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10.12.14

Malala - uma menina, entre muitas

Em homenagem à Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2014, mais de 40 meninas de 12 países, incluindo Paquistão, Etiópia, Zâmbia, Ruanda, Brasil, Nicarágua e Filipinas reproduziram seu mais famoso discurso pela educação de todas as meninas do mundo, proferido na ONU.

Yolanda, moradora do Capão Redondo, em São Paulo, é uma das estrelas do filme Uma menina, entre muitas. O filme foi produzido pela Plan Brasil, organização não governamental que desenvolve programas e projetos com o objetivo de capacitar e empoderar crianças e suas comunidades para transformar a sua realidade.

Com vocês, as palavras de Malala, mais uma recém-chegada da mansão do amanhã:

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Crédito da foto: Google Image Search (Malala Yousafzai)

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8.10.12

Iranianos, nós te amamos

Nunca foi propriamente o povo quem escolheu a guerra, e sim os governantes. E toda a guerra no fundo não é nem realizada propriamente pelo ódio, mas sim pela ganância (de alguns poucos). Mas é claro que alguns governantes trabalham para que um povo odeie o outro, assim fica bem mais fácil invadir outro país. Aquele vídeo que "ridicularizava o profeta Maomé", por exemplo, e que causou tantos transtornos mundo afora, estava "perdido" no YouTube, mas foi achado por um salafita radical, que se deu ao trabalho de traduzi-lo e divulgá-lo no Islã [1]. O ódio de um povo pelo outro interessa sobretudo aos que gostam de guerras: os radicais religiosos e os governantes hipócritas. E todos eles, no fundo, querem só riquezas e territórios; isso nada tem a ver com uma "ideologia", e muito menos com Deus.

Nesta campanha nas redes sociais, iniciada por um designer israelense, isso tudo fica ainda mais claro:

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[1] Ao menos segundo Guga Chacra, correspondente da Globo News em Nova York, e especialista em relações internacionais. Eu realmente não achei a fonte dele.

» Saiba mais sobre guerras na série Todas as guerras do mundo

» Veja também a reportagem da AVAAZ: Quem tem medo da ira muçulmana?

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29.6.12

Todas as guerras do mundo, parte final

« continuando da parte 3

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra, eu digo: guerra...
Guerra no leste, guerra no oeste, guerra no norte, guerra no sul, guerra, guerra, rumores de guerra...
(War, Bob Marley – composição de Allen Cole e Carlie Barrett)

A revolução da alma

Em 3 de junho de 1989, tanques e soldados do exército chinês invadiram a Praça da Paz Celestial, na capital, Pequim. Lá estavam cerca de 100 mil manifestantes que protestavam pacificamente há quase 2 meses, criticando a corrupção e a repressão da liberdade individual vindas de um governo que se dizia comunista [1]. Haviam entre eles muitos intelectuais, professores, estudantes e trabalhadores insatisfeitos com o rumo geral da política chinesa. Mas o Partido Comunista já havia perdido a paciência com eles; Como haviam ignorado as ordens para que as manifestações fossem encerradas, a ala do Partido mais propensa à violência aprovou a ordem para que fosse iniciado o massacre. Na Praça da Paz Celestial, na noite de 3 de junho de 1989, o exército chinês matou 2.600 manifestantes e feriu outros 10 mil [2].

No dia 4 os protestos se intensificaram muito, principalmente por parte dos jovens estudantes. Há essa altura os jornalistas de todo o mundo já estavam se hospedando nos hotéis próximos a Praça, visto que era uma área nobre da capital, e preparavam os flashes para o próximo massacre... Talvez por conta dessa exposição indesejada na mídia mundial, a ala violenta do Partido Comunista recuou, e o que se viu naquele dia foram tanques passeando em torno da Praça, enquanto os jovens prosseguiam com seu protesto ainda pacífico.

No dia 5, ante as manobras de dezenas de tanques pela avenida em torno da Praça, um homem solitário surgiu no meio da rua, impávido ante o avanço de uma coluna de vários tanques enfileirados, enquanto outros civis mais precavidos fugiam desesperadamente do avanço militar... Quando o primeiro tanque da fileira chegou próximo dele, foi obrigado a desviar para não o atropelar. Mas o homem se moveu de lado, brecando o tanque. Ele parecia querer conversar...

Subiu na máquina e trocou algumas palavras com seu piloto, até que duas pessoas (que todos esperam que fossem seus amigos) surgiram na cena e convenceram o homem a desistir de papear com aqueles soldados, que os haviam massacrado dois dias antes. Esta cena foi filmada e fotografada por jornalistas de todo o mundo, e o homem, até hoje um desconhecido, se tornou um mito: o Rebelde Desconhecido... Até hoje tampouco se sabe se ele teria ou não sobrevivido. Especula-se que, mesmo um ano após o incidente, quando às manifestações já havia terminado há meses, o próprio governo chinês ainda procurava pelo homem desconhecido. Aquela altura, seria um grande benefício para o Partido Comunista mostrar aquele mito vivo e intacto, provando para o mundo que ele não havia sido preso, torturado, ou morto (como tantos milhares de civis).

Hoje, entretanto, a China é um outro país, e embora esteja evoluindo lentamente para uma sociedade mais aberta e um governo menos repressor, o mito do Rebelde Desconhecido perdura. Assim se dá com os mitos: eles existem sempre, e sobrevivem ao nascer e ao findar dos impérios. Quem seria aquele chinês corajoso? Um jovem estudante, ou um professor? O que ele teria tentado dizer ao piloto do tanque? “Parem, vocês estão dizimando nosso futuro, nossa liberdade, nossa dignidade” – teria sido algo assim?

Talvez a única coisa que possamos afirmar em relação ao Rebelde Desconhecido é que ele era alguém que havia descoberto como pensar por si mesmo. Um real revolucionário: aquele que travou todas as guerras do mundo no interior, e realizou a revolução na própria alma.

Falávamos a pouco do Deus Bom e do Deus Mal do zoroastrismo. Estes são também mitos, propostos pelo profeta Zoroastro. Dissemos também que se tratava de um conceito infantil e superficial... Mas, será que isso foi mesmo culpa de Zoroastro, ou daqueles que vieram muito depois e, não sabendo interpretar sua mitologia, tomaram-na de forma literal, e a adaptaram para seus próprios interesses?

