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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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16.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 2)

« continuando da parte 1

No início do século XX um homem teve um sonho muito curioso, que de certa forma mudou a história da psicologia. Eis o seu relato em primeira mão [1]:

“Sonhei que estava em minha casa, aparentemente no primeiro andar, numa sala de estar muito confortável e agradável, mobiliada no estilo do século XVIII. Estava admirado por nunca ter estado naquela saleta antes, e começava a me perguntar como seria o andar térreo. Desci e cheguei a um cômodo bastante escuro, de paredes almofadadas e uma mobília do século XVI, ou talvez mais antiga ainda. Minha surpresa e curiosidade aumentaram. Queria conhecer toda a disposição da casa. Desci então ao porão, onde encontrei uma porta que abria para uma lance de degraus de pedra, levando a uma grande sala abobadada. O piso era de enormes lajes de pedra e as paredes pareciam muito antigas. Examinei a argamassa e verifiquei que estava misturada a pedaços de tijolos. Obviamente eram paredes de origem romana. Sentia-me cada vez mais agitado. Num canto vi uma laje com uma argola de ferro. Puxei a argola e encontrei outro lance de degraus estreitos que conduziam a uma gruta, uma espécie de sepultura pré-histórica, onde se encontravam duas caveiras, alguns ossos e cacos de cerâmica. Nesse momento acordei.”

Este homem era Carl Gustav Jung, e foi ele próprio quem decifrou seu sonho, associando-o ao desenrolar da própria vida ou, mais especificamente, ao desenvolvimento de sua mente, desde a infância. Jung cresceu numa casa que tinha duzentos anos, filho de pais protestantes (o pai era reverendo luterano), tendo estudado as filosofias de Kant e Schopenhauer na juventude. O grande acontecimento da época era o trabalho de Charles Darwin. Até ali, o jovem ainda vivia orientado pelos conceitos medievais de seus pais, para quem o mundo humano ainda era conduzido primordialmente pela providência divina. Logo aquela visão tornou-se para ele antiquada, e sua fé cristã perdeu preponderância ao se ver defrontada com as religiões orientais e a filosofia grega. Depois, eventualmente se interessou por paleontologia e, enquanto foi assistente em um instituto de pesquisas na área, ficou fascinado com fósseis de hominídeos ancestrais. Tudo isso estava descrito de alguma forma em seu sonho, e Jung viu tudo isso analisando-o desperto, mas optou por não falar sobre sua autoanálise a Sigmund Freud, de quem ainda era grande colaborador na época:

“Logo verifiquei que Freud procurava algum “desejo inconfessável” no meu sonho. Por isso sugeri que as caveiras poderiam referir-se a alguns membros da minha família cuja morte eu desejasse, por um motivo qualquer. [...] Mas não se tratava do sonho de Freud, e sim do meu. Num lampejo intuitivo compreendi o que meu sonho queria me dizer. Tal conflito ilustra um ponto vital na análise dos sonhos: é menos uma técnica que se pode aprender e aplicar de acordo com certas regras do que uma troca dialética entre o analista e o sonhador. [...] Assim, eu desejava que o processo de cura nascesse da própria necessidade do paciente analisado, e não de minhas sugestões enquanto analista, que teriam apenas um efeito passageiro.”

Pouco depois de chegar a tais conclusões, Jung rompeu sua célebre parceria com Freud, e os dois grandes expoentes da psicologia do século XX passaram a seguir caminhos consideravelmente diversos na exploração do inconsciente humano. Eventualmente, Jung chegou a uma ideia que até hoje é polêmica: a de que o inconsciente humano poderia ser coletivo. Que, assim como uma cidade grande cresce, ao longo dos séculos, sobre as ruínas de bairros antigos, e assim como o próprio cérebro humano segue uma evolução parecida, com áreas associadas aos instintos animais sendo incrementadas com outras bem mais sofisticadas, relacionadas a raciocínios complexos, o mesmo se deu com a própria cultura humana, seus símbolos, deuses, heróis etc.

