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20.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 2

Continuando da parte 1...

Por que existe algo, e não nada?

Outra grande questão filosófica e certamente existencial é a questão da existência em si. Não a existência de nós, seres humanos, ou deste planeta, ou das estrelas nos confins do universo, ou até mesmo do espaço-tempo como um todo... A questão é mais específica: porque afinal existe algo, e não nada?

Essa questão nos obriga a nos aproximar dos limites de nossa razão. Já dissemos que o nada não é o vazio a espera de ser preenchido, que o nada não pode existir já que obviamente alguma coisa existe. Então chegamos a dualidade coisa vs. não-coisa, que não deve ser compreendida como matéria vs. anti-matéria, ou qualquer outra coisa vs. alguma outra coisa qualquer. Esta coisa existe, é fato – e nesse caso, talvez sequer venha ao caso nos perguntar sobre o porque dela existir: se não existisse, não estaríamos aqui para fazer tal pergunta.

Ela compreende tudo que existe, toda matéria detectada e não-detectada, todas as galáxias e campos gravitacionais, todas as partículas em alvoroço quântico (seja em que dimensão ou universo estiverem) e, sobretudo, todos os pensamentos e idéias já formulados. Algo existe, algo incrivelmente infinito, eterno, mas que nos é profundamente desconhecido.

Em sua Ética, Benedito de Espinosa define de forma contundente, simples e genial o que seria esta coisa. Ele preferiu chamá-la de substância. Espinosa dizia que “uma substância não pode criar a si mesma”, e toda a razão e lógica estão ao seu lado. O grande apóstolo da razão era também cientista, e sabia muito bem que as substâncias apenas se transformam umas nas outras, e que absolutamente nada é criado ou aniquilado na natureza. Ora, se todas as bilhões e bilhões de partículas-substância do espaço-tempo não podem ter criado a si mesmas, e se derivam de alguma outra substância primordial, têm-se pela lógica que tal substância-primeira é a origem de tudo o que há. Não pode ter surgido do nada, pois nada pode surgir do nada. Não pode deixar de existir, pois o cerne do que compreendemos como “existir” depende dela. Não pode senão ser a substância primária de onde todas as outras se sub-dividiram e se transformaram.

Sim, Espinosa sabia. Sabia que no início de tudo, quando apenas esta substância fazia sombra a si mesma, nem mesmo o tempo e o espaço como o compreendemos existiam. Era a eternidade. A eternidade é a casa de tal substância, e graças as suas incessantes transformações, vivemos em um sistema-natureza onde o espaço-tempo nos possibilita ter a condição de viver em pelo menos três dimensões espaciais, e num fluxo incessante de tempo, o que possibilita nossa evolução.

Disso também se tira que estamos todos interligados. Como dizia o cientista Neil deGrasse Tyson: “Estamos todos conectados. Um ao outro, biologicamente; A Terra, de forma química; Ao universo, de forma atômica”. Tal é a profunda reflexão que mais dia menos dia chega a todo homem que observa a imensidão do Cosmos. Não necessariamente é preciso ser cientista para chegar a tal compreensão – Há mais de um século o indígena norte-americano, Chefe Seattle, chegou a uma conclusão bem parecida: "Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo."

Seja seguindo a teia do Chefe Seattle, ou aos átomos que apontam que somos poeira de estrelas longínquas, que explodiram em épocas remotas do universo, desejamos chegar ao mesmo lugar: ao local de onde fomos arremessados a incontáveis eras, e para o qual é nosso destino regressar. Este é o eterno retorno, o re-ligare... Porém, em nossa jornada de volta, passaremos de princípios inteligentes a deuses.

“Vós sois deuses”, dizia o rabi da Galiléia. No entanto, obviamente ainda somos deuses em formação, talvez quem sabe alunos do maternal na grande escola do Cosmos. Como fazer para vencer o vazio que há em nós, esta angústia de retornar para casa?

Ora, já dissemos que o vazio não é o nada. O vazio espera ser preenchido. O vazio é o lugar onde um deus em potencial pode se formar. O vazio se conecta a substância-primária – de alguma forma maravilhosa e incompreensível, sentimos que dentro de nós também arde uma fornalha cósmica. Lao Tsé não sabia dar nome a tal experiência, ao contato direto de tal substância incomensurável. Mas terminou por chamá-la simplesmente de Tao.

