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18.12.23

A teoria da bolsa de ficção, por Ursula K. Le Guin

Introdução
Décadas antes de Harry Potter, uma escritora já havia enveredado pela temática das escolas de magia e seus estudantes jovens e predestinados. Esta escritora se chamava Ursula K. Le Guin (1929 – 2018), e ficou mundialmente famosa no campo da literatura fantástica. Ela publicou pela primeira vez em 1959, e sua carreira literária se estendeu por quase 60 anos, produzindo mais de 20 romances e mais de 100 contos, além de poesias, crítica literária, traduções e literatura infantil. O que nos interessa aqui, no entanto, é um texto relativamente curto, que fez parte de uma coletânea de artigos intitulada Dancing at the Edge of the World – Thoughts on Words, Women, Places [Dançando nos Limites do Mundo – Reflexões sobre Palavras, Mulheres e Lugares], publicada em 1989. É no miolo deste livro que Le Guin nos trouxe uma nova teoria para as histórias de ficção, baseada mais na bolsa que coleta frutos do que na lança que assassina a caça, mais nas histórias aparentemente sem graça das relações do cotidiano do que nas jornadas heroicas. E este texto é tão impactante, tão abissal em sua profundidade, em sua mudança de paradigmas, que eu simplesmente não poderia deixar de trazê-lo aqui.


A TEORIA DA BOLSA DE FICÇÃO
por Ursula K. Le Guin; tradução de Priscilla Mello e revisão de Ellen Araujo e Marcio Goldman [1]

Nas regiões temperadas e tropicais onde aparentemente os hominídeos evoluíram em humanos, o principal alimento da espécie eram os vegetais. De 65 a 80% do que os seres humanos comiam nessas regiões nas eras do Paleolítico, Neolítico e na pré- história, era coletado; a carne era o alimento principal apenas no extremo ártico. As imagens dos caçadores de mamutes ocuparam espetacularmente as paredes das cavernas e o imaginário, mas o que nós realmente fizemos para permanecer vivos e saudáveis foi coletar sementes, raízes, brotos, botões, folhas, nozes, frutos, frutas e grãos, além de insetos e moluscos e pássaros, peixes, ratos, coelhos e outros pequenos animais que provêm proteína e podem ser capturados com redes ou armadilhas simples. E nós nem mesmo trabalhávamos muito duro para isso — muito menos que camponeses escravizados após a invenção da agricultura, e muito menos que trabalhadores assalariados desde que a civilização foi inventada. Uma pessoa na pré-história podia ter uma vida boa trabalhando por cerca de quinze horas por semana.

Com apenas quinze horas por semana empregadas na busca pela subsistência, resta bastante tempo para fazer outras coisas. Tanto tempo que talvez os mais incansáveis, aqueles que não tinham um bebê por perto para alentar suas vidas, ou alguma habilidade para criar, cozinhar ou cantar, ou mesmo pensamentos interessantes para pensar, decidiram sair e caçar mamutes. Os caçadores mais habilidosos então retornavam cambaleando com uma carga de carne, muito marfim, e uma história. E não era a carne que fazia diferença. Era a história.

É difícil contar uma história realmente emocionante de como arranquei uma semente de aveia selvagem da casca, e depois mais uma, e mais outra e depois mais uma, e então cocei minhas picadas de mosquito, e ouvi minha filha dizer algo engraçado, e de como fomos ao riacho, bebemos um pouco de água e observamos as salamandras por um tempo, até eu encontrar outro campo de cereais… Não, não se compara, essa minha história não consegue competir com aquela que narra o modo como enfiei minha lança profundamente no titânico flanco peludo enquanto minha filha, empalada por uma enorme presa, se contorcia gritando, com o sangue jorrando por toda parte em torrentes carmesins, e como um outro filho foi esmagado como geleia quando o mamute caiu sobre ele, enquanto eu atirava minha infalível flecha diretamente em seu cérebro através de seu olho.

Essa história não tem somente ação, ela tem um Herói. Heróis são poderosos. Antes que você possa perceber, os homens e as mulheres no campo de aveia silvestre, bem como suas crianças, e as habilidades dos criadores, e os pensamentos dos que pensam, e as músicas dos que cantam, tudo isso se torna parte do conto do Herói e fica a serviço desse tipo de narrativa. Mas essa não é a história deles. É a história do Herói.

Quando estava planejando o livro que se tornaria Três Guinéus, Virginia Woolf escreveu um título em seu caderno de notas: Glossário; ela pensava em reinventar o inglês de acordo com um novo plano, para contar uma história diferente. Um dos vocábulos deste glossário é o termo "heroísmo", que segue definido como "botulismo". E herói, no dicionário de Woolf, é "garrafa". O herói como garrafa — uma rigorosa reavaliação. Eu proponho agora a garrafa como herói. Não só a garrafa de gim ou de vinho, mas garrafa em seu sentido antigo de recipiente em geral, de algo que retém outra coisa.

Se você não tem algo onde guardá-la, a comida escapará — até mesmo algo que não é combativo e desprovido de recursos próprios, como um grão de cereal. Enquanto estão ao alcance das mãos você coloca tantos grãos quanto é capaz em seu estômago, sendo este o primeiro recipiente; mas e amanhã de manhã quando você acordar e estiver frio e chuvoso? Não seria bom ter algum punhado de grãos para mastigar e dar à sua pequena bebê para fazê-la se calar? Mas como conseguir levar para casa algo a mais do que cabe no espaço do estômago ou no das palmas das mãos? Então, você se levanta e vai para o maldito campo de cereais encharcado pela chuva, e não seria bom se você tivesse algo para colocar o bebê e assim colher os grãos com as duas mãos? Uma folha, uma cabaça, uma concha, uma rede, uma tipoia, um saco, uma garrafa, um pote, uma caixa, uma bolsa. Algo que guarde. Um recipiente.

O primeiro dispositivo cultural foi possivelmente um recipiente… Muitos teóricos acreditam que as primeiras invenções culturais devem ter sido um recipiente para guardar produtos coletados e algum tipo de tipoia ou rede para carregar as coisas.

É isso o que diz Elizabeth Fisher em Women’s Creation (McGraw-Hill, 1975). Mas não, não pode ser. Onde está aquela coisa maravilhosa, grande, longa, rija, um osso, suponho, que o Homem-Macaco primeiro acertou em alguém, como no filme [referência a 2001, Uma Odisseia no Espaço], e que, em seguida, grunhindo de êxtase por ter consumado o primeiro assassinato, foi lançado aos céus, e lá girando se transformou em uma nave espacial, abrindo caminho no cosmos para fertilizá-lo e para produzir ao final da trama, um adorável feto, um garoto, é claro, vagando pela Via Láctea, estranhamente sem qualquer útero, sem qualquer matriz que fosse? Eu não sei. Eu nem mesmo me importo em saber.

Eu não estou contando essa história. Nós já a ouvimos, todas nós ouvimos tudo sobre todas as lanças e espadas, as coisas para bater e perfurar e açoitar, as coisas longas e rígidas, mas ainda não ouvimos falar sobre onde se colocam essas coisas, o recipiente onde as coisas são guardadas. Essa é uma nova história. Isso é novidade.

E ainda assim antiga. Antes — certamente muito antes, se você pensar bem — das armas, uma tardia, luxuosa e supérflua ferramenta; muito antes das úteis facas e machados; junto com a indispensável enxada, o moinho e a pá (de que serve desenterrar um monte de batatas se você não tem nada para levar para casa as que não consegue comer?) — junto, ou antes, da ferramenta que extrai a energia para fora, nós fizemos a ferramenta que traz a energia para casa. Faz sentido para mim. Sou uma aliada daquilo que Fisher denomina de Teoria da Cesta [Carrier Bag Theory] da evolução humana.

Essa teoria não só explica grandes áreas de obscuridade teórica e evita outras tantas bobagens teóricas (habitadas principalmente por tigres, raposas e outros mamíferos altamente territoriais), mas também me deu, pessoalmente, uma base para a compreensão da cultura humana de uma maneira que eu nunca havia pensado antes. Enquanto a cultura foi explicada como sendo originária e tendo se desenvolvido com o uso de longos e rígidos objetos para apunhalar, atacar e matar, eu nunca pensei que eu tivesse, ou quisesse, qualquer participação nisso. (O que Freud entendeu erroneamente como sendo sua falta de civilização, seria, na verdade, a falta de lealdade da mulher à civilização, observou Lillian Smith). A sociedade, a civilização de que falavam esses teóricos, era evidentemente a deles; eles a mereciam, eles gostavam dela; eles eram humanos, totalmente humanos, golpeando, apunhalando, empurrando, matando. Querendo ser humana também, procurei por evidências de que de fato eu era; mas se aquilo era o necessário para sê-lo, fazer uma arma e matar com ela, então, evidentemente, ou eu era um ser humano muito defeituoso, ou nem mesmo humana eu era.

