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10.9.13

Estranho

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há um tempo em que refletimos tanto sobre a existência que nos tornamos estranhos.

Eu mesmo sou mais estranho do que pensam. É preciso conviver comigo por longos períodos para perceber. Como Raulzito, não falo de amor quase nada – mas penso no amor a toda hora. Como Raulzito, não fico sorrindo ao seu lado – mas posso muito bem estar te amando, de maneira até mesmo muito séria! E tudo isto é mesmo muito estranho.

As vezes assisto ao Pânico na TV, as vezes ouço música no rádio, as vezes até mesmo como um quarteirão com queijo no McDonald’s... Não quero me distanciar tanto deste mundo, pois sei que sempre serei parte dele, e me distanciar seria me iludir; e deixar de ser estranho para ser apenas esquisito.

Ó Bernardo Soares, sou estranho, mas não esquisito!

Esquisito seria apenas me deleitar com as exibições espontâneas de bundas na TV, ouvir as rimas fáceis da rádio e me contentar apenas com elas, comer sanduíche todo santo dia... Estranho é reconhecer o machismo do mundo e procurar modificá-lo sem me alistar numa guerra; aceitar que existem gostos musicais os mais variados e que isto se desenvolve ao tempo de cada um; e admitir que há pessoas suficientemente sedentárias não somente em seu estômago, mas principalmente em seu pensamento.

Como mudar isso tudo? Sei lá como mudar isso tudo! Eu estou mais interessado nos 96% do universo que não interagem com a luz, na dualidade mente-corpo, em entender o que diabos é a consciência e como é possível que os hindus tenham imaginado esta quantidade exorbitante de deuses... Depois, se sobrar um tempo, procuro utilizar o que descobri de tanto mistério para melhorar a vizinhança.

Mas se eu estiver pensando em como Álvaro de Campos pôde compor poemas tão ruins ao lado das maiores pérolas da pátria da língua portuguesa, enquanto como uma batata frita caprichada no óleo, e uma garota na mesa ao lado me paquera imaginando que eu seja somente um pouco mais velho que ela, eu retorno o olhar... Porque isto devemos saber: todos os olhares de amor devem ser retornados, é por isso que o homo sapiens povoou o globo inteiro!

E não quer dizer que eu deva esquecer a poesia e ir dar em cima da garota da mesa ao lado, pois tudo tem o seu momento e não me arrependo nem lamento a minha juventude...

Outro dia Stephen Hawking comparou o corpo ao hardware e a mente ao software. Como cientista acadêmico, Hawking optou por ignorar a hipótese espiritualista, da mesma forma que até hoje ignoram Wallace e se lembram somente de Darwin. Já eu, como espiritualista estranho, não preciso ignorar a ciência nem sou forçado a isso pelo julgamento alheio – dentre outras coisas porque quero mais que o julgamento alheio se foda (mas curtam minha página no Facebook, ok).

Se a mente é o software, é de se supor por analogia que um dia construiremos finalmente uma máquina autoconsciente, capaz de interpretar e não somente computar. Acaso isto ocorra enquanto ainda estiver habitando este meu corpo de trinta e poucos anos, posso até mudar de ideia, mas ainda que meu corpo seja mumificado vivo, dificilmente estarei ainda nele se e quando uma máquina for capaz de interpretar a poesia de Pessoa.

Mas eu também gosto de analogias. Se a mente é o software, precisamos ir atrás dos sistemas operacionais... Preso em sua cadeira de rodas, a mente de Hawking, como sugere o nome, voa como um falcão por todo o Cosmos. Ainda assim, ela usa alguma espécie de sistema operacional não compatível com os aplicativos místicos – do tipo que não travam com números infinitos.

Vejam bem: se construirmos uma nave espacial capaz de viajar a velocidade da luz, a maior velocidade possível segundo o manual da Academia, ainda que voássemos em linha reta, quem sabe, mirando a galáxia mais próxima, haveriam galáxias tão distantes, tão distantes, que jamais alcançaríamos. Mesmo voando junto a luz, jamais! Pois há partes deste universo que se expandiram em velocidades maiores que a da luz, quando ele era ainda um minúsculo recém-nascido menor do que uma batatinha frita...

Então, meus caros acadêmicos, eu lhes pergunto: “Qual parte do Infinito ainda não entenderam?”.

Eu não entendi nenhuma parte, por isso parei de pensar sobre o assunto, e passei a sentir o assunto!

E assim, como Raulzito mitológico, como um legítimo místico, passei a considerar que todos nós, todos nós, compartilhamos e compartilharemos os mesmos sorrisos dos encontros e as mesmas lágrimas das despedidas.

