Pular para conteúdo
16.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 2)

« continuando da parte 1

No início do século XX um homem teve um sonho muito curioso, que de certa forma mudou a história da psicologia. Eis o seu relato em primeira mão [1]:

“Sonhei que estava em minha casa, aparentemente no primeiro andar, numa sala de estar muito confortável e agradável, mobiliada no estilo do século XVIII. Estava admirado por nunca ter estado naquela saleta antes, e começava a me perguntar como seria o andar térreo. Desci e cheguei a um cômodo bastante escuro, de paredes almofadadas e uma mobília do século XVI, ou talvez mais antiga ainda. Minha surpresa e curiosidade aumentaram. Queria conhecer toda a disposição da casa. Desci então ao porão, onde encontrei uma porta que abria para uma lance de degraus de pedra, levando a uma grande sala abobadada. O piso era de enormes lajes de pedra e as paredes pareciam muito antigas. Examinei a argamassa e verifiquei que estava misturada a pedaços de tijolos. Obviamente eram paredes de origem romana. Sentia-me cada vez mais agitado. Num canto vi uma laje com uma argola de ferro. Puxei a argola e encontrei outro lance de degraus estreitos que conduziam a uma gruta, uma espécie de sepultura pré-histórica, onde se encontravam duas caveiras, alguns ossos e cacos de cerâmica. Nesse momento acordei.”

Este homem era Carl Gustav Jung, e foi ele próprio quem decifrou seu sonho, associando-o ao desenrolar da própria vida ou, mais especificamente, ao desenvolvimento de sua mente, desde a infância. Jung cresceu numa casa que tinha duzentos anos, filho de pais protestantes (o pai era reverendo luterano), tendo estudado as filosofias de Kant e Schopenhauer na juventude. O grande acontecimento da época era o trabalho de Charles Darwin. Até ali, o jovem ainda vivia orientado pelos conceitos medievais de seus pais, para quem o mundo humano ainda era conduzido primordialmente pela providência divina. Logo aquela visão tornou-se para ele antiquada, e sua fé cristã perdeu preponderância ao se ver defrontada com as religiões orientais e a filosofia grega. Depois, eventualmente se interessou por paleontologia e, enquanto foi assistente em um instituto de pesquisas na área, ficou fascinado com fósseis de hominídeos ancestrais. Tudo isso estava descrito de alguma forma em seu sonho, e Jung viu tudo isso analisando-o desperto, mas optou por não falar sobre sua autoanálise a Sigmund Freud, de quem ainda era grande colaborador na época:

“Logo verifiquei que Freud procurava algum “desejo inconfessável” no meu sonho. Por isso sugeri que as caveiras poderiam referir-se a alguns membros da minha família cuja morte eu desejasse, por um motivo qualquer. [...] Mas não se tratava do sonho de Freud, e sim do meu. Num lampejo intuitivo compreendi o que meu sonho queria me dizer. Tal conflito ilustra um ponto vital na análise dos sonhos: é menos uma técnica que se pode aprender e aplicar de acordo com certas regras do que uma troca dialética entre o analista e o sonhador. [...] Assim, eu desejava que o processo de cura nascesse da própria necessidade do paciente analisado, e não de minhas sugestões enquanto analista, que teriam apenas um efeito passageiro.”

Pouco depois de chegar a tais conclusões, Jung rompeu sua célebre parceria com Freud, e os dois grandes expoentes da psicologia do século XX passaram a seguir caminhos consideravelmente diversos na exploração do inconsciente humano. Eventualmente, Jung chegou a uma ideia que até hoje é polêmica: a de que o inconsciente humano poderia ser coletivo. Que, assim como uma cidade grande cresce, ao longo dos séculos, sobre as ruínas de bairros antigos, e assim como o próprio cérebro humano segue uma evolução parecida, com áreas associadas aos instintos animais sendo incrementadas com outras bem mais sofisticadas, relacionadas a raciocínios complexos, o mesmo se deu com a própria cultura humana, seus símbolos, deuses, heróis etc.

