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20.2.12

A Festa dos Loucos

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 51 a 56. A introdução e os comentários ao final são meus.

Introdução
Neste livro provocativo (e muito corajoso), Alain, que se declara ateu, defende que a sociedade secular tem muito o que aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Neste trecho em específico ele faz um elogio ao senso de comunidade presente nas religiões organizadas...

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As religiões são sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com todas as nossas emoções. Sabem como pode ser confuso e humilhante admitir desespero, luxúria, inveja ou egomania. Compreendem a dificuldade que temos para encontrar uma maneira de dizer à mãe, sem ajuda, que estamos furiosos com ela, ao filho que o invejamos ou ao futuro cônjuge que a ideia de casamento assusta tanto quanto alegra. As religiões, desse modo, nos dão dias especiais para que neles os sentimentos perniciosos possam ser processados. Elas nos dão versos para recitar e músicas para cantar enquanto nos transportam através das regiões traiçoeiras de nossas mentes.

Em essência, as religiões entendem que pertencer a uma comunidade é ao mesmo tempo bastante desejável e nada fácil. A esse respeito, são muito mais sofisticadas que os estudiosos seculares de teoria política que escrevem de forma lírica sobre a perda de um senso de comunidade enquanto se recusam a reconhecer os aspectos inteiramente obscuros da vida social [1]. As religiões nos ensinam a ser educados, a honrar uns aos outros e a ser fiéis e sóbrios, mas também sabem que, se não nos permitirem o contrário de vez em quando, quebrarão nosso espírito. Em seus momentos mais sofisticados, as religiões aceitam a dívida que bondade, fé e doçura têm com seus opostos.

O cristianismo medieval certamente compreendia essa dicotomia. Durante a maior parte do ano, pregava solenidade, ordem, moderação, camaradagem, sinceridade, amor a Deus e decoro sexual, e, então, na noite do ano-novo, abria as portas da psique coletiva e dava início ao festum fatuorum, a Festa dos Loucos. Durante quatro dias, o mundo ficava de cabeça para baixo: membros do clero jogavam dados em cima do altar, zurravam como burros em vez de dizer “amém”, faziam competições de bebedeira na nave, peidavam como acompanhamento à ave-maria e faziam sermões de galhofa, baseados em paródias do Evangelho (o Evangelho segundo o Traseiro da Galinha, o Evangelho segundo a Unha do Pé de Lucas). Após beber canecas de cerveja, eles seguravam os livros sagrados de ponta-cabeça, faziam orações para vegetais e urinavam em cima das torres dos sinos. “Casavam” burros, amarravam pênis gigantes de lã em suas batinas e tentavam fazer sexo com homens ou mulheres dispostos a tanto [2].

Mas nada disso era considerado apenas uma piada. Era sagrado, uma parodia sacra idealizada para garantir que durante todo o resto do ano as coisas permanecessem em ordem. Em 1445, a Faculdade de Teologia de Paris explicou aos bispos da França que a Festa dos Loucos era uma evento necessário no calendário cristão, “para que a insensatez, que é nossa segunda natureza, e inerente ao homem, possa se dissipar livremente pelo menos uma vez ao ano [3]. Barris de vinho de tempos em tempos estouram se não os abrimos para entrar um pouco de ar. Todos nós, homens, somos barris reunidos inadequadamente, e é por isso que permitimos à tolice em certos dias: para que, no fim, possamos regressar com maior fervor ao serviço de Deus”.

A moral que devemos tirar é que, se desejamos comunidades que funcionem bem, não podemos ser ingênuos quanto à nossa natureza. Precisamos aceitar a profundidade de nossos sentimentos destrutivos, antissociais. Não deveríamos exilar na periferia as festas e libertinagens para serem limpas pela polícia e condenadas por comentaristas. Deveríamos dar ao caos um lugar de destaque pelo menos uma vez por ano, designando ocasiões em que podemos ficar brevemente isentos das duas maiores pressões da vida adulta secular: ser racional e fiel. Deveríamos ter permissão para falar bobagens, amarrar pênis de lã em nossos casacos e cair na noite para festejar e copular aleatória e alegremente com estranhos e, então, retornar na manhã seguinte para nossos parceiros, que também teriam saído fazendo coisas semelhantes, ambos cientes de que não era nada pessoal, que foi a Festa dos Loucos que provocou as ações [4].

