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29.12.14

Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

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18.6.10

Ferida aberta

Rockall é um pequeno rochedo desabitado com 27 metros de diâmetro, 23 de altura e uma superfície de 570 metros quadrados, no meio do Oceano Atlântico, entre a Islândia e a Irlanda. Pertence à Zona Econômica Exclusiva do Reino Unido desde 1997, depois de ter sido anexado por Londres em 1955. Mas a riqueza que esconde na profundidade das águas em seu redor, em hidrocarbonetos e minerais, é motivo suficiente para ser disputado por quatro nações.

Reino Unido, Irlanda, Dinamarca e Islândia reclamam direitos sobre Rockall – Cada país conta com extenso relatório de razões históricas, geográficas e políticas para demandarem os direitos sobre uma rocha perdida no meio do mar. A disputa ainda promete levar muito tempo e render dividendos a muitos burocratas, mas pelo menos esperamos que não entrem em guerra por conta disso.

Em 1854 o presidente dos EUA, Franklin Pierce, enviou uma carta ao Chefe Seattle com uma oferta não muito generosa de dinheiro para comprar as terras dos índios locais. Ainda que fosse generosa a oferta, o Chefe Seattle pareceu não compreender a lógica do presidente. Em sua carta de resposta, escreveu:

“Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo (...) Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura (...) O destino de vocês é um mistério para nós (...) O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam?

Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem, e sua lembrança for só a sombra de uma núvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo?”

O sábio indígena parecia antever as atrocidades que os homens fariam com a natureza de seu próprio país, incluindo a tal “terra” que gostariam de comprar. Mas se ele parecia preocupado apenas com os “fios que falam” e o fim das florestas selvagens, é porque não viveu para ver as grandes “selvas de asfalto” e tudo o mais que foi erguido nos lares sagrados dos índios que se foram – em sua maioria mortos brutalmente por não aceitarem as “ofertas” dos colonizadores americanos.

Comparando-se as épocas, podemos dizer que ao menos nossa civilização evoluiu um pouco em relação à busca desenfreada por riquezas, ao menos ninguém mais se acha no direito de dizimar nações e inúmeros inocentes em guerras sem sentido, apenas para se abocanhar um pouco mais de terras e riquezas... Será mesmo? Bem, ao menos casos como o da invasão do Iraque não ocorrem mais sem o protesto permanente da mídia mundial...

Talvez mesmo por isso os governantes tenham voltado os olhos para as reservas de riquezas enterradas no fundo dos oceanos – o fétido ouro negro que continua a dominar os desejos daqueles obssediados pela conquista de riquezas, que infelizmente ainda parece ser o caso da maioria dos chefes de governo. A lógica é simples: pode ser mais caro extrair petróleo do mar, mas pelo menos não é preciso invadir países e provocar tragédias diplomáticas, ou ainda que seja necessário algum confronto, será apenas entre militares em navios no meio do mar, longe da mídia.

Mas, ainda que seja cara a tecnologia para cavar tão fundo no leito dos oceanos, mais caro ainda seria pesquisar procedimentos realmente seguros de extração, certificando-se que acidentes sejam raros e as medidas de contenção eficazes... Imaginava-se que a maioria das nações tenha gastado um pouco mais para se certificar que a natureza não seria ameaçada pela extração do ouro negro abaixo do mar, mas era a mais pura ilusão...

Em 20 de Abril de 2010 uma plataforma de exploração de petróleo da British Petroleum (BP) no Golfo do México explodiu, causando 11 mortes de operadores e um vazamento direto para o oceano, que até este momento – cerca de dois meses depois – ainda não foi completamente controlado, e nem parece que vai ser tão cedo. A BP vem tentando conter o vazamento desesperadamente, mas seus engenheiros admitem que simplesmente não tinham a tecnologia necessária para conter um vazamento a tal profundidade (1,6 Km).

A BP têm uma excelente razão para conter o vazamento o mais rápido possível: desde que a mídia passou a anunciar o que provavelmente será (ou já é) o maior desastre ambiental da história dos EUA (e talvez do mundo), suas ações despencaram a valores de mais de uma década atrás, e certamente continuarão em queda livre. O atual presidente americano, Barack Obama, está furioso com o ocorrido, e atrás de “traseiros para chutar” entre os diretores da BP. A verdade, entretanto, é que ninguém sabe até onde irá esse desastre, o vazamento é uma ferida aberta nas águas do Golfo – o sangue negro não tem data para ser estancado.

