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30.8.16

Flor do céu

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Nascestes neste fétido canteiro
Mas seu destino reside na Grande Altura:
Cada alma é a alma do universo inteiro!

Oh! Divina e verdadeira flor
Teu perfume é êxtase sem idade
Teu semblante é a face do Amor
Porém, lhe possuir é grandiosa responsabilidade!

Para que, portanto, lhe encarar?
Para que ver o ser face a face?
O que há para se ganhar?

Oh! Flor mística e assustadora
Há muitos que preferem lhe envolver numa mortalha:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!


raph 2016 (após Dom Casmurro)

***

Crédito da foto: Google Image Search

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2.4.14

Cerâmicas inúteis

Hoje o dia nasceu claro e quente,
e ao largo dos jardins os seres já caminham apressados –
esses mesmos que buscam por tudo o que ainda se sente
em meio as ruínas dos templos dos antepassados.

Até a tardinha já recolheram muitos pedaços e detritos
de cerâmicas novas e antigas, espalhadas ao léu –
esses mesmos que buscam alcançar seus mitos
numa bela reunião no tabernáculo do céu.

Hoje a noite cobriu tudo com a sua escuridão
e todos se recolheram em suas casas,
protegidos em seu porão.

Os dias e os mitos e as noites continuarão seu ciclo –
mas não serão conquistados num céu futuro
e nem remontados com tais cerâmicas inúteis...


raph'14

***

Crédito da imagem: Carla Prates (restauradora)

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8.9.13

A última máscara

Retira a máscara que os outros lhe ofertaram
E finda definitivamente de ser cópia obscura
Em meio ao mar de clones que naufragaram
Entulhados em seus egos pela noite escura...

Toma coragem e te olha na superfície d’água
Observa neste vasto lago a todos os assassinos
E gênios e santos e loucos cantadores de hinos
Que lá todos são o que são e sem mágoa...

Cai uma estrela distante cortando a escuridão
E explode bem além da costa do mar
E cada gota ao céu é em si uma imensidão!

Afinal aqui neste baile há só este instante:
De amar e amar e amar
E assim, desmascarado de tudo, iniciar a dança [1]...


raph'13

***

[1] Variante para o trecho final do soneto:

Que aqui neste baile há só um sentido:
O de dançar desmascarado a amar
E colher cada gota que haja por chorar...

Crédito da imagem: Brooklyn Museum/Corbis (máscara mortuária egípcia)

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17.10.12

Almas a brotar

De um mito antigo, tirado de contexto
Criaram um novo, bem mais sedutor
Mas as almas giram pelo mundo fora de eixo
E ninguém ainda viu seu condutor

As almas, enfim, estão gêmeas
Mas não são
Que as almas não estão paradas
Fluem e dançam na imensidão

Os mitos, afinal, dizem respeito a nós
Se existe uma metade que foi perdida
Nós que a perdemos, na dor da lida

Se queremos amar, de toda alma, ao que está separado
Trabalhemos com afinco no arado
Até que brote, em flor, o Uno Amado

raph'12

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Crédito da foto: Google Image Search

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27.8.12

O grande campo

Somos todos reflexões
Da luz que irradiou de si mesma
A natureza de todas as paixões
E, da vida, toda a beleza.

No princípio havia apenas o Grande Ser
Refletido na forma de si mesmo;
Disse, então, tudo que havia por saber:
“Isto sou eu”.

Surgindo de tal pensamento, tornou-se a criação;
E aquele que o busca com ardor
Torna-se, na criação, um criador.

Em tudo que há existe o repouso e o movimento;
Somos todos luz condensada, luz repousada:
“Tudo existe neste momento”.


raph’12

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Crédito da imagem: BordomBeThyName

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4.7.12

A melodia

É como o lamento da flauta na floresta
Um tamborilar a ecoar pelo tempo
A persistente harmonia em tudo que nos resta
Quando nos voltamos para dentro

É como a calmaria antes da tempestade
No mar do ser: na praia de cada ilha
No céu: as estrelas em sua majestade
Cintilam na alma: “bem vinda, querida filha”

E então ela dança: cada movimento
É como a história de uma vida
A girar por este momento

Quantos passos de dança, quantas vidas e amores,
Compostas pela eterna melodia
A ecoar como um chamamento: “tenha esperança!”


raph’12

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Crédito da imagem: Raghu Rai

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2.1.12

Uma brisa de amor

Te tenho como amigo, mesmo nas horas de dor
Porém desejo-te de outras maneiras...
Quero abraçar-te, embriagar-me em teu odor
Perder as estribeiras

Mas eis que penso se desejar-te assim
Não seria perder isso que já temos...
A poesia de você junto a mim
A fantasia do que vivemos

E então você me diz: o amor nada deseja
Desde que sopra por tudo que há
Não há carícia que já não seja

O amor tudo já tem, mas é difícil o conquistar...
Difícil é deliciar-se numa brisa de amor
E deixá-la seguir – livre – a percorrer o mar

raph'12
(após um tweet de Carol Phoenix)

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Crédito da foto: Stock4B-RF/Corbis