Para elaborar sua tese, Jung foi profundamente influenciado pelas ideias de Darwin. Ele dizia que nossa mente jamais poderia ser um produto sem história, ao contrário de nosso corpo, cuja história evolutiva pode ser traçada até pequenos mamíferos roedores que viveram há dezenas de milhões de anos. E, se houve um longo desenvolvimento do corpo humano, se por milhões de anos fomos mais animais que homens, o mesmo se deu com a mente. Para Jung, essa parte infinitamente antiga da mente é na realidade a base sobre a qual todo o resto foi erguido. Assim, em toda mente humana há “resíduos arcaicos”, “imagens primordiais” ou, para usar um termo que ficou para a história: arquétipos.

Mas tais arquétipos, ao contrário do que muitos são levados a pensar, não têm nada que ver com imagens específicas ou temas mitológicos bem definidos. Isso é o que se dá em cada geração ou grupo de gerações humanas, nesta ou naquela cultura. O arquétipo é algo anterior: é uma tendência a formar essas mesmas representações de um motivo (que podem ter inúmeras variações de detalhes) sem perder a sua essência ou configuração original.  O arquétipo é muito mais uma tendência instintiva do que algo que possa ser definido racionalmente, é como o impulso das aves para fazer seu ninho ou o das formigas para se organizarem em colônias: se nos pedem para definir racionalmente porque damos tanto valor a grandes heróis ou a uma ideia de Grande Mãe, não sabemos explicar bem o porquê, da mesma forma que uma abelha não saberia explicar porque se dedica tanto a produção de mel.

O próprio Jung nos traz um belo exemplo de como foi um arquétipo que deu origem à figura do Cristo:

“A ideia geral de um Cristo Redentor pertence ao tema universal e pré-cristão do herói e salvador que, apesar de ter sido devorado por um monstro, reaparece de modo milagroso, vencendo seja qual for o animal que o engoliu. Onde e quando essa imagem surgiu, ninguém sabe. E tampouco sabemos de que maneira conduzir tal investigação. A única certeza aparente é que essa imagem parece ter sido conhecida tradicionalmente em cada geração, que por sua vez a recebeu de gerações precedentes. Assim, podemos supor que a sua “origem” vem de um período em que o homem ainda não sabia que possuía o mito do herói; numa época em que nem mesmo refletia, de maneira consciente, sobre aquilo que fazia. A figura do herói é um arquétipo – existe desde tempos imemoriais.”

Finalmente retornando ao tarot, creio que já sabem onde quero chegar: assim como as figuras mitológicas em suas variadas representações, os Arcanos Maiores do tarot foram sendo construídos com o tempo, muito embora ninguém saiba ao certo por quem, e com que intenção. É que se trata essencialmente de uma criação coletiva, uma criação do inconsciente humano: nossa vida está nas cartas porque elas também espelham arquétipos. É nesse sentido que o tarot pode ser “declarado egípcio”, não porque tenha sido criado por um sacerdote específico há milhares de anos, mas porque, assim como nossos mitos mais antigos, o tarot diz respeito a arquétipos que se recusaram a desvanecer no tempo.

Um analista meticuloso da simbologia dos 22 Arcanos Maiores que compõem o tarot atual, baseados em baralhos clássicos como o Tarot de Marselha, dirá que eles surgiram da Europa cristã de cerca de 500 anos atrás, com representações do poder (o Papa, o Imperador, a Papisa, a Imperatriz), de três das virtudes cardeais (a Força, a Temperança, a Justiça), de alegorias religiosas (a Morte, o Diabo, a Casa de Deus – mais tarde, a Torre –, o Juízo Final ou Julgamento), de símbolos da cultura popular da época (a Roda da Fortuna, o Amor ou Enamorados, o Carro, o Louco, Bobo da Corte ou Andarilho) e, enfim, os planetas e os astros (a Estrela, a Lua, o Sol, o Mundo). No entanto, também sabemos que já existiram baralhos com número diferente de Arcanos, em ordenações diversas e com incontáveis representações pictóricas – afinal, até hoje a essência de um baralho de tarot original consiste em trazer novas imagens, e não as mesmas de séculos atrás, e nos primórdios não foi diferente. Ora, até mesmo o próprio Marselha teve versões bem específicas para regiões protestantes da Europa, onde o Papa e a Papisa foram substituídos pelos deuses Júpiter e Juno.

