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11.5.20

Lançamento: Karanblade Livro 1: O Urso

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar um livro do seu editor, Rafael Arrais.

Karanblade é a lendária campanha para Dungeons & Dragons (RPG de fantasia medieval) que surgiu no final dos anos 1990 e deixou muita saudade. Hoje ela retorna através de uma série de literatura fantástica ambientada em seu mundo, a Terra Próxima. O primeiro livro se chama O Urso.

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Abaixo, segue uma amostra com o primeiro capítulo da obra:


1.


Ao sul da Terra Próxima, além de cidade murada de Bak e do reino dos anões, próximo às últimas árvores que se erguem e formam a gigantesca Floresta do Sul e, finalmente, a oeste da não menos gigantesca cordilheira conhecida por Montanhas Rotun, existe uma terra de planícies ensolaradas, vento fresco, e também de caças e caçadores. Os bárbaros que sempre viveram próximo às montanhas, por isso também chamados de rotunianos, há muito elegeram tais planícies como terras de caça e conflito. Tribos vindas tanto do sopé das montanhas quanto do interior da floresta procuram pelos bisões e javalis, enquanto tentam se desviar de outras feras que não podem caçar, como os leões e gatopardos; elas também precisam lidar com as tribos rivais das Ilhas da Chuva, sempre dispostas a invadir o continente e ditar suas leis a ferro e fogo, ou com os detestáveis orcs, que nunca deveriam ter saído de sua casa, nos fundos túneis do Grande Subterrâneo, muito ao norte daquela terra.
Foi exatamente ali, no Caminho dos Caçadores, que um jovem rotuniano lutou sua primeira e decisiva batalha. Ali que o inexperiente e destemido Oldar se tornou o grande guerreiro da Floresta, passando a ser conhecido como Oldalin, o Grande Urso.

Tudo aconteceu numa manhã de primavera, quando os bárbaros da tribo de Terralta, chefiados por Gunther, o de Longa Visão, se aproximavam de um pequeno vale onde sabiam haver muitos bisões pastando com o alvorecer. Era a primeira vez que Oldar, o jovial e atlético filho dos bárbaros de Terralta, participava de uma caçada tão longe de sua tribo. Antes se aventurara com coelhos, pequenos javalis e coiotes, mas agora teria de provar ser um bom caçador, no alto de seus quinze anos de vida.
A equipe era formada por dois batedores, que espreitavam sorrateiramente e enviavam assobios peculiares para Gunther e os outros oito caçadores, dentre eles Oldar. Os batedores armavam-se apenas de facas de aço enferrujado, já que a função de abater os animais era dos caçadores, que se muniam de lanças e arcos, além dos famosos machados bárbaros. Apenas Gunther, o líder, portava uma cota de malha, coisa rara entre os bárbaros daquela região.
Aproximavam-se da última colina que escondia o vale, e Gunther ordenou: “Allin, Uldom, vão pela descida à direita. Os batedores vão com os outros pela esquerda e depois à frente em direção à caça. Eu fico aqui com o jovem Oldar, ele verá como se caça como adulto, e nunca irá esquecer!”.
De fato, Oldar sentiu um misto de alívio e vergonha por permanecer com Gunther longe da ação, já que carregava consigo a estranha sensação de que realmente nunca iria esquecer aquele dia.

Assim foi feito, e após alguns minutos ouviram-se os assobios dos batedores; então, os dois que desceram pela direita correram com as lanças em riste, bradando as canções de caça e afugentando uma parte da extensa manada de bisões para o lado dos cinco guerreiros que se escondiam detrás de algumas rochas. Oldar estava eufórico com a eficiência e coragem de seus irmãos. Puseram-se quase que no meio da passagem dos bisões, matando dois que vinham na frente com suas lanças fincadas ao solo, como uma murada de espetos mortais. Os outros três atacaram esses com suas lanças, enquanto tentavam não ser alvo do estouro da manada.
Gunther gesticulava para que os batedores voltassem pelo caminho à direita, longe dos bisões que fugiam em marcha rápida. Não era necessária mais nenhuma ordem, haviam abatido dois grandes bisões em poucos minutos, mais do que suficiente para um desfecho de sucesso para aquele dia de caça. Infelizmente, no entanto, em poucos segundos todos iriam deixar de ser caçadores e passar a ser a caça.

