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11.11.24

Lançamento: Raízes do Estoicismo (os clássicos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio)

As Edições Textos para Reflexão lançam o seu primeiro box de filosofia estoica.

O estoicismo ficou conhecido como a filosofia que ajuda as pessoas a atravessarem momentos de crise, mas em realidade vai muito além disso: ensina-nos a viver. Esta edição traz traduções comentadas das principais obras do estoicismo: dois dos mais celebrados textos de Sêneca, o Manual de Epicteto e as Meditações do imperador Marco Aurélio.

Este compilado com traduções de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Leia a introdução da edição


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27.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte 2)

« continuando da parte 1


Há quase dois mil anos o homem mais poderoso do mundo foi obrigado a passar a última década de sua vida isolado da sua cidade natal e da maior parte de seus amigos e familiares. Enquanto comandava de sua tenda militar as estratégias de defesa da fronteira norte do seu Império, nas suas parcas horas vagas ele se dedicava à escrita. Não um livro sobre a guerra, não uma história qualquer que talvez viesse a ser publicada e lhe conferisse alguma fama na posteridade. Não, o imperador não dava nenhum valor para aplausos e exaltações, o seu único objetivo era salvaguardar o seu Império – leia-se: o seu povo.

O seu livro era na realidade um bloco de anotações para si mesmo, ensinamentos que havia adquirido em vida, dos livros, dos mentores, da própria experiência de estar vivo. O seu objetivo era aconselhar a si mesmo, dia após dia, para que pudesse cumprir sua missão sem fraquejar ante a tristeza e o desespero da guerra.

Este homem era Marco Aurélio, Imperador de Roma (121– 180 d.C.), e o seu alicerce era a própria filosofia. Talvez ela ainda possa ser útil, dois mil anos depois:

A filosofia e a crise
Quando estava no colégio, eu nunca tive aula de filosofia. A filosofia não era sequer mencionada. Assim, por desconhecê-la totalmente, a minha opinião sobre ela era a mesma do cidadão comum: “algo difícil, que provavelmente não serviria para nada”.

Isso mudou quando, já adulto, encontrei um livro de Platão na estante do meu pai e comecei a ler. Fédon (ou Da alma) foi para mim mais do que uma história, mais do que um registro histórico de uma época remota, mais do que alguma espécie de ensinamento moral: aquele livro me demonstrou do que a filosofia, o amor genuíno ao saber, era realmente capaz. Aquelas páginas antigas podiam de fato me melhorar, e tornar a minha própria relação com a vida algo mais profundo. Não era mera questão de “autoajuda para momentos de dificuldade”, mas uma conexão genuína com os sofrimentos e os prazeres da existência, a vida e a morte, a dor da perda, a magnanimidade do amor. Aquele livro me ensinou a pensar, a pensar para melhor viver.

Marco Aurélio também conheceu Platão, e certamente leu o Fédon, mas foi no estoicismo que achou a base definitiva para ancorar sua alma. Essa corrente filosófica surgiu em Atenas (Grécia), já após Platão e Aristóteles, quando por volta do ano 301 a.C. um estrangeiro de origem fenícia chegou a cidade e passou a divulgar sua doutrina e atrair discípulos. Seu nome era Zenão de Cítio.

Ao contrário de muitos filósofos da época, Zenão preferia realizar suas palestras em locais públicos, sendo o seu ponto favorito uma espécie de “pórtico” (stoa, em grego) da cidade. Por conta da palavra stoa, a nova doutrina veio a ser conhecida como estoicismo. Zenão teve alguns discípulos que vieram a se tornar relativamente famosos, mas do ponto de vista histórico existiram três estoicos tardios, nascidos séculos após Zenão, que foram muito mais importantes que ele próprio: Sêneca, Epicteto e o próprio Marco Aurélio.

Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.), a exemplo de Marco Aurélio, conseguiu ser bem sucedido na filosofia e na política, tendo alcançado o cargo de senador romano. Foi Epicteto (60 – 100 d.C.), entretanto, o grande exemplo seguido pelo imperador filósofo. Ao contrário dos outros dois expoentes do estoicismo, Epicteto teve origem humilde e foi escravo por boa parte da vida; mesmo assim tal fato não o impediu de ter sido um dos pensadores mais originais da história da filosofia, ao ponto da própria obra de Marco Aurélio ser mais uma espécie de comentário alongado de Epicteto do que algo propriamente original.

A própria essência do estoicismo foi de tal forma resumida no início do Manual de Epicteto, que poderíamos dizer que todo o restante pode ser desenrolado, como um fio, desta reflexão inicial:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Enquanto Marco Aurélio impedia que invasões bárbaras devastassem o Império Romano a partir do norte, no restante dele o povo desfrutava de uma vida boa e pacífica, ao menos para os padrões da época. Foi com a morte do imperador que o Império iniciou a sua decadência, e jamais voltou a ser o que era.

Penso que tal ideia sirva como uma bela metáfora para o que se passa em nossa própria mente. Precisamos defendê-la dos maus pensamentos, que insistem em romper suas fronteiras. Precisamos estar a postos, em todos os momentos, para que saibamos o que é de fato nosso pensamento, e o que é influência externa; o que é de fato a nossa vontade genuína, a nossa essência, e o que é mera sedução de ideias estrangeiras; em suma: o que depende de nós, e o que não deveria nos afligir, pois está além da nossa decisão.

Marco Aurélio passou anos tendo de defender o Império da crise. Nós talvez tenhamos que nos aquartelar em casa somente por alguns meses. Nenhum de nós talvez tenha a resiliência do imperador, mas o que importa nesse tempo de crise é que saibamos que é sim possível olhar para dentro e reconhecer enfim quem nós somos de fato, isolados do mundo, perto da essência. Para tal a filosofia pode ser de grande ajuda.

DIA 1
Hoje resolvi estabelecer uma quarentena entre eu e o mundo. Que ela seja o mais duradoura possível, e que de agora em diante eu possa reconhecer o meu próprio pensamento.

Para que eu possa expressar no mundo quem eu realmente sou, e não quem eles gostariam que eu fosse. Para que minha fortaleza e meu templo estejam sempre aqui comigo, e não mais nalgum lugar lá fora. Para que eu chore, mas que sejam genuinamente as minhas lágrimas. Para que eu sorria, mas que seja por um sentimento de alegria verdadeira.

Daqui em diante, passo a passo, tentarei ser o imperador de mim mesmo. E o mundo continuará sendo o que tiver de ser...


» Na sequência, o Apocalipse.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estátua de Marco Aurélio); [ao longo] Maxim Duzij/unsplash

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31.8.19

Lançamento: Meditações de Marco Aurélio

As Edições Textos para Reflexão retornam a filosofia com a obra de Marco Aurélio, o imperador romano que mais se aproximou do ideal platônico de um “rei-filósofo”.

Meditações é um dos marcos do estoicismo e da história da filosofia ocidental. A tradução (a partir de versões inglesas) é de Rafael Arrais, que também já traduziu o Manual de Epicteto e diversas obras poéticas e espiritualistas da humanidade.

Já disponível em ebook e versão impressa:

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Abaixo, segue o Prefácio da obra (por Rafael Arrais):


Em sua famosa obra, A República, Platão defende que o Estado ideal deveria ser governado por uma espécie de “rei-filósofo”. No entanto, mesmo na época o pensador grego sabia que se tratava de algo muito difícil de vir a acontecer:

“Se nunca aconteceu, nos séculos passados, que um filósofo fosse obrigado a se encarregar do governo de um Estado [...], se algum dia realmente vier a acontecer, poderemos então afirmar que existe uma República semelhante a esta que imaginamos, quando a Musa Filosófica se tornar senhora de uma cidade.” (A República, Livro VI)

