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11.9.12

Arquivo Especial: o que a ciência (ainda) não explica

Neste Arquivo Especial falaremos sobre o que a ciência não explica e nem comprova fraude:

Há mais de uma década, cientistas da Universidade de Princeton, nos EUA, capitaneiam um curioso experimento que envolve a análise dos dados de geradores aleatórios de números espalhados por dúzias de locais ao redor do globo. O Projeto Consciência Global basicamente analisa os padrões de máquinas que jogam, virtualmente, milhares de moedas por segundo, e anotam o resultado: “cara” ou “coroa” (em bits, “0” ou “1”).

Os pesquisadores postulam que há uma relação direta entre eventos globais, como a morte da princesa Diana ou o tsunami da Indonésia, e os “desvios de padrão” ocorridos em tais geradores aleatórios. A despeito disto, eles não fazem muita ideia do porque isso parece ocorrer. Na realidade, somente no atentado de 11/9 nos EUA é que obtiveram um resultado “sobrenatural”: um desvio que se estendeu desde horas antes do primeiro avião atingir uma das torres de Nova York a até cerca de 72 horas depois...

Os céticos elogiam a metodologia do experimento, “realmente científico”, mas sentem-se confortáveis quanto aos resultados: há sempre a explicação de que em padrões aleatórios, há uma chance de “coisas assim ocorrerem, mesmo que as chances sejam de um em um milhão”. Mas, ainda que de fato o “grande desvio” de 11/9 se repita próximo de outro acontecimento de grande atenção da mídia global, há sempre a questão: “e daí, e o que isso prova?”. Este tipo de experimento agrada a Academia, pois não envolve diretamente explicações espiritualistas, e mesmo as explicações paranormais são tão vagas, que não despertam grandes preocupações nos céticos com certo asco do espiritualismo.

Há muitos céticos que negam uma hipótese espiritualista a priori. Eles afirmam (com razão) que afirmações extraordinárias, como a existência de espíritos, requerem comprovações extraordinárias, provas cabais, em laboratório, certificadas pelo “papado acadêmico”. Mas isso, como bem sabem os espiritualistas que ouviram Kardec, pode demorar a ocorrer – afinal não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas.

De fato, talvez nunca ocorra, talvez espíritos não existam afinal... No entanto, engana-se o cético que crê que a Academia têm comprovado que todas as alegações espiritualistas são fraudes ou devaneios. Não estou falando da prova de que espíritos não existem, pois isto é basicamente impossível: provar que algo não existe. Mas falo, isso sim, de diversos fenômenos paranormais relacionados à espiritualidade que não foram comprovados como fraude, e tampouco explicados pela ciência. Bem vindos ao reino da dúvida, só que agora, a dúvida de verdade:

Artigos:

Caso Parmod 05.04.11
Nesta série de artigos falamos sobre as pesquisas de uma vida inteira do parapsicólogo Ian Stevensson, que graças à herança deixada pelo fundador da Xerox, pôde rodar o mundo estudando os casos de crianças que lembram vidas passadas. Sua metodologia é tão meticulosa que até mesmo Carl Sagan citou seu trabalho em O mundo assombrado pelos demônios – embora Sagan acreditasse que devesse haver “outro tipo de explicação para os fenômenos”. O que você diria de crianças que lembram do endereço e de detalhes familiares íntimos de parentes de supostas vidas passadas? Qual seria a explicação? Fraude? Erro de metodologia de pesquisa? Memes? Inconsciente coletivo? Reencarnação? Todas estas hipóteses continuam muito válidas até hoje, e há inúmeros parapsicólogos seguindo com a pesquisa de Stevensson.

Reflexões sobre a consciência 16.04.09
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo. Nesta série de artigos falamos mais sobre este tema.

Quase morte 03.08.10
Mais uma série de artigos, desta vez focada nas experiências de morte, ou de quase morte. Tanto crianças como idosos, tanto ateus quanto crentes, têm relatado experiências muito parecidas que supostamente ocorreram enquanto seus cérebros estavam em “atividade zero”, normalmente enquanto estavam passando por cirurgias complexas em hospitais, quando “morreram, e depois retornaram”. O Dr. Sam Parnia é um neurologista que tem dedicado a vida ao estudo genuinamente científico desse tipo de fenômeno, tão conhecido de qualquer cirurgião geral (que “oficialmente” muito pouco falam sobre o assunto).