O primeiro grito veio da passagem à direita, por onde desceram Allin e Uldom, e voltavam os batedores. Gunther sentia o cheiro do medo, sabia que seus irmãos estavam em grande perigo. Prontamente retirou seu grande machado das costas e gritou para um agora assustado Oldar: “Fique aqui garoto! Se eu não voltar, corra de volta para a aldeia e avise ao curandeiro que Gunther e seus guerreiros tombaram ante a maitranda!”.
Maitranda! Oldar sempre detestou essa palavra, que significava muitas coisas em rotuniano: revolta da natureza, desejo de fazer o mal, magia negra... Oldar sabia que Gunther podia sentir tais forças, mas nunca imaginou que seria alvo delas logo em sua primeira caçada de adulto!
Gritos seguiram a mais gritos, e eles eram cada vez mais assustadores e desesperados, tirando os estranhos grunhidos que ora surgiam entre eles. Oldar sabia que deveria esperar ou, no mínimo, fugir. Era apenas um jovem bárbaro pego no meio de algo que não estava preparado para lidar... Ora, mas é exatamente nessa hora que surgem os heróis: aqueles que fazem o impensável em prol de seus irmãos. Que arriscam a vida se preciso, para vencer o inimigo, mesmo que seja um inimigo tão assustador. Naquele dia, Oldar provou ser um deles: agarrou o cabo do machado de seu pai com força, fechou os olhos brevemente e, quando os abriu, percebeu que não era mais necessário correr.

Seja o que for que estava a sua frente, era algo que para o jovem bárbaro significava apenas a morte. Não seria possível fugir daquela criatura enorme, semelhante a um grande urso negro da Floresta do Sul, mas com um estranho brilho vermelho no olhar, enormes buracos de lança e cortes de machado no corpo, suficientes para o fim de dez ursos daquele porte, e carregando o corpo sem vida de Gunther entre as mandíbulas. No que se seguiu, a criatura apenas cuspiu aquele que fora sempre um modelo de guerreiro para Oldar, e moveu-se com inigualável velocidade ao encontro do jovem. Seus grunhidos eram ensurdecedores.
Oldar nunca iria se lembrar como, mas o fato é que no primeiro avanço da bestial criatura, conseguiu não apenas se manter lúcido, como desviar com maestria de sua bocarra mortal, assim como de suas garras dianteiras, que insistiam em tentar lhe fatiar como um coelho indefeso. Oldar matara coelhos, tantos que aprendeu que um coelho jamais teria chances contra um bárbaro... Ele era esse coelho agora, o que poderia fazer?
Nas cenas que se sucederam, tentou em vão acertar a pata traseira do urso negro, mas ele se movia quase como um felino, tamanha a velocidade e agilidade. Percebeu que ganhara um extenso corte nas costas, e rolou pelo chão para escapar de um abraço mortal... Estava próximo do fim. A criatura o agarrou com as patas dianteiras, e preparava o bote final. Mas o destino não quis que a maitranda triunfasse nesse dia: num último esforço, Oldar conseguiu desprender seu braço direito da pata colossal e colocou seu machado entre sua face e a enorme bocarra... O urso engoliu aço e sangue; era o derradeiro suspiro da criatura, que tombou em cima de seu algoz.

Para o jovem Oldar, o mundo ficara escuro...


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19.10.19

Lançamento: O Chamado de Cthulhu

As Edições Textos para Reflexão publicam o conto mais conhecido de H. P. Lovecraft, o escritor que revolucionou o Horror Fantástico. Traduzido do inglês original por Rafael Arrais.

Na cosmologia de Lovecraft, os chamados Mitos de Cthulhu, o ser humano é uma coisa insignificante, que mal compreende as Coisas imensas e antiquíssimas que habitam o seu mundo, como deuses anciãos e raças multimilenares. Em O Chamado de Cthulhu, temos uma apavorante introdução a este universo.

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Abaixo, segue uma amostra com o trecho inicial do conto:


“De tais poderes grandiosos ou entidades é concebível que possa haver restado um vestígio [...] um vestígio de uma era regressa onde [...] a consciência era manifestada, quem sabe, em contornos e formas há muito submersos diante da maré do avanço da humanidade [...] formas das quais tão somente a poesia e as lendas puderam guardar alguma memória fugidia, e então os chamaram de deuses, monstros, criaturas míticas de todos os tipos e espécies [...].”

