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5.8.15

Alumínio

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há algum tempo atrás li num livro que Napoleão, o imperador da França, tinha uma pequena coleção de talheres de alumínio, e que os guardava somente para si e os seus convidados mais ilustres. Os demais usavam talheres de ouro mesmo.

Isto porque, na sua época, a produção de alumínio em larga escala havia sido recém-descoberta, e ainda era tão cara que os talheres ou joias feitos de alumínio tinham muito mais valor do que os mesmos forjados em ouro. Somente algumas décadas depois, ao final do século XIX, é que novas descobertas científicas permitiram que a produção de alumínio se tornasse bem mais barata [1].

Mas não consta que durante o reinado de Napoleão os alquimistas franceses tenham substituído o ouro pelo alumínio. Que eu saiba, eles continuaram tentando transformar o seu chumbo em ouro, como antes.

Ocorre que o ouro dos alquimistas nada tinha a ver com o ouro dos talheres comuns de Napoleão. Se tratava de um ouro mais etéreo, mais espiritual, mais simbólico. Um ouro, de fato, muito mais difícil de produzir do que aquele ouro mais comum. No entanto, um ouro que não se sujeitava as leis de escassez, da oferta e procura – enfim, um ouro que nunca esteve à venda.

Outra importante consideração a fazer sobre os alquimistas é que eles não valorizavam seus mestres pelo seu peso em ouro, mas sim pela sua luminosidade.

Na antiga Atenas um grande mestre das ideias também se tornou puro ouro. Mas ele fazia questão de ressaltar que nada sabia. As ideias tinham valor por si mesmas, ele provavelmente pensava, e o fato de orbitá-las não o fazia seu dono, apenas o seu divulgador. Ele era apenas um espelho devidamente polido, tudo o que fazia era refletir alguma luz vinda sabe-se lá de onde...

E se ele repetia há todo momento que tudo o que sabia era que nada sabia, é porque era sábio o suficiente para compreender a grande e vil armadilha que se arma para aqueles que julgam que o seu ouro é sua propriedade, e não a propriedade de toda a humanidade.

Pois que se a fonte dourada é represada pelas alucinações do ego, ela perde a sua pureza, e se torna fétida.

Afinal, aquele que se torna imperador de si mesmo produz não talheres, mas o próprio alimento para todos aqueles que vagam por este mundo, esfomeados e desamparados. São eles quem precisam ser alimentados, e não o ego!

Assim, o sábio que conquistou os seus próprios países, que marchou sobre a própria sombra e a trouxe para o seu exército, dispõe de riqueza inimaginável.

Mas como isso valeria mais do que ouro?

Ora, se os pretensos alquimistas tivessem sucesso, e se todo o chumbo do mundo se transmutasse em ouro, os talheres mais valiosos passariam a ser de prata. Isso já não diz muito sobre o valor que damos ao ouro?

No entanto, o outro ouro, o ouro dos verdadeiros alquimistas, será sempre o bem mais valioso! E no dia em que ele deixar de ser tão raro, no dia em que for tão comum quanto o alumínio de Napoleão, então esta terra estará cheia de imperadores sem súditos, e um céu dourado terá sido derramado sobre o mundo...

Há uma batalha diária, feroz e violenta, para que cada pensamento se livre do seu chumbo, e se eleve e se doure e se torne sublime!

Para aqueles que creem que o céu está lá fora, cheio de deuses misteriosos, esta é uma guerra sem sentido.

Mas para aqueles que trouxeram seus deuses para dentro, esta é a única guerra que merece ser travada, a grande guerra alquímica.


raph’15

***

[1] Essa história também é contada neste artigo: Você sabia que o alumínio chegou a valer mais do que o ouro?

Crédito da imagem: Google Image Search/todayifoundout.com

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24.8.11

Frases (7)

Mais frases que vem e vão, e por vezes as consigo agarrar, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:

"A diferença entre nós e os seres de Acima é que eles não criam peixes em aquários apenas para se divertir ou decorar seus quartos."

"Os seres de Acima sabem que os peixes do aquário um dia serão como eles, e ainda muito mais... Quanto antes, quanto menos dolorido e mais amoroso o caminho, tanto melhor."

"Qual a previsão do presente?"


"Eu escrevo para melhorar a vizinhança. Quanto melhor a vizinhança, melhor o condomínio do mundo."