É isso mesmo, eles disseram. Uma mulher é o que você é. Possivelmente, nada humana, certamente defeituosa. Agora, fique calada enquanto seguimos contando a História da Ascensão do Homem, o Herói.

Vá em frente, eu digo, enquanto volto para a colheita dos grãos, com o bebê na tipoia, e a pequena criança carregando o cesto. Sigam contando como o mamute caiu sobre a criança desafortunada, e como Caim derrubou Abel, e como a bomba caiu em Nagasaki, e como o Napalm caiu sobre os aldeãos, e como os mísseis cairão sobre o Império do Mal, e todas as outras etapas da Ascensão do Homem.

Se for algo humano colocar o que você quer, porque é útil, comestível ou belo, em uma bolsa, cesto, ou em uma casca ou folha enrolada, ou numa rede tecida com seu próprio cabelo, ou no que você tenha à mão e, em seguida, levar para casa com você, a casa sendo um tipo maior de bolsa ou uma grande caixa onde se podem abrigar pessoas e depois, pegar aquilo que armazenou e comer, ou compartilhar ou mesmo guardar mais um pouco para quando chegar o inverno, ou guardar em um pote medicinal, em um santuário ou em um museu, no lugar sagrado, onde se guarda o que é sagrado e, no dia seguinte, provavelmente, fazer a mesma coisa de novo — se fazer isso é humano, se for isso o que é preciso, então eu sou humana, afinal. Totalmente, livremente, com alegria, pela primeira vez.

Não, diga-se logo, um ser humano afável ou pacífico. Sou uma mulher que está envelhecendo, com raiva, segurando com força a minha cesta, lutando contra bandidos. No entanto, assim como mais ninguém, eu não me considero heroica por fazê-lo. É apenas uma daquelas malditas coisas que você tem que fazer para seguir sendo capaz de colher grãos de cereais e contar histórias.

É a história que faz a diferença. É a história que escondeu minha humanidade de mim, a história que os caçadores de mamutes contavam do Herói, sobre atacar, empurrar, estuprar, matar. A maravilhosa, venenosa história do Botulismo. A história do assassino.

Algumas vezes parece que essa história está se aproximando de seu fim. E antes que não se conte mais nenhuma história, alguns de nós aqui, na colheita dos cereais em campos de milhos alheios achamos que é melhor começar a contar outra história, com a qual, talvez, as pessoas possam seguir quando a antiga acabar. Talvez. O problema é que todas nós nos deixamos fazer parte da história do assassino [killer story] e, por isso, podemos acabar junto com ela. Desta maneira, é com certo sentimento de urgência que procuro a natureza, o tema, as palavras da outra história, a que não foi contada, a história vital [life story].

Ela é estranha, não vem fácil, não vem aos lábios sem esforço como a história do assassino; ainda assim, é exagerado dizer que ela nunca foi contada. As pessoas têm contado a história vital há muito tempo, de todas as maneiras e com diversos tipos de palavras. Mitos de criação e transformação, histórias de tricksters, contos populares, piadas, romances…

O romance é um tipo de história fundamentalmente não-heróica. Claro que o Herói frequentemente conquistou o romance, porque esta é sua natureza imperial e seu impulso incontrolável, conquistar tudo e administrar tudo, enquanto proclama severos decretos e leis para controlar seu pungente impulso de matar. Assim, o Herói, por meio de seus porta-vozes, os Legisladores, primeiro impôs que a narrativa apropriada é aquela que remete à flecha ou à lança, começando aqui e indo direto lá e PÁ! atingindo seu alvo (que cai morto); e segundo, que a questão central da narrativa, incluindo o romance, é o conflito; e, por fim que a história não é boa se ele – o Herói – não estiver nela.

Eu discordo disso tudo. Eu chegaria ao ponto de dizer que a forma natural, apropriada e adequada do romance poderia ser a de um recipiente, uma cesta. Um livro carrega palavras. Palavras guardam coisas. Elas carregam sentido. Um romance é uma caixa de medicamentos, guardando as coisas em uma particular e poderosa relação entre si e conosco.

Uma das relações entre os elementos do romance pode muito bem ser a do conflito, mas a redução da narrativa ao conflito é absurda. (Uma vez li um manual de escrita que dizia: "Uma história deve ser vista como uma batalha", e continuava com estratégias, ataques, vitórias etc.). Conflito, competição, estresse, luta etc. podem ser vistos como necessários ao conjunto da narrativa concebida como uma bolsa/ventre/caixa/casa/pote medicinal, porém são elementos de um todo que, em si mesmo, não pode ser caracterizado como conflito ou harmonia, uma vez que o propósito da história não é a resolução ou o êxtase, mas um processo contínuo.

Finalmente, é evidente que o Herói não fica bem nessa cesta. Ele precisa de um palco, de um pedestal ou de um pináculo. Você o coloca em uma cesta e ele parece um coelho, uma batata. É por isso que gosto de romances: no lugar de heróis, eles contêm pessoas.

Então, quando comecei a escrever romances de ficção científica, comecei a carregar essa grande cesta pesada de coisas; a minha cesta cheia de fraquezas e bobagens, e de minúsculos grãos de coisas menores que uma semente de mostarda, e de redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desatadas, contêm um seixo azul, um cronômetro imperturbável marcando o tempo de outro mundo e o crânio de um rato; cheia de começos sem fins, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções, e de muito mais truques do que conflitos, muito menos triunfos do que armadilhas e ilusões; cheia de naves espaciais que ficam presas, missões que falham e pessoas que não entendem. Eu disse que era difícil fazer uma história emocionante de como tirar os grãos de suas cascas, não disse que era impossível. Quem algum dia disse que escrever um romance era fácil?

Se a ficção científica é a mitologia da tecnologia moderna, então seu mito é trágico. "Tecnologia" ou "ciência moderna" (no sentido que comumente é atribuído a esses termos, como um não refletido diminutivo para ciências-duras e tecnologias de ponta fundadas através do contínuo crescimento econômico) é uma empreitada heroica, hercúlea, prometeica, concebida como triunfo e, por fim, como tragédia. A ficção que personifica esse mito sempre será, e sempre tem sido, triunfante (o Homem conquista a terra, o espaço, os alienígenas, a morte e o futuro etc.) e trágica (apocalipse, holocausto, depois ou agora).

Se, no entanto, evitarmos o modo linear, progressivo, da Flecha-(assassina)-do-Tempo do Tecno-Heróico, e redefinirmos a tecnologia e a ciência como primordialmente uma cesta de culturas, em vez de uma arma para a dominação, um agradável efeito colateral é possibilitar que a ficção científica seja vista como um campo muito menos rígido e estreito, não necessariamente prometeico ou apocalíptico; e, de fato, menos um gênero mitológico do que realista.

É um estranho realismo, mas é uma estranha realidade.

A ficção científica adequadamente concebida, como toda ficção séria, mesmo que engraçada, é uma maneira de tentar descrever o que realmente está acontecendo, o que as pessoas realmente fazem e sentem, como as pessoas se relacionam com tudo o mais nessa vasta cesta, esse ventre do universo, esse útero de coisas em gestação e esse túmulo de coisas que um dia foram, essa história sem fim. Na ficção científica, como em toda ficção, há espaço suficiente até mesmo para manter o Homem no lugar a que ele pertence, em seu lugar no esquema das coisas; há tempo suficiente para colher muitos grãos e semeá-los também, e cantar para a pequena bebê, e ouvir a piada de sua filha, e observar as salamandras, e ainda assim, a história não acaba. Ainda há sementes a serem colhidas, e espaço na cesta das estrelas.


***

[1] O texto foi achado online, em download gratuito (PDF), sob o título de A ficção como cesta: uma teoria, que talvez seja uma tradução mais correta do título original – no entanto, como este texto ficou conhecido em português como A teoria da bolsa de ficção, achei melhor mantê-lo. A tradução, aliás, é excelente, motivo pelo qual não traduzi novamente eu mesmo.

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Livros recomendados da autora (na Amazon): Box A mão esquerda da escuridão e Os despossuídos; O feiticeiro de Terramar e Sem tempo a perder: reflexões sobre o que realmente importa (não ficção)

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Cena de 2001, Uma Odisseia no Espaço; BBC (Nagazaki logo após o ataque nuclear dos EUA); Google Image Search (Ursula K. Le Guin).

