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11.6.12

Caminhando em noite fria

Há alguns anos, quando ainda era jovem e solteiro, costumava passar as férias da faculdade no interior de Minas, numa cidadezinha sempre fria e maravilhosa, colonizada por europeus fugitivos das guerras, e na qual minha família tem um hotel fazenda. Renatinho [1] era um dos funcionários com maior salário por lá, já que era inteligente e sabia lidar bem com os hóspedes. Não era exatamente um amigo íntimo, mas já o conhecia há alguns anos. Numa dessas tantas noites gélidas do inverno do sul de Minas, estávamos eu e ele, e outros amigos, numa balada [2] na rua principal da cidade, há uns 2 ou 3 Km do hotel...

Como era comum na minha juventude um tanto quanto tímida, acabou a noite e eu não havia arrumado nenhuma garota, então aceitei o convite do Renatinho para que voltássemos os dois andando até o hotel, já que o restante do pessoal que estava com a gente ou já havia ido embora, ou ainda ficaria muito mais tempo (os que “se deram bem”, pelo menos). Subimos então a longa rampa de estrada de terra que dava no hotel, com a noite tão escura que as estrelas mais pareciam anúncios siderais, e qualquer cavalo que passasse pelo caminho podia ser facilmente confundido com um demônio silencioso.

Em dado momento, Renatinho se aproximou e apoiou o braço esquerdo nos meus ombros, quase me abraçando, embora estivéssemos ainda caminhando... Pode ser algo vergonhoso para alguns, mas eu realmente nunca havia me dado conta, até aquele momento, de que meu amigo era homossexual. Naqueles segundos em que andamos quase abraçados, antes que qualquer um dissesse qualquer coisa, eu me dei conta de que, em todo o tempo que o conhecia, houveram inúmeras “pequenas dicas” de que ele era gay, mas eu não havia prestado atenção em nenhuma delas... Seria inocência? Duvido, pois naqueles segundos os pensamentos que me assaltaram a mente não eram nem um pouco inocentes: “Que droga, não acredito nisso; não peguei ninguém na festa, e agora ainda mais essa!”.

O que Renatinho propôs em seguida não ajudou muito a afastar tais pensamentos. Meu amigo havia proposto fazer sexo oral em mim, e ainda prometeu que não iria contar pra ninguém, que aquilo nunca mais precisava acontecer, etc. Eu disse apenas: “Renatinho, foi mal cara, mas não dá, meu negócio não é esse não...”

Mas continuamos caminhando, meio abraçados, em noite fria. Meu amigo não respondia nada, e eu continuava com alguns pensamentos distintos assaltando minha mente: “Será que ele achou que eu era gay? Será que todo mundo acha que eu sou gay? Mas que droga!”. Foi o que ocorreu em seguida que transformou essa história tragicômica em algo mais profundo, digno de ser relatado adiante – Subitamente, Renatinho começou a chorar compulsivamente...

Percebendo o choro, eu parei de caminhar e perguntei o que havia acontecido... Ele apenas se desvencilhou de mim e seguiu aos prantos, na minha frente.

“Ei, ei Renatinho, calma cara, não precisa ficar assim... Não estou com nojo de você nem nada disso.” – Eu pensei que era alguma coisa útil a se dizer, e estava sendo sincero, não era nojo o que eu havia sentido, em nenhum momento.

“Pois deveria... Todos tem nojo de mim... Eu estou condenado. Eu sei que sou doente, mas não consigo me curar...” – Dizia meu amigo em meio à noite estrelada. O assunto havia ficado mais sério, mas, por sorte, o aspecto religioso do problema era a minha especialidade...

“Doente? Como assim doente... Vem cá, Renatinho, para um pouco de correr aí na frente e me diz: desde quando você gosta de homens?”

“Desde sempre! Desde que nasci... O demônio me amaldiçoou...”

“Que amaldiçoou o que... Você não sabe que tem animais que são homossexuais[3]? Se você já nasceu assim, é porque Deus te fez assim mesmo, do jeito que você é. Qual o problema disso?”

“Qual o problema? O problema é que eu vou para o Inferno!”

“E como você sabe?”

“É o que todo mundo diz... Que na Bíblia diz que todo gay vai arder no Inferno... Mas eu tentei mudar, tentei me curar, mas não consigo!”