"A dúvida sem dúvida faz parte de um mundo em constante mudança."

"Quando mergulhamos nalgum canto da eternidade, não há nada a temer, nem nada a duvidar - pois não há nada a se pensar, apenas a se sentir!"


"Se tempo é dinheiro, o dinheiro é relativo."

"Quem doa amor, nada perde: ganha mais. É que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além da razão."

"Da próxima vez que algém lhe disser: vivo totalmente sem fé, pergunte onde ele guarda suas moedas de ouro."


"Quando descreve a natureza física, a matemática é ciência. Quando descreve a imaginação humana, ela é arte. Quando descreve o infinito, ela é sagrada."

"Existe enorme diferença entre ter o hobby de não colecionar selos, e o hobby de criticar ferozmente toda e qualquer coleção." [1]

"Diferença entre um humanista secular e um espiritualista: um defende o espírito humano enquanto encarnado, o outro o defende onde quer que vá."


"Um dia também acreditamos piamente que o Sol girava em torno da Terra, mas esse dia está nesse momento tão distante que se perdeu de nossa consciência atual."

"Aquele quem primeiro afirmou que era a Terra que girava em torno do Sol: era aqui um louco e, nas estrelas, mais um que despertou."

"Assim parece ocorrer: não encontramos a verdade talhada em pedra, despertamos para ela. Um sonho de cada vez..."


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[1] Alguns anti-teístas afirmam que apenas tem o hobby de não colecionar selos...

Crédito da imagem: do mestre da filosofia sequencial, Laerte.

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10.7.10

Mulher objeto

Vamos ser honestos e ir direto ao ponto: faz muito tempo que o mundo ocidental é machista – no mínimo, desde que o culto a Deusa foi destroçado pela Igreja, mas isso não vem ao caso no momento...

Sim, já foi pior, já foi muito pior. Houve época em que mulheres “não tinham alma”. Houve época em que não podiam nem estudar nem trabalhar “porque sua única função era cuidar da casa e dos filhos”. Houve época em que não podiam votar e muito menos se eleger... Mas graças aos anticoncepcionais e aos movimentos de emancipação do século passado, as mulheres hoje estão em situação bem mais digna.

Ou melhor, elas sempre estiveram em situação digna. Os homens é que eram indignos das mulheres, pois por muito tempo foram educados para as tratar como seres secundários, às vezes serviçais.

Dizem que a humanidade não evoluiu moralmente. Os dogmáticos do apocalipse adoram lembrar que nossa evolução tecnológica nada fez por nossa moral. Dizem que “não há nada de novo abaixo do céu”... Eu não concordo.

Não concordo, porque há 2 mil anos o povo ia ver feras devorarem homens no Coliseu de Roma. E aplaudiam... Hoje o povo vai a um estádio de futebol (mesmo em Roma) para ver uma disputa esportiva, e raramente aplaude algum derramamento de sangue – é claro que os hooligans estão aí para nos lembrar do quão ignorante parte de nós ainda é, mas eles são a minoria, felizmente...

Os homens diziam que o mercado de trabalho não comportaria o afluxo de mulheres, que isso provocaria desemprego e conflitos e caos generalizado... Não, o apocalipse não chegou porque uma mulher assumiu a gerência de uma multinacional, ou a presidência de um país. Elas não são tão diferentes assim dos homens, e em muitas áreas são estatisticamente melhores – como na direção de automóveis, por exemplo; Se não acredita basta verificar em qualquer seguradora quanto custa o seguro para homens, e quanto custa o mesmo seguro para mulheres.

Mas há homens inteligentes e sensíveis o suficiente para reconhecer todas as potencialidades femininas... Vejamos o presidente da França, por exemplo, que certamente não deve ter muitas reclamações acerca da belíssima ex-modelo com quem se casou – uma artista de mão cheia, que não deixou de ser musicista e nem escritora por ser uma “primeira-dama”. Quantos homens não se sentiriam intimidados por uma Carla Bruni? Alguém tão bela, tão dona de si mesma, tão deliciosamente poética... Seria “muita areia para o caminhãozinho dele”? Certamente, talvez exatamente por isso ele esteja com ela – “o mais improvável dos relacionamentos”. “Improvável”, isto é, para os machistas que ainda se sentem melhor com as mulheres serviçais, as secundárias, as que não os podem ofuscar...