À seguir, o Tao e o vazio em nós.

***

Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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5.11.09

Pequenas mortes

Durante muitos séculos o conteúdo de nosso crânio foi percebido com algo relativamente sem importância. Quando mumificavam os mortos, os egípcios antigos lhes retiravam o cérebro e os jogavam fora, mas preservavam com todo cuidado o coração. O filósofo grego Aristóteles acreditava que o cérebro fosse um radiador para esfriar o sangue. René Descartes, filósofo e cientista francês, dedicou ao órgão um pouco mais de respeito, concluindo que ele era um tipo de antena pela qual o espírito poderia se comunicar com o corpo. Apenas agora se percebe toda a maravilha do cérebro.

A função básica do cérebro é manter o restante do corpo vivo. Porém, ele é também o órgão que nos possibilita ter a consciência de que estamos vivos, e que eventualmente iremos morrer.

Para os céticos, a morte compreende o cessar da consciência, exatamente quando o cérebro deixa de executar suas funcionalidades. Para os religiosos e espiritualistas em geral, a morte representa apenas uma passagem para um outro mundo, ou uma outra forma de existência, a qual muitos chamam de mundo espiritual. De qualquer forma, existe um sentimento que une a grande maioria de nós, do cético mais pragmático ao crente mais devoto: o medo da morte.

Há esta distinta idéia de retorno à escuridão, ao nada
Onde tudo o que construímos nessa longa estrada
Da vida, nada restará: não há homem são
Que não trema, com um assombro no olhar
Ante tal nefasto pensamento, uma existência inteira
A navegar pelo oceano à beira, tudo em vão,
Tudo perdido neste derradeiro momento:
Da água do mar ficará apenas o gosto amargo do sal
Do mundo, apenas uma brisa, uma curiosidade,
Uma ansiedade por saber de seu final
[1]

Entretanto, poucos se dão conta de que morremos já por todos os dias de nossas vidas.

Sto. Agostinho, o grande filósofo dos primórdios do cristianismo, já havia chegado a uma curiosa conclusão acerca do tempo: se o futuro ainda não existe e o passado já deixou de existir, o único tempo em que vivemos é o presente, ainda que não possamos medi-lo de forma alguma, já que o próprio ato de medir o presente, ou de pensar e refletir sobre o assunto, já o coloca em nosso passado. Todo o tempo que dispomos é este momento, aqui e agora. É aqui que a consciência opera, embora possa nos trazer lembranças do passado e expectativas do futuro, nós estamos sempre num incessante presente.

Há quem tenha se angustiado com tal pensamento, mas isso é uma outra história. O importante é que esta idéia, se bem analisada, pode nos trazer uma bela compreensão acerca da morte, e no mínimo aliviar um pouco nosso medo do Grande Nada. Ora, eis que, se a morte é o cessar da consciência, no momento presente, nós morremos toda vez que vamos dormir, e renascemos toda vez que nossa consciência volta à tona, ao acordarmos. Todos os dias de nossas vidas, além de nossas células que morrem e se renovam com o tempo, também nossa consciência opera pequenas mortes, e passamos praticamente 1/3 da vida “mortos”.

Porque então gostamos tanto de descansar, mas abominamos a idéia de morrer? Talvez porque a morte nada mais seja do que uma idéia, que de concreto não tem nada, a não ser no derradeiro momento em que passamos para o outro lado do véu.

O célebre filósofo grego Sócrates, ao ser condenado a morte pela ingestão de veneno, avisou a seus injustos acusadores de que não se poderia saber quem iria para um lugar melhor: ele, ou aqueles que permaneceriam em Atenas. Já Epicteto, o espírito iluminado do estoicismo grego, dizia que deveríamos viver sempre prontos para quando a embarcação ancorasse no porto e nos chamasse para a próxima viagem: não havia razão para nos digladiarmos com nosso medo da morte, pois que tudo o que está fora do alcance de nossa vontade não deveria sequer ser levado em consideração. Era melhor se preocupar com a vida.

