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20.2.15

Minha vida, por Oliver Sacks

Texto de Oliver Sacks para o New York Times. Tradução de Eduardo Pinheiro. Os comentários ao final são meus.

Um mês atrás, parecia que eu gozava de boa saúde, poderia se considerar até mesmo excelente. Aos 81 anos de idade, ainda nado 1500 metros por dia. Mas minha boa fortuna já havia se esgotado – algumas semanas atrás fiquei ciente de que tenho múltiplas metástases no fígado. Nove anos atrás descobrimos que eu tinha um raro tumor no olho, um melanoma ocular. Ainda que a radiação e o uso de lasers para remover o tumor me tenha deixado cego daquele olho, apenas em casos muito raros tumores deste tipo fazem metástase. Ainda assim, estou entre os 2% que não têm sorte.

Sinto gratidão pelos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora me deparo com a morte. O câncer ocupa um terço de meu fígado, e embora seu avanço possa ser desacelerado, não há como parar esse tipo particular de câncer.

É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. E nisso me encorajo com as palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir aos 65 anos de idade que uma doença o levaria à morte, escreveu uma curta autobiografia num único dia de abril de 1776. A ela ele deu o título de Minha vida.

“Neste momento me deparo com uma dissolução muito rápida,” escreveu ele. “De minha condição, sofro muito pouco com dor, e o mais estranho é que, não obstante a grande derrocada de minha compleição, nunca cheguei a sofrer um momento sequer de esmorecimento do humor. Mantenho o mesmo ardor de sempre pelo estudo, e a mesma alegria na companhia dos outros.”

Tenho sorte de passar dos 80, e os 15 anos que superaram as seis décadas e cinco anos de Hume me foram igualmente plenos de trabalho e amor. Nesse período publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um bocado maior do que as poucas páginas de Hume) a ser publicada nessa primavera; tenho vários outros livros quase prontos.

Hume continuou, “Sou ... um homem de disposições brandas, em comando do meu próprio temperamento, de humor aberto, social e alegre, dado ao apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas minhas paixões.”

Nisso não sou como Hume. Embora eu tenha vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposição branda. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, de entusiasmos violentos, e extremamente desprovido de moderação com relação a todas as minhas paixões.

Ainda assim, uma frase do ensaio de Hume me é marcante como especialmente verdadeira no meu caso: “É difícil”, escreveu ele, “alguém ter mais desapego pela vida do que neste momento.”Ao longo dos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida como se de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem distante, e com um sentido aprofundado da conexão entre todas as partes. E isso não significa que minha vida acabou.

Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me sobra que eu aprofunde minhas amizades, diga adeus para aqueles que amo, escreva mais, viaje se tiver a força, e alcance novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso demandará audácia, clareza e conversas diretas; tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para alguma diversão (e até mesmo para alguma bobeira, sem dúvida).

Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global.

Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro. Regozijo-me ao encontrar jovens capazes – até mesmo aqueles que fizeram minhas biópsias e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Cada vez estou mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, das mortes de meus contemporâneos. A minha geração está de saída, e senti cada morte como uma ruptura, como se parte de mim se rasgasse. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas na verdade não há ninguém que seja como outro alguém, nunca houve. Quando as pessoas morrem, são insubstituíveis. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, e morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; ofereci muito, e recebi algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Comuniquei-me com o mundo com a comunicação especial dos escritores e leitores.

Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, nesse belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio, e uma aventura.

***

Comentário
O neurologista Oliver Sacks costuma referir-se a si mesmo como um “cientista romântico”, ele acredita que a mente não pode ser descrita de maneira mecanicista, e que a neurologia moderna só será completa quando considerar a forma icônica e sentimental com que experienciamos a consciência e armazenamos nossas memórias. Seus livros são verdadeiros dramas, descrevendo casos neurológicos sempre no contexto da vida e experiência pessoal de cada paciente. Muitos desses casos são devastadores, e somente a habilidade com a escrita (ele tem vários bestsellers no mundo todo) do autor faz com que a leitura seja pouco menos impactante do que um soco no estômago...