Então já estávamos na entrada do hotel, o que foi bom, pois pudemos entrar e tomar um chá quente perto da lareira da recepção... E assim, com o coração mais aquecido, Renatinho pode se acalmar e prestar atenção em tudo que eu tinha para dizer sobre como a Bíblia não era infalível e, mesmo que fosse, sobre como não há uma referência clara ao fato de todo homossexual ir para o inferno (pelo menos, não mais do que para todo ladrão de galinhas, ou para todo aquele que possui um escravo da mesma região em que nasceu [4]). Também lhe indaguei se era justo da parte de Deus que deixasse um demônio a solta que poderia amaldiçoar as pessoas ainda no berço, e ele sabiamente disse que não, no que aproveitei para questionar se poderia mesmo existir um ser que fosse “rival” de Deus, o que ele não soube responder, mas talvez tenha se tornado um pouco mais cético em relação a real extensão dos “poderes” do tal demônio, se é que ele existe. Finalmente, ainda lhe disse que o mundo estava superpovoado, e que não era necessariamente um “pecado capital” não termos filhos e que, em todo caso, sempre seria possível ele e um futuro namorado adotarem uma criança órfã.

E você pode estar achando que eu estava me sentindo melhor por estar ajudando na “iluminação” do meu amigo, mas a verdade é que tudo o que disse servia tanto para ele quanto para mim. Eu havia aberto o coração e me colocado no lugar dele e, como numa magia empática, subitamente a inspiração para tudo aquilo que disse foi chegando, como que irradiada de alguma estrela da noite mineira – as estrelas, afinal, não haviam saído do lugar.

Dessa forma, a razão pela qual não relato aqui exatamente o que eu disse ao Renatinho é principalmente porque já não me lembro mais. Tudo o que lembro é de ter passado por uma experiência libertadora, espiritual, que parece ter modificado tanto a ele quanto a mim... Depois daquela noite fria, meu amigo nunca mais foi o mesmo: meses depois, já havia largado o emprego no hotel e assumido um cargo muito mais exigente, como gerente de um outro grande hotel da cidade. Anos depois, soube que se tornou jornalista, radialista, articulista, e que havia se mudado para São Paulo. Também soube que, desde aquela noite, ele nunca mais havia tentado ocultar dos outros que era gay. Renatinho se tornou ele mesmo: apenas do jeito que Deus o colocou no mundo.

Mas eu também havia saído daquela noite fria maior, com o coração mais quente, e quem sabe um pouco mais atento a luz das estrelas... Desde então, passei a prestar maior atenção a todos aqueles pensamentos estranhos que tentaram me afastar de meu amigo num primeiro momento, mas que em realidade nunca foram exatamente meus. Naquela noite eu soube, enfim, que não poderia jamais me aproximar de Deus enquanto me afastava dos homens, de qualquer um que fosse que houvesse me ofertado apenas amor – seja ele de qual tipo for –, e que não mereceria, nunca mais, a violência, a ignorância, a cegueira ante as estrelas, em troca.


raph’12

***

[1] Nome fictício.

[2] Na época ainda se usava “boate”.

[3] Se você não acredita nisso, talvez fosse uma boa oportunidade para aprender mais sobre os bonobos.

[4] Veja também os artigos – Levítico: pedras não faltarão e Querida Dra. Laura...

Crédito da foto: Kai Chiang/Golden Pixels LLC/Corbis (casal gay em um restaurante americano)

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7.12.09

Onde estarão os memes, parte 1

Decifrando a empatia

Uma das descobertas mais recentes e importantes da neurologia foi a dos neurônios-espelho. Eles foram descobertos inicialmente na área de planejamento motor do cérebro de macacos, e estudos subseqüentes de imageamento cerebral sugeriram que também existem nos humanos. Esse sistema aparenta ser mais amplo nos humanos do que nos macacos, por não se restringir às áreas do movimento, mas abranger locais relacionados às emoções, sensações e intenções. Propiciam um conhecimento imediato do que se passa na mente de outra pessoa; acredita-se que essa capacidade de saber o que o outro está sentindo ou fazendo seja a base da imitação.

Ao vermos outra pessoa emocionar-se, as áreas cerebrais associadas a essa sensação são ativadas, tornando as emoções transmissíveis. Em um estudo, voluntários cheiravam algo repulsivo e mais tarde observavam outra pessoa cheirando alguma coisa e expressando asco. Os dois produziram atividade neuronal na área do cérebro associada com a sensação de repugnância. Acredita-se que o espelhamento das emoções seja a base da empatia. Descobriu-se que autistas, que tendem à falta de empatia, apresentam menor atividade nos neurônios-espelho [1].