Nossa tendência de evitar a mudança a todo custo é o principal foco de angústias ao longo da vida. É como tentar tapar o raio de sol com a peneira: não adianta, a natureza sempre vence, tudo vibra, tudo muda a todo momento. As células que constituem nosso corpo na idade avançada não são as mesmas células que o constituíam em nossa adolescência, absolutamente nenhuma delas – todas morreram. E quando perdem a capacidade de se renovar, também nosso relógio biológico avisa ao cérebro, o grande comandante: está na hora da próxima viagem.

E existem aqueles que crêem que isso é apenas o fim permanente da consciência. Mas mesmo entre os céticos há alguns mais poéticos, como Carl Sagan, que dizia que “viver na mente e no coração daqueles que nos amam, é viver para sempre”.

Mas não é possível viver para sempre. Graças à natureza, graças à evolução constante e incessante do Cosmos. Absolutamente tudo precisa seguir adiante, se renovar, por caminhos e mecanismos belíssimos e elegantes. A natureza faz com que tudo o que há navegue sempre em direção ao próximo farol, a próxima parada, e não podemos saber ainda aonde tudo isso vai desaguar.

Que se façam novas todas às coisas.
Assim sempre foi e sempre será.

***

[1] Trecho do meu poema, "O assombro no olhar".

Crédito das fotos: [topo] Wikipedia, [ao longo] Gustave Doré (a morte de Abel).

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26.10.09

Questões primordiais

Porque existe algo e não nada?

Como surgiu o universo?

Se a natureza é um sistema, qual a sua função?

De onde viemos?

Quem somos nós?

Para onde iremos?

Se o futuro ainda não existe e o passado já não existe mais, o que é o tempo?

O que, em nós, toma decisões morais?

Se Deus é onisciente, porque lhe pedimos algo?

Se todos nós respondemos as mesmas leis naturais, um evento sobrenatural não seria injusto?

O que é uma idéia inata?

O que é a consciência?

Se nós morremos todas as noites, e renascemos todos os dias, porque tememos a morte?

Se tudo o que somos é resultado do movimento de partículas, porque acreditamos que devemos punir decisões alheias?

Será melhor amar e perder, ou nunca ter amado?

Será melhor existir e sentir dor, ou nunca ter existido?

Porque se preocupar com eventos além de nossa vontade?

Tempo é dinheiro, tempo para (...)?

Viver para (...)?

***

Crédito da foto: David Gutierrez

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18.4.09

Reflexões sobre a consciência, parte 2

continuando da parte 1...

Livre-arbítrio: é a crença ou doutrina filosófica que defende que a pessoa tem o poder de escolher suas ações.

O que é liberdade afinal?

Carlos é um bombeiro veterano, que durante a carreira arriscou a vida inúmeras vezes para salvar pessoas de situações de morte certa. Roberto é um ex-presidiário que após um longo tempo na prisão tenta aos poucos se readaptar a sociedade de forma honesta, e atualmente trabalha como vendedor em uma loja de celulares. Em um dado dia em específico, ambos estão caminhando na mesma rua, e percebem que há um prédio em chamas. Numa observação mais cuidadosa, percebem que uma criança pede socorro na janela do segundo andar... Talvez seja possível ainda salvar a criança se alguém corajoso entrar rapidamente no prédio nesse exato momento, ainda que arriscando a própria vida. Essa é uma escolha complexa: arriscar a própria vida para resgatar um semelhante, ou preservar a sua vida e assistir uma criança morrer de forma pavorosa? - é nesse sentido que vamos aqui discutir o livre-arbítrio (em oposição a, por exemplo, "escolher" se curar de um vírus ou ganhar na loteria, pois sabemos que toda liberdade é obviamente limitada pelas leis naturais, e pelas leis de probabilidade).

Considerado o exemplo do parágrafo acima, vamos analisar algumas teorias científicas acerca do livre-arbítrio e de sua relação com a consciência:

Segundo o filósofo Daniel Dennet, não existem coisas como experiências subjetivas; em vez disso ele propõe que o cérebro é um computador que possui informações de diferentes fontes com uma disposição para um comportamento particular e uma habilidade para distinguir entre estímulos diferentes. Trata-se de um complexo sistema de informação e modulação de informação sem nenhuma experiência subjetiva. Seguindo o que expomos anteriormente, Dennet basicamente postula que o "teatro mental" de Baars, o que subjetivamente experienciamos como o processo de consciência, nada mais é que uma disponibilidade global de informações, interpretadas pelo cérebro de maneira determinista sem que tenhamos realmente nenhuma possibilidade de escolha subjetiva sobre "o que fazer à seguir". Muitos outros neurologistas e materialistas convictos postulam que nossas escolhas conscientes, nossa subjetividade, nossa moralidade ou imoralidade, nada mais são do que a consequência de certas interações de partículas em nosso cérebro - de fato, não é possível se declarar materialista sem concordar ao menos parcialmente com isso.