Sacks faz questão de destacar que cada doença é uma história, principalmente em se tratando de doenças da mente, algo ainda tão desconhecido, tão distante da visão mecanicista da ciência moderna. Em muitos casos as habilidades perdidas são compensadas por novas habilidades ganhas, o que fica muito bem explicado nos diversos casos de autistas savants descritos em seus livros – e principalmente no caso de Temple Grandin (tema principal do seu livro mais conhecido, Um antropólogo em Marte).

Com a súbita revelação de sua condição “terminal”, Sacks provavelmente ganhará muita audiência na fase final da vida, mas talvez pelos motivos errados... A morte não é, afinal, nada de novo em sua história, ou na história de qualquer um de nós. Sacks não se tornou um escritor querido no mundo todo pela forma como encarou a morte, mas pela forma como encarou e ainda encara a vida. Este estudioso do cérebro humano, mesmo sem se apoiar propriamente em nenhuma doutrina espiritualista, transcendeu as doenças e os distúrbios mais devastadores de que se tem notícia, com música, com afeto, com a tal “paixão desprovida de qualquer moderação”.

Sua partida será sentida por todos os seus leitores, amigos, pacientes e familiares, mas ele não será esquecido, pois viveu muito além das fronteiras de sua própria mente, e adentrou a vasta escuridão das mentes mais arruinadas, trazendo uma luz que vem muito mais do seu coração do que do seu conhecimento da medicina. Este sim, foi um curandeiro de almas, na acepção completa dos termos. Este sim, deixará imensa saudade. Este sim, cumpriu seu papel neste mundo.

E o que dizemos para seres assim? “Até a volta, Oliver, e obrigado por tudo!”

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Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação

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15.4.10

Reflexões sobre o mal, parte 3

continuando da parte 2...

A psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições.

A consciência do mal

Estive defendendo que Satanás é um mito, que não existe um ser que centraliza toda fonte do mal, e que os tais “mestres da escuridão” nada mais são do que seres mimados, incapazes de lidar com a frustração de seus desejos incontroláveis. Enfim, que o mal é apenas a ausência do bem, e que não existe em si mesmo, assim como a escuridão não existe – é apenas a ausência da luz.

Mas falava sobretudo do mal dito “sobrenatural”, como uma força que tinha o poder de influenciar os seres e guiá-los contra a vontade as ações mais diabólicas, com o perdão da palavra (o mito já contaminou a linguagem, não posso fazer nada). Ora, se é verdade que esse mal não existe, o mal que tem origem na ignorância de cada ser é bastante real, e bastante comum. A história da humanidade, apesar de todos os acertos da filosofia, da religião e da ciência, é permeada em todos os lados pela ignorância – essa ignorância que ainda nos permeará por muitas eras...

Sim os seres são influenciados, na verdade, pelos próprios vícios. E obviamente que, numa vida em sociedade, o vício de um pode influenciar o vício do outro. Não foi à toa que mesmo os grandes sábios da Grécia antiga praticamente não levantaram a voz contra a escravidão, que Hipátia de Alexandria foi queimada junto com a grande biblioteca, que as pessoas iam ver homens serem devorados por feras no Coliseu de Roma, e aplaudiam!

Felizmente, no entanto, estamos nessa lenta, lentíssima evolução moral. Passo a passo estamos seguindo a frente, ainda que sem pressa alguma: hoje não se queimam mais bibliotecas nem hereges, negociar e manter escravos é crime, e vamos ao Estádio Olímpico de Roma apenas para ver futebol – na maioria das vezes sem sangue derramado... Afinal o que nos move no caminho do bem e da virtude? Ora, dizem os sábios que é precisamente a aversão à consciência do mal praticado.