Aprendemos com a religião mais que os encantos da comunidade. Aprendemos também que uma boa comunidade aceita o que há em nós que, na verdade, não deseja a comunidade – ou, ao menos, não pode tolerá-la o tempo inteiro em suas formas ordenadas. Se temos nossas festas do amor, também devemos ter nossas festas dos loucos [5].

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[1] O modernismo e o racionalismo nos prometeram uma nova sociedade humanista, profundamente culta, organizada e, sobretudo, racional. Mas esqueceram de guardar um lugar para a loucura e as experiências religiosas, pois acharam que, com o tempo, elas simplesmente seriam deixadas de lado por todos, esquecidas... O pós-modernismo nos trouxe duas polaridades: De um lado, os religiosos que, além de não terem abandonado as experiências religiosas, pelo contrário, se voltaram para elas com ainda mais afinco – vide o crescimento dos movimentos evangélicos carismáticos, e de seitas de Nova Era em geral; De outro lado, os não religiosos, que não apenas jamais abandonaram totalmente a loucura, como têm tido imensa dificuldade em viver como seres “perfeitamente racionais”, e o avanço da depressão e do culto ao sexo exacerbado são apenas os sintomas mais visíveis deste fato.

[2] Como muitos outros ritos do cristianismo, a Festa dos Loucos tem origens bem mais antigas. Em Roma, havia uma festa homônima, onde vários representantes do panteão mitológico romano eram homenageados e adorados, entre eles Júpiter (senhor do Universo e do dia), perpassando tal deferência por Saturno (deus da agricultura) e finalizando-se os festejos na adoração e culto a Baco. Muitas culturas ainda mais antigas, no entanto, tinham a sua versão para a Festa dos Loucos: Na Antiguidade, essa festa era uma prática religiosa relacionada à fertilidade do solo. Era uma espécie de culto agrário em que os foliões comemoravam a boa colheita, o retorno da primavera e a benevolência dos deuses. No contexto da cultura egípcia, os ritos "festivos" constituíam-se, também, de oferendas ao deus Osíris, devido ao recuo das águas do rio Nilo. Os gregos aproveitavam o momento para homenagear Dionísio, deus do vinho e da loucura, e também Momo, o deus da zombaria.

[3] Segundo o padre e filósofo Anselmo Borges, “o homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens (sapiente e demente). Por mais que a sociedade tente ‘normalizar’ comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras”.

[4] Antes colocar “na conta” da Festa dos Loucos nossos momentos anuais de afloramento da loucura “guardada em caixas do inconsciente”, do que deixá-la lá, trancada, causando sabe lá quais danos psíquicos. Claro que, existem outras formas menos “festivas” de lidar com essa loucura, mas isso cabe aos poucos sábios e místicos que aprenderam a lidar com ela, e dificilmente aqueles que foram educados para ser “racionais 100% do tempo”. Antes deixar essa loucura aflorar em uma festa de alegria e paz, ainda que regada a uma boa dose de sexo desenfreado, do que deixá-la se transformar em amargura, angústia, violência, preconceito, moralismo exacerbado e, finalmente, em puritanismo (o grande medo de que, em algum lugar, alguém possa simplesmente estar vivendo a vida, feliz). Ou, em outras palavras: faça amor, não faça guerra – nem que seja apenas uma vez ao ano.