Se corretas, no entanto, essas teorias significam que nossas vidas seriam completamente determinadas por nossos genes e pelo ambiente que nos cerca, e por conseguinte não haveria lugar para as responsabilidades. Ninguém mais seria responsável ou teria algum tipo de obrigatoriedade, e muito menos qualquer tipo de mérito e/ou demérito atrelado a qualquer escolha ou ação "subjetiva e moral" - Bombeiros que salvam vidas nada mais seriam do que seres guiados por interações específicas de partículas em seus cérebros, eles nunca tiveram a "escolha" de serem altruistas ou heróis. Da mesma forma, terroristas e assassinos também não teriam "culpa" alguma por seus atos: a "culpa" fica por conta das interações de partículas em seus cérebros.

Nesse sentido, o determinismo materialista não seria muito distante do determinismo divino. Não importa se são reações químicas iniciadas pelo baile de partículas cerebrais, ou se é a "mão de deus" em ação: em ambos os casos tudo o que realizamos, pensamos e sentimos não é fruto de nossa vontade ou escolha, mas fruto de um determinismo onipresente em todo o espaço-tempo. Nesse sentido, a mera discussão filosófica sobre o assunto (ou qualquer outro assunto) se torna obsoleta de antemão, pois não somos nós que escolhemos discutir, e sim as partículas ou a "mão de deus"... Não sou eu quem está digitando este texto e nem você que o está lendo, somos meros fantoches do determinismo! E, não sei quanto a você, mas pelo bem da filosofia (e de tudo o mais) acho mais saudável considerarmos outras hipóteses... Até mesmo porque o materialismo é apenas uma teoria não comprovada, e como já devemos ter percebido a essa altura, o conhecimento do homem acerca do processo de consciência ainda está engatinhando.

Uma outra teoria para o problema foi postulada pelo anestesista Stuart Hameroff e pelo matemático Roger Penrose, e se chama teoria dos processos quânticos. Ela se baseia no princípio de que no mundo microscópico das partículas isoladas, o princípio da incerteza e a mecânica quântica fazem com que diversas "escolhas" estejam superimpostas, e não podemos saber em dado momento, com antecedência, qual delas será tomada - mais ou menos como se qualquer escolha fosse tão aleatória quanto os processos quânticos no nível subatômico. Eles propõem que a consciência nasce de estruturas minúsculas semelhantes a tubos, feitas de proteínas, que existem em todas as células do corpo, incluindo as do cérebro. Segundo a chamada teoria da Redução Objetiva Orquestrada (Orch OR, em inglês) - que deriva da primeira - a qualquer momento podem ocorrer vários estados quânticos e possibilidade nas células cerebrais, e quando uma decisão é tomada, ela é o resultado do colapso de um estado, que então alcança a consciência. Em suma, segundo Hameroff e Pensore, pensamentos e escolhas não são pré-determinadas, muito embora nosso controle sobre elas continue um tanto precário. Não diríamos, usando o exemplo do primeiro parágrafo, que Carlos "escolheu" salvar a criança porque era altruista, mas sim porque de alguma forma, sua "tendência para o altruismo" afetou os estados quânticos de suas células cerebrais, tornando a "possibilidade da escolha altruista" maior, embora fosse ainda apenas uma probabilidade. Morre o determinismo, nasce o semi-aleatório, mas não saímos muito do lugar...

Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Ele dizia:

"Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'" - em suma, Eccles apenas defendia uma característica até mesmo óbvia que surpreendentemente escapou ao olhar atento de muitos cientistas (e ainda escapa): que alguma coisa em nós faz escolhas, simples e complexas, e que não sabemos exatamente onde esse 'eu' está fisicamente no cérebro (se é que está lá, ou apenas lá).