Um médium notável 09.04.10
Existam ou não espíritos, a ciência parece um tanto distante de chegar a uma explicação plausível para a fenomenal produção literária do maior médium brasileiro, que psicografou sobre assuntos tão diversos quanto a história da época de Cristo e a física moderna, em estilos literários e poéticos tão variados que um dia Monteiro Lobato declarou: “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, merece quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”. Como explicar? Criptomnésia (esquecer-se de algo que já sabia, e escrever como se fosse vindo de um espírito)? Mas como ele teria psicografado livros junto com Waldo Vieira, numa parceria em que um “trazia” os capítulos pares, enquanto outro “trazia” os ímpares, separados por cidades de distância? Vale a sua dúvida...

João de Deus: charlatão? 19.02.09
Operando à décadas em Abadiânia, valendo-se (literalmente) de uma faca de cozinha não esterilizada, o médium João de Deus tem tratado de pacientes “desenganados” pelos médicos ao redor do globo, sendo hoje famoso no mundo todo. Neste artigo eu comparo a suposta “análise embasada” do desmistificador James Randi (que nunca visitou Abadiânia, e apenas “viu um vídeo” de João operando) com o estudo presencial da Associação Médica Brasileira acerca das cirurgias. E a AMB atesta: elas são reais, embora não esteja comprovada nenhuma relação com a cura dos males em si. O que se passa, afinal, no interior de Goiás?

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Vídeos e documentários:

Alma sobrevivente 17.06.09
Há muitos críticos ocidentais que afiram que os estudos de crianças que lembram vidas passadas se resumem a regiões do globo onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada. Isto não é verdade, pois o próprio Ian Stevensson estudou casos na Europa e em muitos outros lugares onde a maioria das pessoas não crê em reencarnação. Em todo caso, parece que o garoto americano, James Leininger, filho de pais que mal tinham ouvido falar no termo “reencarnação”, nos serve como um belo exemplo de caso sugestivo. E ele não se lembrou apenas dos parentes ou dos companheiros que lutaram ao seu lado na Segunda Guerra de uma outra vida, ele foi até o local onde seu avião havia sido abatido, e chorou... Pena que Stevensson já não vivia mais para ver tal cena.

Um caso sugestivo de psicopictografia 20.09.11
Neste trecho do programa da Xuxa, na TV Globo, temos a história de Lívio Barbosa, médium que afirma pintar com o “auxílio” de espíritos. Há demonstrações de pinturas mediúnicas e, no texto do artigo, trazemos o resumo de algumas das possíveis explicações para este tipo de fenômeno: criptomnésia (conforme no caso de Chico), inconsciente coletivo, imatéria (um conceito de Alan Moore) e espiritualismo.

Os mistérios de Abadiânia 19.08.12
João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura? É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano.

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» Veja também: Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Crédito da imagem: James Sebor (I am we)

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13.1.12

Neuroteologia, parte 3

« continuando da parte 2

A parapsicologia (“além da psique”) é o estudo dos fenômenos paranormais, que em sua imensa maioria não são compreendidos e tampouco aceitos pela Academia. A maioria das “pesquisas psi” se concentram na possibilidade da mente poder trocar informações com outras mentes fora do corpo, ou até mesmo de afetar fisicamente a natureza a volta.

Além do cérebro

A despeito do ceticismo unidirecional de uma parcela dos cientistas, sobretudo do chamado “mundo acadêmico”, há muitas décadas existem inúmeros estudos genuinamente científicos que tratam das mais diversas teorias suscitadas pela espiritualidade. O fato de um ou vários destes estudos comprovar alguma coisa experimentalmente não necessariamente significará que “existe um velho barbudo senhor dos exércitos flutuando no céu”, nem tampouco que “nossa alma é imortal e se formos bonzinhos ganharemos uma fazenda nas nuvens após a morte”, mas esta parecer ser, infelizmente, a lógica dos céticos unidirecionais que se escandalizam com a possibilidade de tais pesquisas serem levadas mais a sério pela Academia.