O próprio Platão, convidado pelo governante de Siracusa, tentou implantar o seu sistema de governo idealizado no “mundo real”, mas falhou miseravelmente. Ora, se nem mesmo quem imaginou os reis-filósofos encontrou um, diríamos que alguém assim nunca existiu, certo?
Bem, se houve algum homem que se aproximou dos ideais platônicos, e conseguiu ser bem sucedido tanto na condução do Estado quanto no caminho da filosofia, este homem foi Marco Aurélio, imperador de Roma.
Marco Aurélio foi o último dos cinco imperadores que governaram o Império Romano num período conhecido como Pax Romana (Paz Romana), que durou até a sua morte, em 180 d.C. Curiosamente, como ainda veremos, a última década de sua vida foi quase toda dedicada a defender o Império de invasores bárbaros – havia paz dentro do Império, mas não em suas fronteiras.
Nascido em 121 d.C., devido a morte prematura do pai ele foi criado como filho adotivo do bom imperador Antonino Pio, também seu tio, a quem sucedeu no governo em 161 d.C. Devido a haver sido educado pelos melhores mentores e sábios de sua época, Marco Aurélio conheceu a fundo a filosofia grega, e veio a se apaixonar pelo estoicismo.
Esta corrente filosófica surgiu em Atenas já após Platão e Aristóteles, quando por volta do ano 301 a.C. um estrangeiro de origem fenícia chegou a cidade e passou a divulgar sua doutrina e atrair discípulos. Seu nome era Zenão de Cítio.
Ao contrário de muitos filósofos da época, Zenão preferia realizar suas palestras em locais públicos, sendo o seu ponto favorito uma espécie de “pórtico” (stoa, em grego) da cidade. Por conta da palavra stoa, a nova doutrina veio a ser conhecida como estoicismo.
Zenão teve alguns discípulos que vieram a se tornar relativamente famosos, mas do ponto de vista histórico existiram três estoicos tardios, nascidos séculos após Zenão, que foram muito mais importantes que ele próprio: Sêneca, Epicteto e o próprio Marco Aurélio.
Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.), a exemplo de Marco Aurélio, conseguiu ser bem sucedido na filosofia e na política, tendo alcançado o cargo de senador romano. Foi Epicteto (60 d.C. – 100 d.C.), entretanto, o grande exemplo seguido pelo imperador filósofo. Ao contrário dos outros dois expoentes do estoicismo, Epicteto teve origem humilde e foi escravo por boa parte da vida; mesmo assim tal fato não o impediu de ter sido um dos pensadores mais originais da história da filosofia, ao ponto da própria obra de Marco Aurélio ser mais uma espécie de comentário alongado de Epicteto do que algo propriamente original.
A própria essência do estoicismo foi de tal forma resumida no início do Manual de Epicteto, que poderíamos dizer que todo o restante pode ser desenrolado, como um fio, desta reflexão inicial:

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Assim, um estoico focava a sua atenção não propriamente nos eventos do mundo, mas na sua interpretação, na sua opinião acerca de tais eventos. Ou, como repetia Marco Aurélio, “tudo é opinião”.
No entanto, sem dúvida seria bem mais simples se dedicar à filosofia estoica e à reflexão acerca da própria opinião no espaço reservado de uma escola filosófica, numa casa de campo afastada das grandes cidades, quiçá simplesmente viajando a turismo pelo mundo. Todavia, nada disso foi possível ao imperador Marco Aurélio, que tinha literalmente o maior império de seu tempo dependendo dos seus cuidados. O fato de ele ter sido bem sucedido em seu caminho filosófico, mesmo diante de tantas responsabilidades e atribulações, faz dele quase que um exemplo de homem divino, embora ele próprio pouco se importasse com a fama.
Aliás, Marco Aurélio jamais desejou publicar obra alguma. As suas Meditações, que tinham a si mesmo como destinatário, eram nada mais que diários pessoais, escritos sabe-se lá a qual custo em meio ao seu governo. De fato, ele passou os últimos dez anos de sua vida residindo longe do conforto de Roma, defendendo a fronteira norte do Império dos ataques de povos bárbaros, como os Quados e, principalmente, os Marcomanos. E ao que tudo indica foi precisamente nesses anos, quem sabe para ajudar a si mesmo a ser resiliente a guerra, quem sabe por puro amor a filosofia, que Marco Aurélio escreveu e presenteou a história da filosofia com as Meditações.
Coube a Cássio Dião, um historiador da época, relatar o esforço descomunal do imperador em não deixar a chama filosófica se apagar, mesmo em meio aos dias mais sombrios:

“Marco não encontrou a boa sorte que merecia, pois ele não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias ele conseguiu sobreviver e preservar o Império.”

Assim, na sequência ficamos com as reflexões de um dos maiores governantes e filósofos que já passou pelo mundo, que embora tenham ficado conhecidas como as Meditações de Marco Aurélio, na realidade foram intituladas pelo próprio autor como Pensamentos para mim mesmo...


O tradutor.


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16.7.19

Traduzindo o Imperador

Vocês devem ter reparado que faz algum tempo que não temos um novo lançamento nas Edições Textos para Reflexão. Isto porque faz alguns meses que eu estou me dedicando quase que exclusivamente à tradução de Meditações de Marco Aurélio, o imperador de Roma (a partir da versão inglesa de George Long).

Além de ter sido o último imperador da chamada Pax Romana, um longo período de relativa paz e progresso no Império Romano, Marco Aurélio é um dos expoentes do estoicismo, uma vertente filosófica originária na Grécia no século 3 a.C. que exerceu profunda influência na ética cristã. Assim, se trata quem sabe do homem que mais se aproximou do ideal de “rei-filósofo” cunhado na República de Platão.

Estou com aproximadamente 2/3 da tradução concluída, espero publicar na Amazon (em e-book e impresso!) em no máximo dois meses... Abaixo, trago alguns trechos retirados dos primeiros livros (ou capítulos) da minha tradução, e também a capa:


Livro II, trecho I

Inicie a manhã dizendo para si mesmo: hoje devo cruzar meu caminho com os intrometidos, os ingratos, os arrogantes, os traiçoeiros, os invejosos e os mal-humorados. Tudo isso lhes afeta pelo fato de serem ignorantes do bem e do mal. Eu, porém, que contemplei a natureza do bem, e vi a beleza, e que igualmente observei o mal, e percebi o seu horror, e que ainda refleti sobre a natureza daqueles que incorrem no erro, e descobri que eles também me são aparentados, não somente pelo sangue ou pelo nascimento, mas por participarem da mesma inteligência e da mesma origem divina, já não posso temer que me causem dano algum.
Pois que ninguém [além de mim] pode reformar o meu próprio mal, tampouco eu poderia me zangar com um parente, muito menos odiá-lo. Pois que nós fomos criados para a cooperação mútua, como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes superiores e inferiores.
Assim, agir contra o próximo é algo contrário à natureza, e deve ser evitado.


Livro II, trecho XII

Quão rápido todas as coisas desvanecem: em todo o universo, os próprios corpos, e no tempo, a lembrança deles. O que será a natureza de todas as coisas sensíveis, particularmente aquelas que nos atraem pela isca do prazer, ou nos aterrorizam pela dor, ou ainda aquelas cujo brilho passageiro nos desatina?
Quão sem valor, desprezíveis, sórdidas, perecíveis e mortas: cabe a nossa faculdade intelectual tomar consciência disto. E igualmente observar a quem as opiniões e os buchichos conferem fama; e refletir acerca do que é a morte, e o fato de, se um homem a encara em si mesmo, e por um poder de abstração reflexiva, a separa de todos os fantasmas imaginários que lhe associamos, ele então enfim perceberá que ela é nada mais do que uma operação da natureza; e se alguém tem medo de uma operação natural, é infantil. No entanto, a morte não é apenas uma operação da natureza, mas também algo que conduz ao seu cumprimento. [...]


