Pular para conteúdo
7.5.12

Filhos do Sol

Aqui, por águas frias
Na noite escura
Em meu pequeno barco solto ao vento
Sigo em busca de pequenas alegrias...
Da alma, fugir a secura
Encontrar-te nalgum pensamento:
“Eis me aqui, Pai, perdido ao mar
Eis me aqui, o teu rebento
A aflorar”

Faz tempo que embarquei
Do último Farol no qual morei
Desde então, segui na escuridão...
De tua antiga luz, restou-me a lua
A refletir toda a imensidão
Todo o amor do teu Oceano:
“Eis me aqui, Pai, navegando ao mar
Encharcado em meio ao teu coração”

Na longa viagem
Ao próximo Farol
Encontrei alguns outros barcos
Saudosos de tu, ó Sol

Nalguns deles me ancorei...
Na mais terrível tempestade
Orávamos sussurrantes ao rei
Evocávamos a tu, ó semelhante
O que vive além de toda idade

Assim que mesmo quando as ondas tristes
Ameaçavam quebrar o casco
E nos arrastar a margem
Nós o víamos na superfície:
“Eis nos aqui, Pai, juntos na viagem da vida
Eis nos aqui, tua própria imagem
Tua própria luz feita ser
A trafegar pelo Oceano do Mundo
Que é ti
Eis nos aqui, os Filhos do Sol
A caminho do próximo Farol...”


raph’12’A.’.A.’.

***

Crédito da imagem: Anônimo

Marcadores: , , ,

5.4.12

Na soleira

Não sei como é tua casa, nem mesmo a porta...
Se estará aberta ou entreaberta
Decorada com flores ou diminutos duendes
De madeira ou de pura rocha;
Mas sei que terá uma soleira
E talvez tenha até um pequeno tapete
Para guardar fora a sujeira

O que sei é que tenho medo de perder-me de ti
Na imensidão de tua mansão...
Sei bem como as poetisas gostam de jardins
E grandes salões de jogos e bibliotecas
E uma pequena mesa para se jantar e almoçar
Visto que comer só é coisa de lobos e leões:
Imagino que em tua casa o café da tarde
Seja a hora de maior alegria

Quero então ver-te ali, na soleira...
Talvez com um olhar angustiado de saudade
De nunca termos sequer nos visto;
Mas eis que em teu olhar já verei
Todos os cômodos de tua mansão
Que jamais adentrei...

E, então, poderemos pular ligeiro
Para o café com bolachas
Salpicado por poemas
Anedotas para qualquer idade
Doces e breves risadas
E uma leve brisa
Da mais pura felicidade


raph'12 (para Carol)

***

Crédito da foto: ClassicStock/Corbis

Marcadores: , ,

17.2.12

Ponte para o infinito

Porque os homens viram o infinito
E tanto se espantaram
Foi que criaram o mito
A magia, o saber
A ciência, a filosofia
A poesia: uma religião
Para a imensidão

Criaram, enfim, uma terra cinzenta
Onde tudo existe assim: dividido
Separado em caixas
Para que a razão pudesse analisar
Cada pequeno pedaço finito
De um todo sem fim

Existe, portanto, esta terra de angústia
De vida cíclica a se renovar
De guerra e conflito constante
Do lento depurar
Da existência agonizante
Até que, de tanto passar pelo céu
O espírito finalmente chova
Em gotas límpidas e cálidas:
A tempestade do ser

Há, sim, uma terra de morte
E uma terra de vida
E a única ponte é o amor
Cada pequeno gesto de generosidade
Cada bom dia entusiasmado
Cada sorriso da alma
É um passo na longa ponte
Um passo
Que não será desperdiçado...

raph'12

***

Crédito da foto: Jack Hollingsworth/Corbis

Marcadores: , , , ,

1.2.12

Apressadamente

Você passava pela rua
Falando ao celular
Te observei assim, nua
Como criança a atentar
Uma doceria:
Olhar não tira pedaço,
Mas pega emprestado
Sem pagar...

Você fingiu que não percebeu
Mas, por um breve momento
Falando ao celular
Sua alma emudeceu

Não fique assim surpresa:
A beleza atrai meu olhar
Tal qual a Natureza
A todo ser alado a voar

E se acaso meu corpo prosseguiu
Apressadamente na multidão,
Saiba que minha alma já dançava
E cantarolava em seu coração

Mas o corpo é assim programado
Para seguir cinzento a trotar,
Tal qual cabeça de gado
A ruminar...

Não como você;
Jamais como você:
Tão apressadamente bela
Falando ao celular

raph'12

***

Crédito da foto: Michael Prince/Corbis

Marcadores: , ,

6.1.12

Um átomo no universo

Eras sobre eras
antes que quaisquer olhos pudessem ver
ano após ano
trovejosamente batendo na praia como agora.
Para quem? Para que?

Num planeta morto
sem vida alguma para entreter.
Nunca a descansar
torturado pela energia
desgastado prodigiosamente pelo sol
derramado pelo espaço.
Um ácaro faz o mar bramir.

Fundo no oceano
todas as moléculas repetem
os padrões de uma outra
até que novas e complexas são formadas.
Elas fazem outras como elas
e uma nova dança se inicia.

