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7.6.19

A superação da humanidade

Para viver precisamos comer e beber. No entanto, a questão filosófica e ética é se devemos comer apenas o suficiente para nos manter vivos, ou se, por outro lado, um alto grau de permissividade e sensualidade deste prazer poderia ser vantajoso. Trata-se da questão ética de como lidamos com nossos desejos?

Quando ansiamos por adquirir muito daquilo que nos falta, assim como com a comida, nos empantufamos em sua abundância. O excesso de nossos desejos pode trazer diversos infortúnios, não só azia e má digestão.

Platão refletiu sobre esse assunto, e tanto na República quanto em Fédon propôs o ascetismo como modelo de vida para o filósofo. O homem sábio deveria saber se separar do corpo e suas necessidades – respeitando o mínimo para a manutenção da vida – permanecendo com reserva em relação aos prazeres excessivos. Deveríamos, desde já, praticar o “desapego para a morte”.

Mas, quantos de nós, mesmos com as considerações relativas à saúde, desejaríamos realmente abandonar os prazeres do corpo, tal como a necessidade de comer?

Quando Platão propões a austeridade sobre nossos desejos, ele pensava que nenhuma pessoa reflexiva gostaria de se ver escravizada por seus desejos. Um ser humano desligado gradualmente de todos os apegos e preocupações de natureza instáveis – como o amor, o sexo, a ânsia de poder ou a ganância de dinheiro – se liberta também dos seus respectivos conflitos.

A ética platônica diz que a superior harmonia filosófica provém da diminuição do número de “compromissos” mundanos que mantemos, pois consequentemente estamos menos sujeitos às tormentas que tais compromissos nos trazem. Cultivamos, como um exercício espiritual, um estado de paz para a morte.

Se grande parte das coisas são fontes de dor e sofrimento para um ser racional, o ascetismo filosófico é um remédio para o tormento. Mas não era o que pensava Nietzsche, que viu na filosofia platônica o culto à morte e a negação da vida.

Nietzsche escreve que o pensamento platônico é produto do ressentimento metafísico de quem odeia essa vida e espera uma vida melhor num outro mundo que talvez sequer exista. Ironicamente, Nietzsche, que nunca leu Platão com muita atenção, chega ele mesmo a uma solução platônica ao problema platônico.

Platão dizia que deixar de lado nossos desejos humanos seria abandonar, de certo modo, nossa condição de seres humanos. É surpreendente que Nietzsche, com todo seu antiplatonismo, chega a mesma conclusão em sua filosofia de afirmação da vida e negação da metafísica, seja na figura do além-do-homem ou de Zaratustra que anuncia uma nova moral para a humanidade.

Tanto Platão quanto Nietzsche, cada um ao seu modo, estavam profundamente insatisfeitos com a humanidade e achavam que a solução deveria ser superá-la. Ambos veem no homem a fraqueza de seus desejos, e seja pela via da austeridade ou pela via do seu esgotamento, precisaríamos nos tornar um novo tipo de homens e mulheres.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Giammarco Boscaro/Unsplash

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26.2.18

O problema do niilismo: a reação romântica

Como vimos no texto anterior, o racionalismo apostava que o avanço da razão instrumental e o aprimoramento da técnica tornariam a vida humana mais satisfatória. Os primeiros racionalistas acreditavam – e muitos atuais ainda compartilham a crença – que os problemas da humanidade eram apenas uma questão técnica. O progresso tecnológico e o avanço do conhecimento científico seriam cada vez mais capazes de resolver os problemas humanos, conduzindo-nos a uma vida plena e feliz.

O que vemos na realidade é justamente o contrário. O mundo da razão, embora tenha nos trazido maiores facilidades, conforto e segurança, não foi capaz de solucionar os problemas existenciais da humanidade.  Ao invés disso, o problema do niilismo se tornou mais evidente. Índices de depressão, ansiedade e outras questões de saúde mental são cada vez mais alarmantes na modernidade.

Se, por um lado, o racionalismo avançou na instrumentalidade e no domínio da natureza, por outro apartou o ser humano das condições que dotavam sua vida de sentido. O espírito racionalista desfez-se das antigas tradições, e com elas, o senso de comunidade e o pertencimento do homem a uma história cultural, racial e familiar.

A mudança da vida rural para a urbana também implicou numa profunda transformação na vida social e subjetiva. Primeiramente, pelo contato com as grandes aglomerações. Diferente da vida rural em que o homem vivia em pequenas comunidades cujos membros pensavam mais ou menos de maneira igual, nas grandes cidades o homem passou a estar em contato com uma maior diversidade quanto aos modos de existir. No entanto, nosso funcionamento é mais tribal do que gostaríamos de admitir. Temos o desejo de formar pequenas comunidades de pessoas afins, que pensam como nós e com quem temos alguma identificação. Nossos amigos. O que faz com que nos grandes aglomerados urbanos, grande parte das pessoas seja na realidade indiferente para nós, e que nós sejamos indiferentes para elas.

O fenômeno da solidão urbana tornou-se cada vez mais sensível. Diante de muitas pessoas, o homem passou a se sentir cada vez mais sozinho, já que a presença de muitas pessoas, antes de representar reais companhias, recorda que a maioria delas pouco tem a ver com ele. O homem se sente sozinho numa multidão. Consequentemente, cresce a sensação de indiferença entre as pessoas. Se no mundo rural todos são conhecidos e próximos, na vida urbana cada um deve seguir sua vida sem muita proximidade, pois a aproximação repentina logo é desconfiável quanto às intenções.

A mudança do modo de vida rural para o urbano também alterou a relação do homem com a natureza. Se antes o homem possuía uma conexão com a terra em que nasceu, terra em que trabalhava, com os animais daquela região, a natureza se tornou cada vez mais estranha ao espírito urbano. O homem perdeu o senso de pertencimento a terra, que antes representava o lar histórico para si e seus familiares, e que agora lhe pertence apenas enquanto paga o aluguel. Isto quando não precisa mudar de território em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Já aos animais resta viverem confinados a pequenos espaços ou condenados a serem pragas urbanas a ser exterminadas.

Essas transformações criaram no homem a sensação de alienação em relação à natureza, esta que fora tão importante nas sociedades tradicionais. A natureza – em sua magnanimidade – relembra o homem de uma transcendência maior do que si mesmo. Tal é o sentimento de reverência e profundidade que temos ao admirar uma grande montanha, uma bela paisagem litorânea ou uma floresta cheia de vida. Todo o contato do homem com a natureza dá-se hoje, de modo controlado, reduzindo os riscos que a natureza pode representar, lembrando-nos muito pouco de sua magnanimidade.

Assim como a instrumentalidade dominou a relação do homem com a natureza, ela também tem se apoderado das relações entre pessoas. É cada vez maior a queixa de que as relações modernas são excessivamente utilitárias, marcadas por investimentos pessoais pragmáticos e que pouco atendem as necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

O homem moderno, alienado do contato humano e da natureza, encontrou no mundo da razão – o mesmo que prometia através do avanço da técnica o fim de tudo que representava dor e sofrimento: doenças, conflitos, mortes desnecessárias – uma angústia tal qual nunca antes havia experimentado.

No mundo tradicional, o homem lidava com a angústia através de uma crença metafísica reconfortante. Os mitos, lendas e narrativas religiosas estabeleciam uma ordem no mundo, um sentido para os acontecimentos, e assim o homem se sentia amparado pelos seus símbolos. O racionalismo científico demonstrou que os mitos não eram reais, e a fé parecia primitiva em relação à potência da razão. O Universo se tornou explicável cientificamente, mas ausente de qualquer sentido ou ordem. O mundo e a vida existem por alguma aleatoriedade, e nada possui um sentido maior do que aquele que nos iludimos em imaginar. No entanto, confrontar-se com este niilismo pode ser muito angustiante.