Para elaborar sua tese, Jung foi profundamente influenciado pelas ideias de Darwin. Ele dizia que nossa mente jamais poderia ser um produto sem história, ao contrário de nosso corpo, cuja história evolutiva pode ser traçada até pequenos mamíferos roedores que viveram há dezenas de milhões de anos. E, se houve um longo desenvolvimento do corpo humano, se por milhões de anos fomos mais animais que homens, o mesmo se deu com a mente. Para Jung, essa parte infinitamente antiga da mente é na realidade a base sobre a qual todo o resto foi erguido. Assim, em toda mente humana há “resíduos arcaicos”, “imagens primordiais” ou, para usar um termo que ficou para a história: arquétipos.

Mas tais arquétipos, ao contrário do que muitos são levados a pensar, não têm nada que ver com imagens específicas ou temas mitológicos bem definidos. Isso é o que se dá em cada geração ou grupo de gerações humanas, nesta ou naquela cultura. O arquétipo é algo anterior: é uma tendência a formar essas mesmas representações de um motivo (que podem ter inúmeras variações de detalhes) sem perder a sua essência ou configuração original.  O arquétipo é muito mais uma tendência instintiva do que algo que possa ser definido racionalmente, é como o impulso das aves para fazer seu ninho ou o das formigas para se organizarem em colônias: se nos pedem para definir racionalmente porque damos tanto valor a grandes heróis ou a uma ideia de Grande Mãe, não sabemos explicar bem o porquê, da mesma forma que uma abelha não saberia explicar porque se dedica tanto a produção de mel.

O próprio Jung nos traz um belo exemplo de como foi um arquétipo que deu origem à figura do Cristo:

“A ideia geral de um Cristo Redentor pertence ao tema universal e pré-cristão do herói e salvador que, apesar de ter sido devorado por um monstro, reaparece de modo milagroso, vencendo seja qual for o animal que o engoliu. Onde e quando essa imagem surgiu, ninguém sabe. E tampouco sabemos de que maneira conduzir tal investigação. A única certeza aparente é que essa imagem parece ter sido conhecida tradicionalmente em cada geração, que por sua vez a recebeu de gerações precedentes. Assim, podemos supor que a sua “origem” vem de um período em que o homem ainda não sabia que possuía o mito do herói; numa época em que nem mesmo refletia, de maneira consciente, sobre aquilo que fazia. A figura do herói é um arquétipo – existe desde tempos imemoriais.”

Finalmente retornando ao tarot, creio que já sabem onde quero chegar: assim como as figuras mitológicas em suas variadas representações, os Arcanos Maiores do tarot foram sendo construídos com o tempo, muito embora ninguém saiba ao certo por quem, e com que intenção. É que se trata essencialmente de uma criação coletiva, uma criação do inconsciente humano: nossa vida está nas cartas porque elas também espelham arquétipos. É nesse sentido que o tarot pode ser “declarado egípcio”, não porque tenha sido criado por um sacerdote específico há milhares de anos, mas porque, assim como nossos mitos mais antigos, o tarot diz respeito a arquétipos que se recusaram a desvanecer no tempo.

Um analista meticuloso da simbologia dos 22 Arcanos Maiores que compõem o tarot atual, baseados em baralhos clássicos como o Tarot de Marselha, dirá que eles surgiram da Europa cristã de cerca de 500 anos atrás, com representações do poder (o Papa, o Imperador, a Papisa, a Imperatriz), de três das virtudes cardeais (a Força, a Temperança, a Justiça), de alegorias religiosas (a Morte, o Diabo, a Casa de Deus – mais tarde, a Torre –, o Juízo Final ou Julgamento), de símbolos da cultura popular da época (a Roda da Fortuna, o Amor ou Enamorados, o Carro, o Louco, Bobo da Corte ou Andarilho) e, enfim, os planetas e os astros (a Estrela, a Lua, o Sol, o Mundo). No entanto, também sabemos que já existiram baralhos com número diferente de Arcanos, em ordenações diversas e com incontáveis representações pictóricas – afinal, até hoje a essência de um baralho de tarot original consiste em trazer novas imagens, e não as mesmas de séculos atrás, e nos primórdios não foi diferente. Ora, até mesmo o próprio Marselha teve versões bem específicas para regiões protestantes da Europa, onde o Papa e a Papisa foram substituídos pelos deuses Júpiter e Juno.