O que isso tudo quer dizer é que, à luz dos arquétipos e do conceito de inconsciente coletivo, pouco importa quem criou o primeiro tarot, quantos eram os seus Arcanos Maiores e quais eram exatamente suas imagens e simbologia: o tarot não se tornou tão difundido por um pretenso mistério acerca de suas origens, o tarot importa, e continuará importando por séculos e séculos, justamente por não sabermos ao certo de onde veio, e porquê. Essa resposta cabe a cada geração humana.

» Na sequência, por que o tarot não funciona.

***

[1] Os parágrafos com trechos entre aspas foram retirados do livro de Jung na Bibliografia.

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Carl Jung); [ao longo] Marcos Paulo Prado/unsplash (Cristo Redentor, no Rio de Janeiro); Manik Roy/unsplash (Tarot Mitológico).

Marcadores: , , , , , , , , , ,

20.9.13

Sobre a Fantasia

Texto por George R. R. Martin, originalmente pulicado em seu blog. Tradução de Bruno Cobbi.

A melhor fantasia é escrita no idioma dos sonhos. Está tão viva quanto os sonhos, é mais real que a realidade... Por apenas um instante... Aquele longo momento mágico antes de acordarmos.

A fantasia é de prata e escarlate, índigo e azul, de obsidiana com veios de ouro e lápis-lazúli. A realidade é compensado e plástico, feita em barro marrom e verde oliva.

Fantasia tem gosto de habaneros e mel, canela e cravo, carne vermelha rara e vinhos doces como o verão. A realidade é feijão e tofu, com gosto de cinzas no final. A realidade é os shoppings de Burbank, as chaminés de Cleveland, uma garagem em Newark. A fantasia é as torres de Minas Tirith, as pedras antigas de Gormenghast, os salões de Camelot. A fantasia voa nas asas de Ícaro, a realidade na Southwest Airlines. Por que nossos sonhos se tornam muito menores quando eles finalmente se tornam realidade?

Lemos fantasia para encontrar as cores novamente, eu acho. Para provar especiarias fortes e ouvir as canções que as sereias cantavam. Há algo velho e verdadeiro na fantasia que fala com algo profundo dentro de nós, com a criança que sonhava que um dia iria caçar nas florestas da noite, e festejar sob as colinas ocas, e encontrar um amor que dure para sempre em algum lugar ao sul de Oz e ao norte de Shangri-La.

Eles podem ficar com o paraíso deles se quiserem. Quando eu morrer, prefiro ir a Terra-Média.

***

Crédito da foto: Game of Thrones/HBO (Divulgação)

Marcadores: , , , ,

12.11.12

O voo da arara

Alguns sonhos parecem como que deslocados no tempo... E algumas vidas, também...

Era uma vida cheia de trabalho nos portos, e cheia de contemplação no mar. Cuidava de um grande barco de uma companhia espanhola, saia de Málaga e perambulava pelo Mediterrâneo, algumas vezes alcançando a Turquia, antes de retornar. Seu barco estava quase sempre estocado de alimentos ou moedas, mas pouquíssimos livros – se conseguisse ler durante os solavancos das ondas sem enjoar, já teria terminado toda a obra de Platão.

Mas o que mais fazia era sentar na proa, nas horas vagas, e contemplar... Todo aquele mar, a separar civilizações tão antigas, lhe transmitia imensa paz. Sentia-se triste por ver tão pouco os filhos e a mulher em Málaga, mas prometera a si mesmo que iria se aposentar alguns anos antes, para que pudesse conviver ao menos com sua filha caçula, a sétima, a primeira mulher.

Ainda assim, os sonhos sempre lhe atormentavam. Eram como uma lembrança antiga, de grandes batalhas entoadas em nome de Deus, mas que mais pareciam um açougue no Inferno. Seria ele mesmo um desses cruzados que foram derramar sangue árabe muito longe de casa? Como poderia ser, se desde que se entendia por gente havia sido um legítimo espanhol? Se nunca havia pego uma espada, mas apenas o leme de um barco? O que seriam afinal tais sonhos, se perguntava enquanto contemplava o sol se pôr por detrás de Creta.