Se os conservadores condenam o niilismo, fonte do sentimento de angústia e desamparo, buscando retornar a um modelo de vida tradicional, os racionalistas acreditam no uso da razão instrumental para suplantar os problemas da existência. Para um racionalista, em algum momento a ciência alcançará o progresso tecnológico que solucionará as dores humanas. Testemunhamos isso quando as neurociências prometem a cura para os problemas existenciais através da manipulação das transmissões bioquímicas do cérebro. Como se, ironicamente, dissessem: se a vida não pode ser vivida com sentido, ela pode ser dopada com medicamentos psiquiátricos que vão nos anestesiar e provocar uma sensação de felicidade produzida.

Para muitos racionalistas parece uma solução perfeita. No entanto, para a maioria das pessoas isso soa como uma distopia digna de ser retratada num episódio da série Black Mirror. Um mundo desprovido de experiências autênticas, cuja única saída é anestesiarmos nossas angústias.

A ciência foi impotente para resolver os problemas existenciais. E por conta da sua indiferença às questões de valor, ela pouco pode nos auxiliar com questões éticas. Sabemos, por exemplo, que existiu uma intensa atividade científica no regime nazista, e a própria ciência já foi utilizada para justificar as maiores atrocidades. A técnica e a razão instrumental são armas cegas nas mãos de grupos que detém o poder e podem agir a despeito de qualquer compromisso ético.

É como uma reação a esse mundo triste fundado pelo racionalismo que surgiu o movimento artístico-filosófico do romantismo.

Os problemas existenciais, diriam os românticos, são patológicos – isto é, da lógica do pathos, das paixões. Lidar com o ser humano, e todas suas questões existenciais, é lidar com as paixões humanas. Campo no qual a ciência e a razão instrumental são inférteis.

O romantismo questionou a centralidade da razão. O homem moderno criou a ideia de si mesmo como um ser extremamente racional, mas tal racionalidade raramente é encontrada na maioria dos seus comportamentos. Filósofos como Schopenhauer e Nietzsche entendiam que o ser humano é governado por forças, vontades e instintos mais profundos. O homem é movido pela paixão, não pela razão. Os racionalistas, ao promoverem um mundo instrumental, destituíram o lugar das paixões, que foram reprimidas em nome de ideais supostamente racionais.

Segundo os românticos, os racionalistas estavam iludidos por suas crenças supostamente racionais. A razão, embora importante ao homem, não é o principal norteador do comportamento humano, mas está subordinada às paixões. Um racionalista é assim alguém que se crê racional, mas em seu íntimo está motivado por um afeto que o cega de sua própria irracionalidade.

O espírito romântico representou a rebeldia e o inconformismo com a incapacidade do racionalismo em oferecer o progresso que havia prometido. Foi também uma tentativa de entender e aceitar a natureza humana como ela realmente era, sem as idealizações da razão e da fé.

Se os racionalistas estavam, pela ciência, excessivamente interessados na realidade externa, os românticos voltaram para si mesmos. O palco da investigação romântica era o próprio espírito humano, capaz das maiores realizações da sociedade, mas também dos atos mais mesquinhos. Através da arte, demonstrava-se a criatividade, o grotesco e o sublime. A literatura representava o drama humano, seus ideais utópicos e seus desejos paradoxais. O sonho e a fantasia foram valorizados como forças criativas. Os autores românticos foram assim os grandes fomentadores da vida subjetiva, de uma existência de grande profundidade interior.

Num mundo indiferente e solitário, utilitarista e burocrático, os românticos se dedicaram a buscar uma vida autêntica como forma de superação das angústias modernas. Mas o que seria a autenticidade? Para os românticos, somos autênticos quando agimos a partir de nossas verdadeiras paixões, para além das convenções sociais ou ideais racionalistas.

A paixão é um afeto irracional. Ela não pode ser explicada, e pouco se submete a moral ou às tradições. Os desejos humanos podem ser contraditórios e contrários – mas isso não significa que sempre sejam – às demandas que o mundo coloca sobre nós. Encontrar uma vida autêntica pode muitas vezes significar entrar em conflito com a sociedade, pensamentos moralistas e desejos de outras pessoas. Ousar enfrentá-los é visto pelo romantismo como o preço para o homem encontrar a sua felicidade.

Importante situar que paixão assume um significado para além de um relacionamento amoroso-romântico entre duas pessoas. A paixão é todo tipo de afeto que liga o homem a alguma coisa, fazendo-o lutar por ela. Sua paixão pode ser um trabalho, uma ideologia, uma filosofia, uma ética de vida, e por aí vai.

Sabemos da força que o homem adquire quando está apaixonado. Se apaixonado por um homem ou uma mulher, ele desafia as impossibilidades e impedimentos para conquistar seu amor. Se ama sua pátria, ele se atira contra o exercício inimigo, sacrificando sua própria vida em nome da bandeira que carrega. Quando ama uma tarefa, realiza-a por paixão, mesmo quando suas forças lhe esgotam.

Os românticos encontraram na paixão a possibilidade de dotar a vida de sentido e valor, sem necessariamente apelar para explicações metafísicas, como faziam as tradições religiosas. O romantismo encontrou no amor – a possibilidade de encontrarmos uma paixão que nos faça desejar a vida mesmo com suas dificuldades e fracassos – a superação do niilismo.

Nietzsche falava do amor fati, amar a vida que possuímos mesmo com suas imperfeições. Camus dissertou sobre um Sísifo feliz que, mesmo diante do absurdo de uma existência sem sentido, estava satisfeito pela possibilidade de estar vivo realizando alguma coisa. Os românticos desvelaram assim um outro aspecto do niilismo.

Se o niilismo negativo é conhecido pela destruição dos antigos valores, pela falta de sentido para a vida, o niilismo positivo é justamente a criação de novos sentidos para a existência. É porque o sentido da vida não está dado, imposto pelas tradições e os laços simbólicos do passado, que o homem é livre para se apropriar de sua história e criar seu próprio sentido.

Superar o niilismo converte-se assim numa tarefa existencial. No mundo moderno, como nos faltam os referenciais simbólicos do mundo antigo – que, se por um lado eram amparadores, por outro podiam ser grilhões ao devir humano – somos livres para encontrar nossos próprios referenciais e criarmos a nossa vida a partir de nosso desejo. Nasce a ideia de que a vida não está dada, ela precisa ser conquistada. É preciso que o homem enfrente suas angústias, percorra um caminho próprio e autêntico, adquira maturidade, e assim encontre a profundidade do seu ser.

Realizar essa tarefa é o que diferenciaria aqueles que vivem uma vida autêntica daqueles que não tiveram a coragem de dar esses passos. Ainda assim, o sentido é sempre singular. Não se trata mais de um sentido da comunidade, mas cada sujeito deve encontrar os seus próprios valores. E se não há mais uma moral imposta para nos guiar, diria Nietzsche, como encontrar valores autênticos? Segundo o romantismo, através dos sentimentos.

O romantismo entende que os sentimentos são os indicadores da nossa autenticidade. Para o homem ser feliz, ele deve se guiar pelos seus reais sentimentos. O romantismo assume assim uma valorização do mundo interno, da subjetividade e das emoções humanas, colocadas em primeiro plano na questão existencial.

Para nós modernos, profundamente influenciados por essa ideia, parece óbvio pensar assim. Mas é preciso dar um passo atrás e perceber que antes do romantismo essa ideia não fazia tanto sentido como nos parece hoje. Por exemplo, se na Idade Média um homem procurava um padre para saber se deveria se casar ou não com uma mulher, o padre iria orientá-lo a partir das escrituras sagradas. Hoje, se você procurar um psicólogo ou um psicanalista com a mesma questão, ele lhe fará perceber como seus sentimentos lhe orientam em relação a essa pergunta.