[5] É claro que, a essa altura você já deve ter percebido, a Festa dos Loucos nada mais é, nos dias atuais, que o Carnaval. Ela sobreviveu, portanto, as civilizações e sociedades, desde a Antiguidade, pois talvez seja mesmo algo intrínseco ao ser humano.
Ainda se discute o significado do termo “Carnaval”: Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar. O significado mais aceito, entretanto, é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).
Viva, enfim, o Carnaval, da melhor maneira que conseguir, como uma festa sagrada da vida e da loucura passageira, para que, no restante do ano, consiga deixar sua loucura lá, “domesticada”, amigável, à espera da próxima Festa. Para que a loucura, nalgum dia, não assuma o controle: “Você me deixou escondida por muito tempo, agora é a minha vez, e não terá mais volta!”

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Crédito da foto: Scott Stulberg/Corbis

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25.11.11

Educação secular, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 101 a 104, e 134. Os comentários ao final são meus.

Na esfera secular, podemos ler os livros certos, porém frequentemente deixamos de fazer perguntas diretas a partir deles, declinando de propor questionamentos vulgares e neorreligiosos porque temos vergonha de admitir a verdadeira natureza de nossas necessidades interiores. Estamos inevitavelmente apaixonados pela ambiguidade, sem espírito crítico contra a doutrina modernista de que a grande arte não deveria ter conteúdo moral ou desejo de mudar seu público [1]. Nossa resistência a uma metodologia parabólica vem de um confuso desprazer por utilidade, didatismo e simplicidade, e de uma inquestionável suposição de que qualquer coisa que uma criança possa entender seja infantil por natureza [2].

No entanto, o cristianismo sustenta que, apesar das aparências externas, partes importantes de nós mantêm as estruturas mais básicas da primeira infância. Por conseguinte, da mesma maneira que as crianças, precisamos de assistência. Devemos ser alimentados, de modo lento e cuidadoso, com conhecimento, assim como a comida é cortada em pedacinhos para as crianças conseguirem mastigar. Qualquer coisa além de umas poucas lições em um dia nos esgotará indevidamente.

[...] As técnicas que a academia tanto teme – a ênfase na conexão entre ideias abstratas e nossa vida, a lúcida interpretação de textos, a preferência por sumários em detrimento de totalidades – sempre foram os métodos das religiões, que precisavam enfrentar, séculos antes da invenção da televisão, o desafio de apresentar ideias vívidas e pertinentes a plateias impacientes e distraídas. Elas sempre souberam que o maior perigo não era a simplificação excessiva de conceitos, mas a erosão do interesse e do apoio devido à incompreensão e à apatia. Reconheceram que a clareza preserva as ideias, em vez de as enfraquecer, pois cria uma base sobre a qual o trabalho intelectual de uma elite pode mais tarde se apoiar.

O cristianismo tinha confiança em que seus preceitos eram robustos o bastante para ser compreendidos em diversos níveis, que podiam ser apresentados na forma de xilogravuras toscas para o homem simples da paróquia ou discutidos em latim por teólogos na Universidade de Bolonha, e que cada repetição endossaria e reforçaria as outras [3].

No prefácio de uma compilação dos seus sermões, John Wesley explicou e defendeu sua adesão à simplicidade: “Planejo verdades simples para pessoas simples: portanto (...) abstenho-me de todas as especulações belas e filosóficas; de todas as argumentações complicadas e intrincadas; e, tanto quanto possível, até mesmo da exibição de conhecimento. Meu plano é (...) esquecer tudo o que já li na minha vida.” [4]

[...] Os maiores pregadores cristãos foram vulgares no melhor sentido. Ao mesmo tempo em que não abdicavam das suas aspirações à complexidade ou às percepções, desejavam ajudar aqueles que os ouviam. Em contraste, construímos um mundo intelectual cujas instituições mais celebradas raras vezes consentem em perguntar, quanto mais em responder, sobre as questões mais sérias da alma.

Para lidar com as incoerências da situação, poderíamos reformar nossas universidades e eliminar campos como história e literatura, que, no fim das contas, são categorias superficiais que, ainda que cubram um material valioso, em si mesmas não percorrem os temas que mais atormentam e atraem nossa alma [5].