Crescendo em tamanho e complexidade
coisas vivas
massas de átomos
DNA, proteína...
Dançando num padrão ainda mais intrincado.

Saindo do berço
para terra seca
aqui estão
de pé:
átomos com consciência;
matéria com curiosidade.

De pé a encarar o mar, refletindo:
Eu, um universo de átomos...
Um átomo no universo.

Poema sem título por Richard Feynman, prêmio Nobel de física de 1965 (traduzido do inglês por Rafael Arrais); Retirado de The Value of Science - an address to the National Academy of Sciences (1955).

» Veja também um vídeo deste poema (em inglês)

***

Crédito da foto: Shelley Gazin/Corbis (Feynman)

Marcadores: , , , , , , , ,

2.1.12

Uma brisa de amor

Te tenho como amigo, mesmo nas horas de dor
Porém desejo-te de outras maneiras...
Quero abraçar-te, embriagar-me em teu odor
Perder as estribeiras

Mas eis que penso se desejar-te assim
Não seria perder isso que já temos...
A poesia de você junto a mim
A fantasia do que vivemos

E então você me diz: o amor nada deseja
Desde que sopra por tudo que há
Não há carícia que já não seja

O amor tudo já tem, mas é difícil o conquistar...
Difícil é deliciar-se numa brisa de amor
E deixá-la seguir – livre – a percorrer o mar

raph'12
(após um tweet de Carol Phoenix)

***

Crédito da foto: Stock4B-RF/Corbis

Marcadores: , , , ,

12.12.11

Pássaros a voar

Uma vez mais ele acordou
Já após o galo cantar
Amaldiçoou a vida – Se levantou
Saiu carreiro para trabalhar...

Uma vez mais os pássaros piaram
Em meio ao orvalho da natureza
Refletindo aos raios que chegaram
Lá, de tão longe – Onde há só beleza...

E não ganhou na loteria
Nem aquele aumento que pediu
A um homem que nunca o viu

E lá fora havia profunda calmaria
– A primeira revoada já estava a passar
Com animaizinhos livres a caçar

(...)

Após o soneto, os pássaros voaram acima,
E ele ficou ali abaixo:
Exatamente onde seu pensamento o situava...

No restante do dia...
No restante daquele mês
E daquela existência
Foi tudo para ele quase puro sofrer
Que uma vez mais estava
A sobreviver
Sem se dar conta
Sem perceber
Toda a infinita revoada
De pássaros a voar
E vidas, por viver...

raph'11

***

Crédito da foto: Anônimo (revoada de pássaros no Pantanal/MS)

Marcadores: , , ,

18.11.11

Musa

Quando meus olhos encontraram os teus
Na estrada eterna da lembrança
Eu não sabia teu nome
Ainda assim teus sonhos fizeram-se meus
Que pude ver o brilho distinto de tua alma
E assim, uma vez mais, ter esperança

Ao te buscar pelos campos etéreos
Segui teu perfume como a abelha ao mel
Até te ver assim, a banhar-se no rio, nua

Era preciso ter cuidado ao me aproximar
Esvair-me todo num único orgasmo seria um fel
Quis delongar-me, observar-te daqui
Onde cada brisa me traz parte de ti
E me ensina a te amar

Não se trata de um amor platônico
Mas de amor sentido, boquiaberto, espantado
Amor de verdade, enfim
Amor atônito

Hoje posso tocar-lhe a face, delicadamente
E deitar minha alma em teu pescoço
E adormecer para a amargura do mundo

Ainda não sei teu nome
Oh bela inefável...
Mas quero introduzir-me um dia em ti
E gerar muitos rebentos
E cada um deles nada mais será
Que uma preciosa ideia de amor
Inominável

raph'11

***

Crédito da imagem: Escultura de Paige Bradley

Marcadores: , , , ,

22.9.11

Tudo é semente

A água, por tudo lava:
O que se sente, o que se abraça –
Está tudo no tempo, que também passa
E no vento, que tudo leva

Tudo é mente
Ideia que se ama e se amassa
Tudo é semente
Vida que se move, e também passa

A existência: há de ser leve
Na harmonia desse presente
Tão eterno quanto breve

A substância, por tudo abarca:
A água, o vento, a vida –
E a poesia, que jamais passa

raph'11
(depois do tweet de Carol Phoenix)

***

Crédito da foto: Bruno Ehrs/Corbis

Marcadores: , , ,

8.9.11

Rezas Inúteis I

Guerra santa
Santa guerra
Nada planta
Nada altera

E o que vejo em tua mão?
A adaga e a maldade,
ou o crucifixo e o sermão?
São de mesma utilidade…
Já que tua liberdade
brotará do coração.

Guerra santa
Santa guerra
Nada alcança
Nada encerra

Felizes os homens
que lutam na paz
e curam na guerra.
Esses são os tais
que herdarão essa terra.

raph'99


E qual guerra poderia ter sido santa? Essa é uma ideia estranha para mim...

***

» Ver também: Rezas inúteis II

Crédito da foto: M/Demotix/Corbis

Marcadores: , ,