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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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13.9.21

Porque é importante conhecer a filosofia islâmica

O texto abaixo prefaciou o livro A Filosofia Islâmica: Pensadores Islâmicos de todos os tempos, de Thiago Tamosauskas, disponível na Amazon em e-book.


O italiano Cosme de Médici foi um dos homens mais importantes do Renascimento na Europa. Não foi pintor, nem escultor, nem escritor ou mesmo pensador, foi um banqueiro. Herdou do pai a fortuna, a saúde e o talento para os negócios. Além disso, governou Florença durante muitos anos, e ajudou a torná-la a capital da arte em todo o Ocidente. Isso tudo porque Cosme foi um homem rico que soube fazer bom uso de sua fortuna, quiçá o melhor uso: patrocinar as artes em geral.

Ele também amava livros, e como na sua época não existia internet, enviava diversos agentes pelo mundo afora para tentar encontrar tomos raros. Eram caçadores de cultura. Cosme estava particularmente interessado em obras gregas da Antiguidade, uma vez que mais ou menos após o advento do cristianismo, toda a Europa foi, século após século, se esquecendo do grego, e se apegando exclusivamente às obras em latim. Mas Cosme não estava numa busca às cegas, pois sabia exatamente para onde enviar seus agentes: o mundo árabe islâmico.

Ninguém questiona a importância das obras de Platão para o pensamento ocidental, mas quando Cosme cresceu, poucas eram as obras platônicas disponíveis em latim. Já ao leste, principalmente na junção com o Oriente Médio, a situação era outra. Os bizantinos que conheciam o grego podiam continuar a ler Platão no original. Dessa forma, os filósofos do mundo islâmico desfrutavam de um extraordinário grau de acesso à herança intelectual da antiguidade grega. Por exemplo, na Bagdá do século X, leitores árabes tinham o mesmo grau de acesso às obras platônicas quanto os leitores em inglês nos dias de hoje.

Isto foi graças a um movimento de tradução que se iniciou durante o califado Abássida, começando na segunda metade do século VIII. Patrocinado pelo próprio Califa, este movimento almejou importar a filosofia e a ciência grega para a cultura islâmica. O império deles tinha recursos para tal, não só financeiramente, mas culturalmente também. Desde a antiguidade tardia até a ascensão do Islã, o grego sobreviveu como língua de atividade intelectual entre cristãos, especialmente na Síria. Então, quando a aristocracia muçulmana decidiu ter a ciência e a filosofia gregas traduzidas para o árabe, foi para os cristãos que eles se voltaram. Foi um imenso desafio. Mas, já no tempo de Cosme, grandes obras de Platão, Aristóteles, Plotino, assim como o famoso Corpus Hermeticum, estavam não somente preservadas em seu original grego nos califados islâmicos, como traduzidas para o árabe e outras línguas da região.

Enquanto durante muitos séculos os europeus “se esqueceram” de tais ideias, no mundo islâmico elas eram conhecidas a fundo. Em boa medida, o chamado Renascimento foi mais uma redescoberta das ideias da antiguidade grega. Mas, se tais ideias puderam ser revisitadas, foi porque os islâmicos as salvaram da aniquilação. Quando os agentes de Cosme retornaram à Florença, ele logo deu a ordem para que todas as obras encontradas fossem traduzidas para o latim. E o resto é história: tais obras jamais voltaram a ser esquecidas pelo Ocidente.

Mas, estranho de se pensar: se foi o mundo árabe islâmico que preservou tais conhecimentos, será que também não existiram grandes pensadores do Islã? Será que eles se limitaram apenas a preservar tal conhecimento, sem terem dialogado com ele? E, se existiram grandes filósofos islâmicos, por que nós raramente ouvimos falar deles no Ocidente?

Não cabe a mim responder tais perguntas neste prefácio, mas a quem ficou curioso sobre o tema, o restante desta obra será de grande valia. O seu autor, Thiago Tamosauskas, tem se revelado um investigador incansável de escolas de pensamento mundo afora. Antes de falar da filosofia islâmica, ele também já se debruçou sobre a filosofia africana e a filosofia chinesa. Sua intenção, obviamente, não é descrever em minúcias cada uma das ideias dos pensadores islâmicos, mas antes dar uma introdução geral ao assunto, e deixar que cada leitor busque se aprofundar por conta própria no pensamento dos filósofos que mais chamaram a sua atenção – de preferência, lendo-os no original.

Uma grande vantagem do texto do Tamosauskas é que, ao contrário do seu sobrenome, ele é altamente legível e explicativo, às vezes com uma pitada de humor aqui e ali. Em suma: é algo que informa e diverte. Se tudo correr bem, logo logo você estará buscando pelos outros livros desta série, se é que já não os leu.


Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Pintura de Osman Hamdi Bey (1902).

