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25.1.12

Para ser um médium, parte 2

« continuando da parte 1

Para saber o que é loucura, a gente tem que entender o que é ser normal. E isso ninguém conseguiu definir até hoje. Mas, uma coisa é certa, um pouco de maluquice faz parte da normalidade e ser normal demais é o mesmo que ser muito louco. (Psicologia UERJ) [1]

De médicos e loucos

A esquizofrenia é um transtorno psíquico severo que se caracteriza pelos seguintes sintomas: alterações do pensamento, alucinações, delírios e distúrbios no contato com a realidade. É hoje encarada não como doença, no sentido clássico do termo, mas sim como um transtorno mental, podendo atingir diversos tipos de pessoas, sem exclusão de grupos ou classes sociais. De acordo com algumas estatísticas, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial.

Quando aqueles que se sentem escandalizados com o fato da mediunidade ser praticada até hoje são céticos quanto à existência de deuses e demônios, eles invariavelmente costumam resumir a questão com um comentário do tipo: “sim, mediunidade existe, e é loucura, esquizofrenia, mas tem tratamento!”. Você pode ficar especialmente chateado por ser chamado de louco, e até mesmo entrar numa discussão inútil, mas existe uma outra questão que estará ignorando: E o que é exatamente “ser louco”? O que é “ser esquizofrênico”?

A esquizofrenia como entidade de diagnóstico tem sido criticada como desprovida de validade científica ou confiabilidade e é parte de críticas mais amplas à validade dos psicodiagnósticos em geral. Uma alternativa sugere que os problemas com o diagnóstico seriam melhor atendidos como dimensões individuais ao longo das quais todos variam, de tal forma que haveria um espectro contínuo em vez de um corte entre normal e doente... Para alguns produtores de pornografia, ou criadores de comerciais de cerveja, podemos talvez separar a população entre jovens e velhos: “jovens” seriam todos aqueles com menos de 25 anos, “velhos” seriam os demais. Esta visão radical obviamente não condiz com a realidade, e o mesmo poderia ser dito da esquizofrenia e da loucura – não é a questão de dizermos “este é louco, aquele é são”, mas sim de analisarmos as patologias psíquicas uma a uma, tentando tratar das que são prejudiciais ao convívio social.

Taxar alguém de esquizofrênico ou louco pode ser também um julgamento político. Particularmente na antiga Rússia comunista este diagnóstico foi utilizado com a finalidade de silenciar os dissidentes políticos ou forçá-los a desistir de suas ideias através da utilização forçada de confinamento e tratamento. Em 2000, houve preocupações semelhantes quanto à detenção e “tratamento” de praticantes do movimento religioso Falun Gong pelo governo chinês. Se pensarmos em médiuns ativos e equilibrados, me parece óbvio que julgá-los loucos é também uma espécie de “julgamento político” – assim alguns céticos evitam ter de pensar muito no assunto.

Desde 2009, pesquisadores da UFJF analisam cerca de 100 médiuns de Juiz de Fora para listar critérios para um diagnóstico que diferencie experiências espirituais saudáveis de transtornos mentais, como os psicóticos, pois os dois estados podem se confundir, afirmam pesquisadores. Outro estudo captou imagens do cérebro de médiuns quando psicografavam e quando escreviam um texto de sua autoria, para avaliar quais áreas são ativadas nessa parte do organismo. Já uma pesquisa, finalizada, concluiu que as ocorrências mediúnicas não implicam necessariamente em esquizofrenia: "Se a pessoa diz que está vendo vultos, será que é uma experiência espiritual não patológica ou alucinação, indicando um transtorno mental?", questiona o professor da UFJF, Adair Menezes Júnior.