Outro defensor dessa teoria é Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia. Diz ele que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceitualmente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo vídeos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje. Dessa forma, assim como os físicos continuam tentando descobrir novas partículas exóticas de matéria (muitas das quais, como o bóson de Higgs, por enquanto existem apenas em teoria), a consciência pode ser formada por alguma matéria dentro dos cerca de 96% ainda não descobertos pela ciência, segundo a teoria da Matéria Escura.

O que é liberdade afinal? Talvez seja apenas uma ilusão criada pelo processo consciente, para que a matéria orgânica conheça a si mesma, embora não tenha nenhum tipo de liberdade de escolha... Talvez, como no caso do bombeiro e do ex-presidiário, as escolhas complexas, morais, dependam de uma análise cuidadosa do inconsciente, que pode estar conectado permanentemente a uma "entidade" que governa o cérebro e seus processos... Nesse caso, o cérebro nada mais seria do que uma ferramenta nas mãos de um operário consciente, e pensamentos nada mais seriam do que as ordens dadas por tal operário... Mas, será que temos condições de compreender esse operário que se esconde da ciência, enfurnado em nosso inconsciente?

À seguir, o que a sabedoria milenar do oriente, a parapsicologia e as teorias espiritualistas tem a dizer sobre o assunto...

***

Bibliografia recomendada: "O tecido do cosmo" de Brian Greene (ed. Cia das Letras); "O que acontece quando morremos" de Sam Parnia (ed. Larousse). Este vídeo também explica muito bem o experimento de dupla fenda da mecânica quântica (dualidade onda/partícula).

Crédito da foto: Jaume Fernandez

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16.4.09

Reflexões sobre a consciência, parte 1

Consciência: é uma qualidade da mente, considerando abranger qualificações tais como subjetividade, auto-consciência, sentiência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente.

Meio segundo depois

Consciência é algo que todos acreditam possuir, mas explicar com exatidão o que ela significa é um desafio que os pensadores encaram há muito tempo. Os pesquisadores modernos já se valem dos avanços da ciência e da filosofia, como o eletroencefalograma (EEG) - que capta sinais elétricos que fluem entre células do cérebro de forma não-invasiva e não-indolor, ou a noção Lockeana de que a consciência é "a percepção do que se passa na mente de um homem" - ou seja, antes de mais nada, um processo que não atua sozinho, mas depende do todo, incluindo memórias e estímulos sensoriais... No entanto tais pesquisadores ainda não chegaram na ponta do iceberg do chamado "problema difícil": como o cérebro produz a experiência de ser consciente?

Não temos a pretensão de encontrar uma resposta final a tal pergunta num futuro muito próximo (ou mesmo distante), mas podemos começar com uma reflexão de razoável bom senso acerca do "processo de se estar consciente": a todo segundo (de fato, a todo milésimo de segundo ou bem menos do que isso) somos bombardeados por ondas de partículas, são elas que nos trazem toda a informação que dispomos para analisar em nosso cérebro. Algumas não podem ser percebidas senão por intrumentos avançados, e serão inúteis para essa análise (ex: neutrinos - embora sejamos bombardeados por eles a todo instante)... Outras no entanto são essenciais para nossa experiência sensorial, sejam os fótons (luz) que nos permitem ver o mundo, ou a repulsão eletrostática (dos elétrons) que nos permite "tocar" em algo "sólido" e sentir alguma pressão nos dedos (ou em qualquer parte do corpo onde nossas terminações nervosas cheguem). Ao que tudo indica, nosso cérebro recebe a todo instante muito, mas muito mais informação, do que conseguimos perceber de forma consciente.

Em um de seus livros, o neurologista e pesquisador de casos extremos, Oliver Sacks, nos conta a história de um cego de nascença que através de uma cirurgia de catarata pôde enxergar (ou seja - deixar de ser cego) após já adulto, o que é algo extremamente raro mesmo nos dias atuais... Interessante que o homem vai a um zoológico e, observando um Elefante, não consegue "juntar suas partes". Ele vê uma tromba, uma enorme pata, uma orelha se movendo, e é incapaz de fundir todas essas informações visuais de forma a compreender aquilo tudo como uma única criatura... Somente após apalpar a miniatura de um Elefante é que o homem "começa" a compreender a forma visual de um Elefante, à distância, em perspectiva, se movendo pelo espaço e não apenas pelo tempo (quando somos cegos "enxergamos" as coisas de forma cronológica e não espacial). Resumindo, Sacks nos diz que levamos em torno de 15 anos para "aprender a enxergar como um adulto", e que não basta os olhos enviarem as informações trazidas pelos fótons ao cérebro - o cérebro precisa aprender a processar essas informações de forma a gerar uma resposta coerente a nossa consciência, e isso leva um baita tempo de acordo com Sacks.