Entretanto, é exatamente o que tem ocorrido... Uma outra crítica costumeira ao capacete de Parsinger é que ele não incorporou em seus experimentos as novas tecnologias de “escaneamento” cerebral, como o eletroencefalograma (EEG) que mede a atividade elétrica neuronal ou a ressonância magnética por imagem cerebral (FMRI), capaz de medir o fluxo sanguíneo e efetivamente “ver o cérebro em ação”. A maior vantagem do uso dessas tecnologias é que podemos ter uma “materialidade” objetiva da atividade cerebral dos pacientes, a despeito de seus relatos subjetivos, ou até mesmo de seus “devaneios” ou, quem sabe, apenas mentiras mesmo.

Porque não medir, por exemplo, a atividade cerebral de monges budistas durante sua meditação? É exatamente esse o “passatempo” predileto do Dr. Zoran Josipovic, da Universidade de Nova Iorque, nos últimos tempos... O objeto das pesquisas de Zoran é principalmente a sensação de “unicidade” atingida pelos monges e praticantes mais aprofundados de meditação. Segundo as conclusões prévias de sua pesquisa, ainda em andamento, as técnicas de “dobrar a mente sobre si mesma” dos monges são precisamente o que desprende a sensação de “unificação” do ser com o todo, comumente conhecida pelos religiosos e místicos como uma experiência de unicidade, não-dual, que se dissipa após a meditação. Este é apenas um de diversos exemplos de cientistas que tratam as experiências religiosas com maior seriedade, reconhecendo sua complexidade, e se abstendo se tentar reduzi-las e “efeitos de campos magnéticos, que nos fazem encontrar Deus”... Até mesmo a definição de “encontro com Deus” de Zoran, e dos budistas, já é consideravelmente mais profunda do que a do Dr. Parsinger.

Enquanto aqui no Brasil muitos céticos acham uma “total futilidade” estudos com “escaneamento” cerebral de médiuns em atividade, no hemisfério norte a história da relação entre ciência e espiritualidade é outra: Embora tenha despertado indignação semelhante de céticos unidirecionais (mas não de um cético de verdade, como Carl Sagan), o parapsicólogo Ian Stevenson teve a sorte de ter tido toda uma vida de pesquisas “além do cérebro” custeadas por um amigo abastado, o inventor da fotocopiadora – Chester Carlson. Graças e ele Stevenson pôde viajar boa parte do mundo atrás de casos sugestivos de crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas. Seus relatos detalhadíssimos, que se iniciaram no célebre livro intitulado 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, publicado em 1974, se estenderam por décadas [1].

Em 2007, quando morreu, ele havia documentado meticulosamente quase 3 mil casos, a maioria na Ásia. Cerca de 700 dessas crianças, geralmente com menos de 5 anos, tinham recordações tão claras de supostas vidas anteriores que se lembravam de seu antigo nome, do endereço onde tinham vivido, do nome de parentes, e de detalhes muito específicos, porém triviais, de destas vidas – detalhes que Stevenson muitas vezes deixa claro que não poderiam se lembrar, ou conhecer, por “vias usuais”... No entanto, uma das críticas mais costumeiras acerca de seu extenso trabalho é que a grande maioria dos casos ocorreu em países onde a crença na reencarnação é comum. Apesar de isso de forma alguma negar a totalidade da “materialidade” dos registros de Stevenson, para muitos céticos e leigos pareceu um argumento (na verdade, mais uma falácia) forte o suficiente para que classificassem a pesquisa de uma vida toda como pseudociência.

Felizmente, outros parapsicólogos continuaram o trabalho de Stevenson, como o Dr. Jim Tucker, da Universidade de Virgínia, e Carol Bowman. Autora de livros sobre o assunto, Carol teve a oportunidade de acompanhar de perto um dos casos mais “fortes” de reencarnação ocorrido no Ocidente: O caso do garoto James Leininger, filho de pais que não acreditavam na reencarnação, mas foram obrigados a mudar sua crença devido aos detalhes assombrosos citados por seu filho desde ainda muito jovem, quando afirmava ter sido um piloto americano da Segunda Guerra Mundial, que teve seu avião abatido no Japão (esta história é tão impressionante que o garoto chegou a identificar sozinho o local onde seu avião havia caído, quando viajou pela primeira vez ao local da tragédia de uma suposta vida passada – e este momento foi filmado em um documentário) [2]. A despeito da posterior “midiatização” do caso de Leininger, de início tudo foi registrado apenas por seu pai (que por anos permaneceu cético), e era inteiramente desconhecido da mídia “especializada” (claro, a crítica vale tanto lá quanto cá).