Se as imagens da atividade cerebral indicam que médiuns quando em transe apresentam características muito semelhantes a dos esquizofrênicos, isso nada nos diz sobre a capacidade do médium de controlar este transe, de “entrar e sair da loucura” como quem entra e sai de casa. Na verdade, tais estudos genuinamente científicos com eletroencefalogramas (EEGs) e outras ferramentas de scanning cerebral são muito interessantes e promissores, pois desde muito cedo já identificaram dois fatos que muitos médiuns já sabiam, mas alguns céticos não: (1) a grande maioria dos médiuns não está fingindo, dentro de seus cérebros “coisas estranhas” realmente ocorrem; (2) a mediunidade não é doença mental, pois se os médiuns “ligam e desligam” seus transes de forma consciente, isso em nada interfere em seu convívio social e equilíbrio mental geral – de fato, tais pesquisas indicam que os médiuns em geral são mais equilibrados do que a média da população.

O Dr. Sergio Felipe de Oliveira, psiquiatra com mestrado na USP que vem estudando a mediunidade há anos [2], talvez tenha resumido essa questão da melhor forma: “Na doença mental, o paciente não tem crítica da razão; no transe mediúnico, ele tem essa crítica. Quando o médium diz que incorporou tal entidade espiritual, mas que ele, médium, continua sendo determinada pessoa, ele usou a crítica, julgou racionalmente o que aconteceu. Agora, um indivíduo que diz ser Napoleão Bonaparte? Aí ele perdeu a crítica da razão. Essa é a diferença. O que não quer dizer que o indivíduo que esteja em psicose não possa estar em transe também. A mediunidade se instala no indivíduo são, ou pode dar uma dimensão muito maior a uma doença. A mediunidade sempre vai dar um efeito superlativo. Se a pessoa alimenta bons sentimentos, ela cresce. Se ela tem uma doença, aquela doença pode ficar fora de controle”.

Esse tipo de abordagem é interessante para os médiuns porque é sempre importante considerar que nossa sensibilidade é mais aflorada do que a das demais pessoas – podemos dizer que ser médium é essencialmente sentir mais do que os outros, de acordo com as capacidades da mediunidade de cada um. Porém, se “abrimos nossa mediunidade” há todo momento e em qualquer lugar, estamos nos arriscando... É como andar com um rádio ligado tentando sintonizar diversas estações ao mesmo tempo, uma após a outra, sem muito controle, sem muito cuidado: às vezes vamos ouvir música boa, muitas vezes vamos ouvir algo de que não gostamos.

Muitos médiuns procuram centros espíritas ou terreiros de umbanda não exatamente por curiosidade ou por vontade de auxiliar nos trabalhos da casa, mas simplesmente porque estão desesperados, desequilibrados, aturdidos, prestes a entrar em colapso mental... Nesses casos, a pior coisa que um dirigente pode dizer é: “não se preocupe, isso é mediunidade, com o trabalho na casa vai passar rapidinho”. Não! Não vai passar rapidinho, e pode até piorar... Pois a mediunidade é uma atividade sagrada de contato com as forças espirituais que preenchem toda a natureza, algo tão antigo quanto às primeiras tribos e os primeiros xamãs. Mas os xamãs não eram pessoas desequilibradas e desesperadas, eles eram, pelo contrário, os mais equilibrados e sábios, e exatamente por isso que tinham a oportunidade de guiar sua tribo nos assuntos espirituais. Ainda que um centro espírita esteja desesperadamente precisando de médiuns ativos, aceitar qualquer ser angustiado que bata a porta como “trabalhador da casa”, da noite para o dia, só vai agravar ainda mais a situação.

O primeiro espírito que um médium precisa aprender a incorporar é o seu próprio. Precisa estar equilibrado, no mínimo, para poder exercer sua mediunidade de forma sadia. Não estou querendo dizer que um médium precise ser muito normal, pois como vimos ser muito normal pode ser a mesma coisa que ser muito louco – mas precisa pelo menos tomar posse de seus sentimentos, pensamentos, intuições. Nem que seja apenas para saber diferenciar melhor as informações que vem de dentro, das que vem de fora.