(por Algernon Blackwood – isto foi encontrado entre os papéis do já falecido Francis Wayland Thurston, em Boston)


A coisa mais misericordiosa neste mundo, penso eu, é a incapacidade da mente humana de correlacionar tudo o que nele existe. Nós vivemos numa pacata ilha de ignorância em meio a mares escuros vastos de infinito, e não era a intenção que velejássemos muito longe. As ciências, cada uma vagando em sua própria direção, até hoje pouco mal nos causaram; no entanto, algum dia a junção de conhecimentos desconexos nos abrirá os olhos para visões tão terríveis da realidade, e da nossa posição assustadora em seu meio, que nós deveremos ou enlouquecer diante da revelação ou fugir da sua luminosidade fatal, rumo à paz e a segurança de uma nova idade das trevas.
Os teosofistas têm especulado acerca da grandeza abissal do ciclo cósmico no qual o nosso mundo e a raça humana não passam de incidentes passageiros. Eles vêm aludindo a estranhos vestígios usando termos que gelariam o sangue dos incautos, não fossem mascarados por um tolo otimismo. Mas não foi deles que surgiu o breve vislumbre de éons proibidos que me arrepia quando penso no assunto, e me enlouquece quando aparece em meus sonhos.
Tal vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, surgiu de uma conexão acidental de duas coisas separadas – neste caso, um recorte de jornal antigo e as anotações de um professor falecido. Eu espero que ninguém mais consiga chegar a esta conexão; se eu sobreviver, é certo que jamais irei revelar propositadamente elo algum desta corrente hedionda. Eu penso que o professor também tinha a intenção de manter silêncio acerca da parte que sabia, e que teria destruído as suas anotações caso não fosse surpreendido por uma morte tão súbita.
O meu conhecimento do caso começou no inverno de 1926-27, com a morte do meu tio-avô George Gammell Angell, professor emérito de línguas semíticas na Universidade Brown, em Providence, Rhode Island. O professor Angell era amplamente reconhecido como uma autoridade em inscrições arcaicas, e era frequentemente consultado por diretores de museus importantes acerca do tema; assim sendo, o seu falecimento aos noventa e dois anos deve ser lembrado por muitos.
Localmente, no entanto, tal interesse foi intensificado pela causa da morte ser um tanto obscura. O professor sucumbiu enquanto retornava da barca de Newport; segundo testemunhas, foi uma queda súbita, após um encontrão com um negro com aparência de marujo que havia surgido de um dos pátios escuros e sinistros que podiam ser encontrados na encosta íngreme que servia de atalho da praia até a sua casa, na Williams Street.
Os médicos foram incapazes de encontrar qualquer doença visível, porém chegaram à conclusão, após debates cheios de perplexidade, que alguma lesão obscura no coração, induzida pela subida de um morro tão íngreme para um homem de idade avançada, foi a responsável pela morte. Na época eu não vi razão para divergir desta conclusão, mas ultimamente eu tenho me inclinado a questioná-la – e até mais do que isso.


(continua no ebook...)


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8.5.19

Lançamento: Alice no País das Maravilhas

As Edições Textos para Reflexão trazem o seu livro digital mais elaborado (com mais de 50 imagens) para ilustrar o clássico que refundou a literatura infantil e juvenil – Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, com tradução de Monteiro Lobato e arte de John Tenniel e Arthur Rackham.

"Com este conto surreal e fantástico, muitas vezes sem sentido algum, noutras vezes carregado de sentido oculto e profundo, Carroll revolucionou para sempre a literatura."