Já outro neurologista, Benjamin Libet, ajudou a ciência a chegar ao entendimento de que: (1) a consciência envole uma pequena parcela da atividade cerebral; (2) a consciência parece perceber apenas um percentual mínimo de toda a informação que chega ao cérebro por vias sensoriais; (3) o cérebro despende de um enorme esforço para "gerar o processo consciente" pois une os estímulos sensoriais do mundo externo para produzir um modelo coerente de realidade. Para chegar a tais conclusões ele antes estimulou de forma bem fraca o cérebro de pacientes, e percebeu que os estímulos geravam "resposta" no cérebro, mas essa "resposta" não passava pela consciência - ou seja, eles não percebiam de forma alguma que estavam sendo estimulados. Ou, pode-se dizer, percebiam de forma inconsciente.

O mais incrível, entretanto, é que descobriu-se que estímulos não-reflexivos, ou que dependiam de algum tipo de "resposta do inconsciente", só "apareciam" para a consciência meio segundo depois... Isso mesmo, como se tudo o que escolhessemos fazer, desde mover um dedo a atravessar a rua no sinal correto, ocorresse 0,5s depois dos impulsos nervosos correspondentes bailarem pelo cérebro. Ou melhor, "como se fosse assim" não é a premissa ideal, pois hoje sabemos que sim, é assim. Interessante que estímulos reflexivos, como proteger os olhos com as mãos quando algum objeto é arremessado em sua direção, não passam pela consciência, e exatamente porisso operam em "tempo real", sem o meio segundo de atraso... talvez por não dependerem de resposta inconsciente alguma. E, de fato, nós não podemos "escolher" proteger os olhos, nosso reflexo é incondicional - somos obrigados a proteger-los.

Segundo o psicólogo Bernard Baars, os processos conscientes são aqueles que estão na "luz dos refletores" da atenção mental, enquanto os demais permanecem fora dos holofotes, guardados na memória para acesso imediato. Enquanto isso, os processos incoscientes trabalham nos bastidores - mas também integram a audiência mental e portanto respondem ao que está sob os refletores. Essa metáfora de um "teatro mental" na verdade é uma teoria analisada com seriedade pela ciência atual: a teoria do espaço global de trabalho.

Mas e qual a vantagem evolucionária de se gastar tanta energia no processo da consciência? Uma possível explicação está na noção de que a consciência é um meio de criar um modelo mental de realidade. Qualquer organismo possuidor de tal modelo pode fazer mais do que apenas reagir aos estímulos e rezar para que a resposta seja rápida o bastante para escapar dos predadores. Isso, por sua vez, sugere que indagar se um organismo é consciente pode não ser uma boa pergunta. A consciência pode apresentar gradações. Um inseto, por exemplo, apresentaria um modelo marcadamente menos sofisticado da realidade do que um humano.

Um inseto pode precisar recorrer a respostas inconscientes somente em raras ocasiões. Na imensa maioria delas pode operar de modo reflexivo, quando nenhuma escolha além da escolha de se preservar a vida se faz necessária... Em seres que pensam, que sentem emoções como o amor e o ódio, ou que foram suficientemente perspicazes para cunhar o termo "moral", talvez as escolhas sejam mais complexas, menos autômatas e mais indeterminadas - mas será que mesmo nesses casos o ser é livre para escolher a forma de agir?

Isso nós discutiremos à seguir, quando falo do livre-arbítrio, uma questão fundamental de nossa existência...

***

Bibliografia recomendada: "Um antropólogo em marte" de Oliver Sacks (ed. Cia das Letras); "25 Grandes Idéias - como a ciência está transformando nosso mundo" de Robert Matthews (ed. Zahar).

Crédito da foto: Louie Psihoyos/Corbis

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