Não é mais na tradição que o homem deve encontrar as respostas para sua vida, mas no seu íntimo, em seus desejos, como um verdadeiro romântico. Tal visão se tornou tão popular que é possível que até mesmo um padre mais moderno respondesse como um psicólogo se lhe fosse feita essa pergunta. O romantismo subjetivista da modernidade substituiu a moral das sociedades tradicionais como norteador ético.

Se um homem está insatisfeito com seu casamento, num mundo tradicional ele seria obrigado a se responsabilizar pelos votos simbólicos assumidos. Hoje entendemos que o sentimento deve se sobrepor à moral. Não nos espanta que alguém insatisfeito peça divórcio se o casamento não lhe vai bem. Afinal, o sentimento é mais importante que o código social. Os próprios códigos sociais se tornaram mais flexíveis, refletindo que sim, os sentimentos são mais importantes que as leis simbólicas dos homens, da sociedade e dos deuses.

O romantismo deslocou assim o problema do niilismo para uma questão sentimental, uma questão de amor. Não o amor sexual – embora na maioria das vezes seja dele que se trata – mas do amor enquanto paixão por algo que eleve o homem acima de si mesmo, sendo capaz de dotar sua vida de sentido. O mote de um romântico moderno bem poderia ser “faça o que você ama e sua vida terá sentido”.

Finalmente, a modernidade pode ser definida como o conflito entre racionalistas e românticos, em que ambas vertentes filosóficas coexistem numa complexa síntese. Vivemos numa sociedade cada vez mais técnico-instrumental, apoiada no desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que ansiamos por um refúgio para as angústias do mundo tecnocrata na busca pelo amor, na esperança de uma vida mais autêntica, ideais evidentemente românticos.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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9.12.15

Memes para reflexão, parte final

« continuando da parte 4

(clique nas imagens abaixo para abri-las em nossa galeria de memes no Facebook)

De que adianta ser um mestre?
Há uma ideia recorrente de uma visão superficial do misticismo que vê o mestre espiritual como um grande ser iluminado, digno de toda reverência, cujos ensinamentos praticamente não podem ser questionados... Mas em quê exatamente isso auxilia o cominho dos discípulos do mestre, e do próprio mestre?

Nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, pois sabe que, se chegou aonde chegou, foi não somente pelo auxílio dos caminhantes de outrora, como pela lenta lapidação de si mesmo, da própria alma, um pensamento de cada vez, um passo de cada vez.

E, se aceita que outros lhe chamem assim, “mestre”, é porque sabe muito bem que houve época em sua andança espiritual em que ele mesmo também teve a necessidade de crer que existia algum guru espiritual que o pegaria pela mão e caminharia junto dele, sem que houvesse necessidade de ir a fundo de si mesmo, e encarar a própria sombra, os próprios medos, as próprias culpas, inteiramente só...

Mas então, depois que descobriu que não existem mestres, e que cada um só pode mesmo ser o mestre de si, também passou, quase que na mesma passada, a compreender que o único mestre é o amor:

Pois o amor é paciente, o amor é gentil. Ele não é ciumento, nem invejoso, nem soberbo, nem rancoroso. Ele sempre aguarda; ele sempre confia; ele sempre persiste; e ele jamais acaba. (Paulo de Tarso, Carta aos Coríntios)

É assim que podemos conhecer a fundo toda exegese bíblica, uma centena de mantras hindus, todas as nobres verdades de Buda e tudo o que se comentou sobre elas ao longo dos séculos, toda a filosofia grega, toda a simbologia do tarô, toda a história da ciência moderna, e muito mais, mas, sem a vivência de tais conhecimentos, sem a conexão com a essência da realidade, sem o mergulho íntimo nesse amor eterno, o que seríamos? Seríamos realmente mestres de alguma coisa?

É assim que chegamos a este meme de Yoda, um mestre jedi que também não chama a si mesmo de mestre, e que é a própria imagem da força espiritual: ela vem de dentro, não de fora. Ela é oculta, não aparente. E ela jamais acaba...

Pertencer a uma Ordem Iniciática não faz de você uma pessoa melhor;
ter muitos conhecimentos magísticos não faz de você uma pessoa melhor;
estar em uma religião não faz de você uma pessoa melhor;
ser uma pessoa melhor faz de você uma pessoa melhor.
(Frater Alef)


O que pode ser mudado
Recentemente surgiu nas redes sociais uma espécie de movimento filosófico  que prega o “ficar de boas”, ou seja, o “estar em paz com a vida”. Ele foi chamado, como muitos devem saber, deboísmo.

O que nem todos devem saber, no entanto, é que o sucesso do deboísmo se deve em grande parte a sua similaridade com outra corrente filosófica muito mais antiga, o estoicismo:

Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar. (Discursos de Epicteto, III, 24)

A condição principal para a pacificação da alma, tanto no estoicismo como em diversas outras correntes filosóficas e/ou religiosas, é justamente a compreensão de que somos apenas pequenos atores em uma peça teatral cujo roteiro supera em muito a nossa atual compreensão. Não nos cabe querer dirigir o que não compreendemos, e ademais seria inútil tentar: há sim muitas coisas que escapam ao nosso controle, a nossa decisão, ao nosso poder.

Mas é justamente nesse “deixar levar” das coisas que não temos realmente controle que nós passamos a voltar nosso foco mental, nossa atenção, para aquilo que é realmente importante, aquilo que podemos mudar: a nossa reação interna, a forma como interpretamos o mundo; em suma, cada um de nossos pensamentos que surge, genuinamente, de nossa mente, de nossa alma, e que “não veio de fora para nos importunar”.

E é precisamente nesse entendimento, nessa compreensão do que pode e do que não pode ser mudado, que iniciamos finalmente na via da sabedoria; e então, se a total pacificação da alma pode ainda se encontrar distante, fato é que a cada passo neste caminho nos tornamos mais confiantes, mais tranquilos, mais “deboas”...

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho. (Manual de Epicteto, I)


Deuses dançarinos
Uma vez Friedrich Nietzsche, o grandioso bigodudo da filosofia alemã, disse que “só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.

O que o alemão criticava não era a religiosidade, tampouco a espiritualidade poética de deuses dançarinos, mas antes a sisudez e a ortodoxia do cristianismo de sua época, em que os fiéis se abstinham quase que totalmente de suas experiências místicas, de suas danças sagradas, para reler os relatos antigos das experiências dos outros, de muitos séculos atrás.

Fato é que o cristianismo, de lá para cá, acabou realmente se tornando menos sisudo, menos ortodoxo, e mais carismático, em muitos sentidos, e talvez isso agradasse Nietzsche... Ele certamente preferiria dançar ao lado de Jesus do que ouvir a uma missa, se levantando, sentando e gesticulando junto com os demais, em momentos pré-estabelecidos.

No fundo, o que este e os demais memes quiseram lhes trazer é tão somente uma reflexão bem humorada acerca de tais assuntos transcendentes. Levar a vida muito a sério, sem dançar de vez em quando, não parece ser o caminho mais eficiente para a espiritualidade...

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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2.12.13

O último suspiro

Se há uma lenda que me incomoda é a lenda da luta eterna entre a fé e a razão, a ciência e a espiritualidade. Não acho que seja assim, não creio em tal lenda, acho que foi inventada e têm sido constantemente anunciada exatamente por aqueles que beberam somente das águas paradas no charco em torno do córrego do Cosmos. Era preciso encharcar as galochas, era preciso avançar sobre o matagal, era preciso ter a água até a cintura e, só então, ter coragem para mergulhar.

Mas não mergulharam, e acharam que a ciência era somente uma descrição mecanicista da natureza, um mero conjunto de equações; E acharam, isto também, que a espiritualidade era somente o que este ou aquele deus dizia que fosse, um mísero conjunto de orações para se decorar, e anedotas para se contar na mesa de jantar pouco antes da ceia de Natal.

