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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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15.4.19

Parmêndies vs. Heráclito: deu treta!

Neste vídeo vamos esmiuçar o primeiro grande embate de ideias da história da filosofia ocidental: de um lado, vindo de Eleia, Parmênides e sua defesa intransigente do Ser imutável; do outro, originário de Éfeso, Heráclito e sua ideia de Logos como "um fogo sempre vivo", sempre em mutação. Para mediar tal combate, foram convidados mais três pensadores de peso: Sócrates, Platão e Benedito Espinosa. Fique conosco até o final para saber quem venceu (ou não)...

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16.3.19

Parmênides, Heráclito e a disputa pelo Ser

Em boa medida a história da filosofia se construiu pelo embate de ideias, principalmente no Ocidente. Hoje em dia é comum analisarmos qualquer embate do tipo, também chamado de “treta”, como uma disputa onde um lado precisa humilhar o outro, mas nem sempre foi assim... Na verdade, de um embate de ideias virtuoso, onde pedras se chocam não para tirar lascas umas das outras, mas para produzir faíscas de pura luz, é que surgiu o incêndio do pensamento genuinamente filosófico; e tal fogo arde até hoje, apesar dos séculos.

Que se saiba, o primeiro grande embate entre ideias da filosofia ocidental ocorreu na antiga Grécia, pouco antes do nascimento de Platão. Tal embate contou com duas posições antagônicas – Parmênides de Eleia e Heráclito de Éfeso –, e aquele que de alguma forma sintetizou suas ideias, o grande Sócrates.

Parmênides e o Ser
Tudo indica que Parmênides escreveu somente uma única obra, um poema intitulado Da Natureza, que sobreviveu aos séculos a partir da citação de fragmentos nas obras de outros autores. Assim, o que nos resta do seu pensamento são somente fragmentos copiados do original. Ainda assim, tais fragmentos possuem trechos tão profundos que influenciaram inúmeros pensadores posteriores, do próprio Platão a Benedito Espinosa, já dezenas de séculos depois.

Seu poema também fundou a ontologia, a ciência (logoi) do ser (ontos). Basicamente, o que Permênides defende é que tudo o que há, foi ou será é parte de um mesmo Ser, que não pode jamais ter deixado de existir, nem por um momento. Assim, tudo o que existe é parte do que é e sempre foi e sempre será, o Ser. Em suas palavras:

Como poderia [o Ser] ter sido gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a [sua] geração se extingue e a [sua] destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é.

Talvez a melhor forma de explicar tal ideia nos tempos atuais seja compará-la ao conceito do tecido espaço-temporal: se é que existe apenas este universo em que vivemos, fato é que não há nada “fora dele”, pois desde o Big Bang vivemos dentro do mesmo espaço-tempo, sendo até mesmo o próprio tempo somente mais uma das dimensões deste “todo”. Muita gente, até mesmo cientistas, até hoje se choca e se encanta com tal pensamento: pois bem, Parmênides foi um dos primeiros homens a concebê-lo em toda a sua profundidade!

No entanto, o grande “problema” do pensamento de Parmênides, e que lhe rendeu inúmeros críticos ao longo da história, é que a partir do pressuposto lógico de que só existe um único Ser do qual tudo o mais é parte derivante, ele se dedicou a refletir sobre a imutabilidade deste Ente, e aparentemente chegou a surpreendente conclusão de que nada no mundo de fato muda, e que a própria mudança, ou a própria percepção do tempo, é nada mais que uma ilusão causada por nossos sentidos falhos.

Ora, não foi a primeira nem a última vez que um filósofo extrapolou um pensamento lógico e o transportou diretamente para a nossa realidade subjetiva; mas sem dúvida foi, até hoje, uma das formas mais brutais com que isto foi feito.

(Dito isso, em meio aos fragmentos de seu poema, nos chegou um (III) em que lemos tão somente: ...pois o mesmo é pensar e ser. Teria sido extraordinário se mais algum trecho dessa parte do poema tivesse sobrevivido.)

Heráclito e o “fogo sempre vivo”
Diz-se que o grande contraponto a tal ideia de imutabilidade surgiu de Heráclito, um filósofo que viveu mais ou menos na mesma parte do mundo, e que provavelmente nasceu enquanto Parmênides ainda era vivo. É difícil cravar, no entanto, que Heráclito tomou contato com o pensamento de Parmênides. Fato é que a obra que lhe foi atribuída pelo historiador Diógenes Laércio tinha um título quase idêntico: Sobre a Natureza. Mas isto por si só não deveria ser grande motivo de surpresa, uma vez que era justamente sobre a natureza que muitos pensadores daquela época se dedicavam (aliás, até poucos séculos atrás, muitos cientistas ocidentais na realidade se autointitulavam “filósofos da natureza”).