No mais, aqueles seres angustiados que procuraram a casa espírita ou espiritualista pela dor, e não pelo amor, não são irrecuperáveis, pelo contrário: muitos dos grandes médiuns começaram assim. Mas precisam primeiro se tratar, inclusive na medicina tradicional, inclusive tomando remédios, caso necessário. E, paralelamente, irem estudando a doutrina que pretendem seguir: sejam livros de Allan Kardec, sejam livros de Umbanda Sagrada, sejam livros espiritualistas em geral. Quanto mais conhecimento, mais poderão compreender o que se passa em seu interior, particularmente durante os transes. Nesse sentido o trabalho nas casas espiritualistas pode servir de um excelente complemento terapêutico para o tratamento de distúrbios mentais, desde que se desenvolvam gradualmente, sem procurarem ser “grandes médiuns” em alguns meses [3].

Diz o ditado popular que de médico e louco, todos têm um pouco. Talvez por isso mesmo todos sejam médiuns. Em maior ou menor grau, com a sensibilidade desperta ou ainda sonolenta, com compreensão ou sem compreensão, com muitas ou poucas dúvidas, todos nós somos um pouco loucos. Todos às vezes captamos pensamentos, belos ou obscuros, que parecem ter vindo com o vento, a escorar pelo ombro – e não adianta nos virarmos para tentar identificar para onde foram: se perderam com as brisas. Mesmo assim, por vezes captamos tais pensamentos, de início fragmentados mas, caso queiramos realmente desenvolver tais sentidos ocultos, dia virá que os perceberemos de forma cada vez mais clara.

Então faltará sermos também médicos. Faltará auxiliar aos outros a curar suas dores e angústias através de uma poderosa corrente de amor. Faltará converter nossa loucura em luz.

» A seguir, as diversas formas de manifestação da mediunidade...

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[1] Li este texto em uma imagem que circulava nas redes sociais anos atrás. O texto estava em um cartaz no centro acadêmico de psicologia da UERJ.

[2] Sua pesquisa, genuinamente científica e objetiva, procura associar o número elevado de cristais de apatita encontrados na glândula pineal dos pacientes a um grau mais elevado de mediunidade. Segundo este promissor estudo, os cristais da pineal podem ser receptores e emissores de ondas eletromagnéticas, e esta poderia ser a via pela qual a troca de informações com espíritos “de fora” ocorre. O Dr. Sergio pode comprovar que Descartes estava errado – a pineal não é a sede do espírito no corpo –, mas nem tão errado assim.

[3] Suspeite de qualquer um que lhe diga que a mediunidade se desenvolve “rapidinho”. Na verdade, um médium só se torna plenamente equilibrado e de posse das próprias capacidades após muitos e muitos anos. Uns 10 a 15 anos não seria um cálculo muito distante da média.

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Crédito da imagem: CJ Burton/Corbis

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16.12.11

Tendências da fé, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 66 a 70. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

O mundo árabe – incluindo os países muçulmanos das regiões central e sul da Ásia
O mundo árabe em geral apresenta uma cenário religioso uniforme, assim como os países muçulmanos de outras partes do mundo. Nos lugares onde o Islã reina, dificilmente há espaço para outras religiões, exceto alguns pequenos grupos tradicionais, como os cristãos cópticos no Egito, os cristãos armênios e zoroastrianos no Irã, os mandeístas no Iraque e os cristãos siríacos no Líbano.

A principal divisão no Islã é entre sunitas e xiitas, mas existem também grupos menores de longa e rica tradição. O Sufismo, por exemplo, a variação mística do Islã, conhecido pelas práticas religiosas extáticas como a dança dos dervixes e pela poesia, tende a ser mais tolerante em relação às outras religiões do que o Islã “normal”, que é, acima de tudo, totalmente baseado no Alcorão e se opõe à expressão religiosa pessoal dos sufistas [1]. O mesmo se aplica aos ismaelitas, que vivem na Síria e em outros tempos dominavam o mundo árabe, do Marrocos ao Iraque; o fato de que os judeus e os cristãos podem viver em paz na Síria e no Líbano se deve principalmente à tolerância dos ismaelitas.