Porém, os ecos da barbárie medieval e a sombra da ignorância humana ainda se fazem presentes na época atual. Há algo de obscuro enterrado no cerne de nossa educação precária. Uma idéia de que homens são provedores e mulheres são “alguma espécie de bem material” – e que os homens devem ter muito, muito dinheiro, para poder “usufruir” dessas mulheres. Eis o absurdo conceito de mulher objeto (não estou me referindo a parafilia, mas simplesmente ao conceito em si), tão absurdo que se oculta longe da racionalidade, de modo que muitas vezes ele está no inconsciente, e não no consciente. Mulheres objeto no inconsciente coletivo de homens, e também de mulheres... Não acredita?

Se não acredita, dê uma breve olhada em comerciais de cerveja, em revistas masculinas, em sites pornô – ou melhor, talvez seja mais simples ir direto ao ponto, direto na “ferida”...

Clipes de música americana! Eles infestam as mentes de jovens e adolescentes – e mesmo de crianças e pré-adolescentes... Eu poderia citar vários exemplos, mas vamos direto a um ícone, do Black Eyed Peas (vale lembrar que não tenho nada contra a música em si, mas contra a idéia que os levou a escrever uma letra que, no fim das contas, resume muito bem o conceito de mulher objeto):

Na música acima, chamada “My Humps”, temos praticamente uma relação comercial estabelecida: o homem deve prover a mulher com dinheiro e jóias caras, e ela deve prover ele (com o perdão da palavra) com “muita bunda dentro do seu jeans” – eu estou apenas traduzindo a letra!

Algumas mulheres perceberam o absurdo estabelecido na cultura musical “pop” americana... Alanis Morissette nos brindou com sua brilhante paródia da mesma música, em que ela usa a mesmíssima letra, mas com outro ritmo (ela certamente não pretendia lançar um hit com esse clipe):

Isso dá uma pequena idéia geral de como o conceito de mulher objeto penetra em nossa cultura desde praticamente o berço – e nem sempre nossos adolescentes percebem por onde esse tipo de pensamento adentrou suas vidas (e até mesmo alterou o funcionamento cerebral)... Infelizmente não somos educados para pensar por nós mesmos, e dá no que dá: “conceitos enlatados goela adentro” – muitos de nós são praticamente gansos com cérebro inchado (ao invés do fígado).

E como mudar? Como fazer com que as mulheres escapem dessa sina – e de quebra reduzir (muito) a violência contra a mulher, causa direta de muitos traumas e assassinatos, mesmo nas “melhores famílias” –?

Simples: não aceite. Não compre essas idéias. Analise a si mesmo, conheça aos próprios pensamentos, e questione-se até que ponto eles são seus, e até que ponto são fruto de uma sociedade algo decadente, onde o deus do consumo faz o que quer e aonde quer... E todos o aplaudem, ou quase todos.

Mas, sobretudo, homens e mulheres, não desanimem! Quem sabe o dia em que nos chamaremos não de homens e de mulheres – mas de seres, de almas, de consciências –, não esteja tão distante assim... Era após era. Século após século... Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Passo a passo.

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» Tradução da música "My Humps" (atenção: a leitura pode fazer você perder a fé na humanidade)

Crédito das fotos: Anônimo/Divulgação.

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18.6.10

Ferida aberta

Rockall é um pequeno rochedo desabitado com 27 metros de diâmetro, 23 de altura e uma superfície de 570 metros quadrados, no meio do Oceano Atlântico, entre a Islândia e a Irlanda. Pertence à Zona Econômica Exclusiva do Reino Unido desde 1997, depois de ter sido anexado por Londres em 1955. Mas a riqueza que esconde na profundidade das águas em seu redor, em hidrocarbonetos e minerais, é motivo suficiente para ser disputado por quatro nações.

Reino Unido, Irlanda, Dinamarca e Islândia reclamam direitos sobre Rockall – Cada país conta com extenso relatório de razões históricas, geográficas e políticas para demandarem os direitos sobre uma rocha perdida no meio do mar. A disputa ainda promete levar muito tempo e render dividendos a muitos burocratas, mas pelo menos esperamos que não entrem em guerra por conta disso.