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22.3.18

A Nona Elegia de Duíno

Por que, se poderia iniciar como coroação, e assim ser gasto,
este espaço do Ser, pouco mais negro do que todo
o verde à volta, com pequeninas ondas nas pontas
de cada folha (como uma brisa sorridente): por que, então,
tem de ser humano – e um destino fugidio
ansiando por outro destino?...

Oh, não porque a felicidade existe,
este lucro tão precipitado de uma perda iminente;
não pela curiosidade, ou por se exercitar o coração
que lá poderia estar, na coroação...

Mas porque estar aqui já é muito, e porque tudo
o que se encontra à nossa volta parece clamar por nós,
essas coisas efêmeras que, estranhamente, nos inquietam.
Nós: o que há de mais efêmero. Uma vez
tocamos cada coisa, só uma vez. Uma única vez, e nunca mais.
E nós também, uma só vez. E nunca mais.
No entanto, esta única vez, este ter sido, ainda que só uma vez,
uma coisa da terra – isto parece irrevogável.

E assim, nós seguimos adiante, querendo conquistá-la,
tentando segurá-la em nossas mãos acanhadas,
no olhar que nos transborda, e no coração que se cala.

Tentamos nela nos tornar. Mas a quem ofertá-la?
Nós a seguraríamos para sempre... Ah, que será, aliás,
que nós carregamos à outra dimensão? Não a contemplação
que aprendemos por aqui, lentamente, e nada
do que já se passou. Nada.

O sofrimento então. Acima de tudo, então, o que é difícil,
a longa experiência do amor, que seja – aquilo que é
completamente indizível. Mas, mais tarde,
espalhado nas estrelas, de que ele nos serve:
ainda é melhor se calar.

Uma vez que o andarilho não traz nenhum punhado de terra
da encosta da montanha para o vale, nada que possa ser dito,
mas somente uma palavra conquistada, uma flor de genciana,
pura, azul e amarela.
Estaríamos nós aqui, quem sabe, para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, jarro, árvore, janela –
e acima de tudo: coluna, torre...
Mas para recitar, compreenda, oh, para recitar as coisas
como elas mesmas jamais falariam de si mesmas,
jamais assim, tão profundamente.
Não é esta a intenção secreta da Terra discreta?
Atrair os amantes uns aos outros,
até que cada uma das coisas da natureza
se delicie com o que sentem?

Soleira: o que é isso para dois amantes
que igualmente desgastam as próprias soleiras
de seus antigos portões?
Sim, eles também as desgastam pouco a pouco,
após tantos e tantos dos que aqui já passaram,
e antes dos que ainda virão... simples assim.

Eis aqui a era do que pode ser dito: aqui está a sua casa.
Fale, e seja testemunho. Mais do que nunca
as coisas que podem ser tocadas estão desvanecendo,
e o que as destituí e substituí é um Ato sem Imagem.

Um ato, sob uma casca que se romperá, tão cedo
quanto a sua ação interna a transborde,
e estabeleça um novo limite para si mesma.
Entre as marteladas, sobrevive nosso coração,
assim como a língua entre nossos dentes
que, apesar do que fazem,
continua exaltando a existência.

Cante ao Anjo o louvor do mundo, não o que não pode ser dito:
você não pode impressioná-lo com as glórias do seu sentimento:
no seu universo, onde tudo é mais profundamente sentido,
você é mero aprendiz.
Então, mostre a ele uma coisa simples, talhada em era após era,
que vive sempre perto das mãos e sob a sua vista.

Diga a ele as coisas. Ele ficará mais maravilhado: assim como você,
quando visitou o cordoeiro de Roma, ou o ceramista do Nilo.
Mostre a ele quão alegres podem ser as coisas,
quão suas e sem culpa; mostre como uma lágrima de tristeza
escorre tão pura, e serve como coisa, ou morre como coisa:
tais coisas efêmeras, elas olham para nós em busca da salvação;
logo nós, que somos os mais efêmeros.

Torça para que as transmutemos, completamente,
lá em nossos corações invisíveis, torça para que as vertamos
em nós, oh, em nós, infinitamente! Em o que quer
que nós sejamos, no fim das contas.
Terra, não é isto o que deseja: elevar-se em nós
de forma oculta? – não é este o seu sonho,
ser algum dia invisível? – Oh Terra! Invisível!

Qual seria o seu comando urgente que não a transmutação?
Oh amada Terra, eu lhe atenderei. Oh, creia em mim,
não serão mais necessárias tantas Primaveras
para me convencer: apenas uma,
ah, uma Primavera… já seria mais do que o meu sangue
pode suportar.

Sem lhe dar nomes, eu fui verdadeiramente seu, desde os primórdios de mim.
Você sempre esteve certa, e a sua inspiração mais sagrada
é esta morte, a morte mais íntima.

Veja, ainda vivo. Sobre o quê? Em mim
nem infância nem futuro diminuem...
Uma vida, uma vida caudalosa
transborda em meu coração.


(A Nona Elegia de Duíno, por Rainer Maria Rilke, e tradução de Rafael Arrais).

***

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Crédito da imagem: Google Image Search

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1.3.18

Uma crítica a Academia

Texto por Roberto Leon Ponczek, trechos da obra Deus, ou seja, a Natureza (SciELO). Os comentários ao final são meus.


De que serve a transmissão de pacotes de informações prontas, em hora e local marcados, se a maior parte do tempo o aprendiz permanece desatento às forças vitais que o cercam a cada instante? Esse adestramento para processar fórmulas preestabelecidas é muitas vezes confundido com conhecimento. Assim, torna-se necessária uma descentralidade do local convencional de aprendizado, como a sala de aula e os mestres com hora marcada. A descentralidade do universo [conforme defendida por Spinoza] requer também a descentralidade do aprendizado, e de seus instrumentos clássicos que, muitas vezes, ao invés de facilitar, constituem-se em instransponíveis barreiras ao livre fluir do verdadeiro conhecimento. Desta forma, estaríamos passando do paradigma de uma “pedagogia pensada e centralizadora do sujeito” para uma novo paradigma da “pedagogia filosofante, pensante e não apenas pensada”.

Outro ponto que carece ser questionado é o fato da maioria das escolas e academias ocidentais do pós-guerra querer transformar seus aprendizes em bibliotecas ambulantes, pretendendo que suas mentes sejam extensas memórias de arquivos bibliográficos. Cada vez menos ensina-se a pensar, e cada vez mais, em arquivar dados e referências bibliográficas. Os livros tornam-se obstáculos a serem transpostos, e os mestres seus oraculares intérpretes.

Julgo que, pelo contrário, o aprendiz deve ser estimulado a pensar sobre um texto, a dialogar com seus autores, sem para tal ter de recorrer a bibliotecas de dimensões babilônicas, respaldando-se numa bateria de referências, e perdendo-se num labirinto de citações de comentadores terceirizados. Consumou-se nas academias o hábito de exigir que o aprendiz respalde seu entendimento sobre um determinado texto, com a opinião de um sem-número de especialistas, como se seu primeiro entendimento intuitivo, possivelmente ainda não lapidado, não merecesse crédito, necessitando de álibis ou testemunhas para ser validado.

Entendo, inspirado em Spinoza, que é este conhecimento primeiro, e possivelmente ainda tosco, que servirá como um primeiro martelo com o qual se forjará uma segunda ferramenta mais lapidada, e assim sucessivamente. Um mestre esclarecido não descartará o conhecimento de seu aprendiz, ou criticará a precariedade de suas referências, por mais rudimentares que sejam. Existem artigos científicos com referências bibliográficas maiores que o próprio texto, como se isso fosse prova de embasamento teórico e metodológico!

Muitas vezes os trabalhos acadêmicos são julgados por sua bibliografia, e não pelo seu valor intrínseco. A leitura desses textos é quase sempre maçante, desencorajando qualquer um de seguir por suas labirínticas notas de rodapé e referências. Nem mesmo o autor deste texto, que ora o leitor tem em mãos, se desvencilhou totalmente da camisa de força imposta pelas normas acadêmicas... Gostaria, em breve, de poder escrever outro livro sem notas de rodapé e sem referências!

Jorge Luis Borges, em seu magistral conto Funes, o memorioso, relata a existência de um indivíduo capaz de memorizar todos os fatos e textos de jornais ocorridos ao longo de sua vida sem, contudo, ser capaz de relacioná-los entre si. Funes torna sua existência um arquivo morto de fatos irrelevantes, pois são textos irrelevantes, ideias ou eventos que não têm relação com o mundo que lhe deu origem, conferindo-lhes uma temporalidade. Nossos aprendizes são, muitas vezes, adestrados para serem os Funes da ciência.