Ora, será mesmo que uma religião sobreviveu por tantos séculos baseada num conceito superficial, ou são os seus detratores que jamais se interessaram em compreender o que diabos é exatamente um mito, uma interpretação simbólica, uma metáfora? Não quero transformar esta série num tratado sobre mitologia [3], mas vamos considerar aqui, de forma bastante breve, uma outra visão para os deuses do zoroastrismo:

Aúra-Masda, o Deus Bom, não era invenção de Zoroastro, mas uma divindade já existente na cultura indo-iraniana, com muitas semelhanças a deuses ainda bem mais antigos da Índia Védica. Aúra-Masda, ou o Senhor Sábio, era um mito associado ao sol e ao fogo. Através de sua luminosidade, as trevas da ignorância poderiam ser vencidas. Era precisamente através do fogo e suas chamas mensageiras que os homens poderiam se comunicar com o Senhor Sábio.

Já seu irmão, Arimã, o Deus Mal, era o senhor da devassidão e da corrupção, o lado negro da alma de todos os homens, que os atraia para o mau pensamento e o mau governo de sua própria existência. Ora, é precisamente este que foi associado a Lúcifer. Porém, há uma característica essencial do mito que não foi transferida para o cristianismo: Arimã não está no mundo lá fora, mas dentro da alma de cada um de nós. Arimã não nos “seduz” para o mal, mas é antes a própria presença das trevas da ignorância que ainda pairam dentro de nosso coração, impedindo que vejamos a luminosidade do bem.

Percebem a enormidade da diferença? Não se trata mais de deuses criadores do mundo ou do Cosmos, mas de aspectos da própria alma, da mente humana, e de sua longa caminhada em direção à luminosidade, a extinção das trevas da ignorância; Enfim: a evolução da consciência. Zoroastro não estava preocupado com a origem das coisas, do porque existe algo e não nada, mas sim com a origem da ignorância humana, e de como proceder para que os homens reformem a si mesmos, e se tornem melhores e mais sábios. Mas a luz de Zoroastro, quando chegou aos homens da Igreja, foi corrompida em algo menor. Tal qual Lúcifer caiu dos céus, os eclesiásticos também caíram nas trevas da ignorância, e houve mesmo aqueles demônios que um dia acreditaram que Deus pediu guerras santas e conversões sob as torturas mais bárbaras – e os demônios da Igreja diziam falar em nome de Deus.

Mas como falar em nome de um aspecto apenas nosso, uma luz que habita dentro de cada alma, e que em cada uma delas é uma luz distinta, como a íris dos olhos? Somente Deus pode falar por si, mas quando o faz, fala direto a alma daqueles que souberam lhe escutar... Os outros todos que acreditam falar em nome dele devem tomar muito cuidado, pois estes sim terão muito a explicar no Juízo Final. Este sim, terão dificuldades em espantar Lúcifer.

O rabi da Galileia disse que veio trazer a espada, e não a paz. E ele tinha razão: necessitamos de uma espada para batalhar na guerra da alma, para nos livrar dos preconceitos, dos apegos, das zonas de conforto, da estagnação. Como é possível estar em paz com tanta violência, tantas guerras e sofrimento pelo mundo afora? Com a luz do amor voltada para o sistema inteiro, e não para um pequeno grupo, uma pequena região, uma pequena parte do tempo. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – disse ele também: a solução não é o olho por olho nem o dente por dente, a solução não é guerrear no mundo lá fora, nem propriamente enfrentar exército com exército, e bomba com bomba. Bastam algumas bombas atômicas explodirem a mais, e todos estarão cegos e desdentados: hoje ao menos sabemos disso.

A solução é a revolução da alma, para que possamos oferecer a outra face ante toda a violência: a face da tolerância, da sobriedade, da espiritualidade. Nenhum soldado jamais será, afinal, tão corajoso, tão heroico, tão mítico, quanto o Rebelde Desconhecido, que não estava mais preocupado consigo mesmo, mas com o rumo que sua pátria iria tomar, continuassem os tanques e os outros soldados dizimando aqueles que lutavam, sem armas que não o próprio pensamento, na guerra pela paz.

E a paz só virá, efetivamente, após a espada, após a guerra que se dá internamente, após a revolução da alma. Só mudando a si mesmo que o homem pode mudar o que está a sua volta. Se o pensamento não muda, o que vemos é o que temos visto pelo mundo afora: um Império substituindo ao outro, e um opressor sentando no trono sangrento de outro opressor. Enquanto o homem não muda a si mesmo, o que vemos é apenas escuridão e ranger de dentes.

Até este precoce despertar da consciência humana, a Natureza nos guiou, através da “guerra da fome e da morte”, por seus caminhos multimilenares: ora presa, ora predador. Lutamos em muitas guerras, e muitas foram com unhas e dentes, e paus e pedras. Fomos alvejados e esquartejados, transpassados e devorados, e decerto por muito tempo pagamos ao olho por um outro olho, e ao dente por um outro dente. Um dia, porém, alguns de nos se cansam deste jogo, e decidem se voltar para a luz, e não mais para a escuridão... Agradecem ao sistema por tê-los feito chegar aonde chegaram, mas agora tratam de viver, não mais sobreviver. E amar, não mais assassinar.

Eis que todo incêndio um dia começou pequeno. Eis que os ventos das asas do Grande Dragão, Arimã, se antes conseguiam extinguir a chama de uma vela, hoje mal conseguem abalar a fogueira que arde no coração daquele que deu os primeiros passos no caminho em direção à luz. Agora, as pedras não mais se chocam para se destruírem e arrancarem lascas umas das outras, mas para produzir ainda mais faíscas de luz, para que o fogo aumente, e aumente, sempre adiante... A ignorância alheia não mais ameaça a nossa convicção. Não há ninguém para ser convertido, há apenas seres para serem amados – e por todos os cantos.

Há seres no leste e no oeste, ao norte e ao sul, acima e abaixo, há vida e beleza, há pensamentos de luz por toda a parte. Há amor por toda a parte. Não há mais nada a temer, nem a duvidar. Então, quando todas as guerras do mundo ficam para trás, nos recônditos da alma que deixou de ser pequena, apenas se é. A paz foi finalmente alcançada, a fera foi domesticada: Arimã, quem diria, também é nosso amigo.


Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar (Tagore)

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[1] O comunismo de Marx, descrito em sua filosofia, foi algo um tanto distante do comunismo do mundo real. Como alguém já disse: “amo Marx, mas odeio os marxistas”.

[2] Segundo a Cruz Vermelha chinesa.

[3] Para tal, recomendo consultaram a série Os corvos de Wotan.

Crédito das imagens: [topo] Alguns fotógrafos corajosos; [ao longo] Anônimo (encontradas no Facebook, sem crédito dos autores)

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22.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 1

Guerra é um confronto sujeito a interesses da disputa entre dois ou mais grupos distintos de seres, que se valem da violência para tentar derrotar o adversário.