Em 1854 o presidente dos EUA, Franklin Pierce, enviou uma carta ao Chefe Seattle com uma oferta não muito generosa de dinheiro para comprar as terras dos índios locais. Ainda que fosse generosa a oferta, o Chefe Seattle pareceu não compreender a lógica do presidente. Em sua carta de resposta, escreveu:

“Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo (...) Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura (...) O destino de vocês é um mistério para nós (...) O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam?

Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem, e sua lembrança for só a sombra de uma núvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo?”

O sábio indígena parecia antever as atrocidades que os homens fariam com a natureza de seu próprio país, incluindo a tal “terra” que gostariam de comprar. Mas se ele parecia preocupado apenas com os “fios que falam” e o fim das florestas selvagens, é porque não viveu para ver as grandes “selvas de asfalto” e tudo o mais que foi erguido nos lares sagrados dos índios que se foram – em sua maioria mortos brutalmente por não aceitarem as “ofertas” dos colonizadores americanos.

Comparando-se as épocas, podemos dizer que ao menos nossa civilização evoluiu um pouco em relação à busca desenfreada por riquezas, ao menos ninguém mais se acha no direito de dizimar nações e inúmeros inocentes em guerras sem sentido, apenas para se abocanhar um pouco mais de terras e riquezas... Será mesmo? Bem, ao menos casos como o da invasão do Iraque não ocorrem mais sem o protesto permanente da mídia mundial...

Talvez mesmo por isso os governantes tenham voltado os olhos para as reservas de riquezas enterradas no fundo dos oceanos – o fétido ouro negro que continua a dominar os desejos daqueles obssediados pela conquista de riquezas, que infelizmente ainda parece ser o caso da maioria dos chefes de governo. A lógica é simples: pode ser mais caro extrair petróleo do mar, mas pelo menos não é preciso invadir países e provocar tragédias diplomáticas, ou ainda que seja necessário algum confronto, será apenas entre militares em navios no meio do mar, longe da mídia.

Mas, ainda que seja cara a tecnologia para cavar tão fundo no leito dos oceanos, mais caro ainda seria pesquisar procedimentos realmente seguros de extração, certificando-se que acidentes sejam raros e as medidas de contenção eficazes... Imaginava-se que a maioria das nações tenha gastado um pouco mais para se certificar que a natureza não seria ameaçada pela extração do ouro negro abaixo do mar, mas era a mais pura ilusão...

Em 20 de Abril de 2010 uma plataforma de exploração de petróleo da British Petroleum (BP) no Golfo do México explodiu, causando 11 mortes de operadores e um vazamento direto para o oceano, que até este momento – cerca de dois meses depois – ainda não foi completamente controlado, e nem parece que vai ser tão cedo. A BP vem tentando conter o vazamento desesperadamente, mas seus engenheiros admitem que simplesmente não tinham a tecnologia necessária para conter um vazamento a tal profundidade (1,6 Km).

A BP têm uma excelente razão para conter o vazamento o mais rápido possível: desde que a mídia passou a anunciar o que provavelmente será (ou já é) o maior desastre ambiental da história dos EUA (e talvez do mundo), suas ações despencaram a valores de mais de uma década atrás, e certamente continuarão em queda livre. O atual presidente americano, Barack Obama, está furioso com o ocorrido, e atrás de “traseiros para chutar” entre os diretores da BP. A verdade, entretanto, é que ninguém sabe até onde irá esse desastre, o vazamento é uma ferida aberta nas águas do Golfo – o sangue negro não tem data para ser estancado.

Ao que parece, tudo se resume a uma questão financeira na mente dos governantes e diretores de empresas como a BP: vamos explorar petróleo nas profundezas porque a tecnologia para extração custa menos do que uma guerra para invadir outros países; porém, não vamos gastar tanto assim com essa tecnologia, vamos gastar apenas o necessário para extrair, assim garantimos maior margem de lucro; se por acaso um dia uma plataforma explodir e vazar o petróleo a centenas de metros de profundidade, seja o que Deus quiser... A gente pensa em um jeito de resolver isso quando o custo da não-resolução passe a justificar o custo da resolução.