Também não posso me calar diante da febre metodológica que assola, como epidemia, extensos setores das academias, induzindo os estudantes a escolherem trabalhos cada vez mais estreitos, para que caibam em um método dado a priori. Os alunos são desestimulados a abordar temas multidisciplinares, ou até mesmo interdisciplinares, e instados a seguir por estreitas trilhas monotemáticas que se encaixem em alguma metodologia preestabelecida. Será o método o soberano que deve determinar a extensão do tema, ou é a vastidão do tema que deve alargar o método? Afinal, uma bela foto deve ser recortada para que caiba no álbum, ou este é que deve ser adequado às dimensões da foto?

[...] As disciplinas científicas assim enquadradas nas academias comparam-se a castelos medievais cercados por fossos onde vicejam os crocodilos guardiões do feudo. As pontes levadiças são erguidas e abaixadas para permitir apenas a entrada e a saída dos súditos do castelo. A academia se divide assim em vários cantões feudais, cada qual concessionário de uma franquia temática, guardada a sete chaves em seu castelo unidisciplinar, delimitado pelo fosso do método e seus atentos guardiões. Professores e estudantes são orientados a permanecer nesses domínios rigidamente circunscritos, e aqueles que inadvertidamente querem cruzá-los, fatalmente serão abocanhados pelos afiados guardiões do castelo.

Na prática isso equivale a uma espécie de sentença de excomunhão velada a partir da qual os professores transgressores não conseguem bolsas de pesquisa ou de estudo para seus orientados, publicações em revistas importantes, ou ganhar qualquer tipo de concurso público. Criam-se, nas academias, autênticas franquias cada qual delimitando rigidamente como deve ser redigido, divulgado e ensaiado o “seu” tema franqueado. Não é incomum essas franquias temáticas desenvolverem extensos tentáculos que se alastram pelas agências de fomento, bancas examinadoras de teses e concursos, além dos conselhos editoriais das revistas especializadas.

[...] Para contabilizar e fiscalizar a produção acadêmica do corpo docente, tais como artigos, livros e demais trabalhos, criou-se um sistema de avaliação numérica (o Qualis, da Capes), como se a qualidade de um texto ou a originalidade de uma ideia pudessem ser mensuradas por números. Este sistema, que é sistematicamente utilizado pelos zelosos guardiões do castelo, fez surgir uma nova geração de professores especializados em construir seus currículos de acordo com esses cânones numéricos, extraindo a máxima pontuação possível.

Este livro, que ora o leitor folheia, em alguns aspectos trafega na contramão de quase tudo que se faz nas academias. Nele não há fronteiras rígidas entre as várias disciplinas, como a Matemática, a Física e a Pedagogia, e elas se entrelaçam desrespeitando deliberadamente os recortes metodológicos, cultuados como dogmas intocáveis pela academia. O livro é longo demais para os padrões atuais, pois hoje vários autores preferem se associar em coautoria para escrever artigos curtos produzidos em série, contabilizando, nas agências de fomento, um título para cada um.

[...] Na vertente contrária, esta é a obra de um único autor solitário que a produziu num longo período de gestação, praticamente recluso em sua casa de campo, totalizando em seu favor apenas um único trabalho em vários anos. Quando nas academias brasileiras vive-se hoje uma febre delirante por publicação e pontuação, este texto foi pensado e escrito sem compromissos de espécie alguma com grupos de pesquisa financiados pelas agências fomentadoras e sem preocupação de pontuação em plataformas oficiais de curriculae vitae. Apesar da inquisição velada e de todas as dificuldades impostas pelas academias, preferi pensar sem fossos nem recortes, estabelecendo relações e organicidade entre as várias disciplinas de saber que devem se entrelaçar para chegar ao autêntico e verdadeiro conhecimento científico.


Comentários
“Na contramão de quase tudo que se faz nas academias”, como bem definido pelo autor, o professor de Física e grande estudioso de Filosofia e conhecimentos gerais nos traz uma obra monumental que não apenas associa de forma profunda o pensamento de Spinoza às buscas existenciais e científicas de Einstein, como se arrisca a afirmar, com suas próprias palavras, onde eles parecem ter acertado e onde parecem ter errado, sempre se embasando no conhecimento científico mais atual, como a Mecânica Quântica.

Não é fácil, decerto, esmiuçar de forma tão aprofundada os axiomas “lógicos e geométricos” da Ética de Spinoza, mas eu penso que Ponczek acabou por nos presentear com uma das análises mais profundas e honestas da obra do grande pensador holandês, e de todo o fruto que ela gerou no mundo. Que isso tenha sido feito dentro do atual mundo acadêmico, é quase um milagre. Por isso preferi trazer a vocês essa crítica embasada e honesta de um acadêmico que se sente profundamente angustiado com o estado atual de nosso ensino. Ponczek é, antes de mais nada, um professor, e um professor deseja ensinar seres que interpretam o mundo, não máquinas enciclopédicas, autômatos recitadores de Wikipédia.

Recomendo a todos os admiradores de Spinoza, de Einstein ou, simplesmente, dos grandes conhecimentos da humanidade, que confiram a sua obra, um e-book em download gratuito na Amazon.

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Crédito da imagem: Ponczek (foto achada no Facebook, não lá muito acadêmica...)

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5.12.17

Milan Kundera e a Astrologia

Trecho de A Imortalidade, romance de Milan Kundera. Os comentários ao final são meus.


Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.


Comentários
Mesmo que permaneça para mim essencialmente como um idioma alienígena, a Astrologia ainda é um enigma que, creio eu, alguns estudiosos de fato adentraram, mesmo que apenas com os tornozelos na água rasa. A primeira vez que ouvi falar no Zodíaco como uma espécie de marcador dos ponteiros do relógio celeste, foi através dos textos do meu amigo Marcelo Del Debbio. Neste sentido, muito mais de fotografia do estado atual da mente universal, do que de "previsões do futuro e influência dos astros", creio que a Astrologia possa de fato servir como um poderoso instrumento de autoconhecimento. Quisera eu ter a fluência em tal língua. Como não tenho, ao menos posso me dar por satisfeito em admirar a elouqência daqueles que estão no beabá deste Alfabeto da Alma. Milan Kundera demontra ser mais um deles.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Relógio Astronômico de Praga)

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27.11.17

Minha impressão sobre o Simpósio de Hermetismo

Texto de Danilo Kiss, um grande entusiasta da Ciência, que a meu pedido gentilmente falou da sua experiência em seu primeiro Simpósio de Hermetismo.

Antes falar sobre minha impressão em relação ao Simpósio, vou tentar ser breve em relação a minha história, até para que as pessoas entendam o motivo desse texto estar aqui. Minha  família de uma certa forma é bem religiosa, onde como a maioria dos Brasileiros se voltou ao Cristianismo. Cresci vendo minha avó materna a rezar terço, escutando orações na rádio pontualmente às 18:00hs, via quando pessoas pediam para que as benzessem quando não estavam se sentindo bem. Com um prato fundo cheio de água e pingando gostas de óleo que banhava em seus dedos, ela fazia sua oração e com sinal da cruz – pingando o óleo na água via a situação da pessoa no momento – se as gotas se justassem ou cresciam, era sinal de quebranto ou mal olhado, se as gotas se mantivessem no lugar estava tudo bem. De fato as pessoas ligavam para agradecê-la, reportando estarem melhores.  Seu enorme santuário com as mais diversas imagens de santos, anjos , de Cristo e Buda, além de ser devota de Nossa Senhora de Aparecida. Minha mãe também não foge a esse ritual. Acordo às 05:30hs para ir trabalhar, e quando saio ela esta ligada em um canal de orações, com seu terço nas mãos, onde o mesmo processo se repete da parte da noite.  Pessoas ligam para serem  benzidas por ela também. Meu pai é agnóstico e tenho três irmãos: um umbandista, outro espírita kardecista e o mais novo maçom, e eu cético em relação a tudo isso que descrevi até agora.

Meus questionamentos em relação a divindades e na crença de um deus criador, que olha por tudo, que sabe o que faz, e que não posso questioná-lo, começou quando tinha por volta de nove anos de idade. Lembro-me  olhando para uma folha em branco, tentando entender como algo pudesse amassá-la sem alguma interferência externa. Era assim que via toda aquela história de um deus que veio do nada, para criar e ser dono de tudo. Em meio às conversas que tinha com meus pais em relação ao meu ceticismo, resolveram me colocar para fazer a primeira comunhão quando tinha quatorze anos de idade, e na segunda aula o Padre (Fernandes) responsável pelas aulas de catecismo, disse a minha a mãe de forma serena que meu lugar não era ali, e que logo entenderiam – talvez fosse pelos meus questionamentos. Ao completar dezoito anos fizeram com que começasse crisma, e confesso que só fiz por causa da minha avó. Nessa época já estudava a história das religiões, bem como Astronomia. Como não encontrava algo que me fizesse acreditar de fato em tudo que via dentro da religião e em relação a um criador onipotente, onisciente e onipresente, resolvi estudar o macro, o começo de tudo.