Estudos como estes, apesar de trazerem “materialidade” muito mais “paupável” do que a do capacete de deus, são efusivamente ignorados pela Academia, que geralmente se limita a informar “que não provam nada”... Ora, mas é claro que não provam nada, assim como o capacete de deus tampouco prova, assim como a Teoria das Cordas, o materialismo ou o dualismo são apenas teorias. Embora sejam paupáveis, tais estudos não chegam nem perto do número de evidências exigido para mudar o paradigma do pensamento científico mundial, tal como ocorreu com a Teoria de Darwin-Wallace... Não estou querendo dizer que provam algo, apenas que parecem mais paupáveis do que o “conto do capacete”; E, no entanto, o capacete de deus mereceu dúzias de holofotes da mídia “especializada”, enquanto que o estudo de Stvenson (e seus continuadores) até hoje se limitou a receber uma luz de 60 watts – ainda assim, talvez porque Sagan tenha se lembrado de citá-lo em sua “bíblia do ceticismo”, O mundo assombrado pelos demônios.

É claro que ninguém é 100% cético, a questão filosófica de que nada garante que o que a mente percebe do mundo é realidade ou ilusão, ou mesmo a questão científica de que nada garante que a gravidade continuará a funcionar, estável, pelas próximas 24 horas, são apenas questões que “pensadores” fazem dentro das quatro paredes de suas salas acadêmicas (ou talvez em algum pub, regados à cerveja), mas que não são levadas a cabo no restante das horas de seus dias... Mas o ceticismo deve ao menos tentar ser multidirecional, apostar igualmente em teorias monistas ou dualistas, reducionistas ou metafísicas, espiritualistas ou materialistas, afinal a ciência não é e nunca foi ideologia – e esperamos que não se torne uma no futuro.

Nos estudos de experiências de morte, ou quase morte (EQMs), do Dr. Sam Parnia [3], há relatos de experiências “estranhas” ocorridas supostamente enquanto o cérebro dos pacientes estava em “atividade zero”. Tais pacientes eram crianças, jovens e idosos; eram crentes e descrentes, cientistas e não cientistas, espiritualistas e materialistas, etc. Mas quase todos afirmaram ter passado por experiências únicas, das quais irão se lembrar pelo restante de seus dias [3]. Acredito que seja mais sábio não esperarmos por um evento de quase morte, nem por um “capacete miraculoso”, para podermos nos iniciar nesse tipo de experiência. O amor, pelo menos, está ao alcance de todos nós – se vamos ser céticos quanto a Deus ou ao espírito (sejam o que forem exatamente, seja o que cada um acha que são), que pelo menos creiamos no amor. Apesar de ser fogo que queima sem se ver, ele parece existir, ele parece arder, e esperamos que não seja mais uma ilusão.

» Na continuação, uma última palavra sobre os novos estudos do Dr. Parsinger – e sobre como devemos criticar ideias, e não pessoas.

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[1] Um dos 20 casos do livro está transcrito (de forma bastante resumida, entretanto) no meu blog: “Caso Parmod”.

[2] Para saber mais sobre esse caso extraordinário, recomendo ler A volta, por Bruce e Andrea Leninger, com auxílio de Ken Gross. Editora Bestseller. Ainda é relativamente simples achá-lo na sessão “espiritismo” de grandes livrarias, como a Saraiva.

[3] Parece que recentemente deletaram a entrada do Dr. Sam Parnia na Wikipedia... Talvez mais uma influência dos céticos unidirecionais, e de seu julgamento sobre o que é e o que não é relevante sabermos. Entretanto, felizmente ainda é possível buscar por seu nome e encontrar vários resultados.

[4] Ver também minha série de artigos: “Quase morte”.

