ilha de Samos, e não do continente), provavelmente torna o papel dela no pensamento pitagórico ainda mais primordial, e não o contrário. É provável que parte disso possa ter a ver com as lendas de que Pitágoras era filho do próprio deus Apolo (e assim, como sacerdotisa do deus, ela seria “sua irmã”), mas é preciso lembrar que na época em que ambos viveram, Temistocleia era incomparavelmente mais famosa e importante do que Pitágoras, pois o cargo de sacerdotisa do grande Oráculo de Delfos lhe conferia uma autoridade religiosa hoje comparável, quem sabe, a um dos cardeais mais eminentes do catolicismo.

Depois, como tantas outras sábias da Antiguidade, foi sendo esquecida, até desaparecer quase que por completo dos registros históricos. Mas, se não temos registro preciso do quanto ela influenciou Pitágoras, ao menos sabemos que “o pai da filosofia” teve por certo algumas discípulas, e não via nenhum problema em ensinar filosofia às mulheres.

Uma delas foi Teano, que segundo alguns relatos pode ter sido casada com seu professor. Num dos fragmentos sobreviventes de suas obras, temos um belo conselho, que foi seguido por suas três filhas, Agnotis, Damo e Mia, todas filósofas como a mãe: “Mais vale ser um cavalo louco em disparada do que uma mulher que não reflete” [2].

Quase um milênio depois, no século IV d.C., nascia em Alexandria uma das mulheres mais sábias da história, da qual felizmente nos restaram muito mais relatos. Era assim que Sinésio de Cirene, um dos seus discípulos mais fieis, que se tornou bispo da igreja cristã em seus primórdios, o “bispo filósofo”, se referia a ela em suas cartas:

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser. [...] Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino.

A “filósofa” em questão era Hipátia de Alexandria, que na época infelizmente não tinha condições de responder seu pupilo, que residia noutra cidade, devido a questões políticas que eventualmente a levariam a ser assassinada [3].

Um historiador de sua época chamado Sócrates Escolástico assim a descreveu na obra Historia ecclesiastica:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática. Assim, a exemplo de Temistocleia, Hipátia foi mais uma filósofa com muito mais conexões com a espiritualidade do que pode julgar a “vã filosofia”, ou a filosofia como é entendida por boa parte da Academia em nossa época de grande esquecimento.

E essas são apenas dois exemplos de filósofas históricas que certamente não mereceriam serem ignoradas em quaisquer tratados do pensamento humano. Poderíamos citar tantas outras, como Safo de Lesbos, Aspásia de Mileto, Hildegarda de Bingen, Teresa de Ávila, Rabia Basri, Helena Blavatsky, Simone de Beauvoir etc. [5], mas o objetivo deste singelo artigo foi somente atiçar a sua curiosidade. Agora, o resto é com você... google it!

***

[1] A cidade de Delfos recebeu esta alcunha graças ao mito que narra a busca de Zeus pelo ponto médio da Terra. No intuito de delimitar esse local, Zeus enviou duas águias de extremos opostos do mundo, uma voando em direção à outra. Elas se encontraram em Delfos, designando a cidade como centro do mundo. O ponto de encontro das águias foi demarcado com uma pedra oval, o ônfalo (umbigo, em grego).

[2] Citado em A Odisseia da Filosofia, por José Francisco Botelho (Ed. Abril).

[3] Esta história triste está descrita em nosso artigo Hipátia e Sinésio.

[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.

[5] Recomendamos a leitura de Filósofas: a presença das mulheres na filosofia, organizado por Juliana Pacheco (Ed. Fi). Pode ser baixado em PDF gratuitamente, aqui. Veja também a lista de mulheres filósofas na Wikipédia e a lista de vídeos sobre as mulheres gnósticas no canal da Sociedade Gnóstica Internacional.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

Marcadores: , , , , , , , , ,

11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

17.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 204, 205, e 208 a 210. Os comentários ao final são meus.

Pitágoras é um homem universal, que abrange de fato muitas coisas heterogêneas: a doutrina dos números e os elementos da Geometria, os primeiros fundamentos da acústica, a teoria da música e o conhecimento dos tempos dos movimentos das estrelas; a partir daí pode-se atribuir também a Pitágoras o conhecimento da filosofia natural milesiana. Além disso, e sem qualquer conexão com tudo aquilo, a doutrina da transmigração de almas, vinculada à seita religiosa dos Órficos, está vinculada com certeza à pessoa de Pitágoras, e Heródoto considera-a típica dos mais antigos pitagóricos [1]. Relacionam-se com ela os preceitos morais atribuídos ao fundador. Heródoto afirma o caráter religioso da comunidade que ele fundou. Assim subsistiu na Itália meridional durante mais de um século, até a sua destruição, por motivos políticos, nos fins do séc. V.