Comecei a me dedicar a Física e hoje com trinta e oito anos curso Universidade de Astronomia. Nesses quase vinte anos de tudo, tudo (ou quase tudo) das dúvidas que eu tinha em relação aos mistérios não revelados (ou revelados) de forma incoerente pela religião, encontrei na Ciência – Física e Biologia são os ramos da Ciência que mais estudo atualmente, além claro da Astronomia, em que descobri que tudo não foi feito em sete dias, pois para ser gerada a primeira estrela foi necessário milhões de anos. Ao contrário do que muitos conseguem fazer, ainda não consegui traçar um paralelo ou um denominador comum entre Religião e Ciência. Religiosos, místicos, benzedeiros, padres, pastores e líderes de qualquer religião acham que a comunhão entre Ciência e Religião é dizer apenas sobre as bênçãos das divindades, com a tão falada e nebulosa Física Quântica, ou ainda pior: tudo aquilo que a Ciência não explica a Religião consegue – ambas situações tornaram-se clichê. É fato que existem pessoas espiritualizadas e da Área Científica, que conseguem traçar um relacionamento entre as duas coisas. Tenho um grande amigo assim. Físico e que acredita nessa cumplicidade entre a espiritualidade e as partículas subatômicas, o que pra mim ainda é extremamente utópico. Por mais que eu acredite (e tenha provas) que a energia que emitimos apenas pelo nosso pensamento seja algo extraordinariamente forte, me limito apenas àquilo que eu realmente consegui provar. Provar não para outros, mas para mim mesmo! Sabe aquela história de cada coisa no seu lugar? Sigo mais ou menos dessa forma. Mas aí você pode me perguntar se a Ciência explica tudo... E eu digo que para quase tudo que questionei até hoje, sim! Mas esta longe de explicar tudo tudo, afinal nada explica a totalidade do que existe.

Em meus estudos em relação às religiões, frequentei todos os principais cultos para entender o que se passava em cada uma delas, onde cheguei a uma conclusão. A espiritualidade como fonte de saber e de harmonia interna é ótima ferramenta para aqueles que precisam, mas o ser humano que tem por trás dos passes e das incorporações não! Já vi de tudo: desde “reze cem ave marias e cem pais nossos” pelo dízimo que não consegui dar, até que “deus não quer suas moedas, pois ele precisa de notas para terminar suas obras na eternidade”, até aqueles que davam passe em você no centro espírita e lá fora batiam na mulher e ignoravam os filhos. Que tipo de vibração um mamífero desses vai reportar a uma pessoa?  

Enfim, foi nesse estudo sobre as religiões, que em meados de 2015 encontrei uma página no youtube chamada Conhecimentos da Humanidade, com um vídeo sobre a introdução as Religiões. Dali pra frente me tornei um espectador e fã da página, pois tratavam do assunto religioso de forma imparcial, e principalmente com cunho histórico, que era exatamente o que gosto de estudar. Assistindo alguns vídeos tomei conhecimento de um Simpósio que seria realizado no início de Novembro (2017) – o Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas. Confesso que dez anos atrás acharia um absurdo o fato de pensar em participar de algo relacionado a Ciências Ocultas, afinal pra mim não existe nada mais transparente que a Ciência natural. Me permiti ir a esse Simpósio e ver o que os participantes tinham a dizer, além de conhecer as pessoas que fazem parte de um grupo fechado de discussão referente ao canal Conhecimentos da Humanidade [grupo de apoiadores do canal no Padrim]. São pessoas extraordinárias, cada uma na sua percepção de fé e espiritualidade, onde não entendo de onde tiram tanta paciência para escutar as chatices de um cético :)

Finalmente chegou o grande dia! Na verdade foram dois dias seguidos: sábado e domingo. Um dia antes ainda pensava se deveria mesmo participar, mas posso dizer que foi uma experiência um tanto diferente na minha vida. Já ao chegar ao local onde teriam as palestras, me deparei com um cartaz do lado de cima da porta: “Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas”. Respirei fundo! Logo vi uma pessoa com uma longa capa preta e capuz, outra vestida como uma bruxa. Tenso! Já estava na companhia de uma pessoa do grupo (Gidy Sampaio), e alguns minutos depois fui recepcionado pelo Léo Lousada, um dos organizadores do Simpósio e responsável pelos conteúdos no canal Conhecimentos da Humanidade.  Ele me  levou ao encontro de outro idealizador do canal, Bruno Lanaro, onde mais uma vez fui extremamente bem recepcionado. Entrei no local e pude ver todos aqueles meus amigos virtuais, inclusive Raph Arrais (você o conhece bem :), que tranquilamente e humildemente  veio se apresentar, além da Karina, Diego, Daniela e Rodrigo. Fiquei muito feliz em conhecê-los pessoalmente. São todos do bem, cada um no seu estilo. Tive conversas riquíssimas com cada uma delas, e agradeço muito por isso! Minutos depois me sentia totalmente fora de contexto, pois era muita gente espiritualizada, cada um de sua maneira, em seu entendimento diferente. Mas fui forte, e logo começaram as palestras. Uma a uma fui observando, divagando, pensando, fazendo paralelos com minhas crenças, mas me permiti deixar todo meu ceticismo e meu pensamento científico da porta pra fora.

Nos dois dias de Simpósio percebi que cada Ordem e Religião tendem a puxar o que mais se adequa a crença de cada um em um determinado grupo. A verdade, a magia, os deuses, as energias etc. Todos possuem uma comunhão dentro das determinadas crenças. Penso que poderia existir apenas uma para englobar tudo, seria mais coerente não? Mas talvez o ser humano precise dessas diversas possibilidades, pois nós somos assim. Queremos pertencer a um grupo específico, e a maneira mais fácil de se organizarem é a separação pelos ideais. Percebi também que mesmo com tantos pontos diferentes, o intuito é lavar ao mesmo lugar. Observei que sempre que abordavam o assunto Religião vs. Ciência cometiam algum deslize, e percebi também que a preocupação em querer linkar as duas coisas é muito grande, mas acredito que seja mais uma forma de se falar aleatoriamente sobre o assunto.  Hoje me parece que o créme de la créme da Religião em conjunto com a Ciência é a Física Quântica. O fato é que nem a Ciência sabe exatamente como empregá-la dentro do próprio meio científico, que é onde se abre brechas para oportunistas. Vejo que a parte mística ou ocultista começa onde a ciência deixa de explicar – e é aí que para mim começa o grande problema. A Ciência em cem anos veio para desmistificar milênios de mitos e/ou interpretações de livros sagrados e profetas.  Tenho que dizer que não presenciei muitos paralelos em relação a Ciência e Religião, a não ser quando uma espectadora disse que a Bíblia era “quântica”, mas até aí absorvi bem essa questão :) Bom, não estava em um Simpósio de Ciências, então de uma certa forma relevei o que foi dito, sem problema algum.

Cada palestrante representando a diversidade de Ordens e Religiões deixava sempre a entender que o bem comum para uma vida melhor, e consequentemente construir uma harmonia entre todos os seres – seja ela animal, vegetal ou mineral –, é o respeito, a bondade e o amor, dessa forma alcançando a espiritualidade de forma mais tênue. Senti isso também nas pessoas que lá estavam. Cada um da sua forma buscava o conhecimento e principalmente uma forma de elevação espiritual para se tornarem pessoas melhores. Não que com meu ceticismo também não busque tais atributos, mas a diferença que vi em relação a essa busca são os meios.  Procuro ser uma pessoa boa, ter atitudes condizentes com o amor, respeitar a Natureza não para agradar divindade ou ter uma vida eterna, mas ser feliz enquanto a vida aqui no Planeta Terra durar. Não peço nada a nenhuma divindade, apenas agradeço todos os dias. Para quem? Para minha mente! Se existe uma energia onisciente, onipotente e onipresente ela sabe exatamente o que estou passando, o porquê e do que preciso, logo não tenho necessidade de pedir nada. Se tiver algo além da morte do corpo, ótimo, se não tiver nada, tudo bem também. Apesar de saber que nosso corpo de fato é só energia, e não existe a morte de energia e sim a sua transformação, não me arrisco a dizer o que acontece depois que ela se livra da matéria densa que é o nosso corpo. Isso deixo para meus amigos com mais elevação espiritual que eu :)

Quanto a minha impressão final em relação ao Simpósio, posso dizer que foi muito boa, na verdade muito melhor do que esperava! Me arrisco a dizer que esse encontro sirva mais para pessoas como eu. Para os demais acredito que seja mais um complementando de sua busca. Escutar o que o outro lado tem a dizer é muito importante, é respeitar a fé e suas crenças, afinal é isso o que nos faz ser uma pessoa melhor dia após dia. Ouvi magos, bruxas e benzedeiros falarem sobre a forma com que enxergam a vida, e posso dizer que foi muito rico. Por mais que isso não faça parte do meu dia a dia, é bonito saber que há pessoas que através de sua magia se preocupam em ajudar o próximo. Senti muita cumplicidade, harmonia, respeito e principalmente o amor de todos!