Quem chora pelos demônios?

Columbine sempre fora um local pacato. Situada em Colorado, nos EUA, a escola sempre teve um dos índices mais elevados do país na aceitação de seus alunos em universidades, com cerca de 82%. Columbine também se orgulhava de não registrar casos de violência. O policial de plantão se limitava a multar alunos que estacionavam os carros nas vagas destinadas a professores. A escola também era famosa por ser conservadora e privilegiar aos atletas, que defendiam os times da própria instituição. Foi esse o provável estopim da tragédia...

Em Abril de 1999, dois alunos que se sentiam excluídos dos outros grupos, particularmente por não serem atletas e nem muito dados ao convívio social, entraram armados até os dentes em Columbine, e atiraram em quem viram pela frente, matando 13 e ferindo 21, dentre professores, alunos e funcionários. Quando a polícia chegou, os jovens assassinos atiraram contra as próprias cabeças, morrendo imediatamente. Deixaram uma nota, encontrada perto dos corpos, que dizia: “Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir”.

Mas não era apenas um suicídio, e sim um verdadeiro ato de terror. A mídia na época procurou analisar minuciosamente a vida dos dois jovens, na tentativa de encontrar uma possível motivação para ato tão brutal... Como não era conveniente culpar as grandes indústrias do entretenimento, na época a maior parte da “culpa” caiu no colo da indústria dos videogames que, há mais de uma década atrás, não tinha a força política e econômica de que dispõe hoje. Os assassinos de Columbine eram assíduos jogadores de Doom, um dos primeiros games de tiro com visão em primeira pessoa e cenários 3D.

Em Doom, o personagem controlado pelo jogador é um fuzileiro espacial de um mundo futurista fictício. Ele é deportado da Terra para Marte quando se recusa a atirar em civis desarmados (ordem de um oficial superior). Para seu infortúnio, em Marte uma experiência militar secreta dá errado, e abre uma espécie de “portal para o Inferno”, de onde saem demônios e zumbis, que precisam ser dizimados pelo jogador. O jogo foi muito criticado pelos conservadores por exibir muito sangue (apesar de ser o sangue dos demônios) e muitas “imagens satânicas” (afinal, eram demônios ora essa). O fato de o personagem estar agindo heroicamente para proteger a Terra e, principalmente, o fato de ele estar nessa situação exatamente por ter se recusado a atirar em civis desarmados, é sumariamente ignorado pelos críticos conservadores. Doom foi o primeiro bode expiatório que a sociedade americana encontrou para “explicar” o massacre em Columbine.

Mesmo após Doom, muitos outros games similares sofreram a acusação de incitar a violência nos jovens, incluindo outros baseados nas guerras modernas, onde os inimigos não eram demônios, mas membros de um exército inimigo... Com o tempo, as acusações foram “esfriando”, até que se soube que o próprio exército dos EUA via com muito interesse o impacto que tais games provocavam nos jovens.

Com o alistamento caindo ano após ano, o exército americano precisava de um chamariz que pudesse realmente “seduzir” os jovens. Assim foi criado o America’s Army, um jogo inteiramente gratuito onde todo o treinamento militar americano é simulado, até que os jogadores são aprovados no “exército virtual”, e podem então realizar missões militares pelo mundo afora, numa simulação de guerra que privilegia a estratégia, o trabalho em equipe, e que é elogiada por seu realismo. Interessante como, após o lançamento do America’s Army, os produtores de games de guerra passaram de personas não gratas para grandes colaboradores da tecnologia de treinamento e alistamento militar.

Ao contrário de Doom, no entanto, games como o America’s Army, Full Spectrum Warrior e outros, apesar de agora serem reconhecidos como “algo sério” pela sociedade americana, tem um grande problema, ironicamente ignorado pelos conservadores: neles os inimigos são soldados, pessoas como nós, seres humanos, e não demônios ou zumbis. Para um jovem americano, pode ser entusiasmante jogar uma simulação da guerra no Iraque. Para um jovem israelense, pode ser incrível simular um conflito com palestinos terroristas... Mas, para os jovens palestinos, iraquianos, ou árabes, nem tanto.

Dizem os generais que a guerra não tem nada de bonito há não ser a vitória. Eles talvez estejam errados: na guerra, nem a vitória é bonita. Ainda assim, segundo o psicólogo Steven Pinker, “provavelmente vivemos na época mais pacífica da existência de nossa espécie” — mesmo que, “confrontados com intermináveis notícias sobre guerra, crimes e terrorismo, pudéssemos facilmente pensar que vivemos na era mais violenta jamais vista”. Em seu livro Os melhores anjos de nossa natureza, Pinker defende a tese de que, grosso modo, a violência tem diminuído muito no mundo civilizado, ao menos se formos considerar números relativos, e não absolutos. E ele provavelmente tem toda razão, se hoje vivemos alarmados com a violência, é muito mais pela atenção que a mídia dá a ela, do que por ela estar realmente crescendo. Entretanto, mesmo Pinker concorda: é exatamente na guerra que a moral humana é subitamente reprimida, e os ecos da nossa animalidade, nossa propensão à barbárie, retornam com toda a força. Mas, como acabar com a guerra? Seria com a educação?

Pode até ser, mas vai depender de que tipo de educação que estamos falando, e da real atenção que queremos dar a ela. Os gastos militares do exército dos EUA, por exemplo, são exorbitantes (de longe o maior do mundo), e superam em muito não só o investimento em educação, como em saúde, em ciência, e em quase tudo o mais somado. Ainda assim, lado a lado com alguns países do Oriente Médio, como Omã, Iraque e Israel, os gastos militares americanos, numa comparação percentual com o PIB (Produto Interno Bruto), não mais figuram entre os primeiros da lista. Em todo caso, o gasto com a indústria bélica é muito elevado no mundo todo, principalmente se considerarmos que ainda temos milhões de miseráveis, e um clima global cada vez mais instável para tomarmos conta...

Se parte do gasto do exército dos EUA vai para produzir games de simulação como o America’s Army, porque não investir também em games ainda mais educativos, que simulem estratégias de paz, e não de guerra? No game Peacemaker (Pacificador), cabe ao jogador escolher jogar como o Primeiro Ministro de Israel, ou a Autoridade Palestina. Neste jogo muito elogiado pela crítica especializada, o objetivo da simulação é chegar a um tratado de paz duradouro entre Isreal e a Palestina, e, ao contrário de tantos outros jogos, chegar a uma situação de guerra significa perder o jogo, e não ganhar – independente do resultado final da guerra. Para os jovens que desenvolveram esse game como um projeto numa universidade americana, tendo sido lançado comercialmente em 2007, apenas a paz é bela, apenas a paz indica que o jogo foi vencido.