O que isso tudo quer dizer é que, à luz dos arquétipos e do conceito de inconsciente coletivo, pouco importa quem criou o primeiro tarot, quantos eram os seus Arcanos Maiores e quais eram exatamente suas imagens e simbologia: o tarot não se tornou tão difundido por um pretenso mistério acerca de suas origens, o tarot importa, e continuará importando por séculos e séculos, justamente por não sabermos ao certo de onde veio, e porquê. Essa resposta cabe a cada geração humana.

» Na sequência, por que o tarot não funciona.

***

[1] Os parágrafos com trechos entre aspas foram retirados do livro de Jung na Bibliografia.

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Carl Jung); [ao longo] Marcos Paulo Prado/unsplash (Cristo Redentor, no Rio de Janeiro); Manik Roy/unsplash (Tarot Mitológico).

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19.11.12

Conversa Alheia: Estados alterados de consciência, Rituais e Personalidades

Com vocês, mais um episódio do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Raph Arrais, Dani Roses e Igor Teo chamam Carl Gustav Jung para uma conversa.

Citado no programa:
Invocando os Deuses
Xamãs Ancestrais

***

» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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13.1.11

Monstros e heróis

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 25 a 28. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

A figura do monstro-tirano é familiar às mitologias, tradições folclóricas, lendas e até pesadelos do mundo [1]; e suas características, em todas as manifestações, são essencialmente as mesmas. Ele é o acumulador do benefício geral. É o monstro ávido pelos vorazes direitos do “meu e para mim”. A ruína que atrai para si é descrita na mitologia e nos contos de fadas como generalizada, alcançando todo o seu domínio [2]. Este domínio pode não ir além de sua casa, de sua própria psique torturada ou das vidas que ele destrói com o toque de sua amizade ou assistência, mas também pode atingir toda a sua civilização. O ego inflado do tirano é uma maldição para ele mesmo e para o seu mundo – pouco importa quanto seus negócios pareçam prosperar. Auto-aterrorizado; dominado pelo medo; alerta contra tudo, para enfrentar e combater as agressões do seu ambiente – que são, primeiramente, reflexos dos incontroláveis impulsos de aquisição que se encontram em seu próprio íntimo –, o gigante da independência autoconquistada é o mensageiro do desastre do mundo, muito embora, em sua mente, ele possa estar convencido de ser movido por intenções humanas. Onde quer que ponha a mão, há um grito [...]: um grito em favor do herói redentor, o portador da espada flamejante, cujos golpes, cujo toque e cuja existência libertarão a terra [3].

O herói é o homem da submissão autoconquistada. Mas submissão a quê? Eis precisamente o enigma que hoje temos de colocar diante de nós mesmos. Eis o enigma cuja solução, em toda parte, constitui a virtude primária e a façanha histórica do herói [4]. Como indica o professor Arnold J. Toynbee, em seu estudo de seis volumes a respeito das leis que presidem a ascensão e desintegração das civilizações, o cisma no espírito, bem como o cisma no organismo social, não serão resolvidos por meio de um esquema de retorno aos bons tempos passados (arcaísmo), por meio de programas que garantam produzir um futuro projetado de natureza ideal (futurismo), ou mesmo por meio do mais realista e bem concebido trabalho de re-união dos elementos que se encontram em processo de deterioração. Apenas o nascimento pode conquistar a morte – o nascimento não da coisa antiga, mas de algo novo [5]. Dentro do espírito e do organismo social deve haver [...] uma contínua “recorrência de nascimento” (palingenesia) destinada a anular as recorrências ininterruptas da morte. Pois o trabalho da Nêmesis – caso não nos regeneremos – se realiza por intermédio das próprias vitórias que obtemos: a maldição irrompe da casca de nossa própria virtude. Portanto, a paz, assim como a guerra, a mudança e a permanência, são armadilhas. Quando chega o dia em que seremos vencidos pela morte, ela vem; nada podemos fazer, exceto aceitar a crucifixão – e a consequente ressurreição –, ou o completo desmembramento – e o consequente renascimento [6].