Amor – um nome curto, com um significado enorme e tão difícil de ser empregado verdadeiramente em nosso dia a dia, mas quando é feito tudo de forma sincera percebemos a diferença que faz. O amor quando empregado de forma verdadeira, e aí não importa a Religião, a Ordem , ou apenas a percepção intrínseca: ele mudará sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país... ele mudará o mundo! E foi exatamente isso que aprendi no Simpósio – não importa os meios, mas sim o final de tudo! E talvez o deus, as divindades, os santos, os guias, os anjos sejam apenas a forma de amor materializada da qual eles tanto falam. Talvez tudo isso seja apenas o amor! Pretendo voltar nas próximas edições e entender esse enorme mundo. E que dessa forma amemos mais, todos os dias!

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Crédito da imagem: Martin Satler/unsplash

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23.10.17

Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.

Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).

Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:


Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920

[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:

Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.

O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.

O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.

Se ela quer ver nudez, por que não satisfazer seu desejo? Não vejo nada de mal nisso. Ter aqui todos os quadros que amo seria a coisa melhor que esta escola poderia fazer pela juventude – e não é preciso que se diga uma só palavra acerca de um único quadro para que ele produza efeitos positivos. O próprio fato de estarem nesta escola parece dizer às moças: “O que veem em nós é bom, e é bom que o vejam”.

A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.

Com amor,
Mary


Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920

Adorada Mary:

A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.

Não podemos pregar a castidade do nu. As pessoas devem descobri-la por si mesmas. Não podemos conduzir as pessoas ao coração da vida. Elas devem ir por sua própria vontade, e cada uma deve ir só.

Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.

E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.

Com amor,
Khalil


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Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)

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25.7.17

Nosso lugar é aqui

Em homenagem ao dia do escritor venho trazer, pela primeira vez neste blog, um texto de Mariana Castañon, que por um acaso vem a ser a minha prima.


Todo dia quando acordo eu sinto falta de alguém que não conheci, faço uma oração que não aprendi e alimento-me de um amor que nunca vi.
Todo dia quando durmo eu oro ao tempo pelos minutos que não vivi, reclamo ao vento as palavras que nunca foram ditas e declamo ao relento o poema que não escrevi.
Todo dia enquanto durmo acordo aos suspiros do que não sofri, encontro em meus olhos uma paixão que nunca senti e lanço no espaço estrelas que estão por vir.
Nasço e renasço espalhando sons que ainda não criei, acordo todo dia pensando no mundo que vai nascer e durmo com a certeza de que a completude já está em mim.
Que esteja nas palavras dos livros que não escrevi e na cova das filosofias que ainda não pratiquei.
Que estejas em mim através de cada segundo, cada olhar, cada procura e cada suspiro que já encenei, que esteja em mim o que está de ti no universo invisível que criaremos, na sinestesia que representamos, do que respiramos, amamos, dormimos, vivemos e morremos, todo dia carregando a certeza de um ser que vive nos dias que ainda não vivi.
Porque estás nos olhos de todos os amantes exasperados, de todos os nefastos cânticos de solidão que nunca cantei. Não precisamos nos tocar para sermos reais e, se necessário, te darei voz através de cartas, poemas ou pensamentos levianos para resgate futuro, dentro de mim.
Que rasgue minh'alma quem quiser te encontrar, eu já comecei. Nosso lugar é aqui, em mim, em nós. Em toda pronúncia de vocais que ainda não inventamos e em toda palavra que o meu espírito colorir com pigmentos que meus olhos ainda não enxergam.

M. Castañon

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ps.: a Mari deveria escrever mais, não acham?

Crédito da imagem: Josh Adamski/unsplash

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13.6.17

Uma infindável sucessão de bandeiras

Texto por Roberto Calasso em O Ardor (Cia. das Letras). Tradução de Federico Carotti. Os comentários [ao longo do texto] e ao final são meus.

As religiões têm dado muito o que falar no início do século XXI. Mas o que subsiste de religioso, em sentido estrito e rigoroso, no mundo é muito pouco. E não tanto nos indivíduos, mas sobretudo nas estruturas coletivas. Quer sejam igrejas, seitas, tribos, etnias, o modelo é o de um superpartido amorfo, que permite fazer ainda mais do que já permitia a ideia de partido, em nome de algo que é amiúde definido como “identidade”. É a vingança da secularidade. Depois de passar séculos e milênios numa condição de sujeição, como serva de poderes que se impunham sem se justificar, agora a secularidade – zombateiramente – oferece a tudo o que ainda se refere ao sacro as modalidades de ação mais eficazes, mais atualizadas, mais incisivas, mais adequadas aos tempos. É esse o novo horror que ainda precisava se cristalizar: todo o século XX foi o seu longo período de incubação.

Para que se possa falar de algo religioso, é preciso que se estabeleça alguma relação com o invisível. É preciso que haja o reconhecimento de potências situadas além e fora da ordem social. É preciso que a própria ordem social almeje estabelecer alguma relação com o invisível. Nada disso parece ser a preocupação primordial das autoridades religiosas no início do século XXI. Nas altas hierarquias da cristandade ou do Islã, ou entre os pandits do hinduísmo, é fácil encontrar engenhosos sociólogos e engenheiros da sociedade, que utilizam os nomes santos das respectivas tradições para impor ou sustentar uma certa ordem dos costumes. Mas seria difícil encontrar alguém que soubesse falar a língua de Meister Eckhart, de Ibn Arabi ou de Yajnavalkya – ou ao menos lembrasse sua entonação [ele se refere aqui ao misticismo].

Diante disso, os Brahmana [comentários aos Vedas hindus] oferecem a imagem de um mundo constituído apenas pelo religioso e aparentemente desprovido de curiosidade e interesse por tudo que não o seja. Do modo como entende os Brahmana, o religioso permeia todo e qualquer ínfimo gesto – e invade também tudo o que é involuntário e acidental. Para os ritualistas védicos, um mundo que não tivesse tais características pareceria insensato, tal como seus textos tão frequentemente parecem para os leitores de hoje. A incompatibilidade entre as duas visões é total. E é incomensurável a disparidade das forças: de um lado, um encadeamento de procedimentos que, pela primeira vez, veio a recobrir a totalidade do planeta com uma rede digital imperceptível; de outro, um aglomerado de textos, em parte acessíveis apenas numa língua morta e perfeita, que fala de gestos e de entidades que parecem não ter mais nenhuma relevância.

Em sua excentricidade por vezes abissal, o pensamento dos ritualistas védicos tinha, porém, a seguinte peculiaridade: colocava sempre questões cruciais, diante das quais o pensamento de linguagem iluminista se mostra canhestro e impotente. Os ritualistas não ofereciam soluções, mas sabiam isolar e contemplar os nós que não se desatam. Não é dito que o pensamento possa fazer mais do que isso.

Seria um pleonasmo utilizar a palavra símbolo num mundo onde qualquer fiapo implicava outros significados. O que, por exemplo, a água nos Vedas poderia simbolizar, senão – quase – tudo? Se aplicássemos a noção ocidental de “símbolo” ao mundo védico, logo chegaríamos a uma condição de insignificância generalizada por excesso de significados. E, de fato, o sânscrito não dispõe de uma palavra que corresponda precisamente a “símbolo”. Bandhu, nidana, sampad: são palavras que indicam uma afinidade, uma ligação, um vínculo, uma correspondência, um nexo, uma equiparação, mas não podem ser remetidas a funções de representação, como ocorreu com o símbolo [isto é, se tudo já seria uma representação por si só, seria inútil distinguir algo como “sendo uma representação, um símbolo”].

Na mentalidade comum ocidental, como veio a se formar durante uma elaboração secular [...], o pressuposto é que a imensa maioria das coisas pode facilmente se eximir da tarefa de ser símbolo de outra coisa, salvo em alguns casos bem circunscritos, nos quais se admite a legitimidade – e também a utilidade – dessa função. A bandeira é um bom exemplo. Mas o mundo védico seria, então, uma infindável sucessão de bandeiras.