Ah, os eclesiásticos, eles querem nos convencer de que há algum Deus que pode ser enclausurado nas paredes de seus templos, e ser obrigado a escutar, agachado e sem poder dançar, a toda a sua lenga lenga escrita em tomos de capas douradas e encenada com mantos de pura seda. Mas foi exatamente um de seus filhos que orou nos desertos, e que nos falou que ele estava espalhado por tudo o que há, e que os ventos traziam seu perfume.

E os acadêmicos? Eles querem passar em seus vestibulares e publicar suas pesquisas minuciosas nas revistas mais badaladas. Eles querem provar suas teorias do tudo, e as esfregar na cara de todos aqueles que ainda ousam acender uma vela para um santo ou orixá. O que ganham com isso? Melhor seria se eles mesmos acendessem suas velas para os deuses – o deus da Gravidade, o deus da Eletricidade, o deus da Energia Escura. Há muitos e muitos deuses pelo Infinito!

Mas quem, como Feynman, apenas se deleita em conhecer um pouco mais acerca da inefável natureza da Natureza? Quem, como Feynman, já compreendeu que, ao final da vida, não haverá nenhum Professor para lhes fazer um questionário final, nenhuma média que precise ser alcançada e nenhuma teoria que precise ser comprovada. E, da mesma forma, tampouco haverá algum Juiz para lhes decretar o caminho do Céu ou do Inferno.

O Inferno já existe na mente daqueles que o temem, ou que já desistiram deste mundo. No Céu, afinal, entraremos todos de mãos dadas. E, de fato, já estamos caminhando de mãos dadas. Só que, quando os da frente tropeçam, nem sempre os que lhes davam a mão se mantém firmes e o seguram onde estava. É por isso que todos tropeçam nas mesmas pedras e vagueiam em zigue-zague pela existência, cada qual procurando ser o Super-homem capaz de vencer todos os erros do ser humano.

Ah Nietzsche! Quão pouco faltou para compreender... O Super-homem não era um homem só acima dos demais, mas uma comunidade que se torna maior por pensar na mesma vibração e amar o mesmo horizonte. Esqueçamos também o que disseram o primeiro e o segundo zaratustras, eles também ficaram velhos, e o rio que corre hoje não é mais o mesmo que correu há mais de um século.

E se Deus está morto, que o façamos ressuscitar, ou reencarnar nalgum outro deus – contanto que tenha espaço para dançar, pois nisso o bigodudo estava certo!

Deus e Natureza, afinal, são apenas palavras, e as palavras deveriam servir para o entendimento dos homens e mulheres, jamais para o seu afastamento. Se os cientistas observam as estrelas mais distantes em seus aglomerados galácticos, se valendo de suas lunetas tão modernas, também os espiritualistas observam a fundo, e cada vez mais fundo, o abismo de suas próprias almas.

E o que falta, senão mergulharem? Senão construírem naves espaciais e barcos mitológicos para navegarem para dentro e para fora de si mesmos? “Deus ao mar o abismo e o perigo deu, mas nele é que espelhou o Céu”, disse o poeta que também foi navegante...

Os tempos já são chegados e a Natureza já dá os seus sinais. Extraímos metade do petróleo existente na Terra, e em poucas gerações iremos nos digladiar por água doce. Não há mais tanto tempo assim. Não é que o mundo esteja ameaçado, somos apenas nós, os seres humanos, que temos cada vez menos tempo para ajustar as coisas.

E, se não vamos mais ao Coliseu ver feras devorando escravos, disso não podemos nos abster de comemorar... Mas, como sabemos, ainda é cedo para que tenhamos a batalha por ganha. O animal ainda se esgueira pelos charcos da alma humana, e sem o fogo, sem a morte e o renascimento, estaremos fadados a continuar repetindo os caminhos em círculo de nossos ancestrais.

Se existe Deus ou o neutrino, quem vai saber? O desconhecido inexistente é idêntico ao existente. Quem já deu alguns passos neste Caminho, no entanto, sabe. Como Agostinho sabia: “Amanhã, amanhã? E porque não hoje?”.

Demoramos tantas eras, tantas gerações e vidas, para chegar até aqui. E quanto mais sabemos, mas há por saber. Mas sabemos! Sabemos que o Infinito fica ali, logo adiante, logo após o horizonte.

Até quando ficaremos separados, nos digladiando em nossas caixas de areia, enquanto há tantos bosques, prados e montanhas tão maiores? Muito maiores...

E quem já deu alguns passos neste Caminho, quem já subiu na beirada do monte, quem já viu de relance o serpentear do córrego do Ser pelas escarpas longínquas do verdadeiro Paraíso sabe.

E dá um último suspiro, e este suspiro é tudo o que os demais precisam experimentar.

Para viver na imensidão, é preciso antes morrer em si e para si.

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Crédito da foto: Oleg Oprisco

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28.3.13

Lançamento: Assim falou Zaratustra

O segundo lançamento das Edições Textos para Reflexão é uma das obras-primas de Friedrich Nietzsche: Assim falou Zaratustra.

A tradução já secular de Araújo Pereira, revisada por José Mendes de Souza em 1936 e por Frater Sinésio em 2013, foi editada e comentada, aqui e ali, por Rafael Arrais, e lançada agora como um livro digital para o Amazon Kindle (e também para o Kobo):

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Abaixo, segue um trecho do prefácio do livro:

Zaratustra: o bem e o mal

Durante 10 anos, segundo narrativas que chegaram a nós, Zaratustra viveu quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas. Não ingeria nenhum alimento de origem animal. Em outros relatos, teria ido ao deserto, onde fora tentado por uma entidade maligna. Após anos de solidão completa, regressou ao seu povo com as boas novas...

Assim começou a sua missão. Segundo os masdeístas, ele encontrou muita dificuldade para converter as pessoas à sua nova religião. Em dez anos de pregação teve somente um crente: o seu primo. Durante este período, o chamado de Zaratustra foi como uma voz no deserto. Ninguém o escutava. Ninguém o entendia.

Nietzsche foi buscar no zoroastrismo, religião ancestral da Pérsia (atual Irã), o personagem para expor suas próprias ideias. O que parece ter atraído ao filósofo alemão é o dualismo cósmico da doutrina de Zaratustra (ou Zaroastro, daí o termo “zoroastrismo”). Cabe notar, no entanto, que a guerra semieterna entre o “Deus Bom” e o “Deus Mau” era, numa análise mitológica mais aprofundada (a qual Nietzsche certamente estava a par), uma analogia para a batalha moral que se dá antes dentro da alma humana do que fora dela.

A grande questão não era, portanto, termos medo de um Demônio externo – entidade que serviu e ainda serve para evocar o medo nos seguidores de dogmas. A questão era reconhecermos nossos próprios monstros internos, e apaziguá-los, dominá-los, nos tornando timoneiros de nossa própria embarcação.

Nietzsche foi muito mal interpretado ao longo dos anos, e por isso cabe lermos esta obra (para muitos, sua obra-prima) tendo em mente que o “Deus” ao qual ele anuncia a morte é, sobretudo, o “deus das barganhas”, que guia ovelhas com maior pavor dos “infernos” do que propriamente uma vontade genuína de se espiritualizar. Da mesma forma, o “Super-homem” não é um “homem de espécie superior” num sentido de “raça humana superior” (que a ciência já comprovou que sequer existe, ou seja: que todos somos homo sapiens desde seu surgimento na África), mas sim num sentido de “homem que supera a si mesmo, que vai além das suas capacidades atuais, que cria o novo”.

Tomei o cuidado (espero que me perdoem) de relembrar estes conceitos assim que aparecem ao longo do livro, com pequenas notas. Noutros casos, inseri notas mais pitorescas, como a que explica que “a péla dourada” nada mais é que uma bola do jogo de péla, espécie de ancestral do jogo de tênis (o esporte), e que teve o seu auge no século em que nasceu Nietzsche.