Ao encararmos o mal, fruto de nossa própria ignorância, em nós mesmos, ficamos escandalizados e procuramos melhorar. Nesse lento bater das águas na rocha dura, pouco a pouco lapidamos nossa alma, e transformamos um deserto de granito em uma praia de calcário. Certo, uma vida é muito pouco para tamanha transformação, mas há muitos sábios que dizem que é exatamente por isso que precisamos retornar ao mundo tantas e tantas vezes: é que as potencialidades não se edificam de uma vida para outra, há que se utilizar muitas delas!

Mas o cético, ou aquele que se deprime com essas “fantasias de almas e vida eterna”, dirá que o cérebro nada mais é do que o mero agitar de partículas, e que o mal nada mais é do que uma deficiência, uma psicopatia, uma falha do mecanismo cerebral... Estranho, no entanto, que tanto psicopatas quanto autistas tenham dificuldades de perceber suas emoções, sendo que os últimos geralmente não fazem mal a uma mosca, e os primeiros podem se tornar assassinos seriais. Quanto mistério dentro dessas partículas obscuras em nossa cabeça!

Em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, o neurologista Oliver Sacks nos traz uma história – um de seus inúmeros casos clínicos de pacientes com doenças mentais – que talvez nos ajude a iluminar esse paradoxo [1]:

“Donald matou sua namorada sob a influência do cloridrato de fenociclidina (PCP). Ele não lembrara do que fizera (...) e nem a hipnose nem o amital de sódio foram capazes de liberar essa lembrança. Concluiu-se, portanto, em seu julgamento, que não havia uma repressão de memória, mas uma amnésia orgânica – o tipo de blackout muito característico do PCP.

Os detalhes, revelados no inquérito, eram macabros, e não puderam ser expostos em audiência pública. Foram discutidos in câmera – ocultos do público e do próprio Donald. (...) Ele passou quatro anos em um hospital psiquiátrico para os criminalmente insanos – apesar de haver dúvidas quanto a ele ser criminoso ou insano. (...) “Não sou apto para viver em sociedade”, dizia, melancólico, quando questionado.

No quinto ano ele começou a sair em liberdade condicional, [e sofreu um acidente enquanto pedalava sua bicicleta, ao desviar de um carro em uma curva fechada] (...) Ele sofreu uma grave lesão na cabeça (...) e séria contusão em ambos os lobos frontais. Ficou em estado de coma, hemiplégico, por quase duas semanas, e então, inesperadamente, começou a se recuperar. Nesse estágio começaram os “pesadelos”.

O assassinato, o ato, antes perdido para a memória, agora se mostrava para ele em detalhes vívidos, quase alucinatórios [2]. Uma incontrolável reminiscência emergiu e o assoberbou (...) Seria isso um pesadelo, seria loucura ou haveria agora uma “hipermnésia” – a irrupção de lembranças genuínas, verídicas, aterradoramente intensificadas? (...) Ele agora conhecia o assassinato nos mínimos detalhes: todos os detalhes revelados pelo inquérito mas não no julgamento público – ou a ele.

[Com anos de tratamento] já não está mais obcecado [pelo assassinato]: foi atingindo um equilíbrio fisiológico e moral. Mas e quanto ao estado de memória, primeiro perdida e depois recuperada? Por que a amnésia – e o retorno explosivo? Por que o blackout total e depois os vívidos flashbacks? O que realmente aconteceu nesse drama estranho, meio neurológico? Todas essas questões permanecem um mistério até hoje.”

Os livros de Sacks nos dão vários exemplos de casos de pacientes com amnésia profunda que eventualmente conseguem se “realinhar” com a realidade e a época atual, seja de forma permanente – pelo sucesso do tratamento –, seja de forma temporária – por tratamentos alternativos, particularmente com uso de música. Em todo caso, esquecer e depois lembrar de atos imorais não necessariamente quer dizer que todos um dia irão sentir remorso em se lembrando com detalhes vívidos de seus atos no mal.

