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13.10.20

Jordan e o Basquete Zen

Neste vídeo vamos tentar explicar o que é exatamente estar "in the zone", um termo usado para quando grandes atletas e esportistas em geral "jogam no automático", como se estivessem em transe. Como exemplo, trazemos o primeiro jogo das finais da NBA (Liga de Basquete dos EUA) em 1992, quando Michael Jordan, o maior jogador de basquete da história, simplesmente "não conseguia errar". Ao final, uma reflexão sobre o arremesso da bola como metáfora para a vida.

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19.9.14

Caixas quebradas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há quase dez anos atrás eu vivenciei um instant karma, ou um carma instantâneo.

Somente quem passou por isso, e crê em carma, pode saber como é. Em todo caso, outro dia tentei descrever nas redes sociais, comentando uma notícia que tinha a ver com o tema:

Um dia eu fiquei muito revoltado com a minha mulher. Acabei dando um soco na lateral do armário, e toda a minha coleção de CDs de música caiu junto com uma prateleira que se deslocou da parte superior. Naquele momento eu pensei comigo mesmo: instant karma! Até hoje, quando vejo as caixas quebradas dos meus CDs ao abrir o armário, lembro da importante lição que aprendi da Natureza naquele dia...

A notícia em questão era uma notícia do blog do psiquiatra Jairo Bauer, onde ele trazia dados de um estudo realizado nos EUA que chegou a aterradora conclusão de que um em cada cinco americanos agredia a sua parceira.

Como era um canto das redes sociais frequentado por feministas, elas logo tratarem de me alertar:

Pesquisas indicam que o soco no armário é só o começo, depois você poderá estar dando um soco na cara da sua mulher, o que provavelmente é o que gostaria de ter feito!

Posso lhe garantir que o trauma que sua mulher passou não se compara as caixas quebradas dos seus CDs de música!

Vocês podem pensar que eu fiquei chateado com esse tipo de reação... Muito pelo contrário, é o tipo de reação que deveria se esperar de mulheres feministas que estão bem informadas sobre o quadro da violência doméstica no Brasil e no mundo. Melhor pecar pelo exagero do julgamento apressado do que pela leniência da maioria, que costuma dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Mas talvez tivesse ajudado se eu houvesse explicado melhor o que eu senti exatamente naquele dia, há quase dez anos atrás...

Como eu estava com uma raiva muito súbita da minha mulher, achei por bem sair do quarto onde estávamos discutindo e ir para outro, e foi assim que entrei no quarto em que soquei a lateral do armário. Ora, é óbvio que eu soquei o armário por estar com raiva, é óbvio que se esta raiva não fosse tratada, compreendida e, quem sabe, domesticada, nalgum dia o alvo do meu soco poderia realmente ser o rosto da minha mulher – e isto é muito grave!

Mas não foi sem a ajuda do instant karma que eu consegui chegar a tal conclusão. Na verdade, eu não dou a mínima para as caixas quebradas dos CDs. De fato, se quisesse eu poderia ter comprado outros CDs. O que me interessa nas caixas quebradas é o símbolo que elas representam, e que me trazem a lembrança daquela vivência:

Quando vi toda a minha coleção de CDs no chão, foi como se ouvisse uma mensagem da Natureza: “Você tem certeza de que quer prosseguir neste caminho? Daqui para frente será só amor corrompido, e cada vez mais corrompido”.

Até hoje, toda vez que abro meu armário e troco de roupa, me lembro daquela mensagem da Natureza.


Um estudo do Ipea estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão realizadas por parceiros íntimos. Esse número indica uma taxa de 5,8 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. Neste país, a cada uma hora e meia, em média, morre uma mulher vítima da violência do seu companheiro.

Nos EUA, recentemente, imagens do circuito interno de um hotel flagraram um astro do futebol americano agredindo a sua esposa dentro do elevador. As imagens mostram que ela desmaiou com um único soco, que a fez bater com a cabeça no corrimão de aço do elevador. Alguns andares depois, o jogador a arrasta para fora do elevador e espera ela acordar, enquanto um funcionário do hotel tem o cuidado de segurar a porta para que não se fechasse nas pernas dela.

Devido a enorme pressão popular por conta da divulgação das imagens na web, o Baltimore Ravens, time pelo qual jogava, decidiu demiti-lo, enquanto a liga de futebol americano, a NFL, o suspendeu indefinidamente. Agressões de jogadores as suas esposas ocorrem há anos nos EUA, dificilmente tal caso teria esse desfecho não fosse pela divulgação das imagens.