E que o assassino compartilha sua existência com a vítima, e o juiz com o acusado, o vitorioso com o derrotado, o cientista com o espiritualista, o ateu com o religioso, o jovem com o velho, o homem com a mulher, a mãe com os filhos e os amantes com todos, todos os amados.

E a vida com todas as vidas, todas as formas do Cosmos conhecer a si mesmo, ontem e hoje e enquanto existir luz em meio ao vácuo do espaço-tempo...

É isto que todos os místicos sabem, e calam. Finjam que eu não disse nada disso. Finjam que sou somente mais um desses estranhos delirantes.

Mas finjam com convicção!

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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27.11.09

Hawking goes high

Hey, there goes Hawking!
Moving while standing still
What exactly is he doing?
Should not be that much…
People say he’s very ill

Hey, there goes Hawking!
Thinking about a billion worlds
Compressed in a nutshell
People say he’s crazy
But how can he think so well?

Hey, there goes Hawking!
He goes high
Thoughts floating
Over the Cosmos
We can walk
But he can fly

raph'09

***

Hawking vai alto

Ei, lá vai o Hawking!
Movendo-se enquanto permanece parado
O que ele faz exatamente?
Não pode ser muita coisa...
Dizem que ele é muito doente

Ei, lá vai o Hawking!
Pensando em um bilhão de mundos
Comprimidos numa casca de noz
Dizem que ele é louco
Mas como pode raciocinar tão bem?

Ei, lá vai o Hawking!
Ele vai alto
Pensamentos flutuando
Por todo o Cosmos
Nós podemos caminhar
Mas ele pode voar

raph'09 (traduzido do original em inglês)

***

Crédito da foto: Tambako

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Não é preciso perder a esperança

Stephen nasceu em Oxford, na Inglaterra, em 1942. Filho de um biólogo, sempre se interessou por ciência, mas nunca foi um estudante particularmente excepcional. Era mais um jovem inglês, bom aluno, interessado em seguir a carreira em pesquisas científicas. Só isso.

Seu pai desejava que fosse médico, mas Stephen se interessava mais por matemática. Quando entrou no University College de Oxford, foi obrigado a mudar de planos: o curso de matemática não estava disponível, então optou pela física, e se formou em 1962. Interessado em prosseguir seus estudos sobre termodinâmica, relatividade e física quântica, prosseguiu para o doutorado na Trinity Hall em Cambridge.

Mais ou menos na época em que obteve o doutorado, Stephen estava muito desiludido com sua vida[1], não parecia haver nada que vale-se a pena fazer. Talvez o universo não fosse, afinal, tão interessante assim...

Porém, nessa mesma época, Stephen foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma rara doença degenerativa que paralisa os músculos do corpo sem, no entanto, atingir as funções cerebrais. Esta é uma doença que ainda hoje não possui cura, e normalmente mata em poucos anos.

Talvez esse fosse o golpe final na esperança de Stephen e no seu interesse pela vida. Mas ocorreu exatamente o oposto: a partir desse diagnóstico, Stephen passou a pensar que se iria morrer de qualquer jeito, era melhor fazer alguma coisa de decente nos anos que lhe restavam. Isso também surgiu de sua constatação, a partir da observação de outros pacientes em condições muito piores que a dele nos hospitais, de que talvez sua condição não fosse tão ruim assim.

Stephen seguiu a vida, namorou, casou-se, teve filhos. Prosseguiu com suas pesquisas em cosmologia teórica e gravitação quântica, especializando-se no estudo e comprovação de teoremas sobre a singularidade dos buracos-negros, dentre inúmeras outras coisas. Enquanto realizava descobertas que iriam colocá-lo na história da ciência moderna, Stephen foi vendo seu corpo perder cada vez mais movimentos, até o ponto em que não podia sequer falar, e tinha de se comunicar com o mundo externo através de um computador e um sintetizador de voz.

Apesar de tudo, não perdeu o bom humor inglês, nem por um momento. Depois de famoso, em suas palestras e aparições na TV sempre teve um comentário mais espirituoso sobre sua condição aparentemente terrível: “o problema com esse sintetizador é que fiquei com um sotaque claramente americano”.