Nós tendemos a pensar que os governantes e diretores de grandes empresas sejam homens e mulheres de grande capacidade e inteligência, que zelam pelo bem estar do mundo e das pessoas... Mas eles muitas vezes infelizmente são tão ou mais ignorantes que nós. Mesmo quando não são, sua obssessão por riquezas, influência do deus do consumo, acaba deixando-os cegos. Afinal, da mesma forma que nossa sociedade educa as pessoas a consumir o máximo possível, como se isso fosse fonte de felicidade, influencia os governos para que adquiram o máximo de riquezas e energia possível, como se este fosse o único caminho para o desenvolvimento de seus países. Estão todos cegos, mas ainda há tempo...

Ainda há tempo para se abrir os olhos e reconhecer que todo o movimento ecológico das últimas décadas não surgiu em vão. Que ninguém sabe de onde exatamente vêm os jovens, mas sua tarefa de renovação é quase sempre mais do que evidente. Porque insistir em procurar o fétido ouro negro nas profundezas dos oceanos se os jovens cientistas, engenheiros e sociólogos nos trazem tantas opções e tecnologias mais promissoras? É que os jovens olham para o futuro, e os velhos ficam estagnados no passado – isso independe da idade.

Infelizmente o espírito do povo do Chefe Seattle foi removido de nosso planeta. Não é que eles não merecessem aqui estar, somos nós que não merecemos mais a presença deles... Mas, seja lá onde estiverem, tomara que ainda consigam nos influenciar e iluminar com sua sabedoria. Tomara que aprendamos com eles há tempo. Tomara que decidamos viver, e não apenas sobreviver.

A você que é jovem (de alma), suspeite...
Suspeite de quem vai atrás de rochedos, e não de amor.
Suspeite de quem quer conquistar terras, e não corações.
Suspeite de quem muito fala sem lhe dar tempo de falar.
Suspeite de quem quer pensar por você.

Suspeite de quem dita regras, mas não as explica.
E, a quem as quer explicadas, dizem que não há como explicar.

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» Veja o tamanho do vazamento no Golfo do México comparado com sua cidade (Google Maps)

Crédito das fotos: [topo] Wikipedia (Rockall); [ao longo] BrazilPhotos

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30.4.09

O sexto deus

Era um planeta minúsculo, não mais do que 100 km quadrados, a vagar em torno de alguma estrela de alguma galáxia do universo. Mas os deuses que o habitavam não se importavam com o restante do cosmos, estavam bem atribulados com suas existências imortais. Nesse distinto mundo, contavam-se ao todo seis deuses:

O primeiro deus era o Legislador. Era quem determinava as relações entre os demais deuses, cuidando para que ninguém fosse injustiçado. Ele recebia um imposto dos demais por seu trabalho, de acordo com as condições de cada um.

O segundo deus era o Lorde. Foi quem primeiro descobriu a única mina de ouro que existia em seu planetóide, e portanto a proclamou como sua posse. Era com o ouro do Lorde que a economia girava, e obviamente ele ficava com a maior parte dele (“para o caso de alguma crise”, explicava).

O terceiro deus era o Mercador. Era o responsável pelo giro financeiro do mundo. Através dele todos os outros deuses podiam comprar e vender mercadorias, de modo que todos ficavam satisfeitos de poder fazer alguma coisa com o ouro que recebiam. O Mercador sobrevivia da taxação de todas as transações comerciais. Muitos diziam que ele certamente teria mais ouro que o próprio Lorde, embora ninguém soubesse onde o escondia...

O quarto deus era o Minerador. Foi quem primeiro descobriu as técnicas para se extrair o ouro da terra, a convite do Lorde. Desde então trabalhou incansavelmente para extrair a maior quantidade de ouro possível, visto que seu pagamento equivalia a uma percentagem do que conseguia extrair. Obviamente que a maior parte ficava com o próprio Lorde.

O quinto deus era o Agricultor. Era ele quem conhecia os segredos das plantações de árvores frutíferas, folhas e legumes em geral. Apesar de imortais, todos os deuses precisavam comer para se manterem saudáveis. Estranhamente, o Agricultor era quem recebia menos ouro pelo seu trabalho, já que quase todos os outros deuses (menos o sexto) valorizavam mais o ouro do que a própria saúde. Dessa forma as frutas e verduras eram vendidas por preços ínfimos.