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Abaixo, segue o Prefácio de Monteiro Lobato, tradutor da obra:


Muitos anos atrás um professor de matemática de Oxford, Lewis Carroll, muito amigo das crianças, fez um passeio de bote pelo rio Tâmisa com três menininhas. Para diverti-las, foi inventando uma história de que elas gostaram muito.
Chegando em casa teve a ideia de escrever essa história – e assim nasceu para a biblioteca infantil universal mais uma obra prima – Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas).
O livro ficou famoso entre os povos da língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se.
Hoje aparece em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carroll, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho de uma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês –, isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos.
O tradutor fez o que pôde, mas pede aos pequenos leitores que não julguem o original pelo arremedo. Vai de diferença a diferença das duas línguas e a diferença das duas mentalidades, a inglesa e a brasileira.
Há alguns anos o original manuscrito de Alice in Wonderland, do próprio punho do autor, apareceu num leilão de livros velhos em Londres. Vários pretendentes o disputaram, entre eles o British Museum, que havia destinado uma verba de 12.500 libras esterlinas para a sua aquisição. Essa verba foi insuficiente. Um americano apareceu e fez um lance maior, adquirindo o manuscrito pela quantia de 15.400 libras, ou 75.259 dólares, moeda do seu país. Qualquer coisa como mil e tantos contos, ao câmbio de hoje [Nota do Editor: há que se considerar que isso se deu nos anos 1930]. Isto mostra o alto grau de apreço no qual em certos países é tido o trabalho literário.
As crianças brasileiras vão ler a história de Alice por conta do pedido de Narizinho [a famosa personagem de Monteiro Lobato]. Tanto insistiu esta menina em vê-la em português (Narizinho ainda não sabe inglês), que não houve remédio; apesar de ser, como dissemos, uma obra intraduzível.

– “Serve assim mesmo” – disse ela ao ler a minha tradução – “Dá uma ideia, embora muito pálida, como diz Emília”...


Monteiro Lobato, em torno de 1931.


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2.1.15

Lançamento: O Pequeno Príncipe

As Edições Textos para Reflexão trazem em 2015 o seu livro digital mais elaborado, com mais de 40 ilustrações de tela cheia (ver galeria) e uma cuidadosa tradução de um dos maiores clássicos do século XX – O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry:

"Saint-Exupéry escreveu e ilustrou o nosso mundo interior. Ao saber deste pequeno milagre ocorrido em meio a um mundo em plena guerra, temos a esperança renovada de que lá dentro, em nosso planetinha mais íntimo, ainda brinca e ri com doçura a nossa criança mais frágil e preciosa... É difícil não se deixar corromper pelo peso do mundo das pessoas grandes. Mas, sempre que se sentir oprimido por ele, saiba que ainda terá este livrinho a sua inteira disposição."

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Abaixo, segue talvez o principal capítulo do livro, onde o viajante pequenino encontra a raposa (clique nas ilustrações para vê-las em tamanho maior):


E foi aí que apareceu a raposa...

“Bom dia”, disse a raposa.

“Bom dia”, respondeu educadamente o pequeno príncipe, apesar de que não a viu em canto nenhum quando se virou.

“Estou aqui, ao lado da macieira.”

“Quem é você? Nossa, você é muito bonita.”

“Eu sou uma raposa”, disse a raposa.

“Venha brincar comigo”, convidou o pequeno príncipe. “Estou um tanto infeliz...”

“Eu não posso brincar contigo, ainda não fui cativada.”

“Ah! Me desculpe.”, disse o pequeno príncipe.

Mas, após pensar um tantinho, perguntou:

“O que isto significa, ‘cativar’?”

“Você não é daqui”, disse a raposa. “O que é que veio buscar nessas redondezas?”

“Eu busco por pessoas”, disse o pequeno príncipe. “O que significa ‘cativar’?”

“As pessoas têm armas, e nos caçam. É algo muito perturbador. Elas também costumam criar galinhas. Bem, estes são os seus únicos interesses... Você procura por galinhas?”

“Não”, disse o pequeno príncipe, “eu procuro por amigos. O que significa ‘cativar’?”

“É algo muito esquecido hoje em dia”, disse a raposa. “Significa estabelecer laços.”

“Estabelecer laços?”

“Isso. Para mim, por exemplo, você ainda não passa de um garotinho, igual a cem mil outros garotinhos. E eu não tenho necessidade alguma de estar em sua presença, assim como você não tem necessidade de estar na minha.
Afinal, para você eu não passo de uma raposa, igualzinha a cem mil outras raposas que existem por aí... Se você me cativar, no entanto, nós passaremos a ter a necessidade de estarmos juntos. Para mim, você será um garotinho único em todo o mundo. E para você, eu serei uma raposa como nenhuma outra na Terra...”