Segundo a antropologia moderna, a empatia e a imitação talvez tenham sido a base do mecanismo que nos tornou humanos. Ao observarem outras pessoas em seu grupo social, nossos ancestrais começaram a tentar desvendar o que se passava em suas mentes – e, para tal, tiveram que imaginar cada qual como um indivíduo em separado. Segundo a teoria da mente, pela primeira vez nossos ancestrais adquiriram a capacidade de julgar a intencionalidade de outro indivíduo, passando a “pensar como se fossem outra pessoa”, na tentativa de antever suas ações.

Ainda hoje, através do teste de Sally e Anne, psicólogos evolutivos são capazes de identificar a partir de qual idade as crianças geralmente se tornam capazes de atribuir crenças falsas a outros indivíduos. Geralmente, somente a partir dos quatro anos as crianças conseguem identificar que uma boneca, Anne, propositalmente muda uma bola de uma cesta para outra, enquanto sua amiga, Sally, não está vendo – quando Sally retorna, deve procurar na cesta em que acha que a bola estaria, quando não está mais. Talvez, seja a partir dessa idade que “perdemos a inocência” e passamos a compreender o conceito de mentira e manipulação. Mas, da mesma forma, é a partir da mesma idade que começamos a compreender que cada ser humano tem sua própria mente e suas próprias intenções – algo que nos será absolutamente essencial para o restante de nossas vidas.

Segundo Steven Mithen em seu célebre livro, “A pré-história da mente”, os hominídeos pré-humanos apresentaram variadas gradações de módulos de inteligência – a inteligência geral, a naturalista, a técnica e a social. Porém, somente nos homo sapiens esses módulos da mente se unificaram em um único grande conjunto, de modo a possibilitar o surgimento da cultura, da arte e da religião humanas. No entanto, observando outras espécies ainda próximas em nosso galho evolutivo, como bonobos e chimpanzés, sabemos que de todos esses módulos, o que mais contribuiu na evolução cognitiva da mente humana foi, sem dúvida, o social.

Estima-se que, ainda na época atual, as pessoas passem em torno de 2/3 de seu tempo de interação com outras pessoas falando sobre assuntos de cunho social – ou, em outras palavras, fofocando [2]. Isso surpreendeu até mesmo os maiores entusiastas da psicologia evolutiva. E a explicação para isso é simples: foi através de nossas interações sociais ancestrais, desde as pequenas tribos africanas de onde viemos, que desenvolvemos a linguagem. E a linguagem sim, é o grande catalisador de tudo o que veio depois. Sem a linguagem, toda nossa arte, religião e ciência seriam resumidos ao que cada geração conseguiu desenvolver em sua época, pois quase nada seria passado adiante as gerações seguintes. Em suma, como os hominídeos ancestrais, seríamos capazes de produzir machados de pedra no exato mesmo formato por mais de um milhão de anos, sem nenhuma inovação, sem nenhuma criatividade. Pois estes são próprios de uma mente onde os módulos de inteligência se conectaram, e também da linguagem que pôde passar tais descobertas adiante.

No entanto, essa não é toda a história até aqui. Segundo Richard Dawkins, na era atual a nossa evolução não é mais comandada somente pelos genes, que determinam apenas as características físicas de uma espécie, e dependem do lento processo de seleção natural, de milhares e milhares de anos, para que alguma mudança efetiva seja efetuada... Hoje, estamos na era da evolução memética, onde os memes tomaram o controle de nossa evolução cultural. Desse modo, não dependeríamos apenas da linguagem para passarmos nossa cultura adiante, pois os memes fariam isso por nós, sendo passados de geração em geração, transmitindo características culturais, e não apenas físicas, adiante.

Interessante? Sem dúvida. No entanto, falta-nos descobrir onde diabos estão esses memes. É isso que tentaremos fazer a seguir...

***

[1] Segundo “O Livro do Cérebro”, da DK, publicado no Brasil pela editora Duetto.

[2] Segundo a série de documentários “Evolução”, da NOVA, lançada no Brasil também pela editora Duetto.

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» Vejam também esta palestra no TEDTalks, onde Paul Zak (Dr. Amor) fala sobre a oxitocina, a "molécula da moralidade e da empatia"

Crédito da imagem: Beau Lark/Corbis

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15.4.09

Eu sonhei um sonho

Você não precisa entender nada do que é dito nesse vídeo
Existem coisas que são transmitidas por meras palavras
E coisas maiores - intransmissíveis - senão pela empatia
De quem vive, de quem sente, de quem canta, de quem sonha, de quem ama...
(como o que ocorre no segundo 1:58 abaixo)

***

Agora também disponível com legendas, caso prefiram (mas a idéia do post era exatamente de compreender independentemente das palavras):

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26.2.09

Uma rima rápida

Uma rima rápida é como um trovão de poesia:
O retoar atordoa, e a luz se propaga com maestria.