Mesmo assim, esta foi a mensagem que a esposa agredida divulgou na web, no dia seguinte a agressão:

Tirar algo do homem que amo e que ele se dedicou por toda a vida apenas para ganhar audiência é horrível. Essa é nossa vida! Por que vocês não entendem? Se a intenção era nos machucar, nos envergonhar, nos fazer sentir solitários, tirar toda nossa felicidade, vocês tiverem sucesso.


Esses foram apenas alguns dados estatísticos que refletem o atual estágio de nossa sociedade. Aqui, nos EUA e em boa parte do dito mundo civilizado.

Já foi muito pior, é claro. Não muitos anos atrás a alegação de “legítima defesa da honra” ainda salvava muitos maridos homicidas da condenação pelos seus crimes. Após o caso Doca Street isso mudou. Mas ainda precisamos mudar muito, muito mais!

A própria Lei Maria da Penha, um marco na legislação brasileira, só conseguiu reduzir ligeiramente a mortalidade das mulheres nos primeiros anos após a sua implementação. Hoje a curva da violência doméstica letal já retornou aos mesmos patamares do período anterior a Lei.

Mas ao menos hoje em dia tal assunto não é mais varrido para debaixo do tapete. Ao menos hoje em dia muitos homens e mulheres, feministas ou não, já têm plena compreensão da devastação que a violência doméstica causa em nossa sociedade e em nossas relações, na maioria das vezes, silenciosamente.

O macho é educado para ser viril, para não chorar, para sustentar a casa, etc. Mas o macho também é educado para proteger suas famílias, seus filhos e, sobretudo, para nunca, em hipótese alguma, agredir uma mulher ou uma criança. Como podemos ver, a visão dos machos sobre a própria educação é um tanto quanto seletiva. Muitos provavelmente ainda achariam uma tragédia muito maior chorar em público do que ser visto agredindo a mulher... A educação dos machos falhou, é o que milhares de estatísticas demonstram.

Eu gostaria muito que todo o “homem macho” pudesse um dia sentir, vivenciar, o instant karma que eu passei. Eu gostaria de fazê-los compreender que este tal caminho de “ser muito macho” é uma dos caminhos mais nocivos e corruptores que o ser humano já inventou. Corruptor de almas, nocivo a própria vida.

Eu gostaria, enfim, que todos pudessem um dia ver a si mesmos como eu me vi naquelas caixas quebradas, que em realidade também eram o reflexo de uma alma que vinha se rachando...

Mas eu me consertei a tempo. Espero que outros tenham a mesma sorte. Mas, enquanto a sorte não vem, espero também que as suas companheiras compreendam, cada vez mais, que o amor não tem nada, absolutamente nada, a ver com qualquer tipo de violência.


Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Conversation

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10.12.12

Madiba!

Quando Nelson Rolihlahla Mandela chegou a Joanesburgo, aos 23 anos, não trazia muito mais do que a roupa do corpo e sua alma nobre, também por nascimento: Rolihlahla era da nobreza do clã dos Madiba, do povo Thembu, e veio ao mundo numa pequena aldeia do interior da África do Sul, onde se vivia do mesmo jeito há centenas de anos. Rolihlahla queria mudança, queria novos ares, queria conhecer o mundo e os seres a sua volta. No fim, foi à alma de Mandela que prevaleceu.

Foi ainda criança que ganhou seu primeiro nome, Nelson. Estudava numa escola primária com um único cômodo, teto de zinco e chão e terra. Uma de suas professoras seguiu o costume de dar nomes ingleses a todas as crianças de etnias locais que frequentavam a escola. Mandela não se importou: não havia nada de errado em usar um nome inglês, acreditou que aquilo serviria para facilitar seu convívio com eles...

Mas não foi o que viu na cidade grande. Tornou-se advogado e um dos líderes da juventude negra que protestava de forma não violenta contra o apartheid, um vergonhoso sistema oficial de segregação racial implementado pelo governo sul-africano, que veio a ser abolido somente muito tardiamente (se comparado com outros países onde havia segregação amparada pela lei), já em 1994. Como devem saber, Mandela foi vital neste processo.