Ao mesmo tempo uma mente ocidental atual consegue, mesmo com alguma dificuldade, abrir caminho entre os textos védicos e neles encontrar algo de vital que não o faz em outros lugares. E as dificuldades com que se depara não são maiores do que as que um indiano contemporâneo precisa enfrentar. A distância entre as duas culturas contemporâneas, a indiana e a ocidental, é evidente e notável, mas se torna irrelevante comparada à distância astronômica de ambas em relação ao mundo védico.

[...] Hoje, os deuses gregos e seus ritos falam na Grécia apenas por meio do silêncio das pedras. O mesmo vale para o Egito, a mais idosa das civilizações [embora os hermetistas talvez tenham outra opinião]. Mas os mantras védicos continuam a ser recitados e entoados, incólumes, por vezes nos mesmos locais onde se formaram. E certos gestos rituais, aos quais o pensamento védico dedicara uma obsessiva atenção, continuam a ser realizados nas cerimônias sacramentais que ainda marcam inúmeras existências na Índia.

Os deuses habitam lá onde sempre habitaram. Mas na terra perderam-se algumas indicações que se tinha sobre esses locais. Ou já não se consegue mais encontrá-las em velhas folhas, abandonadas e dispersas. A vida, enquanto isso, continua como se nada fosse. Alguns pensam que algum dia essas folhas serão reencontradas. Outros pensam que elas nunca tiveram nenhum interesse especial. Outros ainda ignoram que elas existiram.


Comentários
Eu acabo de lhes trazer um trecho do epílogo da monumental obra de Roberto Calasso, um intelectual de Florença, na Itália, que além de conhecer diversas línguas e países, é também um estudioso profundo de sua história, literatura e mitologia. No caso dos Vedas e do hinduísmo, no entanto, é talvez onde Calasso tenha de fato ido “até onde nenhum estudioso ocidental jamais esteve”.

Em O Ardor, Calasso esmiúça os primórdios quase insondáveis do “povo dos Vedas”, que se iniciam precisamente no Rigveda, o primeiro e mais antigo. Trata-se dos hinos e rituais de um povo ainda nômade, ainda recém-saído do xamanismo arcaico, que mal havia se estabelecido as margens do Ganges. Talvez fosse algo para ser descartado, não fosse pelo fato deste mesmo povo ter concebido, nos milênios que se seguiram, uma das literaturas espirituais mais profundas e iluminadas, com seus milhares de deuses, e que veio a culminar na grande pérola conhecida como Bhagavad Gita.

Calasso por vezes é criticado por inserir muito da sua própria opinião, da sua própria visão de mundo ocidental, nas análises que faz dos Vedas, mas eu penso que isso seja justamente a sua grande qualidade, e não um defeito: ter a coragem de interpretar os Vedas, e não somente relatá-los, como um arquivista do Céu. Assim, para quem se interessa por hinduísmo ou pelos primórdios da espiritualidade oriental, este livro é altamente recomendado: você pode encontrá-lo à venda na Amazon.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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5.4.17

Deixaram somente palavras

Texto por Roberto Calasso em O Ardor (Cia. das Letras). Tradução de Federico Carotti. Os comentários ao final são meus.

Eram seres remotos, não só dos modernos, mas de seus contemporâneos antigos. Distantes não como outra cultura, mas como outro corpo celeste. Tão distante que o ponto de onde são observados torna-se quase indiferente. Que isso ocorra hoje ou cem anos atrás, nada de especial muda. Para quem nasceu na Índia, algumas palavras, alguns gestos, alguns objetos podem soar mais familiares, como um irreprimível atavismo. Mas são contornos engraçados de um sonho cujo desenrolar se ofuscou.

Incertos os locais e os tempos em que viveram. Os tempos: mais de três mil anos atrás, mas as variações cronológicas, entre um estudioso e outro, são consideráveis. A área: o norte do subcontinente indiano, mas sem fronteiras precisas. Não deixaram objetos nem imagens. Deixaram somente palavras. Versos e fórmulas que marcavam rituais. No centro deles aparecia uma planta inebriante, o soma, que até hoje não foi identificada com precisão. Já naquela época falavam dela como uma coisa do passado. Ao que parece, não conseguiram mais encontrá-la.

A Índia védica não teve uma Semíramis nem uma Nefertiti, tampouco um Hamurabi ou um Ramsés II. Nenhum DeMille conseguiu encená-la. Foi uma civilização em que o invisível prevalecia sobre o visível. Esteve, como poucas outras, exposta à incompreensão. Para entendê-la, é inútil recorrer aos fatos, que não deixaram traços. Permanecem apenas os textos: o Veda, o Saber. Composto de hinos, invocações, esconjuros, em versos. De fórmulas e prescrições rituais, em prosa. Os versos vêm inseridos em determinados momentos de ações rituais muito complexas. Eles vão desde a dupla libação, agnihotra, que o chefe da família deve realizar sozinho, todos os duas, por quase toda a vida, até o sacrifício mais importante – o “sacrifício do cavalo”, asvamedha –, que envolve a participação de centenas e centenas de homens e animais.

Os Arya (“os nobres”, como os homens védicos chamavam a si mesmos) ignoravam a história com uma insolência que não encontra igual nos anais das outras grandes civilizações. Conhecemos os nomes de seus reis apenas por alusões no Rigveda e por episódios narrados nos Brahmana e nas Upanisad. Não se preocuparam em deixar memória de suas conquistas. E, mesmo nos episódios de que chegaram notícias, não se trata tanto de ações – bélicas ou administrativas –, mas de conhecimento.

Quando falavam em “atos”, pensavam principalmente em atos rituais. Não surpreende que não tenham fundado – nem sequer tenham tentado fundar – um império. Prefeririam pensar sobre qual é a essência da soberania. Eles a encontraram em sua duplicidade, em sua divisão entre brâmanes e xátrias, entre sacerdotes e guerreiros, auctoritas e potestas. São duas chaves, sem as quais nada se abre, sobre nada se reina. Toda a história pode ser considerada sob o ângulo de suas relações, que incessantemente mudam, se ajudam, se ocultam – nas águias bicéfalas, nas chaves de São Pedro. Há sempre uma tensão que oscila entre a harmonia e o conflito mortal. Sobre essa diarquia e suas infindáveis consequências, a civilização védica concentrou-se com a mais alta e sutil clarividência.

[...] Não havia templos, nem santuários, nem muralhas. Havia reis sem reinos de fronteiras traçadas e seguras. Moviam-se periodicamente em carroças com rodas dotadas de raios. Essas rodas foram a grande novidade que criaram: antes delas, nos reinos de Harappa e Mohenjo-daro, apenas as rodas compactas, maciças e lentas eram conhecidas. Assim que paravam, tratavam principalmente de preparar e acender fogueiras. Três fogueiras, uma circular, uma quadrara de uma em forma de meia-lua. Sabiam cozer tijolos, mas os usavam somente para construir o altar que ocupava o centro de um de seus rituais. Tinha o formato de um pássaro – um falcão ou uma águia – de asas abertas. Chamavam-no “o altar do fogo”.

Passavam a maior parte do tempo numa clareira aberta, em leve declive, onde se concentravam ao redor dos fogos murmurando fórmulas a cantando fragmentos de hinos. Era uma ordem de vida impenetrável, a não ser após longo aprendizado. Imagens pululavam em suas mentes. Talvez, também por isso, não se interessavam em entalhar ou esculpir figuras dos deuses. Como se, já estando cercados por elas, não sentissem necessidade de acrescentar outras.

Quando os homens do Veda desceram ao Saptasindhu, à Terra dos Sete Rios e depois à planície do Ganges, grande parte do território era coberta por florestas. Abriram caminho com o fogo, que era um deus: Agni. Deixaram que ele traçasse uma teia de cicatrizes. Viviam em aldeias provisórias, em cabanas sobre estacas, com paredes de junco e teto de palha. Seguiam os rebanhos, deslocando-se sempre para o leste, às vezes parando diante de imensas extensões de água. Foi essa a época áurea dos ritualistas.


Comentários
É assim que se inicia a monumental obra de Roberto Calasso, um intelectual de Florença, na Itália, que além de conhecer diversas línguas e países, é também um estudioso profundo de sua história, literatura e mitologia. No caso dos Vedas e do hinduísmo, no entanto, é talvez onde Calasso tenha de fato ido “até onde nenhum estudioso ocidental jamais esteve”.

Em O Ardor, Calasso esmiúça os primórdios quase insondáveis do “povo dos Vedas”, que se iniciam precisamente no Rigveda, o primeiro e mais antigo. Trata-se dos hinos e rituais de um povo ainda nômade, ainda recém-saído do xamanismo arcaico, que mal havia se estabelecido as margens do Ganges. Talvez fosse algo para ser descartado, não fosse pelo fato deste mesmo povo ter concebido, nos milênios que se seguiram, uma das literaturas espirituais mais profundas e iluminadas, com seus milhares de deuses, e que veio a culminar na grande pérola conhecida como Bhagavad Gita.