O sexto deus era o Sábio. Ele se recusava a trabalhar para outros deuses, e como era amigo do Agricultor, aprendeu com ele o necessário para plantar as próprias sementes. Tirando seu amigo, todos os outros deuses eram inimigos do Sábio: O Legislador não gostava dele porque quase nunca tinha qualquer imposto a pagar (já que não tinha renda alguma); O Lorde o ignorava solenemente porque abominava seu discurso de que “o ouro não é tão importante quanto à sabedoria”; O Mercador o tratava como um reles mendigo porque nunca tinha ouro suficiente para comprar qualquer mercadoria; Já o Minerador nunca havia compreendido como o Sábio podia viver sem o fascínio pelo ouro.

Então veio uma catástrofe mundial: o ouro que havia na montanha do Lorde acabou! Não havia mais nada para se extrair, e o ouro que já havia sido extraído estava adornando as mansões e os cofres secretos dos deuses mais abastados... Mas não havia mais como pagar pelos trabalhos do Minerador ou pelas frutas e verduras do Agricultor!

De um dia para o outro, todos eram tão mendigos quanto o Sábio. Porém, ao contrário do sexto deus, que dedicou sua imortalidade a estudar a si mesmo, eles haviam relegado a existência ao estudo do ouro, e de tudo que ele podia comprar e adornar – tudo que de nada mais serviria a eles...

Após confabularem entre si, para evitar um colapso mundial de seu sistema de existência, foram humildemente pedir conselho ao sexto deus, que fora chamado a fazenda de seu amigo Agricultor. O Legislador falou por todos:

“Sabes que sou responsável por manter nosso sistema justo para todos. Sempre me pareceu que o sistema de mérito pelo trabalho era o mais adequado, e que todo mérito deveria ser pago em ouro... Mas o ouro acabou e não sabemos mais com o que pagar nossos irmãos. Tu sempre fostes alienado de nosso sistema, nunca concordou com ele. Por isso viemos lhe pedir conselho sobre o que fazer agora. Acaso durante todo esse tempo tendes pensado em um novo sistema para o mundo? Acaso havia previsto que o ouro acabaria?”

“Eu nunca previ que o ouro acabaria, mas fico satisfeito que finalmente acabou. Tu dizes que eu era contra o sistema de mérito, mas não é verdade: sou contra o pagamento em ouro. Durante todo esse tempo tenho pensado numa melhor forma de pagar pelo mérito alheio.” – Respondeu o Sábio.

“E achastes uma forma melhor?” – Prosseguiu aflito o Mercador.

“Não. Mas o que importa é que tenho sobrevivido esse tempo todo sem participar do sistema de vocês graças ao que o Agricultor me ensinou. E ele não me ensinou apenas a plantar sementes... Ensinou também a plantar amizades. Não tenho, depois de todo esse tempo, uma resposta simples para nosso sistema futuro. Mas tenho uma resposta simples para o que me manteve contente e mentalmente produtivo durante todos esses ciclos: sementes e amizade.”

raph'09


» Veja também a continuação deste conto, "O sétimo deus"

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Crédito da imagem: Divânia

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13.4.09

Padrão-fé

Numa época não muito distante, todo o sistema monetário dos países desenvolvidos era baseado num conceito conhecido como padrão-ouro, definido assim pela Wikipedia:

A teoria pioneira do padrão-ouro, chamada de teoria quantitativa da moeda, foi elaborada por David Hume em 1752, sob o nome de “modelo de fluxo de moedas metálicas” e destacava as relações entre moeda e níveis de preço (base de fenômenos da inflação e deflação). Cada banco era obrigado a converter as notas bancárias por ele emitida em ouro (ou prata), sempre que solicitado pelo cliente.

Em suma, toda e qualquer cédula monetária tinha um "lastro material", ou seja, tinha a garantia material e paupável de que o banco que a emitiu tinha condições de emiti-la pelo simples fato de ter "ouro em caixa"... Do contrário, toda cédula monetária não seria muito mais do que um papel impresso, ao qual a fé das pessoas, ou a imposição a força dos governos, determinava o valor - valor virtual, não real.

As “regras do jogo” prevalecentes no sistema de padrão-ouro eram simples: a quantidade de reservas de ouro do país determinava, portanto, a sua oferta monetária. Se um país fosse superavitário em sua balança de pagamentos, deveria importar ouro dos países deficitários. Isso elevaria sua oferta interna de moeda, levando a uma expansão da base monetária, o que provocaria um aumento de preços que, no final das contas, tiraria competitividade de seus produtos nos mercados internacionais, freando assim, novos superávits. Já se o país fosse deficitário na balança comercial, exportaria ouro, sofreria contração monetária, seus preços internos baixariam e, no final das contas, aumentaria a competitividade de seus produtos no exterior. Isso trazia uma certa garantia de harmonia e equilíbrio na balança comercial e economia mundiais (pelo menos nos países desenvolvidos).