As universidades redesenhadas do futuro recorreriam ao mesmo catálogo de cultura tratado por suas equivalentes tradicionais, promovendo o estudo de romances, histórias, peças e pinturas, mas ensinariam esse material visando a iluminar a vida dos estudantes, em vez de apenas estimulá-los a atingir objetivos acadêmicos. Anna Karenina e Madame Bovary seriam, desse modo, alocados em um curso sobre as tensões do casamento, e não em um outro, focado em tendências narrativas na ficção do séculos XIX, da mesma maneira que as recomendações de Epicuro e Sêneca apareceriam no currículo de um curso sobre morrer, e não em uma pesquisa acerca da filosofia helenística.

Seria exigido que os departamentos confrontassem diretamente as áreas mais problemáticas de nossa vida. Ideias de assistência e transformação, que hoje pairam de maneira fantasmagórica sobre discursos em cerimônias de formatura [6], ganhariam forma e seriam explorados em instituições locais com a mesma abertura com que são nas igrejas. Haveria aulas sobre, entre outros tópicos, estar sozinho, reavaliar o trabalho, melhoras as relações com as crianças, reconectar-se à natureza e enfrentar doenças. Uma universidade interessada nas verdadeiras responsabilidades dos artefatos culturais dentro de uma era secular estabeleceria um Departamento de Relacionamentos, um Instituto de Morrer e um Centro para o Autoconhecimento [7].

[...] Muitos dos métodos das religiões, embora distantes das concepções contemporâneas de educação, deveriam ser considerados essenciais a qualquer plano para transmitir ideias, sejam elas teológicas ou seculares, de modo mais eficaz a nossa mente porosa. Essas técnicas merecem ser estudadas e adotadas, a fim de que tenhamos, no tempo que nos resta, uma chance de cometer pelo menos um ou dois erros a menos que a geração anterior.

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[1] Paradoxalmente, conforme Tolstói já dizia, “todos pensam em mudar a humanidade, mas quão poucos pensam em mudar a si próprios”. E, além de não pensarem em mudar a si próprios, os “modernistas” ainda condenam quem sugira qualquer mudança “aos outros”. Entretanto, continuam esperançosos em “mudar a humanidade”, sabe-se lá como ou quando.

[2] Este é sem dúvida o livro mais original de Alain; Neste parágrafo encontram-se resumidos tantos conceitos que merecem uma avaliação mais cuidadosa, principalmente no trecho final, que eu recomendaria que o lessem e relessem...

[3] Aqui Alain está sendo otimista demais com a questão da “interpretação em vários níveis”. Se com isso quer dizer que tal evangelização em vários níveis ocasionou apenas o crescimento da Igreja, tem até razão. Mas se quer dizer que a essência dos textos bíblicos foi compreendida corretamente – ou seja, como metáforas em vários níveis de interpretação – pela maioria dos ditos cristãos, obviamente está equivocado.

[4] O ateu secular intelectual pode estar se indagando se isso não seria “infantilizar o conhecimento” (no contexto do primeiro parágrafo), mas aí é que se engana – simplificar não é “infantilizar”, e muitas vezes nossa educação é falha em supor que todos estamos perfeitamente familiarizados com, por exemplo, questões científicas. Em sua lendária série de TV Cosmos, Carl Sagan nos deu um belo exemplo de simplificação da ciência, da filosofia, e até da mitologia e religião, sem, no entanto, “infantilizar” nada: a isso também chamamos divulgação científica.

[5] Não se assustem: ele está propondo que eliminemos as aulas de história e literatura, e passemos a estudá-las de verdade: através de algo mais próximo dos sermões, das questões da alma.

[6] Ou, nem tão fantasmagórica assim, neste discurso de Steve Jobs. Aliás, Jobs, que nunca se graduou, provavelmente seria um assíduo estudante em um Curso de Caligrafia e Design Aplicado a Existência.