Calasso por vezes é criticado por inserir muito da sua própria opinião, da sua própria visão de mundo ocidental, nas análises que faz dos Vedas, mas eu penso que isso seja justamente a sua grande qualidade, e não um defeito: ter a coragem de interpretar os Vedas, e não somente relatá-los, como um arquivista do Céu. Assim, para quem se interessa por hinduísmo ou pelos primórdios da espiritualidade oriental, este livro é altamente recomendado: você pode encontrá-lo à venda na Amazon.

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Crédito da imagem: Google Image Search/hinduhumanrights.info

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23.2.17

Sócrates e a discordância construtiva

Texto por José Francisco Botelho em A Odisseia da Filosofia (Ed. Abril). Os comentários ao final são meus.

Dialética é uma dessas palavras escutadas com frequência, mas cujo sentido geralmente fica embotado pela fora do hábito e o peso do jargão. Na Antiguidade, contudo, ela tinha um significado claro: era a utilização do diálogo como ferramenta filosófica.

Para entender de que forma Sócrates transformou a história da dialética, vamos fazer uma recapitulação rápida – pois o sentido das coisas fica mais claro quando elas são comparadas com o que veio antes e depois. No início do século 5 a.C., Zenão de Eleia criou a dialética erística: um tipo de discurso em que o filósofo antecipa os contra-argumentos de seus adversários e utiliza-os para defender sua própria tese. No caso de Zenão, o debate era apenas imaginário: a palavra final ficava sempre com o autor da obra.

Depois, veio o diálogo sofístico, que era praticado face a face, entre dois interlocutores reais. Os sofistas não estavam interessados em descobrir grandes verdades; utilizavam o diálogo como ferramenta retórica, para vencer debates e influenciar a opinião do público. Aí entra o toque particular de Sócrates: para ele, o diálogo era um método de buscar a verdade por meio de perguntas e respostas. Ao contrário dos sofistas, ele partia do princípio de que a mente humana pode, sim, captar a realidade final das coisas – desde que assuma a sua ignorância de antemão.

Para os sofistas, o mais importante na filosofia era o uso persuasivo da linguagem – a verdade seria apenas uma questão de perspectiva e o que realmente importava era a habilidade em defender qualquer ponto de vista. Já Sócrates acreditava que a linguagem era uma ferramenta, e não um fim em si mesma. E, enquanto Zenão de Eleia usava a dialética com o objetivo de defender um ponto de vista decidido de antemão, os diálogos socráticos têm final aberto. Sócrates alimentava a dúvida, para que a verdade não fosse sufocada pelo peso das ideias falsas.

A teoria está explicada; mas, na prática, como funcionava o diálogo socrático? Sócrates geralmente começava lançando perguntas aparentemente simples sobre assuntos supostamente básicos: O que é o amor? O que é virtude? O que é educação? Em seguida, analisava cada resposta de forma implacável, questionando cada palavra e cada conceito usado por seus interlocutores – mas (e isso é muito importante) o questionamento socrático era sempre feito em tom amigável, sem arrogância, em uma tentativa de construir o conhecimento de forma partilhada, coletiva.

Existe no método socrático uma provocação atualíssima, que parece feita sob medida para o nosso século, cheio de som, fúria e desrazão. A arte do diálogo, conforme praticada por Sócrates nas tardes e noites de Atenas, era ao mesmo tempo implacável e civil. Implacável porque colocava em cheque todas as certezas herdadas, sem pruridos. Civil porque, se demolia ideias humanas, fazia-o em nome da humanidade, com o intuito de tornar possível uma sabedoria sem pés de barro.

A dialética de Sócrates não servia para defender posições arraigadas; lançava-se, cortesmente, contra todas elas. Partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas. Em outras palavras: para Sócrates, a discordância não era uma força negativa, mas construtiva. Dois mil e quatrocentos anos se passaram e ainda estamos por assimilar essa lição.

Aqueles que ousassem embarcar na afável demolição socrática acabavam com uma impressão inquietante, mas potencialmente salutar: a de que todas as suas certezas eram relativas e, portanto, precisavam ser revistas. O objetivo de Sócrates era, exatamente, lançar o interlocutor em uma espécie de vazio – mas um vazio onde novas reflexões poderiam surgir, desimpedidas, em livre fluxo. “O alvo do método socrático”, escreve Richard Robinson em Plato’s Earlier Dialectic, “é arrancar os homens de sua sonolência dogmática e despertá-los para a verdadeira curiosidade intelectual”.

Como exemplo, vamos dar uma olhada no diálogo Laques, de Platão [ou seja, uma conversa entre Laques e Sócrates]:

“Laques, você acha que a coragem é algo bom ou reprovável?”

“Algo bom, certamente.”

“E quanto à tolice? É também uma coisa boa?”

“De forma alguma, Sócrates. A tolice é reprovável.”

“Imaginemos agora dois homens. Um sabe mergulhar, o outro nunca entrou na água. Ambos são desafiados a fazer um mergulho até o fundo do mar. Ambos aceitam o desafio, com grande perseverança de espírito. Qual dos dois é o mais corajoso?”

“O que não sabe mergulhar, é claro.”

“Contudo, qual dos dois é o mais tolo? O que tem o devido conhecimento técnico das artes do mergulho, ou o que se enfia na água sem mal saber nadar?”

“O mais tolo, nesse caso, é o mergulhador inexperiente.”

“Você havia me dito que a coragem é algo bom, enquanto a tolice é reprovável. Mas agora chegamos à conclusão de que, nesse caso, o mais corajoso não é o mais perseverante, e sim o mais tolo.”

“É fato, Sócrates.”

“Você continua achando que sua definição está correta?”

“De forma alguma. Eu estava errado. Que coisa estranha, Sócrates! Parece que não consigo expressar em palavras o que parecia claro em meu pensamento; sinto que sei o que é a coragem, mas, se tento defini-la, ela me passa a perna e foge de mim.”

“Ora, meu caro Laques, sejamos então como o bom caçador, que jamais desiste de perseguir sua presa. Tenhamos perseverança de espírito. Avante!”

Nesse lapidar diálogo socrático, o filósofo não estava sugerindo que a coragem fosse algo inútil ou estúpido – afinal de contas, ele próprio dera mostras exemplares de bravura no campo de batalha [Sócrates foi soldado ateniense em sua juventude]. O que Sócrates demonstrou é que, na maior parte das vezes, não sabemos direito sobre o que estamos falando – mesmo quando falamos de assuntos aparentemente elementares.

E assim, de interlocutor em interlocutor, Sócrates ia demolindo certezas: tornou-se, em suas próprias palavras, um “vagabundo loquaz”, andando por Atenas a fazer perguntas e mais perguntas a quem se dispusesse a respondê-las. Sua amistosa impertinência conquistou muitos seguidores entre os jovens atenienses. Além de Platão, o encantamento socrático também seduziu Alcibíades, seu companheiro de batalhas.

No Banquete, o jovem guerreiro descreve desta forma o efeito de Sócrates sobre a mente dos ouvintes entusiastas: “Quando escuramos Sócrates, pensamos inicialmente que seus discursos são ridículos: pois, no exterior, estão cobertos por frases e palavras absurdas. Mas, quando olhamos mais a fundo, descobrimos que as palavras de Sócrates são as únicas que realmente fazem sentido”.


Comentários
Pode parecer simples resumir as três vertentes da dialética, e ainda explicar a essência do diálogo socrático em poucos parágrafos. Mas passa longe de ser: outros que se meteram a tentar explicar a vasta história da filosofia ocidental precisaram de muito mais palavras. José Francisco Botelho, escritor e tradutor do sul do Brasil, é um mestre em passar esse tipo de conhecimento filosófico adiante. Eu o conheci inicialmente lendo seus memoráveis artigos para a revista Vida Simples. Depois o encontrei também como colunista da Veja. Mas foi neste livro, encontrado ao acaso numa banca de jornal, que pude compreender toda a extensão da sua habilidade para resumir conceitos grandiosos em parágrafos muito fáceis de serem lidos.

Outros autores precisaram de muitas centenas de páginas para explicar de forma aprofundada a história da filosofia no Ocidente. José precisou de menos de 300. Mas todo o seu cuidado em usar tais páginas da melhor forma possível é claro e evidente ao longo da obra. Se você quer conhecer mais sobre a filosofia, não existe introdução melhor e mais eficiente do que A Odisseia da Filosofia, que ainda pode estar dando bobeira numa banca ou livraria a poucos metros da sua casa. Não perca essa oportunidade!

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Crédito da imagem: Louis J.Lebrun (Socrates speaks)

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