“Estou começando a entender”, disse o pequeno príncipe. “Há uma flor... Eu acho que ela me cativou...”

“É possível. Aqui na Terra vê-se de tudo.”

“Oh, mas não foi na Terra!”

A raposa ficou intrigada, e um tanto curiosa:

“Foi noutro planeta?”

“Sim.”

“E há caçadores nesse planeta?”

“Não.”

“Ah, que interessante! E há galinhas por lá?”

“Não.”

“Nada é perfeito”, suspirou a raposa...

Mas logo ela retomou a conversa:

“Minha vida é um tanto monótona. Eu caço as galinhas, e os homens me caçam. Todas as galinhas são iguaizinhas, assim como todas as pessoas. Dessa forma, eu fico um pouco entediada...
Mas se você me cativar, será como se o sol viesse para iluminar a minha vida. Eu saberei do som de passos que serão diferentes do som de quaisquer outros passos.
Outros passos me fazem correr de volta para minha toca debaixo da terra, mas os seus me chamarão, como música, para sair do meu esconderijo.
E olhe: vê os campos de trigo lá no sopé da colina? Bem, eu não como trigo, então os campos de trigo nada têm a me dizer, e isto é triste... Mas você, você tem cabelos dourados. Pense como será maravilhoso quando houver me cativado!
O trigo, que também é dourado, me trará lembranças de você, e eu passarei a amar ficar contemplando os campos de trigo, e ouvindo o barulho do vento passando por eles...”

A raposa ficou olhando para o pequeno príncipe por um bom tempo, e depois lhe pediu:

“Por favor, me cative!”

“Eu gostaria muito”, respondeu o pequeno príncipe. “Mas eu não tenho tanto tempo. Eu tenho amigos por descobrir, e muitas coisas ainda por compreender.”

“Alguém só consegue compreender aquilo que cativa. As pessoas já não têm tempo para compreender coisa alguma. Elas compram tudo pronto nos seus mercados, mas não há loja alguma onde a amizade possa ser comprada, e assim as pessoas não têm mais amigos.
Se você realmente quer um amigo, me cative...”

“O que eu preciso fazer para lhe cativar?”, perguntou o pequeno príncipe.

“Bem, você precisa ser muito paciente. Primeiro, você vai se sentar a uma certa distância de mim – desse jeito – na grama. Então eu olharei para você de canto de olho, e você não deverá dizer nada. Palavras são uma fonte de mal entendidos. A cada dia, no entanto, você irá se sentar um pouquinho mais perto de mim...”

No outro dia o pequeno príncipe retornou ao mesmo local...

“Teria sido melhor que viesse no mesmo horário”, disse a raposa. “Se, por exemplo, você vier às quatro da tarde, então desde as três da tarde eu já começarei a ficar feliz. Daí eu ficarei cada vez mais feliz na medida em que as horas forem passando. Às quatro horas, eu já estarei inquieta e preocupada, mas lhe mostrarei o quão feliz fiquei em lhe ver!
Mas se você vier a qualquer hora, eu nunca saberei em qual hora meu coração deverá se preparar para recebê-lo... É preciso que obedeçamos a certos ritos...”

“O que é um rito?”, perguntou o pequeno príncipe.

“São coisas que também foram esquecidas nos dias de hoje”, disse a raposa. “Os ritos são o que faz um dia ser diferente do outro, e uma hora diferente da outra. Há, por exemplo, um rito entre os homens que me caçam: toda quinta-feira eles vão dançar com as garotas do vilarejo. Daí a quinta-feira é um dia maravilhoso para mim!
Nesse dia eu posso passear até bem longe, posso ir até as vinhas... Mas, se os caçadores fossem dançar a qualquer dia, então todo dia seria para mim como qualquer outro, e eu não teria a quinta-feira para descansar.”

Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa.
E, quando a hora da sua despedida se aproximou, a raposa lhe disse:

“Ah, eu vou chorar.”

“Mas isto é sua culpa”, disse o pequeno príncipe. “Eu nunca lhe quis nenhum mal; mas você insistiu para que eu a cativasse...”

“Sim, é verdade”, disse a raposa.

“Mas agora você vai chorar!”

“Sim, é verdade.”