Talvez os psicopatas sejam “imunes” ao remorso para sempre. Talvez não exista nada após a morte e, portanto, tenhamos inúmeros exemplos de seres que foram psicopatas, sem remorso, ao longo de toda a vida. Nesse caso, bem e mal são como efeitos aleatórios de características de nosso cérebro, e talvez não exista nem Deus nem a vida após a morte, e muito menos um Céu ou um Inferno conforme nos diz a Bíblia...

Por outro lado, talvez exista algum tempo do outro lado do véu, e talvez esse tempo não seja nada amistoso para aqueles que acumularam atos imorais em sua própria consciência – esta que, mesmo nem sempre parecendo, registra absolutamente tudo a nossa volta. Nesse caso, talvez o remorso e a culpa um dia fatalmente venham cobrar seu quinhão a todos aqueles que têm o saldo devedor. Não se trata de mera especulação teológica, temos indícios de que isso pode ser verdade por toda a parte, e em todos os tempos.

Dito isso, acho prudente lembrar que Céu e Inferno só podem realmente ser o que dizem que são se estiverem impressos em nossa própria consciência, não num futuro distante, não num Dia do Juízo, não após a morte, mas hoje, neste exato momento: somos os juízes e os escravos de nossa própria consciência, não há parte alguma que possamos ir sem ela, não há como ignorá-la nem ludibriá-la por muito tempo...

Aquele que se apraz com o amor, a moral, a busca pela verdade, estará envolto no mais luminoso e paradisíaco Céu aonde quer que vá. Ao passo que aquele que se identifica com a própria ignorância, e rende-se a estagnação e ao deboche perante as leis naturais – que ainda não compreende nem o ínfimo –, este estará condenado ao mais tenebroso e obscuro Inferno, ainda que tenha todas as riquezas, todos os escravos, e todos os impérios do mundo. Ocorre que um já encontrou o amor, o caminho sem fim, e o outro ainda o ignora, e crê que esta é uma terra de sofrimento, de absoluta ausência de sentido – onde tudo é relativo e todas as coisas, no fim, se reduzem ao nada, ao abismo vazio de seu próprio ser.

Este caminho, todos temos de percorrer: deixem que as rodas percorram os velhos sulcos.

***

[1] Retirado do capítulo 19, “Assassinato”. O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, assim como vários outros do mesmo autor, todos recomendados.

[2] Qualquer semelhança com as análises da segunda parte de “O Céu e o Inferno” de Allan Kardec (ed. LAKE) talvez não sejam mera coincidência.

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Crédito da foto: Patrick Power

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29.3.10

Tecendo sentidos

O neurologista Oliver Sacks costuma referir-se a si mesmo como um “cientista romântico”, ele acredita que a mente não pode ser descrita de maneira mecanicista, e que a neurologia moderna só será completa quando considerar a forma icônica e sentimental com que experienciamos a consciência e armazenamos nossas memórias.

Seus livros são verdadeiros dramas, descrevendo casos neurológicos sempre no contexto da vida e experiência pessoal de cada paciente. Muitos desses casos são devastadores, e somente a habilidade com a escrita (ele tem vários best-sellers no mundo todo) do autor faz com que a leitura seja pouco menos impactante do que um soco no estômago...

Sacks faz questão de destacar que cada doença é uma história, principalmente em se tratando de doenças da mente, algo ainda tão desconhecido, tão distante da visão mecanicista da ciência moderna. Em muitos casos as habilidades perdidas são compensadas por novas habilidades ganhas, o que fica muito bem explicado nos diversos casos de autistas savants descritos em seus livros – e principalmente no caso de Temple Grandin (tema principal do “Um antropólogo em Marte”).