As últimas décadas presenciaram um fortalecimento do fundamentalismo nos países muçulmanos. Com origem em países bem organizados, como o Egito e a Arábia Saudita, o movimento fundamentalista se espalhou para todos os cantos do mundo, principalmente para os países muçulmanos com governos centrais enfraquecidos, como o Afeganistão e o Iêmen, e para regiões com uma grande diáspora [2] muçulmana, como a Europa Ocidental. Dessa forma, existem cerca de 20 milhões de muçulmanos vivendo na Europa atualmente [3].

A principal característica dos vários países muçulmanos é que a religião está ganhando espaço nos assuntos políticos e judiciais. Essa tendência é chamada de “Islamitismo”. Em países como a Malásia e Indonésia, há partidos islamitas de linha dura que querem impor a lei islâmica a todos os habitantes do país, até a quem não for muçulmano. Na Indonésia, onde 90% das pessoas são muçulmanas, vários governos regionais aprovaram leis inspiradas na charia, incluindo condutas obrigatórias de vestimentas, testes de leitura do Alcorão para os alunos e casais que desejam se casar, além de grupos de combate a vícios estruturados de maneira vaga, inspirados naqueles da Arábia Saudita e no Afeganistão na era do Talibã. Em 2008, o governo da Indonésia aprovou uma lei antipornografia, cujas restrições referentes às vestimentas e expressão artística puniram grupos de não muçulmanos, banindo a cultura tradicional balinesa e prejudicando sua economia, que depende do turismo na ilha [de Bali] [4].

Índia
Tradicionalmente, a Índia é uma região onde a religião e a espiritualidade desabrocharam. Ao caminhar pelas ruas de Varanasi, em Nova Délhi, Bombaim, Amritsar ou Jaipur, pode-se sentir e ver religião em cada esquina, seja Hinduísmo, Islã, Budismo, Sikhismo, Jainismo ou Zoroastrismo. Por muito tempo, a Índia teve soberanos religiosos. Em aproximadamente 250 d.C., o Rei Ashoka, que era budista, governou o Império Máuria, que ocupava a região que hoje vai do Afeganistão a Bangladesh. Sob o domínio hindu, o subcontinente indiano foi governado por reis feudais locais, chamados de maharajas. Nos séculos 17 e 18, essa Grande Índia foi novamente unificada e governada por imperadores mongóis e muçulmanos. Em 1947, com a saída dos colonizadores britânicos, e região foi dividida em República da Índia (hindu), Bangladesh e Paquistão (muçulmanos). Os governos que se instalaram nesses três países foram explicitamente seculares, em uma tentativa de acalmar as tensões religiosas.

Na Índia, há uma minoria muçulmana tradicionalmente tranquila, tolerante e não ortodoxa. Porém, influenciados pelo movimento islamita internacional, que possui esconderijos no vizinho Paquistão, os conflitos entre os muçulmanos e hindus na Índia estão aumentando de novo. [...] Ao mesmo tempo, a religião predominante na Índia, o Hinduísmo, perdeu influência na vida da população por causa dos governos seculares.

O sistema de castas da Índia foi oficialmente abolido com a Constituição de 1947. Para os chamados dalits, os 16,2% da população indiana sem casta e considerados “intocáveis”, isso fez uma grande diferença. O governo indiano fornece aos dalits bolsas de estudo em universidades e depois os contratam como funcionários públicos [5]. Historicamente, como sua posição na classe social inferior foi automaticamente associada a ocupações consideradas impuras, os dalits trabalhavam principalmente como artesãos, limpando latrinas e canos de esgoto ou então varrendo ruas. Hoje, trabalham como engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, gerentes, profissionais de TI e empresários de sucesso. Até o atual Presidente Pratibha Patil da Índia é descendente dos dalits.