Diógenes também acusou Heráclito de escrever de forma “obscura, próxima das sentenças oraculares”. Ademais, também nos chegaram tão somente fragmentos de sua obra – infelizmente, em número ainda menor do que os de Parmênides. Dessa forma, o que se sabe se seu pensamento é, em boa medida, mais uma construção tardia do que algo embasado.

Ao contrário de Parmênides, Heráclito ficou famoso pela defesa da ideia oposta à imutabilidade: “tudo flui” (panta rei) ficou conhecido como o seu grande “mantra”. Por exemplo, um trecho particularmente famoso de sua obra fala do fluxo dos rios (XII):

Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas.

Assim, imaginando esta cena de um homem atravessando um rio, podemos claramente conceber que, a despeito do mesmo rio poder permanecer séculos atravessando o mesmo local, em nenhum momento é a mesma água que corre através dele. Dessa forma, se um homem atravessa este rio pela manhã, quando retorna pela tardinha, e o atravessa novamente, já está a atravessar outro rio: as suas águas já não são as mesmas.

Ora, Parmênides poderia afirmar que na realidade é uma ilusão sensorial que faz com que acreditemos que o Ser se modificou na medida em que as águas desceram pelo rio. Mas então, será mesmo que Heráclito se colocaria diametralmente em oposição a ele? Honestamente, eu tenho minhas dúvidas...

O Ser imutável de Parmênides não é o mesmo que o rio mutável de Heráclito, dentre outras razões pelo fato de o rio ser somente a parte de um “todo”. Heráclito jamais negou este “todo”, que ele chamava de Logos; de fato a sua obra se inicia assim:

Com o Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido [acerca dele]. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos...

E nos trechos XXX e XXXVI temos complementos poderosos a esta ideia:

O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando.

Para os ventos, morte vem a ser água, para a água, morte vem a ser terra; mas da terra nasce a água, e da água, [nasce] o vento.

Para Heráclito, portanto, tudo o que existe jamais poderia ser resumido em mera “mudança” (como alguns intérpretes supuseram, de maneira preguiçosa), mas antes às infindáveis mudanças do Logos, ou do “fogo sempre vivo”.

A reconciliação platônica
Segundo Platão, Sócrates teria reconciliado e sintetizado as ideias de Parmênides e Heráclito no célebre mundo das ideias, onde as formas perfeitas subsistiam imutáveis, para que seus reflexos pudessem existir de forma mutável no mundo sensível; isto é, neste mundo que vemos com os olhos e cheiramos com o nariz.

Pois bem, esta é uma das formas de reconciliar tais ideias... mas, será que elas precisavam mesmo de uma síntese tão extravagante? Seriam elas assim tão opostas, no final das contas?

A Substância de Espinosa
A despeito de ser usualmente listado como grande defensor da vertente de Parmênides, Benedito Espinosa, o grande filósofo holandês, parece ter alcançado uma síntese bem mais lógica e profunda em sua obra-prima, a Ética demonstrada à maneira dos geômetras.

Logo no início da obra, Espinosa chega a sua grande declaração lógica, que afirma que “uma substância não poderia gerar a si mesma”. Assim sendo, fica claro que a Substância de Espinosa se assemelha ao Ser de Parmênides.

No entanto, para Espinosa o fato de existir uma só substância não quer dizer que as suas infindáveis subdivisões sejam mero fruto de uma onipresente ilusão sensorial: nada disso, as coisas poderiam se modificar sem perder a sua essência substancial, as águas de um rio poderiam correr por séculos sem que o rio deixasse de ser rio.

Nesse sentido, a ideia de Espinosa para a Substância também se casa perfeitamente com o Logos, o “fogo sempre vivo” de Heráclito. O fato de haver mudança constante no mundo não significa que nada tenha uma essência, uma substância da qual deriva em última instância.

E fica ainda mais simples compreender se retornarmos à ciência: disse Lavousier que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ora, se de fato é assim (e até agora a ciência não provou o contrário), isto significa que os mesmos átomos que formavam o hélio e o hidrogênio do início deste universo ainda estão aqui, e se acaso elementos pesados foram formados no núcleo das estrelas, e se acaso se formaram o Sistema Solar, a Terra e os seres humanos, nada disso quer dizer que o espaço-tempo deixou por um momento sequer de existir.