A concepção pitagórica do número como princípio das coisas está prefigurada na simetria geométrica rigorosa do cosmos, de Anaximandro. Como concepção puramente aritmética, é incompreensível [2]. Segundo a tradição, deve a sua origem à descoberta de uma nova legalidade da natureza, a da relação entre o número de vibrações e o comprimento das cordas da lira. Mas, para estender o domínio do número a todo o cosmos e à ordem da vida humana, foi necessária uma audaciosa generalização das observações, baseada, sem dúvida alguma, na simbologia matemática da filosofia milesiana da natureza.

A doutrina pitagórica nada tem a ver com a ciência matemática natural, no sentido atual. Os números têm nela um significado muito mais vasto. Não significa a redução dos fenômenos naturais a relações quantitativa calculáveis. A diversidade dos números representa a essência qualitativa de coisas completamente heterogêneas: o céu, o casamento, a justiça, o kairos, etc. Por outro lado, quando Aristóteles nos diz que os pitagóricos faziam consistir as coisas em números, no sentido de matéria, refere-se indiscutivelmente a uma materialização indevida desta identificação abstrata do número com o ser. Não devia estar longe da verdade quando considerava as semelhanças dos números com as coisas um princípio não menos grosseiro que o fogo, a água, a terra, de que as especulações anteriores derivavam todas as coisas [3].

[...] Não sabemos que íntima ligação havia entre a especulação matemática e musical e a doutrina pitagórica da transmigração das almas [4]. O pensamento filosófico daqueles tempos era essencialmente metafísico. Assim, o mito irracional da origem das almas devia proceder do campo das crenças religiosas. A doutrina análoga dos órficos foi provavelmente a fonte da representação pitagórica da alma. Os filósofos posteriores também estão mais ou menos influenciados por ela.

O séc. VI, que, após o naturalismo dissolvente do séc. VII, é uma luta decisiva em prol de uma nova estruturação espiritual da vida, não representa só um vigoroso esforço filosófico, mas também uma pujante expressão religiosa. O movimento órfico é um dos mais significativos testemunhos desta nova intimidade que penetra até o mais profundo da alma popular. No seu anseio por um sentido novo e elevado da vida, está em contato com o esforço do pensamento racional das concepções filosóficas para atingirem uma “norma” objetiva no ser cósmico.

[...] Só por uma profunda necessidade dos homens daquele tempo, aos quais a religião cultural já não satisfazia, se explica a rápida difusão do movimento órfico nas metrópoles e nas colônias. Os outros movimentos religiosos desse tempo, a prodigiosa força do culto de Dionisios e a doutrina apolínea de Delfos, revelam também o crescimento das necessidades religiosas pessoais. É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisios [5]. É evidente que os gregos sentiram que havia algo de comum na contraposição de um ao outro.

[...] Mas a religião grega alcançou em Delfos a influência mais profunda como força educativa, e ampliou-a para além das fronteiras da Grécia. As máximas mais célebres dos sábios da terra eram votadas a Apolo e apareciam como um simples eco da sabedoria divina. E quem entrava no templo via à porta as palavras “conhece-te a ti mesmo” [6], a doutrina da sophrosyne, a exortação a não perder de vista os limites do Homem, gravada com o laconismo legislativo próprio do espírito da época.

O sentido da sophrosyne grega seria mal compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. A medida apolínea não é a excrescência da tranquilidade e do conformismo burguês. A autolimitação individualista é um dique para a atividade humana. A maior ofensa aos deuses é “não pensar humanamente” e aspirar à elevação exclusiva.

[...] A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais. No entanto, a necessidade humana de felicidade acha um remédio para este trágico saber, no mundo da sua intimidade, quer no alheamento da embriaguez dionisíaca, que aparece como o complemento da medida e rigor apolíneos, quer na crença órfica de que a “alma” é a parte melhor do Homem e está orientada para um destino mais alto e mais puro [7]. O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea “justiça” a nossa breve felicidade.

Daí surge no coração humano, como força interior que se opõe a esta dura verdade, a crença no seu destino divino. A alma, inacessível ao conhecimento natural, aparece nesse mundo inóspito como um estrangeiro que anseia pela sua pátria eterna. A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho [8]. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.

E o fiel que chega aos umbrais do outro mundo pronunciará, como santo e senha da fé em que baseou a sua vida, a intrépida máxima: Também eu sou da raça dos deuses. Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália.