Após a Primeira Guerra Mundial, o padrão-ouro sofreu modificações definidas nos acordos de Bretton Woods, porém ainda existia o "lastro material" associado a moeda. Entretando, no início dos anos 70, a principal economia mundial, os EUA, sofria a necessidade de financiamento crescente por conta da Guerra do Vietnã. Qual foi a solução miraculosa para "criar dinheiro do nada"? Abandonar o "lastro material", abandonar o padrão-ouro, e deixar a fé das pessoas determinar o quanto valia o dolar. Obviamente que a função do governo americano, e de outros países desenvolvidos, desde então, tem sido certificar-se que as pessoas acreditam que suas moedas valem mais do que o ouro que detém em seus cofres.

O padrão-fé, termo criado por este artigo diga-se de passagem, é muito simples: os bancos emitem as cédulas monetárias e dizem que tem "uma boa quantidade de ouro para garanti-las", e como tais bancos são bancos de países ditos desenvolvidos, todos acreditam neles piamente (até porque se não acreditarem seu dinheiro valerá menos). Assim, todos creem que os maravilhosos papeis impressos em inúmeras cores, com gravuras elaboradas e assinaturas estilosas, "valem exatamente o que valem" - ou seja, seu suposto "lastro material" em ouro, ainda que não exista mais garantia real nenhuma, nenhuma, de que esse ouro esteja lá.

Não sou economista e obviamente a definição do parágrafo anterior é um tanto superficial e mesmo falha. A realidade sem dúvida é bem mais complexa. No entanto, de uma coisa todos sabemos: se toda a população com dinheiro depositado nos países desenvolvidos correr aos bancos e retirar 100% do valor, vai faltar cédula para todo mundo, mas muito pior do que isso, vai faltar "lastro material" para todo mundo - e todos perceberão que, de certa forma, aqueles maravilhosos papeis impressos nada mais são do que... papel impresso.

Como já havia dito na História do Ouro, a economia atual, principalmente as Bolsas de Valores, se baseiam essencialmente em fé... Nada mais justo, já que o próprio sistema bancário deve sua origem aos "cheques de viagem" dos Cavaleiros Templários. Nada mais justo que um sistema que surgiu de um grupo de monges-religiosos-guerreiros seja hoje baseado em fé. O problema está em não avisar as pessoas disso.

Interessante que hoje passemos por uma crise financeira mundial decorrente exatamente da percepção generalizada de que a "riqueza" de certos países ditos desenvolvidos nada mais era do que um construto de fé. Porém, mesmo esse construto era sustentado por bases tão frágeis que até mesmo a fé era uma espécie de sub-fé, uma enganação, uma "fé sub-prime" - um sistema de crença que se baseava cada vez mais no que havia de virtual na economia, em uma bolha especulativa que não correspondia sequer ao PIB de cada país, quanto mais ao "lastro material" de seus bancos.

Isso não é "teoria da conspiração", não é "um mistério de Nova Era", nem mesmo apenas um devaneio deste que lhes escreve. Trata-se da realidade. Talvez de certa forma exagerada, mas realidade enfim. Basta ver os noticiários econômicos, basta procurar entender mais de economia e balança comercial, basta atentar para a "mudança de paradigma" que muitos ditos Gurus da Economia apontam para o futuro a médio prazo. Qual o "lastro material" que nos restou? Qual a base sólida sobre a qual nossas economias serão reposicionadas? Ora, "lastro material" nunca existiu - mesmo o valor do ouro sempre dependeu da Lei de Oferta e Procura, e mesmo isso depende de fé... O que você quer comprar com o seu dinheiro? Quanto vale o seu dinheiro? Tudo depende do padrão-fé. Tudo depende de nós mesmos.

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Crédito da foto: jelayemprins

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27.3.08

A história do ouro

O ouro sempre representou a riqueza material para a humanidade, somente a poucos anos atrás ele passou a servir a tecnologia, mas anteriormente sempre foi associado ao luxo, a riqueza, e muitas vezes mesmo ao sagrado.