“Então isto não lhe trouxe nada de bom! Você não sai ganhando em nada...”

“Ganho sim”, disse a raposa, “por causa da cor dos campos de trigo.”

E então ela ainda acrescentou:

“Vá observar novamente as rosas. Agora você deverá compreender que a sua rosa é única em todo o mundo. Daí, venha me dizer adeus, e eu lhe darei de presente um segredo.”

O pequeno príncipe se foi para ver as rosas novamente:

“Vocês não são nem um pouco parecidas com a minha rosa”, ele as disse. “No momento vocês ainda são como nada. Ninguém as cativou, e vocês ainda não cativaram ninguém. Vocês são como a minha raposa quando a vi pela primeira vez. Ela era somente uma raposa como cem mil outras raposas. Mas hoje nós somos amigos, e ela é para mim uma raposa única em todo o mundo.”

E as rosas ficaram muito desapontadas...

“Vocês são belas, mas são vazias”, ele prosseguiu. “Ninguém iria morrer por vocês. De fato, um transeunte qualquer poderia pensar que a minha rosa se parece muito com vocês... Mas ela, apenas ela, é mais importante do que todas vocês, pois foi somente ela a rosa que eu reguei; foi somente ela a rosa que eu coloquei sob a redoma de vidro; foi somente ela que eu protegi com o pára-vento; foi somente por ela que eu matei as larvas (exceto as duas ou três que salvei para que se tornassem borboletas).
E foi somente ela que eu tive paciência de escutar, enquanto se queixava ou se gabava, ou mesmo quando não dizia absolutamente nada. Pois ela é a minha rosa.”

E assim, ele retornou para se despedir da raposa:

“Adeus”, ele disse.

“Adeus”, disse a raposa. “E agora, como prometido, aqui vai o meu segredo. De fato, é um segredo bem simples: é somente com o coração que podemos ver corretamente; o essencial é invisível aos olhos.”

“O essencial é invisível aos olhos”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“Foi o tempo que perdeu com a sua rosa o que fez dela uma rosa tão importante.”

“Foi o tempo que perdi com a minha rosa...”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“As pessoas esqueceram esta verdade”, disse a raposa. “Mas você não deve esquecer. Você se torna eternamente responsável pelo que cativou. Você é responsável por sua rosa...”

“Eu sou responsável por minha rosa”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.


(tradução de Rafael Arrais)


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25.4.14

O lado oculto dos games

Oi pessoal, eu fui mais uma vez convidado para o Podcast Conversa entre Adeptus, desta vez para falar de games e ocultismo! Segue abaixo a descrição do episódio:

Games? Ocultismo? Estamos pirados ou o quê? Bem, como diria Shakespeare: “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha vossa vã filosofia”. Entre piadas infames e insights perspicazes, o Viking, o Careca, o Macumbeiro, o Materializado e 2 ilustríssimos convidados já tão bem conceituados na casa: o Filósofo e o Cigano, Raph Arrais e Bruno Cobbi, ousamos um pouco e exploramos esse imenso e riquíssimo universo cultural e simbólico que são os Jogos Eletrônicos à partir da visão profunda e iniciática do Ocultismo. Curioso? Então dê o start e finalize-a com, talvez, um pouco mais de xp e um bônus de nostalgia.

Clique no banner abaixo para abrir a página do episódio, onde poderá fazer download (em baixa, média ou alta qualidade) ou ouvir diretamente pelo site:

Conversa entre adeptus #32: O lado oculto dos games

***

Aproveitando, trago abaixo uma lista de posts do Textos para Reflexão que têm a ver com o tema do podcast:

» Rolando poliedros

» Imaginando dragões (a história do "Amigo de mago", citada no podcast)

» Quem chora pelos demônios? (da série Todas as guerras do mundo)

» A ilha errante de Azeroth (da série A idade do ser)

» Como sobreviver numa arena

» Sobre o que os mitos falam (texto de Joseph Campbell, citado no podcast)

» Os corvos de Wotan (série de artigos sobre mitologia)

» A grande aventura


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5.3.14

A grande aventura

Pé ante pé, por esta trilha de contos e histórias,
eu procurei por ti, ó andarilho das beiras de estradas,
sombra das tavernas, incitador de aventuras,
mas tudo o que pude ouvir foram seus passos
silenciosos, sempre próximos,
sempre ocultos...