De resto, escutemos ao que falou Zaratustra...


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26.3.13

Além do bem e do mal há uma trilha

Há muitas dúvidas acerca do que deva ser o "bem" e o "mal". Elas começaram muito antes de Nietzsche... Mas nesta atualidade acinzentada, são sem dúvida questões pertinentes; o bigodudo apenas antecipou toda esta angústia existencial.

Se é que posso pensar em poucos caracteres, penso que o "mal" seja a ignorância de um "bem" ainda desconhecido... Do contrário, veríamos seres "evoluindo no mal": mestres do mal, cada vez mais maus e poderosos, cheios de si... Mas, tudo isto é patético, um caminho circular que passeia em torno de um charco de estagnação.

Até onde "evoluiu" Hitler, este "mestre do mal", que quando perdeu a guerra, suicidou-se como um bebê mimado? Onde está o seu "poder" se nem sequer suporta ser contrariado?

Então sabemos que o "mal" é apenas a desistência de caçar ao "bem", pois a ave do "bem" é fugidia e um tanto quanto etérea... O que pensávamos que tínhamos visto, não enxergamos. O que pensávamos que sabíamos, não compreendemos.

Achávamos que o "bem" não era caminho algum, mas eis que após um pequeno trecho de mata fechada, surgiu todo um Infinito a frente, um horizonte que não se sabe até onde alcança, mas que é mais convidativo do que tudo quanto já vimos e conhecemos neste Reino.

Uma trilha que dá noutro Reino.

"Mas será mesmo outro Reino, ou ainda parte deste?" – Não sei. Não confiem em mim se um dia tentar lhes dizer o que seja, afinal, o "bem"; nem em qualquer outro que tente (principalmente aqueles que escrevem em tábuas santas)...

O que há para ser dito, não pode ser dito. Está além da linguagem, e não importa quantos caracteres disponhamos.

Toda a Wikipedia seria insuficiente para lhes explicar sequer a cor da tardinha nesta trilha.

É preciso seguir em silêncio, e dançando... Nem os poetas saberiam explicar isto que eu também não explico – teriam, antes, que aprender a dançar!


raph

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8.2.12

Schopenhauer educador

Texto de Friedrich Nietzsche em "Escritos sobre a educação” [1]. As notas ao final são minhas.

Somente os artistas detestam este andar negligente [2], com passos contados, com modos emprestados e opiniões postiças, e revelam o segredo, a má consciência de cada um, o princípio segundo o qual todo homem é um milagre irrepetível; somente eles se atrevem a nos mostrar o homem tal como ele propriamente é, e tal como ele é único e original em cada movimento de seus músculos, e mais ainda, que ele é belo e digno de consideração segundo a estrita coerência da sua unicidade, que é novo e incrível como todas as obras da natureza e de maneira nenhuma tedioso.

Quando o grande pensador despreza os homens, é a preguiça destes que ele despreza, pois é ela que dá a eles o comportamento indiferente das mercadorias fabricadas em série, indignas de contato e ensino [3]. O homem que não quer pertencer à massa só precisa deixar de ser indulgente consigo mesmo; que ele siga sua consciência que lhe grita: “Sê tu mesmo! Tu não és isto que agora fazes, pensas e desejas.”

Toda alma jovem ouve este apelo dia e noite, e estremece; pois ela pressente a medida de felicidade que lhe é destinada de toda a eternidade, quando pensa na sua verdadeira emancipação: felicidade à qual de nenhum modo alcançará de maneira duradoura enquanto permanecer nas cadeias da opinião corrente e do medo. E como pode ser desesperada e desprovida de sentido a vida sem essa libertação! [4]

[...] Qual não seria a aversão das gerações futuras, quando tivessem de se ocupar com a herança deste período, em que não são os homens vigorosos que governam, mas os arremedos de homem, os intérpretes da opinião. Esta é a razão por que nosso século passará, talvez, para uma longínqua posteridade, como o momento mais obscuro e desconhecido, como período mais inumano da história. [...] Mas, ainda que o futuro nos deixasse qualquer esperança, a singularidade da nossa existência nesse momento preciso é o que nos encorajaria mais fortemente a viver segundo a nossa própria lei e conforme a nossa própria medida: quero falar sobre este fato inexplicável de vivermos justamente hoje, quando dispomos da extensão infinita do tempo para nascer, quando não possuímos senão o curto lapso de tempo de um hoje e quando é preciso mostrar nele por que razões e para que fins aparecemos exatamente agora.

Temos de assumir diante de nós mesmos a responsabilidade por nossa existência, por conseguinte, queremos agir como os verdadeiros timoneiros desta vida, e não permitir que nossa experiência pareça uma contingência privada de pensamento. Esta existência quer que a abordemos com ousadia e também com temeridade, até porque, no melhor ou no pior dos casos, sempre a perderemos. Por que se agarrar a este pedaço de terra, a esta profissão, por que dar ouvidos aos propósitos do vizinho? É igualmente provinciano jurar obediência a concepções que, em centenas de outros lugares, não obrigam mais. O Ocidente e o Oriente são linhas imaginárias que alguém traça com um giz diante de nossos olhos, para enganar a nossa pusilanimidade.

Vou tentar alcançar a liberdade, diz para si a jovem alma. Não obstante, seria ela disso impedida pelo fato de o acaso querer que duas nações se odeiem e entrem em guerra, ou pelo fato de um mar separar dois continentes, ou pelo fato ainda de ensinar em torno dela uma religião que já não existia há milhares de anos? Tu não és propriamente nada disso, diz ela para si. Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém, exceto tu.

[...] Que a jovem alma se volte retrospectivamente para sua vida e faça a seguinte pergunta: “O que tu verdadeiramente amaste até agora, que coisas te atraíram, pelo que tu te sentiste dominado e ao mesmo tempo totalmente cumulado? Faz passar novamente sob teus olhos a série inteira destes objetos venerados, e talvez eles te revelem, por sua natureza e por sua sucessão, uma lei, a lei fundamental do teu verdadeiro eu. Compare esses objetos, observe como eles se completam, crescem, se superam, se transfiguram mutuamente, como formam uma escala graduada através da qual até agora te elevaste até o teu eu. Pois tua essência verdadeira não está oculta no fundo de ti, mas colocada infinitamente acima de ti, ou pelo menos, daquilo que tomas comumente como sendo teu eu. Teus verdadeiros educadores, aqueles que te formarão, te revelarão o que são verdadeiramente o sentido original e a substância fundamental da tua essência, algo que resiste absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação, qualquer coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe compacto e rígido: teus educadores não podem ser outra coisa senão teus libertadores.” [5]

E eis aí o segredo de toda formação, ela não procura os membros artificiais, os narizes de cera, os olhos de cristal grosso; muito pelo contrário, o que nos poderia atribuir estes dons seria somente uma imagem degenerada desta formação. Ao contrário, aquela outra educação é somente libertação, extirpação de todas as ervas daninhas, dos dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes das plantas. Ela é efusão de luz e calor, o murmúrio amistoso da chuva noturna; ela é limitação e adoração da natureza no que esta tem de maternal e misericordioso, ela consuma a natureza quando, conjurando os acessos impiedosos e cruéis, os faz levar a bom termo, quando lança o véu sobre suas intenções de madrasta e as manifestações de sua triste cegueira [6].

Certamente, existem outros meios de se encontrar a si mesmo, de escapar do aturdimento no qual nos colocamos habitualmente, como envoltos numa nuvem sombria, mas não conheço coisa melhor do que se lembrar dos nossos mestres e educadores. É por isso que vou lembrar hoje o nome do único professor, o único mestre de quem eu posso me orgulhar, Arthur Schopenhauer, para só me lembrar de outros mais tarde.