Naquela noite sonhou um sonho bem diferente. Ouviu centenas de piares de pássaros e, ao subir na proa, viu que se tratava de pequenos pássaros azuis rechonchudos, de uma espécie que nunca havia visto antes. Alguns deles seguravam com as patas, em conjunto, um livro estranho. Ao abri-lo, viu que se tratava de uma coleção de pinturas de rostos e bustos, muito familiares por sinal... De alguma forma, neste sonho, soube que se tratava dele mesmo, em outras épocas. Antes da sua própria imagem em Málaga, vinha o guerreiro cruzado; mas se interessou mais pela imagem à direita e, quando olhou para ela, desmaiou.

Despertou numa imensa carruagem de vários cômodos que estava, por alguma estranhíssima magia, a correr por debaixo da terra... Surpreendentemente, achou aquilo tudo normal, e desceu com os outros quando a carruagem parou. Todos tinham vestes estranhas, e embora parecessem arrumados para alguma grande ocasião, nenhum homem usava peruca... Deu de ombros e os seguiu pelo que pareceram escadarias de um imenso templo subterrâneo. Ao chegar no alto, olhou para o portal que dizia: “Ave Paulista”. Seria um imperador romano desconhecido?

Estava num imenso pavimento onde carruagens estranhas, grandes e pequenas, rápidas e barulhentas, se moviam para cá e para lá. E, na via em que estava, todas as pessoas também se moviam, para cá e para lá... Achou aquilo tudo tão cômico que mal reparou nas grandes torres que cercavam a paisagem e, de tão altas, impediam que visse o sol. “Será que estou no céu? Mas as pessoas aqui parecem tão atarefadas, e não vejo nenhum pomar”, pensou consigo mesmo.

Decidiu seguir duas meninas que passavam por perto, pois elas pareciam menos atarefadas. Conseguia ouvir seus pensamentos antes das palavras familiares que pronunciavam, mas que não conseguia entender inteiramente – parecia espanhol ou português, e ao mesmo tempo nem tanto... Mesmo assim, entre um e outro pensamento, percebeu que falavam de sexo e afins. Isto não era estranho, estanho era o fato de ambas falarem em ter relações com homens e com mulheres! “Estranho, se me lembro bem, o padre disse que esse tipo de gente não estaria no céu”...

Seguiu-as até a entrada de uma imensa biblioteca. Nunca havia visto tantos livros juntos, nem com tantas cores diferentes. Procurou por “Filosofia” e achou as obras de Platão que ainda não havia lido. Decididamente estavam escritas em português, mas pegou de uma, Fedro, e começou a tentar ler. Foi então que viu: um imenso pássaro de penas vermelhas e bico encurvado, belíssimo, empoleirado no alto da estante ao seu lado. Era um pássaro falante ou, pelo menos, pensante:

“Crá! Crá! O que está fazendo aqui, meu rapaz? Esta não é a sua época!”

“Isto aqui não é o céu?” – estava começando a pensar que poderia ser, pois o céu certamente teria bibliotecas como aquela.

“Crá! Isto aqui é o seu próprio mundo, mas no futuro!”

“Futuro? Mas, e o que diabos eu estou fazendo aqui?”

“Ora, sendo você mesmo, no futuro... Crá!”

“Mas, eu já estou morto? Então isto não é o céu, mas o purgatório?” – decididamente, se o purgatório tinha uma biblioteca daquelas, o céu seria realmente maravilhoso!

“Crá! Crá! Meu rapaz, é hora de ir, é hora de voar de volta. Você está somente sonhando um sonho inadequado, onde já se viu!”

E o imenso pássaro o agarrou pelos ombros com as patas e, sem machucá-lo nem um pouquinho, voou por entre as prateleiras de livros lustrosos, através da entrada, e para o céu azul... Foi então que olhou para baixo e viu que estava na maior cidade do mundo! Antes de desmaiar novamente, ainda encontrou forças para um último diálogo:

“Espere! Me diga ao menos que tipo de pássaro é você?