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Crédito da foto: Mirropix (família Leninger)

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10.8.10

Quase morte, parte 3

Continuando da parte 2

E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido – Dalai Lama

Neófito, não há morte

O reino de Hades, na mitologia grega, é o local para onde seguem os mortos. Existe um conceito bastante interessante desta travessia simbólica, que fala sobre o julgamento dos recém-chegados. Em seu entendimento mais profundo, este mito narra uma espécie de auto-análise da consciência sobre os atos da vida pregressa. Desta forma, o assassino é assombrado pela repetição incessante de seus atos criminosos, como se todas as vítimas estivessem ao seu entorno – ao mesmo tempo sendo assassinadas e amaldiçoando-o. Aquele que enviou pessoas (inocentes ou não) para a fogueira pode se encontrar ardendo no fogo juntamente com elas. Aquele que esteve na Terra julgando-se um “semi-deus”, tratando a todos como escravos, desta feita é ele mesmo um escravo, enquanto seus antigos escravos agora são seus donos, etc.

Já os bem-aventurados, os que tocaram a vida com a leveza de alma necessária, seja por serem almas simples, seja por serem seres de grande sabedoria, praticamente não se afligem nesta passagem derradeira. Acostumam-se ao “lado de lá” como quem chegou de uma longa viagem em uma nação estrangeira. Não têm o que temer nem o que duvidar, pois continuam existindo, e não se encontram em débito com as próprias consciências. Apenas continuam a tocar a vida, em uma nova dimensão da realidade. O Hades não lhes pesa a alma, pois a alma que não é em si mesma pesada, nada tem a ver com a escuridão...

Porém, este mito foi cuidadosamente erradicado pela nova ordem da igreja de Roma, aos cuidados de Constantino... Curiosamente, é exatamente o Apocalipse bíblico – um verdadeiro hino pagão – que afirma que o “Hades cristão” é quase exatamente igual ao mito; No entanto era necessário lhe dar um outro nome, e mudar o seu sistema para que ficasse verdadeiramente assustador.

Assim nasceu o Inferno, governado não por um deus secundário, mas pelo verdadeiro anticristo, o grande adversário, o supremo bode expiatório – aquele de quem era conveniente sequer citar o nome! Mas não era somente isso, agora o julgamento nas portas do Inferno era sumário: ou iremos para o jardim da Árvore da Vida, admirar ao Criador eternamente em uma aparente ociosidade sem fim; ou seremos condenados a arder eternamente em um Lago de Enxofre. Curioso imaginar como os santos do Céu poderiam estar em paz sabendo que qualquer reles mentiroso ou adúltero estaria ardendo eternamente logo abaixo de seu jardim. Tudo bem, você pode até crer que nunca mentiu ou que nunca traiu, mas será que não conhece, será que não ama alguém que cometeu tais pecados? Pois é...

Essa pequena história do Hades e do Inferno diz muito sobre a diferença entre dois conceitos fundamentais: a religião e a igreja.

A religião, etimologicamente vinda do latim re-ligare, significa um caminho de volta, de eterno retorno, de re-ligação a Deus ou ao Cosmos. De compreensão de nossa própria origem e, conseqüentemente, de união com todas as outras coisas e seres, pois que mais dia menos dia neste caminho percebemos que estamos todos conectados. Somos filhos não apenas do mesmo Pai, mas da mesma substância, aquela mesma que o grande Espinosa compreendeu como “o que não poderia criar a si mesmo”... A religião é essencialmente uma experiência subjetiva, e precisa ser assim. Não se pode querer ditar o seu rumo, pois assim como cada um tem a sua impressão digital, sua menina dos olhos e sua própria crença ou descrença, a religião precisa ser livre – ou corre o risco de se tornar dogma.

Já a igreja vem do grego ekklesia, e significa algo como “a comunidade dos escolhidos por Deus”. Em sua forma pura e não dogmática, como é muito comum encontrarmos em doutrinas orientais, a igreja é simplesmente uma comunidade de irmãos e seres afins, que se unem em torno de algum guru ou mestre espiritual, ou em torno de si mesmos, para buscar de forma conjunta, em grupo, o caminho que pertence à religião. É nesse sentido que todo eclesiástico é religioso, embora nem todo religioso pertença a alguma igreja...

Mas é na forma hierárquica, dogmática, que a igreja tem se portado como uma verdadeira seção do Hades na Terra. São nas doutrinas “editadas” por imperadores e governantes evidentemente distantes da religião que nasceram os grandes dogmas e os ultimatos mais irracionais: “ou crê em nosso Manual da Verdade Absoluta, ou estará condenado ao Inferno”; “ou está conosco, ou contra nós”; “ou marcha conosco em nossa Cruzada para converter os infiéis, ou será tu mesmo um infiel”... Nada disso faz sentido, nunca fez, nunca fará. Para qualquer verdadeiro religioso, isso é evidente. Nem Moisés nem Jesus nem Maomé jamais marchariam com exércitos para “evangelizar” seus próprios irmãos, nem tampouco afirmariam que “só será salvo aquele que se converter para este ou aquele grupo eclesiástico”.