[7] Alain está aqui indo muito a frente de nosso tempo. Provavelmente morreremos sem ver a Academia aderindo a sermões, mas me parece inevitável que isso venha a ocorrer lá na frente, após o fim de todas as primaveras árabes e capitalistas... Nesse meio tempo, entretanto, talvez fosse uma boa reflexão para as pequenas igrejas, centros espíritas e terreiros (etc.): não poderíamos ajustar nossa linguagem, de modo a não necessariamente exigir que alguém creia em Deus, ou espíritos, para que possa assistir a nossas palestras e, por que não, participar efetivamente de nossas atividades de caridade? Humanos, todos nós somos humanos!

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Crédito da foto: Divulgação (Ed. Intrínseca - Noite de palestra e autógrafos do autor, na Livraria Cultura do Shop. Fashion Mall, no Rio de Janeiro, em 24/11/11)

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24.11.11

Educação secular, parte 1

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 95 a 100. A introdução e os comentários ao final são meus.

Introdução
Neste livro provocativo (e muito corajoso), Alain, que se declara ateu, defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Neste trecho em específico ele faz uma comparação entre a atual educação secular, e a educação cristã...

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Temos familiaridade suficiente com as principais categorias das humanidades, da maneira como são entendidas nas universidades seculares – história, antropologia, literatura e filosofia –, assim como com os tipos de perguntas que aparecem nos exames: Quem foram os carolíngios? Onde surgiu a fenomenologia? O que Emerson queria? Sabemos também que esse esquema deixa os aspectos emocionais de nossas personalidades para se desenvolverem espontaneamente, ou no mínimo de maneira privada, talvez quando estivermos como nossas famílias ou em solitárias caminhadas pelo campo [1].

Em contraste, o cristianismo se ocupa desde o início com nosso lado interior e confuso, declarando que nenhum de nós nasce sabendo como viver; somos, por natureza, frágeis e caprichosos, sem empatia e atormentados por fantasias de onipotência, estando a uma distância enorme da capacidade de reunir até mesmo uma fração do bom senso e da calma que a educação secular toma como ponto de partida para sua pedagogia [2].

O cristianismo está focado em ajudar uma parte de nós que a linguagem secular tem dificuldade até mesmo em nomear, que não é exatamente a inteligência ou a emoção, nem o caráter ou a personalidade, mas outra entidade, ainda mais abstrata, ligada a todas essas de maneira imprecisa e diferenciada delas por uma dimensão ética e transcendental adicional – e à qual podemos nos referir, seguindo a terminologia cristã, como alma. Tem sido a tarefa essencial da máquina pedagógica cristã cultivar, tranquilizar, confortar e guiar nossas almas.

Ao longo da história, o cristianismo se dedicou a longos debates acerca da natureza da alma, especulando como poderia ser sua aparência, onde se localizaria e a melhor forma de educá-la. Na sua origem, os teólogos acreditavam que ela se assemelhava a um bebê em miniatura inserido por Deus na boca de uma criança no momento do nascimento. Na outra extremidade da vida do indivíduo, a hora da morte, o bebê-alma seria, então, expelido pela boca. [...] Uma boa alma era aquela que conseguira encontrar respostas apropriadas para as grandes questões e tensões da existência, uma alma marcada por virtudes pias, como fé, esperança, caridade e amor.

Por mais que possamos discordar da visão do cristianismo com relação àquilo de que nossa alma necessita, é difícil invalidar a provocativa tese subjacente, que não parece ser menos relevante no domínio secular que no religioso – a tese de que temos em nós um núcleo precioso, infantil e vulnerável, que deveríamos nutrir e cuidar ao longo de sua turbulenta jornada pela vida [3].

Por seus próprios padrões, o cristianismo, portanto, não tem escolha senão colocar sua ênfase educacional em questões explícitas: Como podemos viver juntos? Como toleramos os defeitos dos outros? Como aceitar nossas próprias limitações e amainar a raiva? Um grau de didatismo zeloso é mais uma exigência que um insulto. A diferença entre a educação cristã e a secular se revela com particular clareza nos respectivos métodos característicos de instrução: a educação secular fornece aulas, o cristianismo, sermões.