Há quem leia as duas frases acima e passe adiante, desapercebido - "hmm tá bem, e o que tem isso?" - e há quem reconheça ali, ainda que de modo superficial, uma "fragância" de poesia. Não cabe a nós julgar o que tange a percepção de cada um: cada qual percebe aquilo que pode, aquilo que tem interesse e, sobretudo, aquilo em que mantém o foco mental.

Decerto poesias não enchem a barriga de ninguém. Pode-se dizer, de modo mesmo prático: e que adianta a poesia? Por acaso a poesia vai resolver a miséria do mundo? As guerras? A ignorância? - A poesia é uma forma de arte, uma simbologia do sentido do ser e do "estar vivo", a poesia não está aqui para resolver o problema do mundo, nem mesmo o problema de ninguém em especial. Somos nós que resolveremos nossos problemas, no meio do caminho talvez a poesia nos ajude, talvez não, mas fato é que há quem ame poesia e há quem nunca tenha sequer compreendido seu significado mais básico. Porque afinal somos assim tão distintos? Será possível que se aprenda a compreender poesia?

Não sei ao certo se aprende-se a compreender poesia. Mas tenho quase certeza que aprende-se a sentir o mundo, e não apenas racionaliza-lo - Será que o mundo é apenas aquilo que foi descoberto pela ciência? Nesse caso, será que antes da ciência descobrir que a Terra girava em torno do Sol, esta preferia seguir a crença comum de que era exatamente o inverso, de que era o Sol que girava em torno da Terra? Está óbvio que não: ainda que o mundo se limitasse ao que nossa razão é capaz de compreender, ainda assim teríamos uma infinidade de coisas desconhecidas a bailar pelo Universo a nossa volta.

Fazer, entoar, participar da poesia é celebrar todo esse "desconhecido" a nossa volta. É exatamente não racionaliza-lo, apenas, mas também tentar compreendê-lo pelo sentir, como quem tenta compreender uma fragância de perfume por seu cheiro, e não pelo logotipo da embalagem, ou pela lista dos produtos químicos em sua composição. Entoar poesia é estar aqui e agora, tão somente vivendo, em certo sentido, dentro da simbologia que aquelas palavras nos despertam em nosso íntimo.

Obviamente que a poesia acima é somente um exemplo auto-referente, que quando muito pode despertar certa simpatia em alguns admiradores de poesia, porém ainda assim serve como exemplo para que nos indaguemos acerca de certos símbolos em nossas mentes: o que será um trovão de poesia? Imaginamos um trovão no céu chuvoso, ou uma chuva de palavras descoordenadas? Será que o trovão se refere apenas ao sentimendo de medo e deslumbramento perante a Natureza quando esta nos envia uma tempestade? Porque será que o retoar de um trovão atordoa? Será pelo som que faz, ou pelo sentimento ancestral que nos desperta? Será que entoar tem a ver com retoar? Será que se entoa poesia como a Naturza nos envia trovões? Será que a Natureza é um poeta impessoal? Será que Natureza é poesia em estado bruto? Será que, como a luz, os sentimentos se propagam em meio aos céus revoltos das tempestades? Será que essas indagações fazem parte desta poesia tão simples? Onde será que termina uma poesia?

Poderíamos ficar assim indeterminadamente. Difícil dizer se isso é racionalizar ou sentir. Talvez a mera tentativa de classificar um sentimento seja racionaliza-lo. Porisso o homem não se comunica somente por sons ou gestos, mas também por algo de misterioso e poético, um relance de olhar, uma expressão indeterminada, algo que chamamos "empatia", o dedilhar do violão de um bardo, o entoar de uma oração sacra, ou apócrifa, ou uma oração que se faz na hora, e nunca mais se repete, um eterno celebrar da vida e do desconhecido. O viver aqui e agora, sem medo, nem dó, nem pena, nem nenhuma expectativa além daquela que a Natureza já nos promete a todo momento: a expectativa de ser realmente real tudo aquilo que sentimos ou racionalizamos.

Como atordoa,
Como atordoa...
Entoar poesia.

***

Crédito do desenho (com alteração digital): Albrecht Durer

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