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22.9.11

Tudo é semente

A água, por tudo lava:
O que se sente, o que se abraça –
Está tudo no tempo, que também passa
E no vento, que tudo leva

Tudo é mente
Ideia que se ama e se amassa
Tudo é semente
Vida que se move, e também passa

A existência: há de ser leve
Na harmonia desse presente
Tão eterno quanto breve

A substância, por tudo abarca:
A água, o vento, a vida –
E a poesia, que jamais passa

raph'11
(depois do tweet de Carol Phoenix)

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Crédito da foto: Bruno Ehrs/Corbis

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10.8.11

Inefável

É como se a alma decidisse apertar o passo
E seguisse adiante rumo a uma de suas casas
Mas o corpo permanecesse preso ao laço
Suplicando por voar em suas asas

É como se houvesse formado grandioso temporal
E todos os raios caíssem no mesmo lugar
Mas eu tivesse que correr do matagal
Fugindo do calor de teu fogo a crepitar

É como se buracos negros dançassem
Com sua gravidade a formar galáxias
Mas eu tivesse medo que não me amassem

É como se houvesse engolido o próprio universo
E explodido em bilhões de pedaços de pura luz
Mas continuasse aqui, cantarolando em verso...

raph'11

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Crédito da imagem: Escultura de Paige Bradley

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2.8.11

E então veremos face a face...

Parte (3 de 3) do interlúdio da série de artigos "4 amores"

Para terminar este interlúdio, trago a vocês dois dos maiores textos acerca do amor que a história foi generosa em conservar. Inspirado por eles, espero poder falar sobre ágape da forma mais profunda possível, considerando que eu mesmo, como tantos de nós, ainda estou muito distante de viver plenamente neste amor - eu o conheço, mas conhecer é apenas uma parte...


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luiz Vaz de Camões, Soneto 11


***

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

Paulo de Tarso, 1 Coríntios 13


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Nota: E não poderia deixar de lembrar também da música que Renato Russo, o grande poeta do Centro-Oeste, fez com uma junção desses dois textos: Monte Castelo.

Crédito da imagem: Akiane Kramarik

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24.11.10

O canto da espera

Se acaso choras enquanto esperas morrer
Nada esperes desse teu pranto
Quem canta não espera tanto
Apenas põe-se a viver

Estás a morrer neste desencanto
Sombrio de vozes a ranger
Mas do vazio nada tens a temer
A esperança é o melhor canto

Não há que emudecer ante a morte
Ela é somente a noite da estação...
E tens tantos dias em tua mão!

Tua sorte é saber
Quem sabe não espera, canta
Cada novo alvorecer!

raph'10

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Crédito da foto: playingforchange.com (Tal Ben Ari, "Tula")

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4.10.10

O farfalhar da grama

Há alguns insetos negros e amarelos
Que são atraídos pelo mel da beleza
Como aos homens por Afrodite
Gerando guerras inúteis pela natureza

Mas se no combate não se ouviram os violoncelos
Anunciando ao divino amor
E sim os tambores da morte e do horror
Que não se culpem esses fugazes elos

Bem aventurados os que percebem sua fragância
Na brisa suave e leve a nos transportar
Na liberdade em escolher como bem amar

Quando o desejo não vem mais da mera ganância
Mas do eterno farfalhar da grama
Que cresce em qualquer lugar, e também ama

raph'10

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Poesia inspirada por "O enigma de Afrodite", do blog Qualquer coisa que se sinta.

Crédito da foto: enjae

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9.9.10

E essa saudade

Que tua ida, querida
Não gere dor nem dissabor
Pois no mundo a maldade
Está apenas em quem ignora o amor

E essa saudade
Essa sacralidade da dor
Jamais será, minha querida
Fruto de tua ida

Pois o amor que nos abandonou
Por ora não nos deixou
Desamparados da vida

E essa saudade
Essa divina dor da lida
É tão somente o amor que ficou

raph’10

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Quem aqui leu a série "A ciência da inspiração" deve ter visto a explicação do olhar mecanicista da ciência sobre a criatividade literária (na parte 2). Pois é, quem ficar atento aos próximos posts talvez perceba que essa visão é bastante pertinente, muito embora não consiga abarcar todo o espectro da criação em si...

Crédito da imagem: Mr. Mogu

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11.8.10

Ritmo ancestral

É esse batimento de coração
Vindo dos confins do universo
Reverberando por toda criação
Como estrelas cintilando em verso

É essa brisa, obscura e suave
Que sopra com sua peculiar calmaria
Como no alto do céu – a divina ave
A planar em leve bruma de alma macia

É esse turbilhão, esse ritmo ancestral
Essas ondas sem fim tocando a pauta
De uma sinfonia universal

Diga-me então, o que é isso
Que sacode tanto a nossa fé...
Diga-me, diga-me ó poeta, o que isso é?

raph'10

Este é meu primeiro soneto intencional. Dedicado a meu primo, "repentista de sonetos", Fernando Cunha Lima.

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Crédito da foto: pejiguera (dança dervish)

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