Assim, seja Ser, Logos ou Substância, tudo o que é, foi e será continua sendo o mesmo Cosmos. E nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo. Nós somos aqueles que atravessam os rios, e os rios correm para sempre, embora jamais sejam, por um momento sequer, o que foram antes, ou o que virão a ser.


raph

***

Bibliografia
Os pensadores originários. Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Editora Vozes de Bolso.
Da natureza. Parmênides. Edições Loyola.
Parmênides. Platão. Editora PUC Rio e Edições Loyola.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Parmênides); [ao longo] Ben Blennerhassett/unsplash

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28.12.17

O Tudo e o Nada

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

E desta vez, surpresa!, sou eu mesmo que apareço no vídeo. Logo após o Simpósio de Hermetismo deste ano (Novembro de 2017), tive o prazer de visitar a casa do Bruno e, ao ver o "set de filmagens" do canal, decidimos simplesmente ligar a câmera e falar sobre "alguma coisa". Claro que achei que a oportunidade era ideal para falar sobre o Tudo e o Nada, que os leitores do meu blog (e, principalmente, do meu livro Ad infinitum) sabem bem que se trata de um tema recorrente das minhas reflexões.

O meu objetivo, portanto, é mais estabelecer uma base de questionamentos filosóficos a partir da premissa inicial de que "existe algo e não nada" do que propriamente "evangelizar" alguma crença ou filosofia particular adiante. Assim sendo, o ideal é que vocês mesmos se questionem e busquem pelas próprias respostas, pois eu não tenho pretensão alguma de ditar regras de pensamento.

Feliz Ano Novo! (tudo vibra e nada está parado, inclusive este nosso planetinha)

» Saiba mais sobre o andamento da minha tradução do Caibalion

» Saiba mais sobre o meu livro: Ad infinitum

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5.1.12

Parmênides: Da natureza

Os fragmentos abaixo fazem parte de um poema original intitulado Da Natureza e sua permanência, escrito pelo filósofo pré-socrático (classificado como tal, apesar de ter vivido mais ou menos na mesma época de Sócrates) Permênides de Eleia, e que influenciou inúmeros filósofos a partir do século IV a.C. até – mesmo que desapercebidamente – os dias atuais.

Esta tradução foi compilada por José Trindade Santos no livro homônimo lançado pelas Edições Loyola – e que recomendo a leitura para uma análise mais aprofundada, embora estritamente “filosófica científica”. Talvez não seja simples interpretar um poema fragmentado, mas certamente podemos ao menos intuir do que chegou até nós que Parmênides praticamente inaugurou a ontologia (a filosofia do ser). Além disso, se Espinosa por acaso não leu tal poema antes de compor sua Ética, devemos considerar que chegou a conclusões muito próximas mais de um milênio após o filósofo antigo.

Pois que quando Parmênides sabiamente resume que “o Ser é, o Não-ser jamais poderia haver sido”, está apenas refletindo sobre o mesmo tema que seria posteriormente desenvolvido na “Substância que não pode criar a si mesma, pois que é tudo o que é e foi e será” de Espinosa... Qualquer semelhança com filosofias ainda mais antigas, vindas do Oriente e, sobretudo, de algum canto do Egito, talvez não seja mera coincidência. Portanto, saboreiem com atenção:

Fragmento 1
Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo de impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades.

Por aí me levaram, por aí mesmo me lavaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.

O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.

A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos a cavilhas. Por ali, atrás do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.

E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu: “Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da realidade [ou “da verdade”] fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

Fragmentos 2-5
Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser, é caminho de confiança (pois acompanha a realidade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não-ser, não é possível, nem indicá-lo [...]

[...] pois o mesmo é pensar e ser.

Nota também como o que está longe pela mente se torna firmemente presente: pois não separarás o ser de sua continuidade com o ser, nem dispersando-o por toda a parte segundo a ordem do mundo, nem reunindo-o.

[...] para mim é o mesmo por onde hei de começar: pois aí tornarei de novo.

Fragmento 6
É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam: pois podem ser, enquanto o nada não é: nisto te indico que reflitas.

Desta primeira via de investigação te [afasto], e logo também daquela em que os mortais, que nada sabem, vagueiam, com duas cabeças: pois a incapacidade lhes guia no peito a mente errante; e são levados, surdos ao mesmo tempo que cegos, aturdidos, multidão indecisa, que acredita que o ser e o não-ser são o mesmo e o não-mesmo, para quem é regressivo o caminho de todas as coisas.

Fragmentos 7-8 [1]
Pois nunca isto será demonstrado: que são as coisas que não são; mas afasta desta via de investigação o pensamento, não te force por esse caminho o costume muito experimentado, deixando vaguear olhos que não veem, ouvidos soantes e língua, mas decide pela razão a prova muito disputada de que falei.