“Crá! A’rara! A’rara’pyrang! Mas você vai me conhecer como arara vermelha...”

“Mas, e onde você vive? É perto de Málaga?”

“Não, meu rapaz, é muito distante de Málaga. Um oceano distante! Crá! Crá!”

“E que terra é essa? A Atlântida?”

“Quem sabe, quem sabe? Crá! Crá! Esta é a terra que iremos, eu e você, morar um dia...”

Foi então que percebeu que aquele pássaro era uma amiga... Mas, antes que pudesse perguntar de onde exatamente a conhecia, o voo da arara se fez completo, e ele mergulhou de volta, dentro de si mesmo, de volta para seu velho barco, e contemplação.

Acordou com um sorriso nos lábios, só não se lembrava exatamente porque...


para A’rara Brasil.


raph’12

***

Crédito da foto: Edu Fortes

Marcadores: , , , , ,

13.12.11

Nova Damanhur

Em 1992 a polícia italiana foi deslocada para o sopé do vale Valchiusella, 50Km ao norte de Turim, para investigar um possível crime de evasão fiscal de uma comunidade que ali vivia. Era já a segunda visita, e os policiais suspeitavam de que algo estava sendo construído no subterrâneo, sob o vale. Eles deram um ultimato: “Se não nos levarem até os túneis, vamos dinamitar toda a encosta até encontrar alguma coisa”.

Para os membros da comunidade, não restou outra alternativa que não levar os policiais até uma “porta secreta” num dos lados de uma casa da região... Uma vez aberta, aos polícias incrédulos revelou-se uma sala subterrânea de 8 metros de diâmetro suportada por colunas esculpidas e revestidas com folhas de ouro. As paredes estavam cobertas por pinturas de cores exuberantes; vitrais e uma imensa claraboia central derramavam luz multicolorida por todo o lado. Encontravam-se na Sala da Terra, apenas a primeira de um complexo arquitetônico de nove espaços que compõem Damanhur.

Tudo havia começado ainda na década de 60, quando Oberto Ariaudi, conhecido como Falco (Falcão), ainda criança começou a ter sonhos extremamente realistas de estranhos templos sagrados de civilizações há muito esquecidas, assim como de uma estrutura social bem distinta de nossa sociedade ocidental moderna. Seria apenas mais um dentre tantos casos de crianças que se lembram de vidas passadas (e, eventualmente, esquecem), não fosse pela persistência de Falco em tornar os seus sonhos realidade...

Com uma carreira consolidada de corretor de seguros, e mais 24 amigos e colaboradores que partilhavam de sua visão de uma nova sociedade, Falco fundou Damanhur, que na verdade é o nome de uma cidade do antigo Egito que existe até hoje [1], e começou a cavar... Cavar, cavar, e construir estruturas quase além da imaginação.

Quando foram descobertos, em 1992, pensaram que seria o fim: a primeira ordem das autoridades italianas foi para que tudo fosse parado até segunda ordem, já que se tratava de uma construção ilegal. Falco temeu que mandassem destruir tudo, mas então os governantes da região pensaram duas vezes, e perceberam que aquilo poderia auxiliar em muito a dinamização do turismo regional. Não só permitiram que Damanhur continuasse “de pé”, mas eventualmente foram liberados para continuar a construir mais e mais, para debaixo das montanhas de Valchiusella.

Hoje a Federação de Damanhur é um “experimento social para o futuro da humanidade”, e já conta com mais de mil moradores, dentre milhares de outros colaboradores que não vivem no local. Os Templos da Humanidade, como são chamados, comportam um complexo de templos interligados imenso e magnífico. São 300.000 m3 de salas e galerias de uma arquitetura grandiosa, interligadas em cinco níveis situados 30m abaixo da superfície, e profusamente decoradas com esculturas, pinturas, mosaicos e vitrais narrando à história da humanidade. Acima da terra, a comunidade já conta com sua própria universidade, escolas, mercados orgânicos, fazendas e casas ecológicas ganhadoras de prêmios.