Teseu, o herói que matou o Minotauro, veio para Creta do exterior, como um símbolo e agente da civilização grega em ascensão. Ele foi a coisa nova e viva que surgiu. Mas também é possível buscar e encontrar a regeneração no interior dos próprios muros do império do tirano. O professor Toynbee utiliza os termos “separação” e “transfiguração” para descrever a crise por intermédio da qual é atingida a dimensão espiritual mais elevada que possibilita a retomada do trabalho da criação. O primeiro passo, a separação ou afastamento, consiste numa radical transferência da ênfase do mundo externo para o mundo interno, do macrocosmo para o microcosmo, uma retirada, do desespero da terra devastada, para a paz do reino sempiterno que está dentro de nós [7]. Mas esse reino, como nos ensina a psicanálise, é precisamente o inconsciente infantil. Este é o reino no qual penetramos durante o sono. Carregamo-lo dentro de nós eternamente. Todos os ogros e auxiliares secretos de nossa infância habitam nele, lá reside toda a mágica da infância.

E, o que é mais importante, todas as potencialidades vitais que jamais conseguimos levar à realização adulta, aquelas outras partes de nós mesmos, aí estão; pois essas sementes douradas não perecem [8]. Se pelo menos uma ínfima parcela dessa totalidade perdida pudesse ser trazida à luz do dia, experimentaríamos uma maravilhosa expansão dos nossos poderes, uma vívida renovação da vida. Atingiríamos a estatura de um arranha-céu [9]. Além disso, se pudéssemos recuperar algo esquecido, não apenas por nós mesmos, mas por toda a geração ou por toda a civilização a que pertencemos, poderíamos vir a ser verdadeiramente portadores da boa nova [10], heróis culturais do nosso tempo – personagens do momento histórico local e mundial.

Numa palavra: a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo [...] e penetrar no domínio da experiência e da assimilação, diretas e sem distorções, daquilo que C. G. Jung denominou “imagens arquetípicas”. Este é o processo conhecido na filosofia hindu e budista como viveka, “descriminação [entre o verdadeiro e o falso].

Os arquétipos a serem descobertos e assimilados são precisamente aqueles que inspiraram, nos anais da cultura humana, as imagens básicas do rituais, da mitologia e das visões. Esses “seres eternos do sonho” não devem ser confundidos com figuras simbólicas, modificadas individualmente, que surgem num pesadelo ou na insanidade mental do indivíduo ainda atormentado. O sonho é o mito personalizado e o mito é o sonho despersonalizado; o mito e o sonho simbolizam, da mesma maneira geral, a dinâmica da psique. Mas, nos sonhos, as formas são distorcidas pelos problemas particulares do sonhador, ao passo que, nos mitos, os problemas e soluções apresentados são válidos diretamente para toda a humanidade.

O herói, por conseguinte, é o home ou mulher que conseguiu vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas. As visões, ideias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos [11]. Eis porque falam com eloquência, não da sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração [12], mas da fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce. O herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno – aperfeiçoado, não específico e universal –, renasceu. Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como declara Toynbee e como indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu.

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[1] Monstros, heróis, personagens e arquétipos vindos da mitologia estão em geral presentes em quase todas as ficções do mundo – incluindo certamente literatura, cinema e quadrinhos –, mas na maior parte dos casos são sombras diluídas, superficiais, das essências presentes em nossa mitologia ancestral.

[2] Somente o ignorante do verdadeiro bem pode crer que os maus – em realidade, seres mais ou menos no mesmo estágio de ignorância – podem realmente “vencer”. A resposta é muito simples, mas sua compreensão pode levar eras: é que a vivência do verdadeiro bem já é a vitória em si mesma, enquanto que a ignorância do bem – ou o caminho do mal – é em si mesma sua própria ruína, sua amarga derrota.

[3] Há muitos heróis que empunharam tal espada, mas talvez o maior deles tenha sido Jesus. O próprio rabi da Galiléia afirmou que trouxe a espada no lugar da paz (Mateus 10/34). A espada serve obviamente para derrotar o monstro interno, o ego, e libertar o Eu-verdadeiro. Desta batalha, entretanto, podemos esperar tudo menos a paz – a paz virá depois da vitória necessária.

[4] Em sua submissão a uma espécie de vontade superior – um destino manifesto, um desígnio divino, uma lei inexorável da natureza, etc. – o herói alcança paradoxalmente uma espécie de liberdade ainda desconhecida dos demais, aprisionados ao próprio ego em maior ou menor grau.

[5] De fato, engana-se que algo antigo possa nascer. Embora todos esperem pelo “já conhecido” no nascimento, é fato que a natureza não cansa de renovar-se a todo instante, e todo nascimento ou renascimento só poderá trazer algo de novo, embora o novo por vezes pareça assustador.