***

[1] Minha fonte é o texto transcrito ao final do livro da filósofa Viviane Mosé: O homem que sabe (Civilização Brasileira); por isso não cito o tradutor.

[2] Nietzche inicia o artigo criticando o comodismo e a preguiça da maior parte dos homens de sua época, por questões de espaço pulei o trecho inicial.

[3] Se a crítica de Nietzche já foi feroz em sua própria época, imagina o que ele pensaria acerca de nossa “cultura de massa”: do marketing, dos fast-foods (da mente), dos ídolos pop, etc.

[4] Dogmáticos podem pensar que o sentido da vida já está muito bem descrito em seus manuais de verdade absoluta ou códices de ciência infalível. Porém, na medida em que o sentido da vida é pessoal e intransferível, o sentido da sua vida, e de ninguém mais, o dogma é apenas uma represa para um rio que busca, eternamente, desaguar no oceano da liberdade.

[5] Embora os conhecimentos gerais, assim como as regras básicas de convívio em sociedade, possam e devam ser ensinados a todos, é inútil pretender que pessoas são como computadores de informação, e não como seres sensíveis, capazes de interpretar o mundo a sua volta, capazes de uma vontade própria, particular. Enquanto o sistema educacional continuar tratando seres como máquinas, a arte e a filosofia terão grande dificuldade em aflorar, e a ciência se reduzirá aos “mandamentos da Academia”.

[6] Muitos torcem o nariz para a filosofia de Nietzche devido ao seu forte conteúdo poético, por vezes repleto de metáforas de difícil interpretação... Não me parece que o filósofo alemão esperava ser interpretado somente de uma mesma maneira; Em realidade, acho que ele usou de seu formidável talento, se esforçou para que sua literatura não fosse rio represado a desaguar sempre no mesmo lago, mas pensamento vaporoso capaz de chover em vastos e diversos territórios.

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Crédito da imagem: Quino

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10.11.11

A oração ao deus desconhecido

“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!” [1]

Quem disse isso foi um dos bigodudos mais geniais da filosofia, e também um dos maiores escritores da história. Muitos “ateus militantes” tem elegido Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que viveu no fim do século XIX, como um de seus grandes “heróis”. Talvez pelo fato de o próprio Nietzsche ter se auto-intitulado um ateu:

“Para mim o ateísmo não é nem uma consequência, nem mesmo um fato novo: existe comigo por instinto” [2]

Basear argumentos com base na opinião de escritores famosos não deixa de ser uma falácia do apelo à autoridade – não é muito diferente de defender a infalibilidade da bíblia com base no que algum papa antigo disse sobre o assunto -, mas funciona... As pessoas ficam impressionadas – “nossa, esse bigodudo escrevia muito bem, se ele falou que Deus está morto, é bem capaz de estar mesmo!”.

Estamos mesmo na era das generalizações apressadas, talvez porque com a internet os pequenos pedaços de informação tenham sido compartilhados de forma cada vez mais frenética... Faz muito efeito citar Nietzsche em 140 caracteres e completar com algo como #orgulhoateu ou coisa do gênero.

Você deve estar achando que eu estou aqui para criticar os ateus, mas não é bem esse o meu ponto: quero criticar nossa tendência a ler frases, e não parágrafos, páginas, livros, ou quem sabe até boa parte da obra e da biografia de um dado filósofo, e interpretar a crença alheia de forma super simplificada, tornando nosso próprio conhecimento um tanto quanto superficial.

E o pior de tudo é que muitos nem se dão ao trabalho de perder uns 30 minutos na própria internet para se inteirar mais sobre o assunto. É muito simples chegar a esta interpretação um pouco mais profunda da frase de Nietzsche, pesquisando na Wikipedia:

“A morte de Deus representa metaforicamente o fato dos homens não mais serem capazes de crer numa ordenação cósmica transcendente, o que os levaria a uma rejeição dos valores absolutos e, por fim, à descrença em quaisquer valores. Isso conduziria ao niilismo, que Nietzsche considerava um sintoma de decadência associada ao fato de ainda mantermos uma sombra, um trono vazio, um lugar reservado ao princípio transcendente agora destruído, que não podemos voltar a ocupar. Para isso ele procurou, com o seu projeto de transmutação dos valores, reformular os fundamentos dos valores humanos em bases, segundo ele, mais profundas do que as crenças do cristianismo.

Segundo ele, quando o cheiro do cadáver se tornasse inegável, o relativismo, a negação de qualquer valoração, tomaria conta da cultura. Seria tarefa dos verdadeiros filósofos estabelecer novos valores em bases naturais e iminentes, evitando que isso aconteça. Assim, a morte de Deus abriria caminho para novas possibilidades humanas.”

O bigodudo atacava a religião institucionalizada, baseada em dogmas “castradores do potencial humano”. Seu alvo era, sobretudo, as igrejas baseadas no cristianismo. Segundo o filósofo alemão, “o evangelho morreu na cruz”...

Ora, o que Nietzsche anunciou não era nada de novo, muitos antes dele já haviam anunciado a decadência da igreja, e uma nova oportunidade para a ascensão da religião livre, da espiritualidade genuína [3]. Poderíamos retornar até muito mais no tempo, mas bastará lembrar de Benedito de Espinosa, o grande filósofo holandês que foi excomungado do judaísmo. Espinosa, em sua Ética, havia chegado à conclusão de que “uma substância não poderia criar a si mesma, mas haveria de ter criado tudo o que há”.

A grande peça oculta do Iluminismo também foi acusado de ateísmo – mas é preciso ser racionalmente cego para acusar Espinosa de não acreditar em Deus. Toda sua obra foi dedicada a Deus... Conforme Borges bem disse em sua homenagem em forma de poema: “O feiticeiro insiste em esculpir a Deus com geometria delicada” – Mas, que espécie de Deus estaria visualizando Espinosa do alto de sua grandiosa racionalidade geométrica? Seria um Senhor dos Exércitos? Seria um deus que opera barganhas com os homens? Seria alguma espécie de avatar divino encarnado em algum profeta?

Embora possamos hoje chamar de ateu aquele que não acredita em um Criador nem tampouco em deus algum, na época de Espinosa, de Jesus, e até mesmo de Sócrates, ser acusado de ateísmo era ser acusado de não seguir a cartilha religiosa da igreja dominante, era ser acusado de subverter dogmas, de rezar secretamente, quem sabe, para “algum deus estranho e desconhecido, que ninguém sabe onde está e nem exatamente como é”... Ora, não se enganem: Espinosa foi excomungado por ser ateu! Jesus foi crucificado por ser ateu! Sócrates se viu condenado a beber veneno por ser ateu!

Mas, é claro, todos esses acreditavam em algum Criador... Esbarramos aqui em um profundo problema etimológico. É como pedir para um grupo de pessoas interpretar a frase “disciplina é liberdade” – cada qual vai interpretá-la, obviamente, de acordo com sua própria definição dos termos “disciplina” e “liberdade”. E, por mais que tais conceitos já sejam capazes de gerar uma imensidão de interpretações diversas, mesmo combinados eles mal chegam aos pés das quase infinitas interpretações para que se responda a pergunta “o que é Deus para você?”.

Nietzsche também era um filósofo profundamente espiritual, o que pode ser constatado facilmente em uma de suas obras primas, Assim falou Zaratustra. Mas, e qual seria a visão que o bigodudo tinha de Deus? Talvez este poema, que ele escreveu na juventude, possa nos dar uma boa pista:

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, tal qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

Oração ao Deus desconhecido (traduzido do alemão por Leonardo Boff) [4]

Existem algumas interpretações bem detalhadas sobre o motivo de Nietzsche ter escrito um poema tão profundamente espiritual, e tão aparentemente teísta, mas o que nos importa aqui é reconhecer a complexidade inata da relação que cada ser tem com Deus – e, quanto mais sábio este ser, mais deliciosamente complexa será sua interpretação, pelo menos se a formos tentar resumir com meras palavras, que no fundo são apenas cascas de sentimentos...