Em tantos e tantos games de simulação de guerra, os “demônios” a serem mortos estão sempre do outro lado, na nação inimiga. Mas, e quem chora pelos demônios? Os palestinos choram pelos seus mortos da mesma maneira que os israelenses. Quando são atingidos por balas, sangram da mesma maneira, e até mesmo o sangue é da mesma cor... Talvez os assassinos de Columbine tenham se espelhado mais nos senhores da guerra, nos ditadores de ideologias falsas que pretendem nos fazer crer que existem seres “do outro lado”, inimigos, que não são como nós, que não pensam como nós, que não sangram ou sofrem como nós, e que merecem morrer como demônios, pois é mais fácil pegar um fuzil e matar do que negociar acordos e tratados de paz.

Infelizmente (ou felizmente) os demônios de Doom nunca existiram. Em todas as guerras do mundo, nunca existiu um único inimigo que não fosse humano, que não tivesse alma, como nós temos. Talvez o exército dos EUA esteja investindo nas ideias erradas: precisamos de gente criativa e pacífica, como os criadores de Peacemaker, e não de jovens sedentos por atirar em demônios... Afinal, é capaz de eles um dia acreditarem, como os generais acreditam, que a vitória é bela, e que os demônios da nação vizinha são realmente demônios.

» Na próxima parte, o mito das nações...

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Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Doom); [ao longo] Divulgação (America’s Army); Divulgação (criadores do game Peacemaker)

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11.6.12

Uma imagem, uma reflexão (13)

Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta...

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O Rebelde Desconhecido, também conhecido como O Homem dos Tanques, é como ficou conhecido o misterioso homem que ganhou fama em todo o mundo como figura heróica após ser filmado e fotografado durante os protestos na Praça da Paz Celestial em Pequim, em 5 de junho de 1989. Várias fotografias foram tiradas do homem, que ficou em pé em frente a uma coluna de tanques chineses Type 59, forçando-os a parar.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

Crédito da imagem: Alguns fotógrafos corajosos...

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13.4.12

Gandhi Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Gandhi

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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11.3.11

Ras Tafari

Muitos creem que no mundo moderno não existe espaço nem oportunidade para o surgimento de novas religiões, aos moldes das religiões já milenares, mas a espiritualidade jamais deixará de nos surpreender... Em 2008, a Universidade de Hamburgo anunciou oficialmente que arqueólogos alemães, depois de uma pesquisa comandada pelo professor Helmut Ziegert, descobriram os restos do palácio da rainha de Sabá, datados do século X a.C., em Axum, uma cidade sagrada da Etiópia, sob um antigo palácio real. A rainha de Sabá foi, na Torá, no Antigo e no Novo Testamento, no Alcorão, na história da Etiópia e do Iêmen, uma célebre soberana do antigo Reino de Sabá. A localização deste reino pode ter incluido os atuais territórios da Etiópia e do Iêmen.

De acordo com a Torá e o Velho Testamento, a rainha de Sabá teria ouvido sobre a grande sabedoria do rei Salomão de Israel, e viajado até ele com presentes de especiarias, ouro, pedras preciosas, e belas madeiras, pretendendo testá-lo com suas perguntas, como está registrado no Primeiro Livro de Reis (10:1-13). O relato prossegue apontando a rainha como maravilhada pela grande sabedoria e riqueza do rei Salomão, e pronunciando uma bênção sobre a divindade do rei. Salomão respondeu, por sua vez, com presentes e "tudo o que ela desejou", após o qual a rainha retornou ao seu país. A tradição etíope posterior afirma com segurança que o rei Salomão realmente seduziu e engravidou sua convidada, e possui um relato detalhado de como ele o fez (no Kebra Negast, coletânea de mitos etíopes), um assunto de importância considerável para o povo etíope, já que a linhagem de seus imperadores remontaria àquela união.

Haile Selassie (1892–1975), nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Ras Tafari, foi regente da Etiópia de 1916 a 1930 e imperador daquele país de 1930 e 1974. Herdeiro duma dinastia cujas origens remontam historicamente ao século XIII e, tradicionalmente, até o rei Salomão e a rainha de Sabá, Haile Selassie é uma figura crucial na história da Etiópia e da África.

O movimento rastafari ou Rastafar-I (rastafarai) é um movimento religioso que proclama Haile Selassie como a representação terrena de Jah (Deus). Ele nada mais seria do que o messias prometido. O termo rastafari tem sua origem em Ras ("príncipe") Tafari ("da paz") Makonnen, o nome de Haile Selassie antes de sua coroação. O movimento surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 20, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica em parte baseada pelo status de Selassie como o único monarca africano de um país totalmente independente e seus títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores e Leão Conquistador da Tribo de Judah, que foram dados pela Igreja Ortodoxa Etíope.

O próprio Selassie, em realidade, jamais aceitou o título de messias. Tampouco era alguma espécie de "santo": durante o seu governo, a repressão a diversas rebeliões entre as etnias que compõem a Etiópia, além daquele que é considerado como o fracasso do país em se modernizar adequadamente, lhe rendeu críticas de muitos contemporâneos e historiadores. No entanto, Selassie era um orador talentoso, e alguns de seus discursos foram considerados entre os mais memoráveis do século XX. Suas visões internacionalistas levaram a Etiópia a se tornar membro oficial das Nações Unidas, e sua experiência e pensamento político ao promover o multilateralismo e a segurança coletiva provaram-se relevantes até os dias de hoje.

Seu célebre discurso na Liga das Nações em 1936 serviu de inspiração para a canção "War", um dos maiores clássicos do cantor de reggae jamaicano Bob Marley - também indiretamente um dos maiores divulgadores do movimento rastafari no mundo. Veja o trecho principal do discurso de Selassie:

Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa não for mais importante que a cor dos seus olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal.

Interessante de se pensar: muitos dos que são atraídos ao reggae pela qualidade da música, e também por sua relação com a maconha, jamais sequer ouvirão falar ou praticar o rastafarianismo. A maconha em si é usada pelos rastas não para diversão ou prazer, mas sim para limpeza e purificação em rituais controlados. Trata-se, em suma, de uma religião moderna, mas com bases mitológicas muito bem sedimentadas por textos sagrados de pelo menos duas religiões milenares...