Só falta agora falar do caminho que é. Sobre esse são muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo. Com efeito, que origem lhe investigarias? Como e onde se acrescentaria? Nem do não-ser te deixarei falar, nem pensar: pois não é dizível, nem pensável, visto que não é. E que necessidade o impeliria a nascer, depois ou antes, começando do nada?

E, assim, é necessário que seja de todo, ou não.

Nem a força da confiança consentirá que do não-ser nasça algo ao pé do ser. Por isso nem nascer, nem perecer, permite a Justiça, afrouxando as cadeias, mas sustém-nas: esta é a decisão acerca disso – é ou não é –; decidido está então, como necessidade, deixar uma das vias como impensável e inexprimível (pois não é via verdadeira), enquanto a outra é a autêntica.

Como poderia o ser perecer? Como poderia gerar-se? Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser.

E assim a gênese se extingue e da destruição não se fala.

Nem é divisível, visto ser todo homogêneo, nem num lado é mais, que o impeça de ser contínuo, nem noutro menos, mas é todo cheio de ser e por isso todo contínuo, pois o ser é com o ser.

Além disso, é imóvel nas cadeias dos potentes laços, sem princípio nem fim, pois gênese e destruição foram afastadas para longe, repelidas pela confiança verdadeira.

O mesmo em si mesmo permanece e por si mesmo repousa, e assim firme em si fica. Pois a potente Necessidade o tem nos limites dos laços, que de todo o lado o cercam.

Pois não é justo que o ser seja incompleto: pois não é carente; ao [não-]ser, contudo, tudo lhe falta. O mesmo é o que há para pensar e aquilo por causa de que há pensamento.

Pois, sem o ser – ao qual está prometido –, não acharás o pensar. Pois não é e não será outra coisa além do ser, visto o Destino o ter amarrado para ser inteiro e imóvel. Acerca dele são todos os nomes que os mortais instituíram, confiantes de que eram reais: “gerar-se” e “destruir-se”, “ser” e “não ser”, “mudar de lugar” e “mudar a cor brilhante”.

Visto que tem um limite extremo, é completo por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio do centro a toda a parte; pois, nem maior, nem menor, aqui ou ali, é forçoso que seja.

Pois nem o não-ser é, que o impeça de chegar até o mesmo, nem é possível que o ser seja maior aqui, menor ali, visto ser todo inviolável: pois é igual por todo o lado, e fica igualmente nos limites.

Nisso cesso o discurso fiável e o pensamento em torno da verdade; depois disso as humanas opiniões aprende, escutando a ordem enganadora das minhas palavras. E estabeleceram duas formas, que nomearam, das quais uma não deviam nomear – e nisso erraram –, e separaram os contrários como corpos e postaram sinais, separados uns dos outros: aqui a chama do fogo etéreo, branda, muito leve, em tudo a mesma consigo, mas não a mesma com a outra; e a outra também em si contrária, a noite sem luz, espessa e pesada.

Esta ordem cósmica eu te declaro toda plausível, de modo algum que nenhum saber dos mortais te venha transviar.

Fragmentos 9-11
Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite e o conforme a estas potências é dado a isto e aquilo, tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura, ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada.

E conhecerás a natureza do éter e no éter de todos os sinais e dos raios da pura lâmpada do sol as obras destruidoras, e de onde nascem, e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho redondo e a sua natureza, e saberás do céu que os tem à volta, e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga a conter os limites dos astros.

[...] como a terra e o sol e a lua e o éter que a tudo é comum e a Via-Láctea e o Olimpo extremo e o calor ardente dos astros forçados a nascer.

Fragmentos 12-13 [2]
Pois as coroas mais estreitas enchem-se de fogo sem mistura e as que vêm à noite depois destas, mas com elas lança-se uma parte de chama.

No meio delas está a divindade que tudo governa; pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura, impelindo a fêmea a unir-se ao macho, e ao contrário o macho à fêmea.

Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros.

Fragmentos 14-16
Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz. Sempre à espreita dos raios do sol.

(15a [Nota posterior]: Parmênides no poema diz que “a terra tem raízes na água”.)

Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes, assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo é o que nos homens pensa, a natureza dos membros, em cada um e em todos; pois o mais [pleno] é o pensamento.

Fragmentos 17-19
À direita os machos, à esquerda as fêmeas.

Quando a mulher e o homem juntos misturam as sementes de Vênus, a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos, mantendo o equilíbrio, gera corpos bem formados.

Se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem, e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis, atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.

Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são e depois crescerão e hão de ter fim. A essas os homens puseram um nome que a cada uma distingue.

***

[1] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “Reflexões sobre o nada”.

[2] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “4 amores”, particularmente no que tange aos dois primeiros: pornea e eros.

***

Crédito da imagem: BordomBeThyName

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