***

[1] Em realidade, para qualquer espiritualista com certo conhecimento é até mesmo óbvio que existia uma conexão entre “tudo aquilo” o que Pitágoras estudava e ensinava – em suma: conhecimento naturalista, poesia, arte, padrões musicais e geométricos, filosofia e espiritualidade. No orfismo já tínhamos as bases religiosas presentes em religiões tão antigas e separadas umas das outras quanto o hinduísmo e as crenças do Egito antigo – e, no cerne de tudo, o conceito de reencarnação e vida espiritual.

[2] Tome muito cuidado com pretensas “ciências ocultas” como a Numerologia Pitagórica, e tantas outras, que como esta quase nada tem a ver com o que Pitágoras ensinava – se quiser compreender o sentido religioso dos ensinamentos pitagóricos, o melhor caminho é estudar diretamente o próprio orfismo, que era a sua fonte. Segundo o ocultista Marcelo Del Debbio, a “numerologia que funciona” é a Gematria, ligada diretamente a Kabbalah.

[3] Acaso Aristóteles tivesse vivido no século passado, quando os físicos teóricos conceberam a Teoria das Cordas, ou Teoria-M – que resumidamente afirma que toda a matéria e todas as coisas são formadas pela ondulação de minúsculas cordas (e não partículas), de cuja vibração são produzidas partículas de maior ou menor massa –, talvez não estivesse tão certo de sua crítica ao que os pitagóricos propuseram auxiliados pela pura intuição.

[4] Praticamente nenhuma. É tão simples: basta voltar o olhar para o que os hindus especulavam no oeste, e os antigos egípcios especulavam séculos antes, no sul. Assim como no orfismo, todos observavam uma mesma lei natural, e não poderia ser de outra forma – estavam todos no mesmo Cosmos.

[5] Nietzsche dedica um livro ao assunto (“O nascimento da tragédia”): do antagonismo existente entre Apolo, deus das artes plásticas, e Dionisios, deus da arte não-figurada – como, por exemplo, a música – surge a tragédia grega em seu pleno vigor, e se caracteriza por ser uma tragédia sem a total moderação apolínea ou o total desregramento dionisíaco.

[6] Complementada, em inscrição na parte interna do templo: “e conhecerás o universo e os deuses”... Porque a segunda parte é hoje, “oculta”, deixo que cada um julgue por si mesmo.

[7] Que deveria ser compreendido como um destino que se constrói desde hoje, e não num céu distante, conforme o cristianismo limitou tal conceito.

[8] Ou, em outras palavras, os simples querem se ver livres deste mundo o quanto antes, a fim de poder desfrutar de uma vida de gozos no além; Enquanto o nobre procura fazer deste mundo uma terra, senão de gozos eternos, ao menos de justiça e fraternidade. Esta é a essência da Paidéia.

***

Crédito da foto: Rosario Miranda.

Marcadores: , , , , , , , , , ,

15.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 201 a 204. Os comentários ao final são meus.

A ideia de Sólon é esta: a dike [1] não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o “castigo de Zeus”, a “paga dos deuses”. Anaximandro vai muito além. Esta compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres. A evidência deste processo e a sua imanência na esfera humana levam-no a pensar que as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, também se encontram submetidas a uma ordem de justiça imanente e que a sua ascensão e sua decadência se realizam de acordo com essa ordem [2].

Nesta forma – se a encararmos do ponto de vista moderno – parece esboçar-se a ideia prodigiosa de uma legalidade universal da natureza. Mas não se trata de uma simples uniformidade do fluxo causal, no sentido abstrato de nossa ciência atual. O que Anaximandro formula com as suas palavras é mais uma norma universal do que uma lei da natureza no sentido moderno. O conhecimento desta norma do acontecer da natureza tem um sentido religioso imediato [3]. Não é uma simples descrição de fatos, mas uma justificação da natureza do mundo. O mundo revela-se como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas. Elas afirmam o seu sentido na incessante e inexorável geração e corrupção, quer dizer, naquilo que a existência tem de mais incompreensível e insuportável para as aspirações da vida do homem ingênuo. Não sabemos se o próprio Anaximandro empregou nesse sentido a palavra cosmos. No seu sucessor Anaxímenes já a encontramos, se é autêntico o fragmento que se atribui a ele.

Mas, em princípio, a ideia de cosmos encontra-se – embora sem o sentido rigoroso que teve mais tarde – na concepção de um acontecer natural governado pela dike eterna, de Anaximandro. Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a ideia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição [4]. Sem dúvida alguma, a ideia filosófica do cosmos representou uma ruptura com as representações religiosas habituais. Mas esta ruptura representa a aparição de uma nova concepção da divindade do ser, no meio do horror da fugacidade e da destruição, que tanto impressionou as novas gerações, como mostram os poetas.