Que grande ironia - tantos judeus, cristãos e muçulmanos de certa ignorância a desdenhar dos "maconheiros negros com cabelo esquisito ouvindo músicas africanas", e no fim das contas, são dos devotos a um dos descendentes diretos do rei Salomão que eles desdenham. Bem, talvez Jah prefira mesmo dançar o reggae que pode ser cantado em qualquer parte da natureza, do que se sujeitar a hipocrisia eclesiástica.

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"War", de Bob Marley - Playingforchange

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Agradecimentos aos viajantes do "Não Conta Lá em Casa", programa do canal de TV a cabo Multishow, pela descrição de parte dessa incrível história enquanto visitavam a Etiópia.

Crédito da imagem: Wikipedia (Haile Selassie)

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22.2.11

Nova Andalus, parte 2

continuando da parte 1

De fato, o crescimento do islamismo é exponencial. Durante séculos, o catolicismo desfrutou o privilégio de ser a religião com o maior número de fiéis. Já não é assim. Em 2008, o monsenhor Vittorio Formenti, que trabalha na edição do relatório anual de estatísticas do Vaticano, revelou ao L’Osservatore Romano, órgão oficial da Igreja, que atualmente há 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo e apenas 1,1 bilhão de católicos. O futuro, de todo modo, favorece os seguidores de Maomé. No ritmo atual de expansão do islamismo, em menos de vinte anos os muçulmanos serão 30% da humanidade. O número de católicos então representará 16,7% da população mundial e os cristãos serão 25%.

A despeito do desespero de certos cristãos ante tal situação [1], fato é que a taxa de natalidade fará com que os muçulmanos continuem em crescimento avançado... Mas será que isso bastará para que o pan-islamismo declare-se vitorioso na Europa?

Ora, o alto índice de fertilidade tem a ver com o papel subalterno da mulher e a valorização da família numerosa na sociedade islâmica. Mas as condições socioeconômicas influenciam tanto quanto as normas religiosas. Em mais da metade dos países com maioria muçulmana, o PIB per capita está abaixo de mil dólares anuais. Isso equivale a um quarto da renda brasileira. Países pobres, famílias maiores. Um temor crescente entre os países europeus é ter sua identidade cultural – marcadamente cristã – ameaçada pelo crescimento da população muçulmana. Na França, imigrantes islâmicos e seus descendentes representam 10% da população. Entre os jovens franceses, o porcentual de muçulmanos sobe para 30%.

Sim, ao que tudo indica Gadafi estava correto quanto ao crescimento do expoente islâmico na Europa. O que ele não contava é que isso não garantiria um Império Árabe unificado, nem na Europa nem na própria terra de Maomé, a começar pelo seu próprio país...

Amparados pelas riquezas do outro negro, o petróleo que existe em abundância (por enquanto) em diversas regiões do Oriente Médio, os ditadores, reis e califas mantiveram-se no poder, sob o discurso religioso de um Império Árabe unificado. Mas ao longo dos anos, a despeito de suas restrições a qualquer liberdade de pensamento contrário ou oposição política, esqueceram-se que um Império se faz também para seu próprio povo, e não única e exclusivamente para o benefício de algumas elites governantes.

Com o advento da internet e das redes sociais, tornou-se cada vez mais complexo para ditadores como Gadafi impedirem que as vozes contrárias e insatisfeitas se reunissem e ganhassem força juntas... Ainda mais quando os insatisfeitos, os pobres e miseráveis, se tornam a grande maioria da população jovem.

No fim, a "estratégia" dos ditadores pan-islâmicos virou-se contra eles próprios: a taxa de natalidade provocará o seu fim. O novo sempre vem, e não há Império que resista ao pensamento de um povo oprimido, quando este conquista sua liberdade – a liberdade de pensar e se comunicar.

Dessa forma, ironicamente através dos avanços da modernidade que se devem também as grandes contribuições científicas de Al-Andalus, o povo islâmico uma vez mais chegou à conclusão que sempre ocasionou a derrocada dos grandes impérios: sim, a nação é um mito, o passado é uma nação estrangeira, e o único país que existe é o país de todos nós, seres livres em busca de sua felicidade.

O ano de 2011 começou com o advento das revoltas de populações em diversos países árabes. Obviamente cada país tem o governo e a política que merece, mas é impossível não notar que este contágio de liberdade, disseminado pelas redes de internet, é tão somente a hecatombe de um processo até mesmo inevitável – não há como manter um povo longe de sua liberdade por muito tempo, e os próprios textos sagrados denotam isso muito bem. A história se repete, em um novo tempo, em um novo contexto, mas ainda assim se repete – o novo sempre vem.

Neste processo, uma imagem é tão marcante que resumirá muito bem onde o pan-islamismo estava errado [ver imagem que ilustra este artigo, acima]... Durante os protestos no Egito, que culminaram com a renúncia de seu então ditador, milhares de manifestantes se reuniram na Praça Tahir (“da libertação”), no Cairo, para um protesto na maior parte do tempo pacífico. Ainda assim, durante o Salat, um dos 5 períodos de oração diários do islamismo, pudemos ver os muçulmanos ajoelhando-se em direção a Meca e orando, enquanto o restante dos manifestantes, aparentemente não-islâmicos, permanecia de pé.

Esta imagem é marcante porque demonstra claramente que uma crença religiosa não é nem nunca foi motivo para que seres acreditassem que deveriam viver separados, ou como inimigos.

Ser islâmico é submeter-se a Allah, e talvez nesta submissão as palavras ditadas pelo anjo Gabriel devam ser seguidas acima de todas as outras. Mas em nenhum momento Gabriel afirmou que os não-islâmicos eram inimigos, ou que mereciam morrer – ainda que se recusassem a se converter ao Islã. De nada adianta tentar converter aos outros pela força, o máximo que conseguiremos, nesse caso, foi o que os últimos 2 mil anos nos demonstraram: ora conquista-se este ou aquele território, ora os perdemos novamente; ora oprimimos a liberdade deste ou daquele povo, ora todo povo readquire sua liberdade, ou é extinto; ora matamos, ora morremos, mas o novo sempre vem.

E a verdade derradeira é aquela que sempre populou as mentes dos verdadeiros profetas, dos místicos, dos poetas, dos seres amorosos, dos sábios: somos tolos por fazer guerra a nossos irmãos.