No entanto, nada ocorre da noite para o dia, e concepções arraigadas em sociedades, particularmente nas elites dominantes das sociedades, demoram muito tempo para desaparecer. Na realidade, não fosse pela pressão do resto do mundo, Mandela dificilmente teria saído ainda vivo da cadeia onde passou 27 anos. Tampouco foi algum santo: caiu na tentação de descambar para uma espécie de guerrilha armada contra o apartheid, embora a princípio houvesse participado apenas em alguns planos terroristas de ataques com bombas a alvos não humanos, como antenas de rádio e TV, e torres transmissoras de energia elétrica. No fim, talvez a prisão o tenha salvado de haver morrido bem mais jovem, quem sabe com uma arma na mão...

Mas 27 anos tampouco passam da noite para o dia. Enquanto permaneceu enclausurado numa pequena cela, sem acesso a informações do mundo exterior, teve todo o tempo do mundo para avaliar qual seria a melhor forma de continuar em sua luta contra a segregação. Do lado de fora, por todos os cantos da África do Sul, a juventude negra, pobre em quase sua totalidade, continuava a se revoltar cada vez mais. Elegeram Winnie, então esposa de Mandela, como sua representante direta – “Madiba! Madiba!” era seu grito de guerra... Muitos morreram em conflitos com a polícia, mas Mandela continuava encarcerado, e a violência só aumentava.

Com o passar das décadas, o governo segregacionista começou a temer por sua própria segurança. No fundo, o apartheid foi implementado como forma de manter a cultura dos colonizadores europeus viva numa terra estranha, conquistada pela força das armas, e não da diplomacia. Agora, eles temiam não somente pelo fim de sua cultura, mas pelo fim de toda a sua sociedade, pois que sempre existiriam mais negros do que brancos naquela terra: eles viveram ali por muitos milhares de anos, os brancos eram recém-chegados.

Dizem que, mesmo preso, Mandela sempre manteve sua “aura” de nobreza. Uma nobreza antiga, tribal, ancestral, do tipo que nem mesmo décadas de prisão é capaz de apagar. Quando Mandela era escoltado para o pátio fora da cela, eram os guardas que seguiam seu ritmo de caminhada, e não o contrário. Uma vez, disse a um jornalista que o visitara por lá: “Bom dia, esta é a minha guarda pessoal”. O chefe carcerário confessou que seu maior medo era ter de dar a notícia ao governo de que Mandela havia falecido na prisão. Aquilo seria o fim da África do Sul, disto ninguém tinha dúvidas, ao menos entre os brancos...

Mas Mandela venceu pela força de sua alma, e sua habilidosa diplomacia. Através de anos de negociações diretas com os governantes do apartheid, inclusive tendo encontrado presidentes pessoalmente, em escoltas secretas para fora de sua prisão, um dia finalmente aconteceu: em 11 de fevereiro de 1990 Mandela é solto. Caminhou pela porta da frente da prisão, de mãos dadas com Winnie. Do lado de fora, não somente negros, como uma boa parcela de brancos, o saudavam entusiasmados. Aquela altura, Mandela era um cidadão do mundo.

Em 1994, Mandela é eleito presidente da África do Sul com 62% dos votos. Como seu vice-presidente, de Klerk, o último presidente do apartheid, e uma espécie de “garantia” de que Mandela não queria “usurpar o poder dos brancos”. Mas foi somente cerca de um ano depois de assumir a presidência, em 1995, já com quase 80 anos, que Mandela finalmente sacramenta sua missão...

No campeonato mundial de rúgbi de 1995, realizado na África do Sul, o time nacional tinha poucas chances de avançar na competição. O rúgbi era um esporte herdado da cultura branca, colonizadora, e nunca havia tido popularidade alguma entre os negros... Mas o time avançou, e Mandela viu ali uma oportunidade de ouro. Viu ali uma chance de, finalmente, promover uma união de culturas, algo que iria tornar a África do Sul uma nação de verdade, pois que toda a verdadeira nação é feita de irmãos, de cultura em comum.

Seu time chegou a final e, quando Madela entrou, uniformizado, para os saudar no estádio antes do início da partida, foi uma grande maioria branca que gritou nas arquibancadas: “Nelson! Nelson!” era seu grito de guerra... O time da África do Sul venceu aquele campeonato. Pelas ruas de boa parte do país, negros e brancos comemoravam. Não comemoravam juntos, quem sabe, mas este era apenas o início... O início de uma nova era. “Madiba” ou “Nelson”, tanto faz: ele cumpriu sua missão [1].