Montei uma frota de balões,
contratei os melhores mestres baloeiros de todo o reino,
e juntos partimos a lhe buscar pelos céus.
Você, porém, estava sempre detrás das nuvens,
voando além do poente,
ou escondido, em silêncio, no ninho da Fênix.
Foi o guardião do portão da Cidadela dos Silfos quem disse,
“Desistam, ele não está no céu,
se estivesse, os pássaros já o teriam encontrado.”

Então juntei grandes mestres navegadores
e juntos construímos os barcos mais velozes de todo o oceano,
cujas velas eram ungidas com o óleo mágico
fabricado pelos alquimistas da Casa das Sereias.
Você, porém, estava sempre uma onda a nossa frente,
cortando as profundezas em sua carruagem de golfinhos,
ou escondido, meditando, na última torre do Grande Abismo.
Foi o velho Noé, da proa de sua grandiosa Arca, quem disse,
“Desistam, ele não está nem na superfície nem pelo fundo do mar,
se estivesse, os peixes já o teriam achado.”

Então reuni os maiores cientistas do mundo
e juntos projetamos uma grande nave espacial,
que era uma versão ainda mais moderna
daquela outra onde voou meu amigo Carl.
Você, porém, estava sempre além do próximo asteroide,
velejando pelo cosmos em seu barco sideral,
ou no escuro da noite eterna, perfeitamente imóvel,
fingindo ser uma estrela ou um vaga-lume.
Foi o comandante Kirk, em sua Enterprise, quem disse,
“O que diabos buscam pelo espaço?
Ora, se alguém como ele realmente existisse,
nós já teríamos catalogado em nossa rede.”

Pé ante pé, por esta trilha de contos e histórias,
eu procurei por ti...

Rodei por todos os mundos e todos os caminhos,
me aventurei por tenebrosas masmorras
e enfrentei o bafo de labaredas de centenas de dragões.
Foi somente após morrer no último jogo,
e passar toda a madrugada imaginando como seria
o meu próximo personagem,
que finalmente percebi:
Você não é, afinal, como a donzela em perigo,
aprisionada na Terrível Caverna do Grande Sono,
e nem mesmo como a espada encantada presa na rocha,
a espera de um nobre rei para empunhá-la;
você é mais do que todos os tesouros desta grande aventura,
você é a própria aventura,
o herói e o vilão,
e todas as histórias
e todos os contos
e todos os rolamentos de dados.


raph’14

***

Crédito da imagem: Larry Elmore

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20.9.13

Sobre a Fantasia

Texto por George R. R. Martin, originalmente pulicado em seu blog. Tradução de Bruno Cobbi.

A melhor fantasia é escrita no idioma dos sonhos. Está tão viva quanto os sonhos, é mais real que a realidade... Por apenas um instante... Aquele longo momento mágico antes de acordarmos.

A fantasia é de prata e escarlate, índigo e azul, de obsidiana com veios de ouro e lápis-lazúli. A realidade é compensado e plástico, feita em barro marrom e verde oliva.

Fantasia tem gosto de habaneros e mel, canela e cravo, carne vermelha rara e vinhos doces como o verão. A realidade é feijão e tofu, com gosto de cinzas no final. A realidade é os shoppings de Burbank, as chaminés de Cleveland, uma garagem em Newark. A fantasia é as torres de Minas Tirith, as pedras antigas de Gormenghast, os salões de Camelot. A fantasia voa nas asas de Ícaro, a realidade na Southwest Airlines. Por que nossos sonhos se tornam muito menores quando eles finalmente se tornam realidade?

Lemos fantasia para encontrar as cores novamente, eu acho. Para provar especiarias fortes e ouvir as canções que as sereias cantavam. Há algo velho e verdadeiro na fantasia que fala com algo profundo dentro de nós, com a criança que sonhava que um dia iria caçar nas florestas da noite, e festejar sob as colinas ocas, e encontrar um amor que dure para sempre em algum lugar ao sul de Oz e ao norte de Shangri-La.

Eles podem ficar com o paraíso deles se quiserem. Quando eu morrer, prefiro ir a Terra-Média.

***

Crédito da foto: Game of Thrones/HBO (Divulgação)

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