É precisamente nessa batalha entre a liberdade e o dogma, entre o conhecimento que se busca e o que se julga já ter, entre a dúvida e a “certeza”, que muitas almas tem se esfacelado desde que o primeiro sacerdote julgou-se a única via entre os homens e Deus. Para quem é espiritualista e reencarnacionista, é até mesmo esperado e compreensível o crescimento do anti-teísmo – para aqueles que foram dizimados pela irracionalidade, não basta hoje não crer no “deus barbudo senhor dos exércitos”, é preciso contra atacá-lo, é preciso fazê-lo pagar, é preciso “evangelizar” aos outros que ele é o pior Diabo que já pisou em nossas terras...

Mas, e para aqueles que já se cansaram de alistarem-se em guerras (santas ou não), o que resta fazer? Será que ainda vale à pena tentar dialogar neste mundo polarizado? Será ainda possível fazer aos seguidores de dogmas perceberem que não se pode matar em nome de Deus? Que Deus não quis nos trazer revelações, mas quis que nós mesmos as encontrássemos em seu Reino – debaixo de uma pedra, dentre um galho de árvore? Que não faz sentido existir um rival do próprio Criador, e que o Céu e o Inferno, e inclusive o Hades, sempre estiveram inscritos em nossa própria consciência profunda?

É nesse momento que a ciência e a observação cuidadosa dos fenômenos espirituais e/ou paranormais (mas nunca sobrenaturais) pode ser o grande elo de um verdadeiro ecumenismo universal. Pois desta vez não estamos mais falando de povos no deserto que eventualmente entraram em contato direto com eventos e seres miraculosos, não estamos falando de fenômenos que se perderam em eras pregressas e hoje só podem ser vislumbrados pela fé – estamos falando de coisas que acontecem aqui e agora, todos os dias, em todos os cantos do planeta. As experiências de morte são apenas uma delas...

Sendo elas um evento conhecido tanto da ciência “oficial” quanto das alternativas, tanto de céticos e ateus quanto de espiritualistas e teístas, e que ocorrem com crianças, adultos e idosos, elas podem ser um elo, um campo de estudo em que (quase) tudo é ainda possível – onde não existe um “deus barreira” ou um dogma a ditar: “é assim!”.

Não, não é assim. Talvez seja mais ou menos como afirmam os espíritas e reencarnacionistas em geral, talvez seja uma ante-sala do purgatório ou uma mensagem dos anjos de Deus, talvez seja um sonho panteísta, talvez apenas um delírio da consciência em sua despedida rumo ao sonho sem sonhos... A única verdade é que ainda não sabemos, mas podemos saber, juntos!

A questão da Criação, do “porque existe algo e não nada”, da natureza exata de Deus, talvez esteja ainda além do nosso alcance – mas o estudo do que acontece quando morremos é um campo promissor tanto da ciência quanto da religião, tanto da neurologia quanto da parapsicologia. É algo palpável, é algo que ocorre em diversos hospitais em todo o mundo. Só não vê quem não quer, só não procura compreender quem tem medo do desconhecido, ou quem se fossilizou abraçado ao seu precioso Manual da Verdade Absoluta.

Mas para todo neófito, não há morte.

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Crédito das imagens: Maxfield Parrish

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6.8.10

Quase morte, parte 2

Continuando da parte 1

Apenas passei ao outro mundo

Historicamente, tentativas de definir o momento exato da morte foram problemáticas. A identificação do momento da morte é importante, entre outros casos, no transplante de órgãos, porque tais órgãos precisam ser transplantados o mais rápido possível.