Em seu livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, ele faz uma curiosa classificação dos diversos tipos de doenças mentais: (1) Perdas – quando a mente perde habilidades de interpretação da realidade que nos chega pelos sentidos; (2) Excessos – quando a mente se torna incapaz de filtrar a informação que nos chega a cada segundo, e fica em uma espécie de “curto-circuito mental”; (3) Transportes – quando a mente perde a capacidade de diferenciar o sonho da realidade, no que muitas vezes pode ser considerado um misto de doença com experiência mística; e (4) O mundo dos simples – que descreve os retardos mentais, sempre considerando que a mente de um retardado é “muito mais do que se pode ver a primeira vista”.

Nota-se em seus livros, sobretudo, a busca incansável pela essência de nós mesmos, pelo mistério que se esconde entre a consciência e a inconsciência, pelo verdadeiro eu que interpreta a realidade, e não poderá nunca ser reduzido a mero computador, a computar – e não computar e interpretar e elaborar respostas morais – a informação sensorial.

Em muitos casos, mesmo os mais extremos, Sacks consegue identificar esse eu profundo, lutando para se impor sobre as dificuldades da doença e produzir um novo sentido para sua própria existência. Mesmo que oculto em meio à escuridão de certas doenças, o eu sempre é capaz de voltar à tona, seja ouvindo música, seja produzindo arte, seja exercendo a espiritualidade. Em nenhum momento Sacks fala em assuntos metafísicos – toda sua ciência é perfeitamente compatível com a matéria –, mas ele sempre leva em consideração que a ciência atual não tem uma resposta bem elaborada para o que diabos possa ser este eu profundo a tomar as rédeas da própria consciência, essa essência do ser que não é perdida nem nos casos mais extremos...

Particularmente nos casos de amnésia extrema, quando os pacientes perdem por completo a capacidade de reter novas memórias por mais do que alguns momentos – alguns, menos de um minuto –, percebemos o quanto essa busca pelo eu profundo pode ser complexa. Porém, mesmo nesses casos, onde o ser vive em um eterno e confuso presente, a essência não é perdida. Fica ela lá, armazenada em algum lugar entre o cérebro e a mente, em alguma gaveta etérea da consciência, sempre esperando pelo próximo sinal capaz de fazê-la emergir da escuridão do não-ser.

Uma melodia, o tocar das teclas de um piano, uma oração, seja o que for: se é que somos computadores, fomos “programados” para tecer sentidos. Se tudo o que somos é um tilintar aleatório de partículas no cérebro, se somos pouco mais do que “coisas biológicas”, que pelo menos não se afirme que muitos de nós se recusaram a se deliciar com a “doce ilusão” do ser. Que não se diga que muitos de nós se acomodaram em serem máquinas, e não espíritos!

Afinal, o que seriam nossas memórias, nossos registros atemporais da existência? Sabemos que ficam em nosso hipocampo, mas e daí? O que isso significa? Sacks passou boa parte da vida tentando resolver tal mistério (citando o pós-escrito do caso intitulado “Reminiscência” em “O homem que confundiu...”):

“Estimule-se um ponto no córtex de um paciente assim [descrevendo casos de “alucinações musicais”] e desenvolve-se, convulsivamente, uma evocação ou reminiscência proustiana. O que serviria de intermediário para isso? Que tipo de organização cerebral poderia permitir que isso acontecesse? Nossas concepções atuais sobre o processamento e representação cerebral são todas essencialmente computistas. E, como tal, são expressas em termos de “esquemas”, “programas”, “algoritmos” etc.

Mas será que esquemas, programas e algoritmos nos fornecem, por si sós, a qualidade ricamente visionária, dramática e musical da experiência – a vívida qualidade pessoal que faz dela uma “experiência”?

A resposta é, claramente, e até mesmo com veemência, “Não!”. Representações computistas jamais poderiam, por si sós, constituir representações “icônicas”, as representações que são o encadeamento e a essência da vida.

Assim, surge um hiato, na verdade um abismo, entre o que ficamos sabendo por nossos pacientes e o que os fisiologistas nos dizem. Existe algum modo de transpor esse abismo? [...] Existem conceitos além dos da cibernética com os quais possamos compreender melhor a natureza essencialmente pessoal [...] da mente?”