Se você crê ou não nalgum Criador, contente-se com sua própria crença ou descrença, pois a não ser que faça parte de alguma comunidade eclesiástica profundamente ortodoxa e dogmática, é bem provável que a interpretação do que seja Deus de seus semelhantes, mesmo aqueles mais próximos e queridos, seja algo diversa da sua própria... Uns crêem em líderes militares que comandam povos escolhidos, outros em um pai bondoso muito velho e de barba perfeitamente branca, outros em um avatar que encarnou na Terra e ressuscitou 3 dias após ser crucificado, outros em alguma espécie de ser de pele azulada que gosta muito de música e dança, outros apenas em um conceito de libertação da mente do sofrimento mundano, outros na mãe natureza, outros em uma substância que abarca a tudo e a todos, outros num evento aleatório que gerou leis profundamente simétricas por todo o Cosmos... E, quem sabe, cada um deles tenha conseguido visualizar um pequeno pedaço do incompreensível, do desconhecido, do nosso mais profundo semelhante.

Mas não adianta apenas crer, é preciso se mover em sua direção. É preciso amar. Julguemos os seres por seus frutos, por suas obras; Pois julgá-los por suas crenças ou descrenças não é muito diferente de julgar que Nietzsche era apenas mais um louco, apenas porque achamos o seu imenso bigode um tanto quanto fora de moda...

***

[1] Retirado de A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche.

[2] Retirado de Ecce Homo, de Friedrich Nietzsche.

[3] Embora todo seguidor de igrejas seja religioso, nem todo religioso é um seguidor de igrejas. Religião vem do latim religare e significa “religação a Deus ou ao Cosmos”, enquanto que Igreja vem do grego ekklesia e significa algo como “a comunidade dos escolhidos por Deus”. É claro que é possível seguir uma doutrina eclesiástica ou algum dogma e ainda assim ser genuinamente religioso e espiritual, mas a maioria se contenta em repetir orações decoradas uma vez por semana, e esperar pelo tão aguardado céu de ócio eterno... A crítica de Nietzsche era endereçada diretamente e esses últimos.

[4] O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994. Ver também o artigo Wotan, por Carl Jung; e também este trecho do livro Nietzsche, God and the Jews, por Weaver Santaniello.

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Crédito das imagens: [topo] Bettmann/Corbis (Nietzsche); [ao longo] Philippe Lissac/Godong/Corbis (imagem de Krishna quando criança)

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26.8.11

Super Homens

Nesta palestra no TED, Harvey Fineberg, especialista em ética médica, nos mostra três caminhos para a espécie humana em evolução constante: parar de evoluir por completo; evoluir naturalmente; ou controlar os próximos passos da evolução humana, usando modificações genéticas para nos tornar mais espertos, rápidos e melhores.

Fineberg chama a tal conceito de neo-evolução, porém a neo-evolução já é um conceito bem mais antigo. Não devemos confundir um com o outro, portanto... No caso de Fineberg a neo-evolução está estritamente ligada a modificações genéticas induzidas pela ciência:

A discussão ética acerca do uso desse tipo de modificação remete a origem do herói Capitão América, que através de um processo "mágico" se torna um Super Homem. Seus criadores, entretanto, evitaram tal questão fazendo com que o processo (o soro do supersoldado) só funcionasse uma única vez... Agora, imaginem um soro do supersoldado que poderá ser aplicado a vontade, em quem quer que tenha recursos disponíveis para pagar por ele? Certamente não era essa a ideia que Nietzsche tinha do Super Homem.

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8.6.11

Maldito Benedito, parte 2

« continuando da parte 1

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Baruch Spinoza, poema de Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais).

Uma suave cabeça pensativa

Se Descartes havia separado mente e corpo um substâncias distintas, esta material, a primeira espiritual, Espinosa foi mais além: para o pensador holandês, só poderia haver uma única substância, pois que se houvessem duas, ambas deveriam necessariamente ser o resultado de uma substância ainda anterior. Num brilhante encadeamento de causa e efeito, chegou a “substância que não poderia criar a si mesma”, sendo ela, portanto, incriada e eterna, aquela que se opõe ao nada (afinal, existe algo). Portanto, mente e corpo, e todos os componentes do Cosmos, nada mais eram do que irradiações da substância, que era o próprio Deus. Espinosa não cria que as coisas eram apenas materiais ou espirituais, mas que eram materiais e espirituais, mundanas e divinas, ao mesmo tempo.

Com toda sua filosofia edificada no próprio Deus, Espinosa terminou por ser o grande reformador do pensamento ocidental, o grande “destruidor da autoridade eclesiástica”, não porque fosse um “matador de deuses”, conforme Nietzsche, mas porque substituíra as interpretações bíblicas de Deus por uma ainda mais profunda, baseada apenas na pura lógica filosófica. Quando Nietzsche proclamou que o deus bíblico estava morto, foi porque Espinosa já o havia retirado de seu pedestal há muito tempo... Caíra um deus semelhante aos homens, e surgira um Deus cósmico, irradiador de todas as partículas e todas as galáxias do universo.

A filosofia de Espinosa, entretanto, não era para qualquer um. Era preciso uma certa abertura da mente, um certo distanciamento das paixões embutidas em crenças e descrenças, para que pudesse ser compreendida em toda sua profundidade. Apesar de “Ética” ter sido sua obra prima, as bases lógicas que a sustentam já estavam prontas desde sua juventude... Porque então Espinosa somente entregou seu livro para os amigos publicarem já nos últimos dias de vida, quando certamente já pressentia a própria morte? Ora, é que Espinosa nunca quis ser nenhum revolucionário, e em realidade sabia muito bem que seu sistema filosófico poderia, e provavelmente causaria uma revolução no mundo ocidental. E ele estava certo.

Ao descrever Deus como uma força cósmica, impessoal e sem características humanas, Espinosa não estava sendo completamente original. Sua premissa já era conhecida de místicos orientais e até mesmo da cabala judaica, além de conter referências claras a filosofia estoica e, em menor escala, ao atomismo das escolas gregas. A sua forma “geométrica” de descrição da própria filosofia, sem dúvida influência de Descartes, é que terminou por tornar a “Ética” uma obra prima tanto da filosofia quanto da espiritualidade humana... E, como toda obra desse porte, não escapa dos grandes paradoxos:

O bem e o mal
Para Espinosa o bem e o mal eram conceitos relativos às sociedades humanas, e não fazia sentido crer em um deus que observa e pune os pecados alheios. Ao mesmo tempo, entretanto, a própria busca do conhecimento de Deus era uma virtude, e os sábios que a empreendiam agiam naturalmente no bem, e afastavam automaticamente o mal, na medida da sabedoria de cada um.

Do determinismo
Em sua filosofia constatamos que a grande maioria dos homens e mulheres são guiados por desejos provenientes das paixões da alma, de modo que quase ninguém consegue ser efetivamente livre, e tudo parece estar determinado pelo eterno movimento das substâncias... Por outro lado, existiam alguns poucos que conseguiam olhar para dentro de si próprios e identificar ou até mesmo compreender tais paixões. Do autoconhecimento dos seres, em maior ou menor grau, surgia a liberdade em grau correspondente. A atividade mais nobre de um ser seria, portanto, buscar a compreensão do próprio Deus, pois no fundo somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo.

Do deísmo
Espinosa negava totalmente que as verdades acerca da criação pudessem ser reveladas, como através de santas tábuas ou inspirações divinas. Por isso foi muitas vezes considerado um líder deísta. Mas, sob outro ponto de vista, o fato de todos sermos formados pela irradiação da substância divina, e termos uma conexão direta com a eternidade, nos faz automaticamente receptáculos diretos do movimento de Deus. Talvez não fosse possível que Deus se revelasse diretamente a alguns ditos profetas, um movimento em nossa direção; Mas era perfeitamente possível que cada um de nós compreendesse parte da fagulha divina que trazemos, todos nós, num movimento em direção ao infinito.