***

Morgan Freeman é um excelente e conhecido ator americano que se parece muito com Mandela fisicamente. Foi ele quem o representou no filme Invictus, que conta esta extraordinária história do campeonato mundial de rúgbi de 1995. Em entrevistas, Morgan é às vezes polêmico, por exemplo, ao defender que “o dia da consciência negra é uma ideia ridícula”. Segundo ele, não existe um dia da consciência branca, e, portanto, não faz sentido haver um dia reservado para a consciência negra. Para Morgan, todos os dias são dias da consciência: a consciência humana.

Polêmicas a parte [2], hoje sabemos, pela ciência, que não existem brancos e negros, ou índios e japoneses, etc. Todos temos o mesmo sangue e a mesma raça, o que varia são apenas pequenas características físicas que nunca seriam capazes de determinar que “esta raça tem alma, aquela não tem”, nem que “esta raça tem mais inteligência, aquela tem menos”. Também sabemos, por teorias científicas bastante contundentes, que o homo sapiens surgiu na África, que Adão e Eva habitaram alguma região selvagem do sul ou da região central deste continente, e que, portanto, todos somos os ancestrais das antigos tribos africanas.

No fim, todos somos da mesma tribo de Rolihlahla. Uma só tribo, um só mundo. É hora de compreendermos este fato, pois que não há mais muito tempo para essas brigas idiotas entre nós. A Natureza dá o alarme, os mensageiros orientam. Obrigado, Madiba, pela orientação. Obrigado por tudo!

***

[1] Recomendo o excelente documentário The long walk of Nelson Madela, sobre sua história de vida (infelizmente, apenas em inglês).

[2] É claro que aqueles que lutaram pela instauração de “dias da consciência negra” tinham a melhor das intenções. Mas fato é que, pela lógica, é estranho que exista um “dia da consciência” apenas para negros, e não para os demais seres humanos com outros níveis de melanina na pele. Tanto quanto é estranho que haja um “dia da mulher”, enquanto não existe um “dia do homem”, etc.

Crédito das imagens: [topo] MAISANT Ludovic/Hemis/Corbis (cerâmica do rosto de Madela jovem, no Soweto Hotel, Joanesburgo); [ao longo] Divulgação (Invictus)

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4.4.12

Enquanto a bola está no ar

Era o primeiro jogo das finais da NBA de 1992, onde era decidido o maior time de basquete do mundo, visto que, especialmente naquela época, não se jogava basquete naquele nível em nenhum outro lugar que não nos Estados Unidos, e em nenhuma outra cidade que não em Chicago, onde os Bulls decidiam o título contra os Blazers de Portland. Michael Jordan até então havia ganho apenas um título na NBA, e a partir daquele jogo ficou claro para todos que ele não só ainda ganharia aquele campeonato e muitos outros, como se firmaria como o maior da história do esporte, como de fato ocorreu.

Mas este artigo não é uma adulação de Jordan, e sim da mente humana, mente esta que ele soube utilizar como ninguém, precisamente no início daquele jogo. Na primeira metade do jogo, Jordan estabeleceu o recorde histórico de maior número de pontos (35) e arremessos de longe (6) para uma final da NBA, que é onde todos dão a vida por cada palmo de campo e cada jogada... Jordan, no entanto, parecia jogar sozinho: apenas quando acertou o sexto arremesso de três pontos, é que percebeu seu amigo Magic Johnson (outro craque do jogo, que havia se aposentado recentemente) sentado na bancada de narradores, sorrindo largamente. Foi então que Jorden se deu conta, conscientemente, do que estava a ocorrer. Ele deu de ombros, quase como se pedisse desculpas.

“Estava além de mim, era como se eu jogasse por instinto, como se não existisse mais ninguém na quadra, no ginásio inteiro – apenas eu, a bola, e a cesta do outro lado” – Admitiu Jordan tempos depois. Na segunda metade do jogo, ele fez poucos arremessos e anotou apenas mais 4 pontos: não era mais necessário, a vantagem estabelecida fez com que os Bulls pudessem apenas administrar o placar contra os Blazers. Porém, assim que se apercebeu do que estava a ocorrer, Jordan também sabia, em seu íntimo, que não adiantaria mais perseguir aquele “estado” no restante do jogo. Tudo que podia fazer era agradecer por tem chegado lá uma vez mais. Michael Jordan estava in the zone (“na zona”), como só os maiores esportistas nalgum dia puderam estar... Dentro de suas mentes.