Também já lhe perguntaram se a sua condição física teve alguma influência em seu status de celebridade e gênio da ciência, ao que respondeu: “As pessoas são fascinadas pelo contraste entre minhas limitações físicas e a natureza infinita do universo com o que eu trabalho. Eu sou o arquétipo de um gênio desabilitado, ou um gênio com dificuldades locomotoras, para ser politicamente correto. Ao menos eu obviamente tenho dificuldades locomotoras. Se sou um gênio já está aberto à discussão.[2]”

Fosse Stephen apenas Stephen, e não um dos maiores cientistas e divulgadores de ciência de nosso tempo, ainda assim sua história já seria digna de nota e admiração. Há tantos e tantos que preferem a morte quando tem apenas parte de seus movimentos comprometidos, e Stephen conta praticamente apenas com pequenos movimentos dos dedos das mãos, dos olhos, e alguns músculos da face (ele felizmente ainda pode sorrir). Mas Stephen não teve nem sua mente e, principalmente, nem seu espírito, comprometidos por sua doença. Viveu em função de sua genialidade de raciocínio lógico, mas também em função de sua enorme capacidade emocional de lidar com uma doença que para muitos soa tão avassaladoramente terrível.

Stephen Hawking vive até hoje (fez 67 anos em 2009). Ele diz que teve sorte: “Eu tive esta doença por praticamente toda a minha vida adulta. Ainda assim ela não me impediu de ter uma família linda e ser bem-sucedido no trabalho. Isso graças ao apoio que tenho tido da família, dos amigos, e inúmeras organizações. Eu tenho tido sorte pelo fato de minha doença ter progredido de forma bem mais lenta do que seria o normal. Mas isso mostra que não é preciso perder a esperança.[3]”

***

[1] De acordo com textos publicados por Stephen Hawking em seu site oficial.

[2] De acordo com a seção de Perguntas e Respostas no mesmo site.

[3] Idem a nota #1.

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Crédito da foto: Rune Hellestad/Corbis

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14.4.09

Deus, o Universo e as leis da Natureza

Parece um assunto um tanto quanto religioso não? Mas foi discutido por grandes cientistas - Stephen Hawking, Arthur C. Clarke e Carl Sagan - nesse programa de TV americano (provavelmente do final da década de 80):

Parte 1/6

Veja as outras partes abaixo:

Parte 2/6 http://www.youtube.com/watch?v=zUN4djWJzoM
Parte 3/6 http://www.youtube.com/watch?v=1or5MgVys8E
Parte 4/6 http://www.youtube.com/watch?v=kcRyeOQYlMU
Parte 5/6 http://www.youtube.com/watch?v=4oQqP9T27Us
Parte 6/6 http://www.youtube.com/watch?v=mb9hWjxnATo

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1.2.09

Frases para um debate consciente entre ciência e religião

Muitos acreditam que a Ciência (conhecimento) e a Religião (religação a Deus ou ao Cosmos) são espécies arqui-inimigas, formas de se conceber a existência que são invariavelmente opostas. Porém, todo aquele que estudou a história da humanidade, e de seus sábios, sabe perfeitamente que nasceram do mesmo desejo sublime de se compreender de onde viemos, assim como aos mecanismos sutis e elegantes da Natureza a nossa volta. Portanto, nunca estiveram opostas em sua essência... espero que as frases à seguir ajudem qualquer debatedor consciente a estabelecer um diálogo amigável com cientistas, religiosos, ou universalistas.

"Quem dera o fato de se crer em Deus, por si só, fosse garantia de amor e moral elevados. Assim o fosse, a Terra seria um paraíso. Quem dera o fato de não se crer num Criador, por si só, fosse garantia de razão e ética elevadas. Assim o fosse, a China seria a nação mais igualitária da Terra."

"Frequentemente, cientistas e religiosos que se degladiam, afirmando que só a ciência ou religião são corretas, não compreendem o que realmente significa nenhuma das duas: Conhecimento e religação; Religação ao conhecimento; Conhecimento do Cosmos... Elas nunca estiveram em lados opostos da mesa."

"Mais vale um ateu amoroso que um religioso hipócrita. Mais vale um espiritualista que prioriza toda a vida do que um cientista que prioriza todos os centavos de seu financiamento."

"De sua cadeira de rodas, Hawking penetrou mais fundo na mente de Deus do que muitos que oraram toda uma vida, sem nunca realmente moverem-se em espírito na Sua direção."

"Usa de ofensas quem não crê na lógica de sua própria crença, ou descrença."

"O amor não se equaciona. A matemática não pode depender da fé."

"Infelizmente o dogmatismo se mostrou capaz de contaminar cientistas. Felizmente o ceticismo se mostrou capaz de elucidar religiosos. Mas é preciso estar atento para quando o ceticismo se transforma em dogma, e passa a afirmar que a ausência de evidência se torna prova da ausência."

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Crédito da foto: tedweinstein

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