Al-Andalus foi resultado da conquista, mas não da guerra. Após as desavenças iniciais, eis que as três religiões fontes de tantos conflitos mundiais puderam conviver em harmonia por breves períodos de glorioso ecumenismo cultural, artístico, filosófico, científico, e até mesmo religioso. Queira Deus, queira Allah, que da reconquista de sua liberdade perdida, o povo muçulmano se reúna não em um novo Império Árabe, que em verdade nunca foi totalmente unido, mas em uma Nova Andalus, um novo país além de tantas nações ilusórias, um país de almas afins, que não necessitará de guerras santas para se afirmar – mas apenas da única submissão que sempre nos será a mais cara das conquistas, a submissão ao amor.

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[1] A título de anedota, este vídeo criado por uma igreja bastista brasileira denota o tipo de desconforto que certos cristãos sentem ante o avanço do islamismo (o vídeo contém informações demográficas bastante apuradas):

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Crédito da imagem: REUTERS/Dylan Martinez

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8.2.11

Imagine

A canção e a poesia universal de John Lennon, cantarolada literalmente em volta do mundo. Como ele mesmo dizia, "um sonho que você sonha sozinho é apenas uma sonho, mas um sonho que você sonha junto, é realidade". Bem vindos a realidade da música:

Imagine não existir o Paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existirem países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existirem posses
Me pergunto se você consegue
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só

("Imagine" de John Lennon. Tradução por Rafael Arrais)

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» Conheça e contribua para o Playing for Change

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15.12.10

O homem em sua unicidade

Texto de Rabindranath Tagore [1] em "A morada da paz” (Ed. Verus) – pgs. 129 a 132. Tradução de Ivo Storniolo.

No plano material, existe um parentesco de natureza entre os objetos deste mundo e nós mesmos. Partilhamos uma mesma textura fundamental com o pó dos caminhos, assim como com as pedras e os vegetais, os animais e a humanidade inteira. Todavia, no nível em que nosso ser de verdade intervém em sua unicidade, essa semifusão entre tudo e todos desaparece.

Nossa individualidade eterna, que pressentimos com nosso Eu, por trás de nosso pequeno eu limitado, não tem igual no universo. Na Criação infinita, cada Eu é uma criação sem precedentes; ele é Eu apenas, Eu sem igual, Eu sem termo de comparação. Apenas o mundo de nosso Eu nos pertence como próprio, e a ninguém mais é dado, senão à pessoa regenerada, penetrar em sua morada, na qual reside, a seu lado, o deus que a anima.

Com efeito, ó meu Deus, nosso Eu único, nosso Eu diferente de qualquer outro, abriga uma parcela igualmente única, perfeitamente individualizada, de ti mesmo, manifestada em tua Total-Felicidade. E jamais, em nenhum tempo, em nenhum lugar, escolheste duas expressões idênticas de tua Personalidade infinita. Assim, aquele que chamamos de Eu se verifica ser, na verdade, uma aspecto bem definido, totalmente distinto, do Jogo eterno de ti contigo mesmo. Nele, nosso pequeno eu deve aprender a se religar integralmente a ti. Desse modo, Eu e eu se tornarão um no coração do Uno.

Que nosso nascimento sobre a terra possa permitir a essa parcela da Alegria divina, que é nosso Eu, expressar com toda a consistência a grandeza, a pureza, a harmonia e a beleza que ele traz em si. Possa este ser que somos na verdade, na sequência sem fim das existências, realizar nesta vida terrestre a finalidade para a qual se encarnou.

No decorrer das eras, tu deste forma ao nosso Eu em sua unicidade. Tu mesmo o guiaste por entre sóis e luas, planetas e estrelas, e velaste para que sua identidade jamais se confundisse com qualquer outra. Desde o instante em que os primeiros elementos que o constituem jorraram de uma fonte de sutil luminosidade, no coração de alguma nebulosa transcendente, tu o conduziste, alimentaste, de mutação em mutação, de finalidade em finalidade, até que ele eclodisse em uma forma humana.

Nosso Eu, teu companheiro de sempre, cresce hoje em nosso corpo de matéria. Desde a origem dos tempos, tu lhe traças, através de toda a Criação, uma caminho que lhe é próprio, em que ele progride sem fim junto de ti. Esse “Ti” é seu Guia eterno, seu Amigo sem igual sobre os caminhos do Infinito. Possamos, Senhor, no decorrer desta existência cá embaixo, te reconhecer nesse Amigo incomparável.

Permite que jamais concedamos a nenhum ser, a nenhuma coisa, igual ou maior valor que à tua Presença em nosso coração. Permite igualmente que de modo nenhum deixemos predominar em nós o aspecto material biológico de nosso ser, pouco distinto das árvores, das plantas e dos animais de qualquer espécie. Atribuir a primazia a essa faceta de nós mesmos é uma tentação fácil, uma vez que temos em comum, com toda a forma de vida vegetal ou animal, igual necessidade de alimento, de ar e de água, pois a mesma vontade de sobreviver nos habita, e nos defrontamos juntos com os mesmos perigos e os mesmos tormentos. Também devemos pedir para que as necessidades de ordem física e material não cheguem a preencher nosso campo de consciência, a ponto de expulsar dela toda a percepção de nosso Amigo secreto – nosso Guia de todos os tempos –, que, sob forma individualizada, manifesta o Divino em nosso ser por meio de um toque, de um modo de ação, de uma felicidade – que lhe são absolutamente próprios.

Nos planos em que nos sentimos parte integrante da Criação material, nós te respeitamos, Senhor, enquanto Senhor deste mundo. Nós nos esforçamos para seguir tua Lei, porque, se a infringirmos, consequências se seguirão, e as consideraremos como castigo vindo de ti. Mas, onde existimos em nossa unicidade, procuraremos te conhecer como nosso Todo.

No nível do Eu, nos quiseste livres, porque, se assim não fosse, teu Amor não produziria frutos, e teu desejo de união e tua alegria de ser permaneceriam sem eco. Por conseguinte, o Eu, assim dotado de livre-arbítrio, só encontra tua razão de ser na plenitude de uma total comunhão contigo. É por isso que a mais intolerável angústia, nas regiões do ser que ela rege, é a de não sentir tua Presença; aí se encontra a angústia inerente ao pequeno eu. E a mais completa felicidade consiste em estar conscientemente ligado a ti; aí se encontra a felicidade que nasce do Amor realizado.

Como pôr fim à dor do eu que não se sente unido a ti? Para chegar a isso, o Buda se entregou a terríveis austeridades, e, para revelar a todos como se pode dissipar o mal da separação, Cristo deu sua vida.