Porém, o sistema de castas ainda predomina em grandes regiões rurais da Índia, apesar da política secular oficial do governo. Mas, em uma cultura global, com televisão em todos os vilarejos, as pessoas podem ver que existem outras formas de viver. Atualmente, muitos dalits de regiões rurais da Índia se convertem ao Marxismo ou Cristianismo em busca de emancipação.

China
A China tem uma história religiosa muito rica. Chang’an, a antiga capital chinesa durante a Dinastia Tang (618-907), era a cidade mais cosmopolita do mundo, com mais de 1 milhão de habitantes, e tolerância religiosa total. Como era o ponto final da Rota da Seda, a cidade atraía muitos estrangeiros, de localidades distantes, como Japão, Pérsia, Império Khmer e Bizâncio. Os mosteiros budistas ficavam ao lado dos santuários confucianos, os templos zoroastrianos próximos às igrejas cristãs nestorianas. As santidades taoistas e os altares nas residências eram utilizados para venerar os antepassados. Muitos dos imperadores eram budistas, outros eram confucianos e alguns eram ateus [6].

Depois de 1949, quando o Partido Comunista assumiu o controle do Império do Meio, a religião foi desencorajada porque, como Marx tinha dito: “a religião é como ópio para as pessoas”. Mas a religião nunca desapareceu por completo, pois os seguidores continuaram suas práticas silenciosamente com os altares montados em suas casas [7].

Depois que a China abriu sua Cortina de Bambu em 1979, a religião começou a ser tolerada novamente. Em 1982, a liberdade religiosa se tornou parte da Constituição da China; porém, essa tolerância ficou limitada a cinco religiões: Budismo, Taoísmo, Islã, Protestantismo e Catolicismo. As outras religiões ainda encontram repressão. O novo movimento religioso Falun Gong, baseado nas práticas qigong tradicionais, como tai chi e controle da respiração, mas que também enfatiza os conceitos morais e as virtudes como o pacifismo, cresceu rapidamente na década de 1990: as fontes do governo chinês indicam que havia 70 milhões de adeptos no país até o ano de 1998. O Partido Comunista começou a se sentir ameaçado por essa nova “seita” e baniu-a em 1999. Em 2001, esmagaram o Falun Gong, que o governo considerou algo inaceitável, depois que 10.000 membros do movimento foram a Pequim protestar por causa de seu ostracismo oficial. Entretanto, outras religiões seguem bem, contanto que não interfiram na política oficial [8].

[...] Uma das religiões que está claramente em alta na China é o Budismo. Tradicionalmente, era popular entre os pobres da China, simplesmente porque o Budismo prega a aceitação dos fardos mundanos e enfoca o esclarecimento pessoal e o futuro. Essa aceitação impede que os não religiosos se revoltem contra os religiosos e pode explicar a tolerância do Presidente Hu Jintao. A população rica da China tradicionalmente apresentava uma tendência maior ao Taoísmo, porque este enfoca o aqui e o agora, principalmente o viver em harmonia com o acúmulo de riquezas. Mas, atualmente, a população bem-sucedida da China apresenta uma tendência maior ao Budismo. Para os jovens estressados, é uma pausa nos conflitos e competições.

A popularidade crescente da fé reflete um desejo por um sentido na China, com muitas pessoas cada vez mais atraídas aos ensinamentos do Budismo de rejeição ao materialismo e ênfase na natureza da vida transitória. [...] O Islã também está crescendo na China. Tradicionalmente, há comunidades muçulmanas relativamente grandes nas principais cidades, a maioria da tribo Hui. No estremo ocidente da China, na Província de Xinjiang, os povos Uygur e Kirgyz acentuam suas razões islâmicas, em parte para proteger a cultura local e enfatizar sua tendência ao separatismo político.