Ao que parece, tudo se resume a uma questão financeira na mente dos governantes e diretores de empresas como a BP: vamos explorar petróleo nas profundezas porque a tecnologia para extração custa menos do que uma guerra para invadir outros países; porém, não vamos gastar tanto assim com essa tecnologia, vamos gastar apenas o necessário para extrair, assim garantimos maior margem de lucro; se por acaso um dia uma plataforma explodir e vazar o petróleo a centenas de metros de profundidade, seja o que Deus quiser... A gente pensa em um jeito de resolver isso quando o custo da não-resolução passe a justificar o custo da resolução.

Nós tendemos a pensar que os governantes e diretores de grandes empresas sejam homens e mulheres de grande capacidade e inteligência, que zelam pelo bem estar do mundo e das pessoas... Mas eles muitas vezes infelizmente são tão ou mais ignorantes que nós. Mesmo quando não são, sua obssessão por riquezas, influência do deus do consumo, acaba deixando-os cegos. Afinal, da mesma forma que nossa sociedade educa as pessoas a consumir o máximo possível, como se isso fosse fonte de felicidade, influencia os governos para que adquiram o máximo de riquezas e energia possível, como se este fosse o único caminho para o desenvolvimento de seus países. Estão todos cegos, mas ainda há tempo...

Ainda há tempo para se abrir os olhos e reconhecer que todo o movimento ecológico das últimas décadas não surgiu em vão. Que ninguém sabe de onde exatamente vêm os jovens, mas sua tarefa de renovação é quase sempre mais do que evidente. Porque insistir em procurar o fétido ouro negro nas profundezas dos oceanos se os jovens cientistas, engenheiros e sociólogos nos trazem tantas opções e tecnologias mais promissoras? É que os jovens olham para o futuro, e os velhos ficam estagnados no passado – isso independe da idade.

Infelizmente o espírito do povo do Chefe Seattle foi removido de nosso planeta. Não é que eles não merecessem aqui estar, somos nós que não merecemos mais a presença deles... Mas, seja lá onde estiverem, tomara que ainda consigam nos influenciar e iluminar com sua sabedoria. Tomara que aprendamos com eles há tempo. Tomara que decidamos viver, e não apenas sobreviver.

A você que é jovem (de alma), suspeite...
Suspeite de quem vai atrás de rochedos, e não de amor.
Suspeite de quem quer conquistar terras, e não corações.
Suspeite de quem muito fala sem lhe dar tempo de falar.
Suspeite de quem quer pensar por você.

Suspeite de quem dita regras, mas não as explica.
E, a quem as quer explicadas, dizem que não há como explicar.

***

» Veja o tamanho do vazamento no Golfo do México comparado com sua cidade (Google Maps)

Crédito das fotos: [topo] Wikipedia (Rockall); [ao longo] BrazilPhotos

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20.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 2

Continuando da parte 1...

Por que existe algo, e não nada?

Outra grande questão filosófica e certamente existencial é a questão da existência em si. Não a existência de nós, seres humanos, ou deste planeta, ou das estrelas nos confins do universo, ou até mesmo do espaço-tempo como um todo... A questão é mais específica: porque afinal existe algo, e não nada?

Essa questão nos obriga a nos aproximar dos limites de nossa razão. Já dissemos que o nada não é o vazio a espera de ser preenchido, que o nada não pode existir já que obviamente alguma coisa existe. Então chegamos a dualidade coisa vs. não-coisa, que não deve ser compreendida como matéria vs. anti-matéria, ou qualquer outra coisa vs. alguma outra coisa qualquer. Esta coisa existe, é fato – e nesse caso, talvez sequer venha ao caso nos perguntar sobre o porque dela existir: se não existisse, não estaríamos aqui para fazer tal pergunta.

Ela compreende tudo que existe, toda matéria detectada e não-detectada, todas as galáxias e campos gravitacionais, todas as partículas em alvoroço quântico (seja em que dimensão ou universo estiverem) e, sobretudo, todos os pensamentos e idéias já formulados. Algo existe, algo incrivelmente infinito, eterno, mas que nos é profundamente desconhecido.