Ó tu, que, mais que qualquer filho de nossa carne, és o Amado de nossa alma, tu, inconscientemente amado nas zonas invioladas de nossa personalidade terrestre, ó tu, que és a essência de todo ser e de toda coisa, é em tua Presença, na morada de nossa individualidade sem igual, que o Jogo de Ti contigo mesmo encontre sua plena realização. Contudo, enquanto não se realizar a união entre ti e nós, reinará cá embaixo um inevitável sofrimento, que parecerá se extinguir apenas para imediatamente renascer. E a morte não poupa nada nem ninguém, embora as Forças da imortalidade tentem, sem cessar, penetrar em suas camadas obscuras, a fim de iluminá-las para sempre. Senhor, por todo o tempo em que subsistir essa cisão entre ti e a consciência humana, tua Manifestação cá embaixo assumirá inevitavelmente um caráter dualista: o da dor e o da alegria, da separação e da união, da morte e da imortalidade. Contudo, todo aquele que te reconhece e te aceita, sem reservas, sob tua dupla face, chega a se tornar um contigo e pode, finalmente, exclamar: “Tudo se realizou! Nada mais tenho a desejar”.

***

[1] Poeta, filósofo, músico, pintor, escritor, e um dos grandes mestres espirituais da Índia dos séculos passado e retrasado, Tagore foi o primeiro ganhador não europeu do prêmio Nobel de literatura (em 1913, por Gitanjali). Também foi quem chamou a Gandhi de Mahatma (Grande Alma). O livro do qual foi retirada esta passagem é ele mesmo apenas uma pequena parte do Santiniketan, um conjunto de mensagens decorrentes das palestras matinais que Tagore proferia em sua universidade (fundada por ele próprio, ele foi também um assíduo contribuidor da educação e cultura de seu povo).
Eu geralmente trago comentários próprios para textos de outros autores, mas em alguns deles simplesmente não há o que acrescentar, e este certamente é um deles. Para quem acompanha este blog há algum tempo, perceberá que este texto resume vários conceitos que tenho desenvolvido aqui ao longo dos anos. Prestem atenção, particularmente, aos trechos que marquei em itálico... Tagore não traz nada de novo, apenas um entendiemento mais aprofundado daquilo que já era conhecido por qualquer espiritualista, porisso mesmo este é o tipo de texto que vale a pena ser relido na medida em que vamos adentrando mais e mais no Caminho.

» Veja mais posts sobre Tagore neste blog

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Crédito da foto: Wikipedia (Tagore recebe Gandhi e sua esposa em sua universidade. Foto tirada em 1940)

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14.9.10

Cantando pelo mundo

Nos vídeos abaixo, as músicas "Stand by me" e "One Love" são tocadas e cantadas por vários artistas - verdadeiros artistas - ao redor do mundo:

A tradução é desnecessária pois o que importa aqui é o conjunto do projeto e as belíssimas imagens e sons... Prova de que a real globalização não será um mal, muito pelo contrário, a questão é que ela na verdade mal começou... Para conhecer mais acesse o Playing for Change

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4.8.10

Salve Sakineh

"Quem não houver pecado, que atire a primeira pedra" - antigo profeta do Islã.

Não se trata de política, mas de salvar a vida de uma viúva que supostamente foi "infiel" segundo as leis "islâmicas" do Irã, apenas porque manteve relações sexuais com outros homens ANOS após a morte do marido.

Seus dois filhos lançaram uma campanha para salvá-la, gerando uma repercussão internacional. Com a pressão, o governo iraniano decidiu revocar o apedrejamento, porém ainda querem executá-la por enforcamento.

Devido ao esforço por uma diplomacia paciente com o Irã, o Presidente Lula é a única pessoa que poderá salvar a Sakineh. Após ele ter recusado intervir, cidadãos brasileiros se mobilizaram pela Internet para defender a Sakineh, como resultado alguns dias atrás ele mudou de opinião e ofereceu asilo a ela. Após a intervenção do Lula, o governo iraniano começou a tratar melhor a família de Sakineh.

Participe da campanha #LigaLula e envie uma mensagem ao nosso atual presidente para que não desista de tentar evitar a execução de Sakineh (no momento estão "estudando" a possibilidade de "amenizar" a pena para enforcamento):

» Lula: não desista, salve a Sakineh (AVAAZ)

Obs: claro que salvar uma única vida não vai impedir a curto prazo outros apedrejamentos arcaicos no Irã, mas toda grande mudança começou pequena - existe a esperança de que essa lei absolutamente injusta seja revista a longo prazo.


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28.6.10

O homem no espelho

É interessante como a mídia trata de erguer e destruir seus ídolos de pés de barro. É que nossa sociedade sempre dependeu de mitos. Importa, entretanto, enxergar a realidade por trás do mito - ou o que há de real no mito, e o que há de fantasia. Este homem, o homem no espelho, infelizmente não teve infância, e viveu a vida como uma doce fantasia infantil... Fomos nós quem tratamos de esfregar a realidade em seu rosto, fomos nós quem não aceitamos que um homem pudesse viver como uma criança. Só que todos somos crianças, a única diferença é que uns percebem, e outros não. Entenda quem souber encarar ao homem no espelho.

Estou começando com o homem no espelho
Estou pedindo a ele que mude seus conceitos
E nenhuma mensagem poderia ter sido mais clara:
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Olhe para si mesmo, e então faça uma mudança!

"Man in the mirror" - cantada por Michael Jackson (retirado do filme "Moonwalker") in memoriam

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11.6.10

Ubuntu – the world goes around

best if viewed in Fullscreen ("More" > "Fullscreen"):


Ubuntu is a very peculiar african word
It has so many meanings, as many as the breeds of men
For to know it’s true meaning, we would have to ask one of them
Of the hundred that left Africa to explore the world
The adams and eves of our age
The mothers and fathers of men

Ubuntu means that a hunter wouldn’t need to ask for food
When passing by the villages of another people
Cause we hunt to survive
But it’s in the sharing, it’s in the kindness to each other
That we actually find that precious feeling
A breeze of joy
A pleasure to be alive

Ubuntu means that no man is an island
That we are like continents, looking to sail back
Looking to unite the shores of our kingdoms
To form once again the Pangaea
A place with no foreigners, no rulers and no slaves
Where roads connect every city and every heart
And nobody see any frontier

Ubuntu means that the age of men is just a blink
In the eyes of eternity
That we are but a link in the web of life
Billions came before us, billions are yet to pass
To walk in the long plains and to climb the hills of Africa
To look at the grass, and the flowers, and the trees
And understand that no daylight is the same
And all things float like dust in gentle wind, unbound
The world goes around