É neste estado de espírito que reside a semente de incontáveis desenvolvimentos filosóficos. O conceito de cosmos constituiu até os nossos dias umas das categorias essenciais de toda concepção do mundo, embora nas modernas interpretações científicas tenha gradualmente perdido o sentido metafísico original [5]. A ideia do cosmos mostra, com simbólica evidência, a importância da primitiva filosofia natural para a formação do homem grego. Assim como em Sólon o conceito ético-jurídico da responsabilidade deriva de teodicéia para a epopeia, também em Anaximandro a justiça do mundo recorda que o conceito grego de causa, fundamental para o novo pensamento, coincidia originalmente com o conceito de culpa e foi transferido da imputação jurídica à causalidade física. Esta transposição espiritual está ligada a transposição análoga dos conceitos de cosmos, dike e tisis, originários da vida jurídica, para o acontecer natural [6].

O fragmento de Anaximandro permite-nos obter uma visão profunda do desenvolvimento do problema da causalidade a partir do problema teológico. A sua Dike é o princípio do processo de projeção da polis no universo. É certo que nos pensadores jônicos não encontramos uma transposição expressa da ordenação do mundo e da vida do Homem para o ser das coisas não humanas. Não podia acontecer isso, porque as suas investigações prescindiam totalmente das coisas humanas e visavam exclusivamente a determinação do fundamento eterno das coisas. Mas, dado que se serviram da ordem da existência humana para tirar conclusões a propósito da physis e sua interpretação, a sua concepção continha em germe, desde o início, uma futura e nova harmonia entre o ser eterno e o mundo da vida humana com os seus valores.

Pitágoras de Samos foi também um pensador jônico, embora a sua ação se tenha desenrolado na Itália meridional. É difícil determinar o seu tipo espiritual e a sua personalidade histórica. A sua figura tradicional mudou com a evolução da cultura grega. Assim, ele nos foi apresentado como descobridor científico, político, educador, fundador de uma ordem ou de uma religião e como taumaturgo [...] Comparada com a grandiosa plenitude espiritual de Anaximandro, a união em Pitágoras de elementos tão heterogêneos, seja qual for a ideia que nós formemos desta mistura, é, efetivamente, coisa singular e acidental. A recente maneira de apresentá-lo como um curandeiro já não pode aspirar a nenhuma consideração séria. Da imputação de polimathia pode concluir-se que procedem de Pitágoras aqueles que mais tarde Aristóteles referiu como “os chamados pitagóricos”, considerando-os fundadores de um novo tipo de ciência que eles, diversamente da “meteorologia” dos Jônicos, denominaram apenas Mathemata, isto é, “os estudos”.

» Na continuação, Pitágoras e a transmigração de almas...

***

[1] Dike era o termo grego que trazia os conceitos de ordem moral e julgamento justo baseados no espírito da sociedade Grega, a Paidéia. Sólon, além de legislador, era poeta.

[2] Mais a oeste, tal doutrina seria chamada de karma.

[3] É preciso lembrar que na Grécia antiga um sábio era ao mesmo tempo poeta, filósofo, cientista e espiritualista. Se é possível, talvez, debochar do politeísmo do cidadão grego comum, já não é possível fazer o mesmo com os grandes pensadores, que subordinavam todos os deuses a Zeus – um Deus dos deuses – ou ao próprio Cosmos – a Natureza da natureza.

[4] Há mais de 2 mil anos, os sábios gregos já antecipavam, ainda que apenas pela intuição, muito do que viria a ser comprovado pela ciência moderna. Além da “infinidade de mundos”, Anaximandro também previu a teoria da evolução, ainda que de forma rudimentar: para ele, os animais nasceram do lodo marinho, e o homem teria se formado, no princípio, dentro de peixes, onde se desenvolveu e donde foi expulso logo que se tornou de tamanho suficiente para bastar-se a si próprio.

[5] Em sua grandiosa série de TV (Cosmos), Carl Sagan afirma que o Cosmos é tudo o que é, o que foi e o que será. Embora certamente a visão científica moderna não enxergue a natureza como um “sistema jurídico”, Sagan foi buscar inspiração nos gregos antigos para muito do que foi exposto em sua série; onde há sim muita espiritualidade, na pura essência do termo.

[6] Isso quer dizer, se é que não estarei aqui resumindo demasiadamente um pensamento tão complexo, que os gregos passaram a compreender a “lei de causa e efeito”, ou karma, não como uma “paga dos deuses”, mas antes como uma lei natural, que nada tem a ver com o antigo conceito de culpa – ou, para se entender melhor, de pecado perante os deuses.

***

Crédito da foto: Paul Almasy/Corbis (Delfos, Grécia).

Marcadores: , , , , , , , , ,