A morte foi anteriormente definida como parada cardíaca e respiratória mas, com o desenvolvimento da ressuscitação cardiopulmonar e desfibrilação, surgia um dilema: ou a definição de morte estava errada, ou técnicas que realmente ressuscitavam uma pessoa foram descobertas (em vários casos, respiração e pulso cardíaco podem ser restabelecidos). A primeira explicação foi aceita, e atualmente, a definição médica de morte é conhecida como morte clínica, morte cerebral ou parada cardíaca irreversível. A morte cerebral é definida pelo cessar da atividade elétrica no cérebro. Porém, alguns dos que defendem que apenas o neo-córtex do cérebro é necessário para a consciência argumentam que só a atividade elétrica do neo-córtex deve ser considerada para definir a morte. Na maioria das vezes, é usada uma definição mais conservadora de morte: a interrupção da atividade elétrica no cérebro como um todo, e não apenas no neo-córtex, é adotada, por exemplo, na "Definição Uniforme de Morte" nos EUA.

Paul é um garotinho alemão de 3 anos, em 2010 ele estava brincando perto do lago nos jardins da casa do avô no pequeno paraíso de Lychen, Brandenburgo. Paul acabou escorregando no lago e se afogando. Algumas horas depois seu avô o encontrou sem vida a margem do lago – e prontamente levou-o de helicóptero a um hospital próximo a Berlim...

Na emergência, 4 médicos lutaram para reanimá-lo, mas sabiam que era uma batalha perdida – teoricamente o tempo máximo em que uma pessoa pode ser reanimada de uma parada cardiovascular é de aproximadamente 30 minutos, as vezes um pouco mais, mas já haviam se passado mais de 3 horas! Porém, após exatas 3 horas e 18 minutos, seu coração voltou a bater, e o garoto simplesmente “voltou da morte”.

O mais interessante, entretanto, é o que o garotinho de 3 anos disse que “ficou fazendo” durante o tempo em que estava clinicamente morto: “Eu estava com a vovó Emmi no Céu. Ela disse que eu teria de voltar a Terra novamente, e que não poderia ficar com ela por muito tempo.” – Trata-se de um relato típico de uma experiência de quase morte (EQM). Ao longo dos registros recentes da medicina, temos milhares de casos assim – entre crianças, entre adultos, entre idosos, entre crentes, ateus e céticos, ricos e pobres, homens e mulheres, enfim, entre todos nós mortais...

Até muito recentemente, este fenômeno era considerado pela ciência oficial um assunto vulgar, fruto de lendas, crendice popular ou religiosidade. No entanto, pesquisas como a do Dr. Raymond Moody, principalmente após o seu livro “Vida Depois da Vida” (que gerou o filme homônimo), levaram ao início de uma nova corrente de pesquisas em todo o mundo sobre o fenômeno.

As pessoas que viveram o fenômeno relatam, geralmente, uma série de experiências comuns, tais como: um sentimento de paz interior; a sensação de flutuar acima do seu corpo; a percepção da presença de pessoas (conhecidas ou não) à sua volta; visão de 360º; ampliação de vários sentidos; a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no fundo (efeito túnel); uma “recapitulação” dos eventos de maior carga emocional em sua vida até então (às vezes como uma espécie de “cinema mental”).

Nesse espaço atemporal, a pessoa que vive a EQM percebe a presença do que a maioria descreve como um “ser de luz”, embora esta descrição possa variar conforme os arquétipos culturais, a filosofia ou a religião pessoal. O portal entre estas duas dimensões é também descrito como “fronteira entre a vida e a morte”. Por vezes, alguns pacientes que viveram esta experiência relatam que tiveram de decidir se queriam ou não regressar à vida como a conheciam.

A comunidade médica foi forçada a olhar para a morte e a sobrevivência da consciência sob uma nova perspectiva. Em seu livro “O que acontece quando morremos” (Ed. Larousse), o cientista britânico Dr. Sam Parnia traz um relato de seus estudos na área, prosseguimento direto dos estudos iniciados por Moddy – “Nós agora temos a tecnologia e o conhecimento científico para explorar essa questão definitiva”.

Parnia considera inclusive a possibilidade da consciência sobreviver e operar mesmo sem uma atividade elétrica no cérebro, enquanto o corpo se encontra clinicamente morto. No caso do garotinho alemão, numa análise cética podemos supor que ocorreu algo de muito estranho, mas que o relato do menino se tratou apenas de um sonho, de um devaneio produzido por sua mente pouco antes ou após do período em que entrou em inatividade elétrica total. Mas, e o que dizer de pacientes que relatam conversas entre os médicos durante cirurgias de anestesia total, ou mesmo durante tentativas de reanimação? E nos casos em que trazem descrições detalhadas de instrumentos cirúrgicos ou detalhes da decoração do hospital – ou ainda quando informam sobre eventos ocorridos no quarteirão em torno do hospital? Tudo isso enquanto estavam clinicamente mortos, sem atividade elétrica alguma... Esses exemplos são descritos no livro de Parnia, mas todo clínico geral certamente terá uma ou outra história estranha para contar sobre o assunto... Dá o que pensar...