[...] Uma outra religião que está bem na China é o Cristianismo. Os números oficiais mostram que a quantidade de cristãos aumentou de 14 milhões em 1997 para 21 milhões em 2006, mas esses dados excluem as igrejas nos lares e as igrejas clandestinas. Uma estimativa modesta diz que, em 2010, havia mais de 80 milhões de cristãos na China. As igrejas nos lares são particularmente populares, embora o governo tenha estabelecido um limite informal de 25 pessoas para cada “reunião religiosa não autorizada”.

Em seu livro O regresso de Deus, Micklethwait e Wooldridge sugerem que os chineses são atraídos ao Cristianismo porque cada cidade chinesa possui um clube ou rede de cristãos empresários e pessoas que querem se juntar ao clube dos bem-sucedidos. Os pesquisadores mencionam um depoimento de um convertido: “Na Europa, a igreja é velha. Aqui, é moderna. A religião é um sinal de ideais superiores e progresso. A riqueza espiritual e a riqueza material andam juntas. É por isso que vamos vencer” [9].

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[1] Toda grande religião tem sua vertente mística e verdadeiramente esotérica. No Islã, o sufismo; No cristianismo, os gnósticos e martinistas; No judaísmo, a Cabala (kabbalah), etc. Como todos estes são geralmente mais religiosos que eclesiásticos, se preocupam muito mais em sua religação com Deus (religare) do que em ditar preceitos morais e/ou importunar os praticantes de outras religiões com tentativas de “evangelização forçada”; E tampouco se preocupam em participar de uma elite de “escolhidos por Deus”, pois que em todo o canto que olham veem a verdade: que só existe um Deus, e que ele preenche todo o Cosmos (incluindo nós mesmos).

[2] Comunidades religiosas provenientes de migrações.

[3] Kadafi uma vez chegou a admitir que o “plano muçulmano” era “conquistar” a Europa pelas altas taxas de natalidade. Como vimos, à juventude muçulmana realmente cresce em todo mundo, mas o resultado não foi muito favorável aos ditadores islâmicos...

[4] Uma charia no desfile de Carnaval carioca deveria afetar o turismo no Brasil de forma bem semelhante. Sorte que escapamos dessa.

[5] Nesse sentido, governos seculares foram uma grande benção para a Índia... Há que se ter equilíbrio e harmonia numa sociedade, e às vezes uma visão mais secular e pragmática é necessária ao progresso. O sistema de castas é a grande “chaga cármica” da Índia.

[6] Parecem fábulas, mas em momentos de nossa história, grandes metrópoles ecumênicas efetivamente existiram. Que a antiga Atenas, Chang’an, Al Andalus e a Nova Iorque do final do século 20 não sejam jamais esquecidas, como exemplos de como a humanidade pode conviver em liberdade e tolerância. Esperamos que o Brasil hospede uma dessas, em se consolidando como potência mundial.

[7] Quem compreende a reencarnação sabe que a religiosidade humana jamais desaparecerá, por mais que se exterminem todos os religiosos de um povo – enquanto existir seu povo, eles voltam, eles sempre voltam...

[8] O governo chinês finge que preza a liberdade e os direitos civis, e os governos do resto do mundo fingem que acreditam. Enquanto a balança comercial com a China lhes favorecer, para eles estará bom assim.

[9] Algo me diz que a “teologia da prosperidade” também fará muito sucesso lá do outro lado do globo. Para o deus do consumo, estará tudo muito bom.

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Crédito das imagens: [topo] Reza/Webistan/Corbis (um dervixe dançando); [ao longo] Paul Howard/Demotix/Corbis (protesto pacífico de seguidores do Falun Gong, em frente a embaixada da China em Londres; eu optei por não mostrar imagens de torturas praticadas pelo governo chinês em praças públicas, mas está tudo no Google).

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