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9.8.12

Citações (6)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Existe muita confusão acerca do que foram exatamente os gnósticos, fruto também é claro da "demonização" do cristianismo. Mas o interessante é que os gnósticos chamavam a si mesmos cristãos. E mesmo Plotino, que dizem ter sido radicalmente contra os gnósticos, na verdade era contra alguma doutrina zoroastrina da época, e sua concepção de batalha eterna de um Deus contra um Adversário, coisa que se parece, ironicamente, bem mais com o que os ditos cristãos de hoje creem piamente. Mas Plotino, assim como Espinosa, assim como os estoicos, pensavam de forma bem mais parecida com os gnósticos, pelo menos se formos considerar o Evangelho de Tomé como um bom exemplo do que diabos "gnosticismo" vem a ser...

Nesse sentido, acho um tanto estranho quando dizem que o neoplatonismo foi decisivo na formação filosófica do cristianismo. Há muitas coisas nas Enéadas de Plotino que não se casam com o cristianismo, que não me parecem próprias de um doutrina do dogma, mas sim de uma doutrina de liberdade, que talvez tenha encontrado seu ápice lógico em Espinosa.

Ainda assim, há muita profundidade espiritual que "vazou" dentre os dedos afoitos do dogma, e preencheu também o misticismo cristão. Acredito que isso se deva ao legado do gnosticismo, seja ele o que for... Eu prefiro dizer: a gnose do espírito.

Rumi, o poeta sufi, rodopiando e compondo em torno de seu Sol, foi quem soube explicar melhor. Ele explicou com poesias...

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Há aqueles que criticam o aparente excesso de significado das grandes religiões. Creem que os homens criaram a deuses e céus e infernos, e até mesmo a ideias de carma, simplesmente por não terem coragem de encarar o aleatório.

Eu já não sei... Voltaire um dia disse a uma senhora aflita: "Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado"... Isso já é fugir do aleatório?

Na verdade, para fugir do aleatório primeiramente deveríamos descobrir onde há exatamente aleatoriedade na Natureza que não, quem sabe, num jogo de dados. De fato o elétron na física quântica tem a probabilidade de estar aqui ou acolá, passando por esta ou aquela fenda, mas não há um espectro de aleatoriedade infinita aqui: apenas possibilidades dentro de um mesmo "campo".

Talvez o mais aflito seja o gato de Schrödinger, que não sabe nem se está vivo ou morto... Na verdade, as vezes o medo do inferno pode ser pior do que o medo do "sonho sem sonhos", muito embora tenhamos tido inúmeros deles durante várias noites desta vida.

Não sei mais quem eu era há 15 anos atrás. Será que aquele que eu era morreu? Será que devo estar enlutado por isso? Será que a ideia da reencarnação me conforta?

Tudo passa, tudo flui, tudo muda, e nada se perde. Nunca vi, em toda a minha vida, uma única pedra chutada que tenha chutado a si própria. Há por aí, sem dúvida, algum deus brincalhão chutando pedras... Mas não aleatoriamente... Esta é a sua brincadeira, quem mais tem vontade para brincar assim?

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Muitos poetas e escritores geniais já tentaram capturar o amor pela linguagem, mas tudo o que conseguiram foi descrever uma sombra de uma nuvem, o pio de um ave que já não mais se vê voar, a casca de uma fruta que caiu do pé e já foi devorada... Tudo isso porque o amor jamais foi alcançado pelo pensamento. O amor é a presa fugidia, o animal fantástico dos mitos: há muitos caçadores que o afirmam ter pego, mas nunca nenhum deles trouxe a prova.

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Eu gosto de duas ideias acerca do pecado:

A primeira vem da etimologia da palavra, e diz simplesmente que "pecar é errar o alvo". Isso pressupõe que havia um alvo, um objetivo a ser alcançado.

A segunda vem do espiritualismo e diz que "somos ao mesmo tempo o juiz e o escravo de nossa própria causa". Isso significa que o maior tribunal e o maior julgamento já ocorrem dentro de nossa própria consciência. E não há como fugir. Quanto maior o amor, mais dolorido é pecar. Porém, aqueles que erram o alvo e não se importam, é porque ainda estão nos primeiros degraus do amor, o grande objetivo!

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Uma coisa que acho que será essencial as novas gerações, é que aprendam a filtrar e "reciclar" a informação relevante do “lixo”. Porque informação é o que não falta, em um mês vemos mais anúncios do que nossos bisavós viram durante sua vida toda. A cultura também nem sempre é uma cultura popular, mas uma cultura “ditada pelo mercado”… Aprender a, como os filósofos de outrora, identificar as questões mais profundas, relevantes para o espírito humano (e falo num sentido geral), será cada vez mais essencial a todos nós. Afinal, a gente só muda, e com isso muda o mundo, quando o pensamento muda. Um pensamento de cada vez…

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Não pergunte - é perigoso saber - que fim os deuses darão a mim ou a ti.
Não brinque com os números da sorte babilônicos.
Melhor lidar apenas com o que vem à teu encontro.
Não se sabe se Júpiter lhe dará ainda muitos invernos ou se este será teu último, que agora bate nas rochas da praia como as ondas do mar.
Seja esperto, beba seu vinho no espaço breve e abandone tuas longas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo invejoso está fugindo de nós.
Aproveite o dia, confiando pouco no futuro.

Carpe diem, de Horácio
tradução de uma amiga

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Crédito da imagem: Anônimo/GoogleImageSearch

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