Do panteísmo
Se por um lado os críticos terão razão em dizer que a filosofia de Espinosa faz da Natureza um novo Deus, e a engrandece, por outro estarão equivocados em afirmar que Espinosa reduziu Deus a meros eventos naturais, às coisas que compõe o Cosmos... Assim como Epicteto se referia a um “Zeus, Deus dos deuses”, Espinosa deixou claro que todos os materiais que compõe o mundo, sejam os corpos e partículas materiais, sejam os mentais, são todos irradiações da substância divina. Tudo é Deus, de modo que não faria sentido tentar encontrar a Deus apenas em catedrais grandiosas ou através da mediação dos eclesiásticos, qualquer pedra ou galho partido seria tão divino quanto tudo o mais. É somente através da razão, uma razão conectada ao Cosmos, de acordo com o logos grego, que poderemos apreciar o contato com Deus, estejamos onde estivermos.

Do ateísmo
Se por um lado Espinosa foi acusado de ateísmo em sua época, por outro qualquer um com certo discernimento compreenderá que a acusação se referia ao fato de ele ter contrariado diretamente os dogmas das doutrinas religiosas vigentes, particularmente negando milagres e a autoridade dos eclesiásticos. Mesmo sua crítica a Bíblia se focava exclusivamente na interpretação literal, e ainda que negasse os milagres enquanto eventos sobrenaturais, o próprio Espinosa buscou explicações naturais para alguns deles, como, por exemplo, o da “divisão” do Mar Vermelho, que parecia a Espinosa que fosse um evento natural, explicado pelo vento.
O grande pensador holandês não poderia, entretanto, ser menos ateu no sentido de negação a priori da existência de um Criador. Não só toda sua filosofia se sustenta em Deus, o próprio sentido de virtude e de ética que sempre defendeu consistia em, a todo momento, saber diferenciar as paixões mundanas dos desígnios sagrados da Natureza, e somente assim, seguindo a Natureza e não as próprias paixões, ser verdadeiramente livre e feliz.

Na preposição final da “Ética”, Espinosa inaugura quase que uma nova religião filosófica universal: “o estado de bênção não é a recompensa da virtude, mas a própria virtude; também não usufruímos desse estado por restringir nossas luxúrias; ao contrário, justamente porque usufruímos dele é que somos capazes de restringir nossas paixões”. A salvação, apesar de árdua e rara, não precisava ser postergada para depois da morte. A filosofia de Espinosa era uma reflexão sobre a vida, e de como, talvez um dia, alcançar a salvação dentro deste mundo – um mundo tão divino quanto mundano.

O monumento feito em homenagem a Espinosa, em Haia (na Holanda) foi assim comentado por Ernest Renan em 1882:

"Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas – pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus".

Maldito Benedito Espinosa! Maldito, na boca dos de alma pequena, somente Benedito nas demais...

***

Crédito da imagem: Wikipedia (estátua de Espinosa em Haia).

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17.5.10

Meu semelhante

Eu ando pelo mundo dentre olhares e expressões
Promessas de curas e maldições
Acordos de paz que não podem seguir adiante
Pois os homens em suas guerras
Por riquezas ou santificações
Já não o vêem mais, meu semelhante

Nem a vida que lhes oferta a fronte
Nem os peixes nem as aves nem as vacas sagradas
Nada que nade, caminhe ou voe pelo horizonte
Nada, apenas esse fétido ouro negro
A escravizar aqueles que lhe buscam lá fora
Pois que são como cascas vazias, meu semelhante

Quem dera pudessem olhar o céu noturno
E ver sua luz trazendo as boas novas
De épocas em que não participamos
Não como homens, mas como átomos
Como luz a cruzar o infinito
Quem dera vissem suas estrelas
Como quem vê poesia em quadro negro
Como quem se alegra, mas guarda segredo

Que nem todos estão preparados para enxergar
O que vêem a olho nu
Preferem se iludir ou se entreter com essas sombras
Essas cascas de sentimento
Esses manuais de verdades absolutas
Esses códigos de ciência infalível
E promessas e barganhas de um mundo melhor
Um céu que está sempre lá fora a ser alcançado
Nunca aqui dentro, a ser amado

Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante
Que estamos todos conectados:
Pela biologia, a vida.
Pela química, aos planetas.
Pelos átomos, as estrelas.
Mas é tão somente pelo agitar da mente
E pelas lentes claras do pensamento
Que percebemos que aqui sempre estivemos
Que sempre fomos semelhantes
Pois nunca um poderia estar fora do outro
Embora sua substância nos permeie a todos
Como o perfume dos amantes

Todo o turbilhão de partículas do cosmos
E todas as galáxias e estrelas
E todas as eras geológicas
E todas as poesias, e todas as equações
E todos os olhares e expressões
Todo amor e toda a gratidão para ti
A substância que não pode criar a si mesma
Mas que tudo o mais criou
Eu quero desvendar todos os mistérios e enigmas
Todos os códigos que nos ocultou
Dentre essa brisa de poeira vacilante
Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante

raph'10

***

Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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28.1.08

3 Poemas

Amor sem Fim

Eu pareço ter amado você em inúmeras formas, inúmeras vezes,
Em vida após vida, idade após idade, sempre.
Meu coração enfeitiçado fez e refez o colar de canções
Que você aceita como presente, usa à volta do pescoço em suas muitas formas
Em vida após vida, idade após idade, sempre.

Quando eu escuto crônicas antigas de amor, é sofrimento amadurecido,
É o conto ancestral de se estar junto ou separado,
Assim que eu encaro mais e mais fundo o passado, no final você emerge
Envolto na luz de uma estrela-cadente cortando a escuridão do tempo:
Você se torna uma imagem do que é lembrado para sempre.

Eu e você temos flutuado aqui no córrego que flui da fonte
No coração do tempo do amor de um pelo outro.
Nós temos brincado ao lado de milhões de amantes, partilhado a mesma
Doce timidez do encontro, as mesmas dolorosas lágrimas de despedida -
Amor antigo, mas em formas que se renovam e renovam, sempre.

Hoje ele está guardado à seus pés, ele achou o seu fim em você,
O amor de todos os dias dos homens, tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza universal, vida universal,
As memórias de todos os amores mesclando-se com esse nosso amor único -
E as canções de cada poeta, tanto passados quanto eternos.

-- Rabindranath Tagore (traduzido do inglês por Rafael Arrais)

A Oração ao Deus Desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

-- Friedrich Nietzche (traduzido do alemão por Leonardo Boff, no livro Tempo de Transcendência)

O pequeno rochedo

O que Deus faz? O que fazia?
Há quem acredite que Ele intercede em cada dia
Realizando milagres ou punindo pecadores...
Há quem diga que Ele não existe
Pois nunca O viram, nunca O sentiram...

Ora, talvez Deus tenha estado todo esse tempo
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Do qual criou todos os universos
E todos os mundos

Talvez, tenha ficado de tal maneira extasiado
Com a beleza de Sua própria criação
Que até hoje Nos observa na mesma posição
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Onde fica a eternidade

Ali, onde o tempo não é indefinido
Mas antes, onde o tempo simplesmente não existe,
Ele nos ama...
Com o mesmo amor que criou o tudo...

E quem sente esse amor, acha que Ele intercede
E quem não sente, acha que Ele não existe
E finalmente, quem procura viver nesse amor
Sabe que mesmo não intercedendo, Ele se movimenta
E, mesmo não existindo dentro do tempo,
Ele existe na eternidade

-- Rafael Arrais (2008)

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