O ouro é conhecido desde a Antiguidade, sendo certamente um dos primeiros metais trabalhados pelo Homem. Conhecido na Suméria, no Egito existem hieróglifos egípcios de 2600 a.C. que descrevem o metal, que é referido em várias passagens no Antigo Testamento. É considerado como um dos metais mais preciosos, e o seu valor foi empregado como padrão para muitas moedas ao longo da história.

Na época das Grandes Navegações países como Espanha e Portugal eram considerados riquíssimos pois trouxeram bastante ouro da América recém descoberta, com o tempo porém esse ouro foi gasto... Interessante perceber que o ouro físico tem validade enquanto riqueza, mas pode ser vendido ou derretido para formar ligas metálicas, revestir micro peças de aparelhos eletrônicos, criar jóias, etc... Ou seja, até algumas décadas atrás a riqueza de uma nação era determinada principalmente por sua quantidade de ouro.

Com a Revolução Industrial e os automóveis e outras máquinas, o petróleo, também conhecido como Ouro Negro, surgiu como grande indicador da riqueza de um país, e em verdade até mesmo nos dias atuais ele é uma das riquezas mais procuradas em todo mundo. Não é nada surpreendente que naçoes pseudo-ditatoriais se sustentem a base da venda de seu petróleo, enquanto ganham a promessa de seus compradores fazerem "vista grossa" para quaisquer tipo de atrocidades ocorridas em suas fronteiras. Mesmo até hoje guerras são feitas em nome do petróleo, ou seja, é a mesma história de sempre: guerras pelo domínio de riquezas.

Mas interessante também é que a modernidade nos trouxe um conceito antigo, mas aplicado de forma globalizada: a Lei da Oferta e da Procura. Baseado nela os mercados deixaram de serem feitos nas praças das cidades, e para atender a nova Era da Informação, evoluiram a Bolsas de Valores, que hoje são operadas online de praticamente qualquer parte do mundo. Hoje, as riquezas, o ouro, o ouro negro, o potencial de uma empresa, e muitas coisas mais as quais o homem sempre conferiu valor material se transformaram em números na tela de um monitor... Em números que percorrem telejornais nos quartro cantos do planeta, que trafegam como bits de informação em homebankings pela internet, que aparecem impressos em quase todos os jornais.

O que determina se esses números sobem ou descem? O que determina o valor das riquezas e do ouro? Ora, a Lei da Oferta e da Procura... A diferença é que, tanto a Oferta quanto a Procura hoje em dia são essencialmente virtuais, são essencialmente baseadas no "ânimo" dos mercados, na "análise sábia" dos Gurus da Economia e, em última instância, na "astúcia" dos especuladores!

Ora, qualquer semelhança entre o Culto ao Ouro e o Culto ao Deus dos Homens não é mera coincidência. Tanto em um como em outro, é o próprio homem quem determina o valor de seu deus. Em ambos, uma dada doutrina ou teoria é somente valorizada pela quantidade de seguidores que lhe adere, assim como a altura e riqueza de seus Templos. Em ambos, temos Gurus e Profetas afirmando trazerem "segredos dos céus" e ditando o Futuro Certo e a sua Verdade Absoluta. Enfim, tanto em um como em outro, estamos falando essencialmente da fé em seu próprio deus, nunca o Deus de Todos, pois esse Ouro não se reparte.

Assim como o investidor tem fé que suas ações vão continuar valorizando, e nunca desvalorizando, e assim reafirma o seu comportamento, os adoradores do Deus dos Homens tem fé que sua Igreja continuará crescendo, contruindo novos templos cada dia mais suntuosos, e que seu deus os trará cada dia mais riquezas, e nunca adversidades. Qual será a grande diferença entre essas duas crenças?

A mente do homem não cria apenas números e cotações e valores para a grama do ouro, ela também cria deuses e imbute neles toda a verdade que gostariam muito, sem dúvida, que fosse a Verdade Absoluta... Mas isso vai até as bolsas quebrarem, até a fé no Deus dos Pés de Barro ser destroçada pelo seu próprio peso, ai tanto uns quanto os outros poderão perceber que o que nos cabe fazer é conhecer a nós mesmos, a nossa verdade, e não insistir em criar verdades para os outros.

A riqueza de cada um se mede pela obra que se realiza com o Ouro que lhes é ofertado.

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