Damanhur também têm sua própria constituição, que é revisada de tempos em tempos (atualmente é usada a de 2007), além de uma peculiar estrutura de “comunidades familiares” de 200 a 220 membros que se dedicam a uma atividade em particular. Tais atividades podem variar de pesquisas filosóficas e práticas espiritualistas até a pesquisa científica por novas soluções ecológicas, como o uso de energia eólica, por exemplo. Toda a estrutura da comunidade é dividida em 4 grandes “escolas”: a Escola de Meditação se fundamenta na tradição ritualística; A Escola Social se foca na realização da sociedade como um todo; O Jogo da Vida trata da parte dinâmica e em constante renovação da vida; Já a Tecnacarto, a mais recente, trata da realização individual e autoconhecimento.

Uma das máximas da constituição damanhuriana diz assim: “Da criação da tradição compartilhada, da cultura compartilhada, da história compartilhada, da ética compartilhada, as pessoas nascem”... E isso não ficou apenas na teoria, hoje Damanhur conta com a terceira geração de pessoas, ou seja: os netos dos primeiros damanhurianos que nasceram já dentro da comunidade, ainda na década de 70.

E pensar que no final do século 19 chegou-se a pensar que a religião e a espiritualidade entrariam em franco declínio, cedendo lugar a nova era da razão... Até mesmo ainda hoje, há muitos que creem que novas religiões não são formadas, e que toda a tradição religiosa remete a doutrinas milenares. De certa forma estão certos, pois uma seita recém criada só adquire o “status” de religião após aproximadamente um século, mas dito isso, o que não falta nessa verdadeira Nova Era são religiões e comunidades autossustentáveis surgindo a torto e a direito, seja aqui no Brasil, seja no Japão, seja nos Alpes italianos [2].

Você pode até achar irracional muitas das crenças de Nova Era, pode até achar confuso como tantas seitas diversas podem ter tantos pontos de crença em comum; Pode, sobretudo, achar absurdo que uma comunidade de mais de um milhar dedique suas vidas inteiras a construção do sonho de uma criança... Mas o que não poderá negar é o próprio assombro no olhar, ao constatar o que o sonho humano é capaz de construir – a Nova Damanhur.

Clique nas imagens abaixo para abrir em tamanho maior:

***

Veja também:

» Tour vitual pelos Templos da Humanidade (clique nos Thumbnails ou no Mapa para ir avançando)

» Vídeo da Sala dos Espelhos (Hall of Mirros)

» Trailer do filme Sonhos de Damanhur (Dreams of Damanhur)

***

[1] No antigo Egito a cidade era conhecida como Timinhor, "a cidade de Hórus". Na época ptolemaica a cidade era denominada Hermópolis Parva, para à distinguir de Hermópolis Magna, sendo a capital do 7º nomo do Baixo Egito (o nomo do "Arpão Ocidental"). Segundo o mito, o deus Toth seria oriundo deste local. Durante a Idade Média, a cidade tornou-se próspera devido a estar situada entre a rota de caravanas que passava entre o Cairo e Alexandria. Em 1302 foi destruída por um terremoto, mas foi restaurada pelo califa mameluco Barquq no final do século XIV. Segundo o próprio Falco, em uma de suas supostas vidas passadas ele teria vivido na antiga Damanhur. Outra curiosidade é que os Templos da Humanidade foram construídos em um dos locais da região em torno de Turim onde passa uma linha de Ley.

[2] Para um estudo elaborado do presente e futuro da espiritualidade humana, recomendo ler o livro “O futuro de Deus” (Bakas e Buwalda), publicado no país por A Girafa.

***

Crédito das imagens: Divulgação (Tour virtual; Damanhur no Facebook; Artigo do Daily Mail)

Marcadores: , , , , , , , , ,

6.5.09

Canção da pirâmide

Uma música impregnada de espiritualidade (para quem tem ouvidos para ouvir):

Eu pulei no rio e o que eu vi?
Anjos de olhos negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e futuro
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

Eu pulei no rio (...)
Anjos de olhos negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e futuro
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

***

Tradução da lyricstime.com (título da música em inglês: "Pyramid Song"; banda: Radiohead)

Marcadores: , , , , , , ,