Livro IV, trecho XLIX

Seja como às rochas contra as quais as ondas se quebram incessantemente, mantenha-se firme e domestica a fúria das águas ao seu redor.
Estou infeliz porque este infortúnio me ocorreu? Pelo contrário, estou satisfeito! E minha satisfação decorre do fato de que, apesar de tal infortúnio haver se sucedido em minha vida, eu continuo livre do sofrimento, nem revoltado com o dia de hoje, nem temeroso quanto ao futuro.
Pois que tal infortúnio poderia ocorrer na vida de qualquer homem, mas nem todos os homens se conservariam livres do sofrimento ante tal evento. Por que então este evento seria um infortúnio, e aquele outro, uma sorte?
E como você julgaria qualquer evento um infortúnio, se ele não desvia um homem da sua natureza? E acaso algo lhe parece como um desvio da natureza de um homem, se não é contrário à vontade da própria natureza? Ora, você conhece a vontade da natureza – terá, então, isto que se passou o impedido de continuar sendo justo, magnânimo, moderado, prudente, protegido contra a irreflexão e a falsidade? Terá roubado a sua modéstia, a sua liberdade, e tudo o mais que constitui o caráter essencial da sua natureza?
Assim sendo, lembre-se de aplicar tal princípio em cada ocasião que possa lhe causar aborrecimento: tal evento não é em si mesmo um infortúnio, nem motivo de infelicidade, mas poder suportá-lo com coragem é ao mesmo tempo uma sorte e um motivo de satisfação.


Livro V, trecho XXVII

Viva junto aos deuses. Vive próximo aos deuses aquele que lhes mostra diuturnamente que a sua alma se encontra satisfeita com a sua própria sorte, realizando tudo o que determina o seu daemon, que Zeus conferiu a cada homem como um guardião e um guia, uma parte da sua divindade. E ele se reflete em nossa razão e em nossa sabedoria.

Meditações de Marco Aurélio; tradução de Rafael Arrais
(em breve, na Amazon e outras lojas...)


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Crédito da imagem [no topo]: Google Image Search

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23.7.09

Reflexões do Imperador

Texto de Marco Aurélio (imperador romano) em "Meditações" (Editora Martins Claret, tradução de Alex Marins).

O tempo da vida humana: um ponto. Sua substância: um fluxo. Suas sensações: trevas. Todo o seu corpo: corrupção. Sua alma: um remoinho. Sua sorte: um enigma. Seu renome: uma cega opinião. Resumindo, tudo, em sua matéria: precariedade. Em seu espírito: sonho e fumaça. Sua existência: uma guerra, a etapa de uma viagem. Sua glória póstuma: esquecimento. Que nos pode então servir de guia? A filosofia, apenas isso.

A filosofia consiste em fazer com que o gênio interior de cada um seja invulnerável aos ultrajes, impassível, superior aos prazeres e às dores. Que não se mova ao acaso, por falsidade ou maldade. Que não cogite do que fazem ou deixam de fazer os outros. Que aceite as vicissitudes e o destino como provenientes da mesma origem. Acima de tudo, que aguarde a morte com serenidade, nela não vendo mais do que a dissolução dos elementos constitutivos de todos os seres. Pois, se para os elementos nada há de horrível em se transformarem incessantemente uns nos outros, por que temer a transformação universal e a universal dissolução? Como nada é mal segundo a natureza, acredite que a natureza assim exige.

[livro II - XVII]

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A época antiga nos relegou centenas de reis e imperadores que, por mais que tenham conquistado diversas regiões do mundo, hoje são praticamente esquecidos. Aqui está um imperador que conquistou (ou pretendeu e se dedicou a conquistar) sua própria alma; Hoje, poucos se importam com quantas regiões Marco Aurélio conquistou, seu legado é algo muito superior as regiões e riquezas que se perderam no tempo.

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Crédito da foto: Cebete

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