[6] Por vezes podem parecer absurdas e fantásticas tais lendas de heróis que constantemente vencem a morte, mas os mitos sempre trazem suas verdades ocultas, esperando serem desveladas por aqueles que tiveram olhos para ver e ouvidos para escutar. Não se trata de vencer a morte, mas de compreender a vida – ou, como disse Fernando Pessoa através da poesia: “Neófito, não há morte”.

[7] As jornadas de autoconhecimento da mitologia oriental não deixam de lidar com tais assuntos de uma forma mais sutil, e ao mesmo tempo mais direta e literal. O próprio Buda, ao lutar com seus próprios desejos, travou a mesma batalha dos heróis, embora sua história não faça menções a espadas ou minotauros.

[8] Vão-se as personalidades e seus egos inflamados, ficam as potencialidades, as eternas vencedoras da morte.

[9] Como saber disso sem haver alcançado? Eis que todos nós trazemos tal intuição dos reinos esquecidos... Em cada um, em cada cultura, em cada crença, tal intuição se manifesta de uma forma específica – mas ela sempre estará lá.

[10] Como a lembrança do que foi esquecido pode ser apresentada como uma boa nova? Uma novidade? É que a novidade, a renovação, passa pela reinterpretação de antigas verdades nos contextos temporais específicos.

[11] E o mais curioso, que pode ser atestado por qualquer antropólogo, é como tal essência da vida e pensamento humano é compartilhada por todos os povos, desde os primeiros caçadores-coletores a pintar as rochas, desde os primeiros xamãs em seus transes misteriosos.

[12] Os pós-modernistas apostaram que a ciência e a tecnologia resolveriam todos os nossos problemas, mas esqueceram que elas nada podem fazer quanto a nossa alma, pois trata-se de uma linguagem que lhes é profundamente desconhecida.

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Crédito da foto: Robbie Jack/Corbis (performance "The Minotaur", no Royal Opera House, Londres)

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16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

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Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

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12.2.09

A evolução desconhecida

Neste dia onde comemoramos os 200 anos do nascimento de Charles Darwin, co-criador da teoria da Evolução com Alfred Russel Wallace, gostaria de falar sobre a parte ainda "desconhecida" da evolução das espécies, e principalmente a do homo sapiens.

Como Drausio Varella e outros antropologistas gostam de lembrar, a evolução cultural não se deu apenas no homo sapiens, como em outras espécies capazes de conviver em sociedade, como chipanzés e bonobos, nossos parentes mais próximos (segundo os estudos do Genoma Humano comprovaram). E não paramos por aqui: muitos psicólogos evolutivos fazem alarde sobre a teoria da evolução da mente humana - "Homens traem mais pois na Idade da Pedra precisavam disseminar a espécie em diversas parceiras, sob o risco de condenar sua espécie a extinção caso fossem monogâmicos numa época ainda absolutamente inóspita a sobrevivência sedentária." - esse tipo de afirmação é muito comum entre os defensores da PE Pop (Psicologia Evoltutiva Populacional).

Em artigo recente na Scientific American, o prof. David J. Butler critica a afirmativa de que "o homem moderno tem a mente da Idade da Pedra", e expõe diversas razões, na maioria falta de evidências, para que consideremos essa afirmação uma falácia. Entretanto, se perguntarmos a qualquer cético que crê na teoria da Evolução, o fato de que existe a evolução cultural e cognitiva humana é quase que sempre dado como verdadeiro... Interessante pois que, independente de críticas como as do prof. Butler, exista um problema muito mais importante e crucial para ser resolvido: "Como é possível que Genes, que transmitem apenas características físicas, possam carregar informações ou memórias de uma possível evolução cultural e cognitiva da espécie?".

Até hoje, pouco se desenvolveu esse assunto na literatura científica. Podemos aqui destacar que Dawkins percebeu o problema, tanto que se preocupou em delinear uma vaga teoria acerca dos Memes, teoricamente os "genes que transmitiriam as características não-físicas adiante"... Infelizmente o célebre autor do Gene Egoísta não conseguiu encontrar essa outra espécie de "genes exóticos" em lugar algum, e nem tampouco qualquer outro pesquisador. Os memes continuam sendo alternativas místicas aos genes.