Sacks prossegue citando Sherrington em seu livro “Man on his nature”, onde este imagina a mente como um “tear encantado” a tecer padrões mutáveis porém sempre significativos – tecendo padrões de sentido:

“Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais.

[...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. “O registro cerebral” de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a “arte” – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação.”

Tal qual tecedores de tapetes mágicos, somos os eternos artistas de nós mesmos. Ainda que perdidos em poucos instantes de retenção da memória, ainda que tecendo desesperadamente um fio que logo depois se perde na escuridão do não-ser, estamos aqui lutando bravamente. Somos os grandes artistas da vida, resta-nos apenas reconhecer o quão belo e sagrado é todo esse mecanismo que nos permite existir – e existindo, tecer nossa própria história, nosso próprio sentido do existir.

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Crédito da foto: Dinorah

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16.4.09

Reflexões sobre a consciência, parte 1

Consciência: é uma qualidade da mente, considerando abranger qualificações tais como subjetividade, auto-consciência, sentiência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente.

Meio segundo depois

Consciência é algo que todos acreditam possuir, mas explicar com exatidão o que ela significa é um desafio que os pensadores encaram há muito tempo. Os pesquisadores modernos já se valem dos avanços da ciência e da filosofia, como o eletroencefalograma (EEG) - que capta sinais elétricos que fluem entre células do cérebro de forma não-invasiva e não-indolor, ou a noção Lockeana de que a consciência é "a percepção do que se passa na mente de um homem" - ou seja, antes de mais nada, um processo que não atua sozinho, mas depende do todo, incluindo memórias e estímulos sensoriais... No entanto tais pesquisadores ainda não chegaram na ponta do iceberg do chamado "problema difícil": como o cérebro produz a experiência de ser consciente?

Não temos a pretensão de encontrar uma resposta final a tal pergunta num futuro muito próximo (ou mesmo distante), mas podemos começar com uma reflexão de razoável bom senso acerca do "processo de se estar consciente": a todo segundo (de fato, a todo milésimo de segundo ou bem menos do que isso) somos bombardeados por ondas de partículas, são elas que nos trazem toda a informação que dispomos para analisar em nosso cérebro. Algumas não podem ser percebidas senão por intrumentos avançados, e serão inúteis para essa análise (ex: neutrinos - embora sejamos bombardeados por eles a todo instante)... Outras no entanto são essenciais para nossa experiência sensorial, sejam os fótons (luz) que nos permitem ver o mundo, ou a repulsão eletrostática (dos elétrons) que nos permite "tocar" em algo "sólido" e sentir alguma pressão nos dedos (ou em qualquer parte do corpo onde nossas terminações nervosas cheguem). Ao que tudo indica, nosso cérebro recebe a todo instante muito, mas muito mais informação, do que conseguimos perceber de forma consciente.

Em um de seus livros, o neurologista e pesquisador de casos extremos, Oliver Sacks, nos conta a história de um cego de nascença que através de uma cirurgia de catarata pôde enxergar (ou seja - deixar de ser cego) após já adulto, o que é algo extremamente raro mesmo nos dias atuais... Interessante que o homem vai a um zoológico e, observando um Elefante, não consegue "juntar suas partes". Ele vê uma tromba, uma enorme pata, uma orelha se movendo, e é incapaz de fundir todas essas informações visuais de forma a compreender aquilo tudo como uma única criatura... Somente após apalpar a miniatura de um Elefante é que o homem "começa" a compreender a forma visual de um Elefante, à distância, em perspectiva, se movendo pelo espaço e não apenas pelo tempo (quando somos cegos "enxergamos" as coisas de forma cronológica e não espacial). Resumindo, Sacks nos diz que levamos em torno de 15 anos para "aprender a enxergar como um adulto", e que não basta os olhos enviarem as informações trazidas pelos fótons ao cérebro - o cérebro precisa aprender a processar essas informações de forma a gerar uma resposta coerente a nossa consciência, e isso leva um baita tempo de acordo com Sacks.