Em termos de intenção, poderíamos dizer que uma se preocupa em transmitir informação, a outra, em mudar nossa vida. Pela própria natureza, os sermões assumem que seus ouvintes estão perdidos, de alguma maneira importante. Os títulos dos sermões de um dos mais famosos pregadores da Inglaterra do século XVIII, John Wesley, já mostram o cristianismo procurando oferecer conselhos práticos a respeito de uma série de desafios comuns da alma: “Sobre seu gentil”, “Sobre manter-se obediente aos pais”, “Sobre visitar os enfermos”, “Sobre a cautela com a intolerância”. Por mais que seja improvável que os sermões de Wesley seduzam ateus por meio de seus conteúdos, eles tiveram sucesso, assim como um bom número de textos cristãos, em categorizar o conhecimento sob títulos úteis.

Ao passo que, a princípio, Matthew Arnold, John Stuart Mill e outros tinham a esperança de que as universidades pudessem fornecer sermões seculares que nos informassem como evitar a intolerância e como encontrar coisas valiosas a dizer ao visitarmos pessoas doentes, esses centros de aprendizado nunca ofereceram o tipo de orientação no qual as igrejas se focaram, a partir de uma crença de que a academia não deveria fazer quaisquer associações entre obras culturais e sofrimentos individuais [4].

Seria uma afronta chocante à etiqueta universitária perguntar o que um livro de literatura [não religiosa] poderia nos ensinar de útil sobre o amor, ou sugerir que os romances de Henry James possam ser lidos como parábolas sobre se manter honesto em um escorregadio mundo mercantil. Contudo, a busca por parábolas é exatamente o que se encontra no núcleo da abordagem dos textos cristãos.

O próprio Wesley era um homem profundamente erudito [...] Ele possuía um grande conhecimento textual de Levítico e Mateus, Coríntios e Lucas, mas citava versos desses apenas quando podiam ser integrados em uma estrutura parabólica e usados para aliviar as tribulações de seus ouvintes. Assim como todos os pregadores cristãos, ele via a cultura principalmente como um instrumento, observando quais regras gerais de conduta cada passagem bíblica poderia exemplificar e promover.

» Na continuação, o Dpto. de Relacionamentos, o Instituto de Morrer e o Centro para o Autoconhecimento :)

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[1] Em entrevista num programa brasileiro, o médico Patch Adams (que é ateu), diz que costuma perguntar as pessoas que encontra: “Qual é sua estratégia de amor para a vida?”. Dentre jornalistas, médicos, cientistas, etc., normalmente ninguém sabe responder...

[2] É que não somos exatamente máquinas que se auto educam pelo mero registro e computação de informações sobre o mundo. No fundo, todos sabemos que somos seres que interpretam informações e têm sentimentos específicos sobre o mundo, que precisam ser encarados, expostos, analisados, “apaziguados”, etc. Embora qualquer educador secular provavelmente já saiba disso, ele raramente saberá como ensinar nesse formato. E, assim então, tudo permanece como está – até que venha a primavera.

[3] Você pode estar agora se perguntando se de Botton é realmente ateu. Sem dúvida: ele chega a dizer que cresceu com a certeza de que Deus não existia. A questão é que de Botton é um grande filósofo e, talvez mesmo por conta disso, um ateu sem preconceitos com as coisas “irracionais”.

[4] Arnold e Mill foram defensores dos objetivos da educação após o Iluminismo. Segundo Arnold a universidade era “um lar para o que melhor foi dito e pensado no mundo”. Para Mill, “o propósito das universidades não é produzir advogados, médicos ou engenheiros competentes. É criar seres humanos capazes e cultos”. E, voltando a Arnold, uma educação cultural deveria inspirar em nós “um amor pelo vizinho, um desejo de acabar com a confusão humana e diminuir sua miséria”. Infelizmente, até hoje a educação secular está algo distante desses objetivos essenciais.

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Crédito da imagem: Hulton-Deutsch Collection/Corbis

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