Também podemos citar Jung e seu Inconsciente Coletivo, segundo a Wikipedia ele "é a camada mais profunda da psique humana. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados da humanidade. É nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos." - Seria então, mais ou menos, como quintilhões de bits de informação que "flutuam no ar" e, de alguma forma desconhecida, são acessados não somente por homo sapiens conscientes, como também por todas as outras espécies que obtiveram alguma forma de evolução cultural ou cognitiva - ou seja, não dependeríamos de genes para passar tais informações adiante, elas estariam simplesmente "em algum lugar do espaço". E chamaríamos isso de ciência ou de esoterismo?

É verdade que a teoria de Darwin-Wallace nunca pretendeu explicar a origem da vida, apenas trazer luz a forma com a qual essa vida evoluiu de simples bactérias para seres formidáveis e complexos, numa infinidade de espécies. A teoria da Evolução nunca casou muito bem com a noção de evolução da cultura e cognição nas espécies, e se mostrou especificamente limitada em explicar o surgimento da consciência. Poderemos imaginar que isso se explica pelo fato de que ambos os criadores de tal teoria serem cientistas e céticos, que nada compreendiam de espiritualidade. Então estaríamos errados...

Não é à toa que Wallace é tão pouco citado quando se fala na teoria da Evolução - primeiro, era bem mais jovem que Darwin quando a teoria lhes surgiu a ambos, mas principalmente, Wallace foi espiritualista, e um cientista espiritualista é algo que nunca soou muito bem aqueles que escrevem a história da ciência... Segundo a Wikipedia e suas fontes, Wallace "argumentou que a seleção natural não poderia justificar o gênio matemático, artístico ou musical, nem contemplações metafísicas, a razão ou o humor, e que algo no "invisível universo do Espírito" tinha intercedido pelo menos três vezes na história: 1. A criação da vida a partir da matéria inorgânica; 2. A introdução da consciência nos animais superiores; 3. A geração das faculdades acima-mencionadas no espírito humano." - Ora, não é tão fácil desacreditar o pensamento de um espiritualista, quando este é um dos responsáveis pela teoria mór do materialismo, não é mesmo?

Mas poderemos pensar: será que ciência e religião estão em lados opostos? Será que materialismo e espiritualismo nunca se encontraram? Será que a Natureza se explica por noções radicais, preto no branco, como "tudo é matéria" ou "tudo é espiritual e ilusório", ou será que Natureza antes opera em gradações de cinza?

O que Wallace defendia é conhecido pela humanidade desde milhares de anos atrás, nos primórdios das religiões orientais, principalmente do Hinduismo (mesmo Sagan traça paralelos entre as teorias de criação/destruição do Universo e a cosmologia religiosa da antiga India). Consciência, alma ou espírito, chame-a como achar melhor, o que a teoria da Reencarnação defende é tão somente que existe uma lógica perfeitamente plausível por detrás da crença de que a consciência e a memória não dependem de genes para serem passadas adiante, simplesmente pelo fato de que, ao contrário do corpo dito "físico", não são exterminadas na morte.

Num Universo não-local, onde 96% da matéria não interage com a luz, e onde pululam teorias físicas acerca da existência de diversas dimensões, branas, ou mesmo universos palralelos - e mais, onde sabe-se a tempos pela ciência que toda matéria é invisível e intangível - será assim tão fantástico e absurdo imaginarmos que a consciência, algo que sequer detectamos no cérebro humano, e que não sabemos do que é formado, possa sobreviver ao fim das atividades cerebrais?

Pode ser que no futuro a ciência descubra que realmente a consciência nada mais é do que um estado exótico do cérebro, fruto de reações químicas que possibilitaram que poeira de estrelas pudessem adquirir conhecimento do céu noturno, e do Cosmos das quais são filhas. No entanto, negar de antemão a possibilidade da evolução "desconhecida" se dar através de caminhos igualmente ocultos, e apostar todas as fichas no materialismo, me parece algo arriscado... Afinal, todos podemos estar errados, então não deveríamos apontar raivosos e dizer "você está louco, isso não pode estar certo!" - E quem disse que a Natureza obedece aquilo que "achamos estar certo"?

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Crédito da foto: corbis

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