Já outro neurologista, Benjamin Libet, ajudou a ciência a chegar ao entendimento de que: (1) a consciência envole uma pequena parcela da atividade cerebral; (2) a consciência parece perceber apenas um percentual mínimo de toda a informação que chega ao cérebro por vias sensoriais; (3) o cérebro despende de um enorme esforço para "gerar o processo consciente" pois une os estímulos sensoriais do mundo externo para produzir um modelo coerente de realidade. Para chegar a tais conclusões ele antes estimulou de forma bem fraca o cérebro de pacientes, e percebeu que os estímulos geravam "resposta" no cérebro, mas essa "resposta" não passava pela consciência - ou seja, eles não percebiam de forma alguma que estavam sendo estimulados. Ou, pode-se dizer, percebiam de forma inconsciente.

O mais incrível, entretanto, é que descobriu-se que estímulos não-reflexivos, ou que dependiam de algum tipo de "resposta do inconsciente", só "apareciam" para a consciência meio segundo depois... Isso mesmo, como se tudo o que escolhessemos fazer, desde mover um dedo a atravessar a rua no sinal correto, ocorresse 0,5s depois dos impulsos nervosos correspondentes bailarem pelo cérebro. Ou melhor, "como se fosse assim" não é a premissa ideal, pois hoje sabemos que sim, é assim. Interessante que estímulos reflexivos, como proteger os olhos com as mãos quando algum objeto é arremessado em sua direção, não passam pela consciência, e exatamente porisso operam em "tempo real", sem o meio segundo de atraso... talvez por não dependerem de resposta inconsciente alguma. E, de fato, nós não podemos "escolher" proteger os olhos, nosso reflexo é incondicional - somos obrigados a proteger-los.

Segundo o psicólogo Bernard Baars, os processos conscientes são aqueles que estão na "luz dos refletores" da atenção mental, enquanto os demais permanecem fora dos holofotes, guardados na memória para acesso imediato. Enquanto isso, os processos incoscientes trabalham nos bastidores - mas também integram a audiência mental e portanto respondem ao que está sob os refletores. Essa metáfora de um "teatro mental" na verdade é uma teoria analisada com seriedade pela ciência atual: a teoria do espaço global de trabalho.

Mas e qual a vantagem evolucionária de se gastar tanta energia no processo da consciência? Uma possível explicação está na noção de que a consciência é um meio de criar um modelo mental de realidade. Qualquer organismo possuidor de tal modelo pode fazer mais do que apenas reagir aos estímulos e rezar para que a resposta seja rápida o bastante para escapar dos predadores. Isso, por sua vez, sugere que indagar se um organismo é consciente pode não ser uma boa pergunta. A consciência pode apresentar gradações. Um inseto, por exemplo, apresentaria um modelo marcadamente menos sofisticado da realidade do que um humano.

Um inseto pode precisar recorrer a respostas inconscientes somente em raras ocasiões. Na imensa maioria delas pode operar de modo reflexivo, quando nenhuma escolha além da escolha de se preservar a vida se faz necessária... Em seres que pensam, que sentem emoções como o amor e o ódio, ou que foram suficientemente perspicazes para cunhar o termo "moral", talvez as escolhas sejam mais complexas, menos autômatas e mais indeterminadas - mas será que mesmo nesses casos o ser é livre para escolher a forma de agir?

Isso nós discutiremos à seguir, quando falo do livre-arbítrio, uma questão fundamental de nossa existência...

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Bibliografia recomendada: "Um antropólogo em marte" de Oliver Sacks (ed. Cia das Letras); "25 Grandes Idéias - como a ciência está transformando nosso mundo" de Robert Matthews (ed. Zahar).

Crédito da foto: Louie Psihoyos/Corbis

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