Em sua Ética, Benedito de Espinosa define de forma contundente, simples e genial o que seria esta coisa. Ele preferiu chamá-la de substância. Espinosa dizia que “uma substância não pode criar a si mesma”, e toda a razão e lógica estão ao seu lado. O grande apóstolo da razão era também cientista, e sabia muito bem que as substâncias apenas se transformam umas nas outras, e que absolutamente nada é criado ou aniquilado na natureza. Ora, se todas as bilhões e bilhões de partículas-substância do espaço-tempo não podem ter criado a si mesmas, e se derivam de alguma outra substância primordial, têm-se pela lógica que tal substância-primeira é a origem de tudo o que há. Não pode ter surgido do nada, pois nada pode surgir do nada. Não pode deixar de existir, pois o cerne do que compreendemos como “existir” depende dela. Não pode senão ser a substância primária de onde todas as outras se sub-dividiram e se transformaram.

Sim, Espinosa sabia. Sabia que no início de tudo, quando apenas esta substância fazia sombra a si mesma, nem mesmo o tempo e o espaço como o compreendemos existiam. Era a eternidade. A eternidade é a casa de tal substância, e graças as suas incessantes transformações, vivemos em um sistema-natureza onde o espaço-tempo nos possibilita ter a condição de viver em pelo menos três dimensões espaciais, e num fluxo incessante de tempo, o que possibilita nossa evolução.

Disso também se tira que estamos todos interligados. Como dizia o cientista Neil deGrasse Tyson: “Estamos todos conectados. Um ao outro, biologicamente; A Terra, de forma química; Ao universo, de forma atômica”. Tal é a profunda reflexão que mais dia menos dia chega a todo homem que observa a imensidão do Cosmos. Não necessariamente é preciso ser cientista para chegar a tal compreensão – Há mais de um século o indígena norte-americano, Chefe Seattle, chegou a uma conclusão bem parecida: "Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo."

Seja seguindo a teia do Chefe Seattle, ou aos átomos que apontam que somos poeira de estrelas longínquas, que explodiram em épocas remotas do universo, desejamos chegar ao mesmo lugar: ao local de onde fomos arremessados a incontáveis eras, e para o qual é nosso destino regressar. Este é o eterno retorno, o re-ligare... Porém, em nossa jornada de volta, passaremos de princípios inteligentes a deuses.

“Vós sois deuses”, dizia o rabi da Galiléia. No entanto, obviamente ainda somos deuses em formação, talvez quem sabe alunos do maternal na grande escola do Cosmos. Como fazer para vencer o vazio que há em nós, esta angústia de retornar para casa?

Ora, já dissemos que o vazio não é o nada. O vazio espera ser preenchido. O vazio é o lugar onde um deus em potencial pode se formar. O vazio se conecta a substância-primária – de alguma forma maravilhosa e incompreensível, sentimos que dentro de nós também arde uma fornalha cósmica. Lao Tsé não sabia dar nome a tal experiência, ao contato direto de tal substância incomensurável. Mas terminou por chamá-la simplesmente de Tao.

À seguir, o Tao e o vazio em nós.

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Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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12.5.08

Palavras do Chefe Seattle

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra.

Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos.

Se lhes vendermos nossas terras, lembrem-se de que o ar é precioso para nós. E compartilha seu espírito com as formas de vida que sustenta. O vento que deu a nosso avô o seu primeiro alento recebe, também, o seu último suspiro.

Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida - ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que vai acontecer quando todos os búfalos forem sacrificados? O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam?

Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem, e sua lembrança for só a sombra de uma núvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo?

Amamos a terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Se vendermos nossa terra, amem-na como nós a amamos. Cuidem dela como cuidamos. Preservem na mente a lembrança da terra, tal como ela estiver quando a receberem. Preservem a terra para as crianças e amem-na como Deus nos ama.

Sabemos que só existe um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver isolado. No final das contas, somos todos irmãos.

Parte da carta feita pelo Chefe Seattle ao Presidente Franklin Pierce em 1854, tal qual resumido por Joseph Campbell em "O Poder do Mito".

» Veja a carta completa

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