Estar in the zone é um conceito conhecido entre os grandes atletas do basquete que equivale a um certo estado mental onde a pressão de ganhar se esvai, junto com o medo de perder. Quando não importa se o ginásio está lotado ou vazio, de torcedores do seu time ou do time adversário, quando nem a altura nem a cara feia dos adversários faz alguma diferença. Quando a bola chega nas mãos e é arremessada, e não há nem mesmo o desejo de que ela entre na cesta – e, ainda assim, ela quase sempre entra.

Mas tal estado não é, obviamente, exclusivo do basquete, nem do esporte em geral. É uma capacidade, uma potencialidade humana. Muitos anos antes de Jordan ter entrado no Bulls, um professor de psicologia da Universidade de Chicago já havia iniciado sua extensa pesquisa sobre o que ele chamou de “o fluxo” (the flow). Mihalyi Csikszentmihalyi publicou os resultados de sua pesquisa em Flow: The Psychology of Optimal Experience, onde deu atenção detalhada exatamente aos grandes esportistas, embora tal estado, como foi dito, abarque todas as capacidades humanas. De certa forma, alcançar o fluxo em uma atividade física é o mesmo que alcançar um estado de consciência alterada, de grande paz interior, em atividades contemplativas e espirituais, como a oração fervorosa ou a meditação profunda.

Eu poderia estender os exemplos para outros grandes esportistas, como Pete Sampras ou Ayrton Senna. Poderia também falar dos grandes músicos a improvisar em seus instrumentos, de pintores e poetas, budistas e dervixes, mas por enquanto me bastará permanecer no jogo de basquete...

Muitos talvez não saibam, mas eu amo basquete. Jogo desde mais ou menos quando aquela final de 1992 passou na TV (embora não seja torcedor do Bulls, e sim de um de seus grandes rivais, o New York Knicks), e mesmo hoje em dia jogo com amigos todo sábado à tarde, num parque perto de casa... Uma das características que sempre me atraiu no basquete é o fato de poder praticá-lo só: apenas eu, a bola e a cesta. Claro, o jogo em si é coletivo, assim como a vida. Mas, assim como na vida, muitas das coisas que fazemos em meio a multidão são o reflexo daquilo que pensamos conosco mesmo, nos momentos de solidão... Eu, a bola e a cesta: jogar basquete também pode ser uma experiência profundamente espiritual.

Aquilo que Jordan e outros craques conseguiram experienciar em meio a ginásios lotados talvez possa também ser alcançado na solidão de um treinamento de arremessos. Não para que seja filmado ou aplaudido, mas apenas para ser experienciado mesmo... Que bela metáfora para a vida, o ato de se arremessar a bola a cesta: treinamos incontáveis vezes para que o mecanismo do arremesso seja o mais correto possível, para que cada arremesso tenha a maior chance de acerto possível – no entanto, mesmo entre os maiores jogadores da NBA, um índice de acerto de 50% nos arremessos de quadra já é considerado excepcional. A grande maioria dos craques de basquete do mundo ainda erra mais do que acerta, a despeito de treinarem o arremesso por décadas a fio.

Tudo bem, no jogo não estamos mais sós, e o papel do adversário é exatamente impedir nosso arremesso, dificultando que tenhamos uma boa visão para a cesta, e alguns centésimos de segundo para arremessar... Mas assim é também com a vida: não existe almoço grátis, e estamos aqui, desde tempos imemoriais, lutando a guerra da fome e da morte, competindo pela sobrevivência. Viver não é fácil, e ninguém disse que seria: tudo que podemos fazer é continuar arremessando a bola da melhor forma que pudermos arremessar. Se muitas vezes erramos o alvo, há que se comemorar as tantas outras em que o acertamos...

Mas, não importa se somos um Michael Jordan ou um adolescente magrelo e baixo sonhando com enterrar a bola na cesta: a maioria dos arremessos da vida se faz a uma certa distância, e para todos há essa angustiante chance de errar... Mesmo Jordan, após ter acertado 6 em 8 arremessos da linha de 3 pontos no início da final de 1992, no restante do jogo errou todos os 3 outros arremessos que tentou. Há sempre a chance de errarmos, e de continuarmos errando. Porém, assim como Jordan no início do jogo, todos temos alguma chance de entrarmos no fluxo, de estarmos in the zone, e de arremessarmos a bola sem medo, sem angústia, sem sequer o desejo de acertar. Quando estamos nesse estado, estamos apenas aqui, vivos, e na verdade não importa muito se a bola irá ou não entrar na cesta: a vida é o que ocorre enquanto a bola está no ar.

***

A performance de Jordan no jogo citado no artigo (1992)

Crédito da imagem: Neal Preston/Corbis

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