Ubuntu means that no man can live in cages
Be it prisons or dogmas
We must look to discover, to uncover, to enlight
To love and to change, to move millions with thoughts
Like the gandhis, the mandelas, the kings
Cause this world is no kingdom for just one ruler
But we are all rulers of our own lands
We should exchange our knowledge and wisdom
And never bullets and bombs

Ubuntu means that men should work toghether
Walking beside, holding hands
Facing the horizon like the old hunters
Yet, no more to fight in the war of hunger and pain
But to reach a precious trophy
The prize of self-knowledge
A distinct vision of the true meaning of the word

Yes, there are many breeds of men indeed
And many breeds of life
But we are all one, all of us
Represented in so many forms, so many substances
So many meanings for this one concept
So many villages in the ocean of night
So many hunters walking on all those waves of light
So many preys waiting to be unbound
Ubuntu – the world goes around

raph’10 (aka. Rafael Arrais, this blog's author)

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Ubuntu – o mundo dá voltas

Ubuntu é uma palavra africana muito peculiar
Ela tem tantos significados, tantos quanto as linhagens dos homens
Pois para saber seu verdadeiro significado, precisaríamos perguntar para um deles
Um dos cem que deixaram a África para explorar o mundo
Os adãos e evas de nossa era
As mães e os pais de todos nós

Ubuntu quer dizer que um caçador não precisaria pedir por comida
Quando passando pelos vilarejos de outros povos
Pois nós caçamos para sobreviver
Mas é no compartilhar, no carinho para com cada um
Que nós realmente encontramos essa sensação preciosa
Uma brisa de alegria
Um prazer em se estar vivo

Ubuntu quer dizer que nenhum homem é uma ilha
Que somos como continentes, esperando navegar de volta
Procurando unir as praias de nossos reinos
Para formar uma vez mais a Pangeia
Um lugar sem estrangeiros, governantes ou escravos
Onde as estradas conectam cada cidade e cada coração
E onde ninguém vê nenhuma fronteira

Ubuntu quer dizer que a era dos homens é tão somente um piscar
Dos olhos da eternidade
Que nós somos apenas um fio na teia da vida
Bilhões vieram antes de nós, bilhões esperam passar
Para caminhar nas longas planícies e escalar os montes da África
Para olhar para a grama, e as flores, e as árvores
E compreender que nenhuma luz da manhã é a mesma
E que todas as coisas flutuam como poeira em brisas suaves, libertas
O mundo dá voltas

Ubuntu quer dizer que nenhum homem pode viver em celas
Sejam prisões ou dogmas
Nós precisamos descobrir, desvelar, iluminar
Amar e mudar, mover milhões com pensamentos
Como os gandhis, os mandelas, os kings
Porque este mundo não é um reino para apenas um rei
Mas todos somos os reis de nossas próprias terras
Nós deveríamos trocar nosso conhecimento e sabedoria
E nunca mísseis e bombas

Ubuntu quer dizer que os homens deveriam trabalhar juntos
Caminhando lado a lado, de mãos dadas
Encarando o horizonte como os antigos caçadores
Porém, não mais para lutar na guerra da fome e da dor
Mas para alcançar um troféu precioso
O prêmio do auto-conhecimento
Uma distinta visão do verdadeiro significado da palavra

Sim, existem realmente muitas linhagens de homens
E muitas linhagens de vida
Mas todos somos um, todos nós
Representados em tantas formas, em tantas substâncias
Tantos significados para apenas este conceito
Tantos vilarejos no oceano da noite
Tantos caçadores caminhando em todas essas ondas de luz
Tantas presas aguardando a liberdade
Ubuntu – o mundo dá voltas

raph’10

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Em homenagem ao espírito da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul

Crédito da foto: Daylife (Nelson Mandela e Desmond Tutu - grandes colaboradores de Ubuntu)

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28.1.10

Irmãos de armas

Dire Straits canta o seu clássico , "Brothers in Arms ", no Mandela Live Concert de 1988

Essas montanhas cobertas por névoa
Hoje são minha casa
Mas meu lugar é nas planícies
E sempre será
Algum dia vocês irão retornar
A seus vales e fazendas
E não mais irão arder para serem
Irmãos de armas

Por esses campos de destruição
Batizados por fogo
Eu vi todos os seus sofrimentos
Quando a batalha tornou-se árdua
E apesar deles terem me machucado tanto
Em seu medo e alarme
Vocês não me desertaram
Meus irmãos de armas

Existem tantos mundos diferentes
Tantos sóis diversos
E nós temos apenas um mundo
Mas vivemos em [mundos] diferentes

Agora o sol foi para o inferno
E a lua segue no alto
Deixe-me dar-lhe adeus
Todo homem tem de morrer
Porém está escrito na luz das estrelas
E em cada linha de sua mão:
Nós somos tolos por guerrear
Com nossos irmãos de armas

Tradução de Rafael Arrais para a letra original em inglês

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28.6.09

Os Aymara e o tempo

Os índios Aymara, que habitam há séculos as margens do lago Titicaca, nos Andes, junto com algumas tribos africanas tem um estranho conceito de passado e futuro.

Exatamente ao contrario de nós, o que para nós é passado, para eles é futuro e, com esse conceito defendem a necessidade de sete diferentes tipos de paz.

A primeira é para dentro de si. Consigo próprio, na saúde do corpo, na lucidez da mente, no prazer do seu trabalho, na correspondência dos seus amores. Sem paz consigo, você não está em paz.

A segunda é para cima. Com o espírito de seus antepassados, com a vontade de Deus. Se você não está em paz com o mundo espiritual, com a essência de sua existência, sua paz está incompleta.

A terceira paz é para frente, com seu passado. A cultura ocidental põe o passado para trás. Já os Aymara põem o passado à frente, porque ele é o conhecido, o visto, o vivido. Se você tem remorsos, dívidas não pagas, culpas, arrependimentos, não está totalmente em paz.

A quarta paz é para trás, com seu futuro. Quem tem medo do que virá, está assustado com dívidas a pagar, com emprego incerto, esperando más notícias, não está em paz.

A quinta é para o lado esquerdo, com seus próximos. Sem a paz familiar, não há paz. A disputa doméstica, o descontentamento com familiares e amigos próximos, tira o sentimento de paz.

A sexta paz é para o lado direito, com seus vizinhos. Não adianta a paz em casa, se do outro lado da rua estão a ameaça, a maldição, o descontentamento.

A sétima paz é para baixo, com a terra que você pisa, de onde virá seu sustento. Se vier tempestade, se o solo secar ou tremer, se não respeitarmos nosso planeta, não haverá paz completa.

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Crédito da foto: José Branco

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