Mas a pesquisa de Parnia será ainda longa, durará anos e anos, e até o momento é inconclusiva. Embora ele considere a possibilidade da consciência “flutuar” pelo ambiente em torno do corpo inerte (parte da pesquisa consiste em esconder figuras randômicas por cima de luminárias no teto dos leitos, de forma que somente alguém “lá no alto” poderia vê-las para contar a história), ele considera igualmente às explicações mais tradicionais e céticas – na verdade as considera até com maior importância, embora sua coragem para se arriscar nesse outro tipo de estudo mais heterodoxo seja louvável...

A questão central é que a morte em si é apenas uma experiência que se tem ainda em vida. Se uns tem a sorte de voltar para contar a história, outros que se foram para uma outra dimensão da realidade, ou para a aniquilação final, certamente devem ter passado por algo semelhante – muito embora nenhuma experiência seja a mesma, assim como ninguém irá descrever uma peça de teatro ou filme de cinema exatamente da mesma forma.

Há muitos casos de pessoas que retornaram das EQMs mais espiritualizadas, ou pelo menos com um ânimo renovado para viver a vida (mesmo as céticas, podem se tornar mais sensíveis e amorosas ainda que continuem não crendo em Deus ou algo do tipo). Eis que, iludidas ou não, elas parecem trazer uma quase certeza de que a morte não é mesmo o fim – e que o “lado de lá” é até mesmo muito parecido com o lado de cá. No fim, cada consciência parece estar sempre onde seus pensamentos a sintonizam.

De certa forma, não há nada de tão novo do outro lado. “Apenas passei ao outro mundo” – alguns poderão dizer, como quem saiu de um oceano para mergulhar em outro, apenas as águas estavam menos turvas. Talvez, sejamos mesmo como rádios que sintonizam pensamentos vindos de algum lugar – ocorre que, finda a energia que mantinha a recepção radiofônica, passamos a ser sintonizados em algum outro canto do Cosmos.

Não confundamos a aparência da casca da árvore com a luz que a ilumina. A casca sempre foi invisível, o que é visível é a luz!

Na continuação, porque os relatos das experiências de morte são importantes para uma visão ecumênica das religiões (e até mesmo das doutrinas agnósticas)...

***

» Veja também este vídeo onde o Dr. Sam Parnia fala sobre sua pesquisa e o problema Mente-Corpo (em inglês)

Crédito das imagens: [topo] Divulgação/Bild.com (o pequeno Paul); [ao longo] Wikipedia (Parte de quadro famoso de Hieronymus Bosch que dá força a teoria de que relatos de EQMs são encontrados mesmo séculos atrás – Bosch viveu na Renascença).

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5.7.10

Doença e mediunidade

No programa espírita Transição (Domingos, as 15:15h na RedeTV), o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira (psiquiatra com mestrado na USP) fala novamente sobre suas pesquisas da glândula pineal (ele associa os cristais de apatita a receptores de ondas eletromagnéticas, que "recebem" as informações através da mediunidade) e outros assuntos como vida após a morte, a relação entre doenças psíquicas e a mediunidade (ele curiosamente afirma que na maioria das vezes não é possível seprarar "problemas biológicos de problemas espirituais", já que a mediunidade tem reflexos físicos/corporais) e o renovado interesse pelos livros de Chico Xavier (particularmente os de Andre Luiz).

Ele é um crítico do materialismo, e as vezes faz suas críticas "por fazer", fora de contexto - mas a maneira genuinamente científica com que estuda a mediunidade é algo a ser exaltado entre espíritas e não espíritas:

Ver também:

» Uniespírito (projeto idealizado pelo Dr. Sérgio)

» Estudo diferencia manifestação mediúnica de doença mental (Terra Magazine)

» UFJF: Mediunidade não está atrelada à esquizofrenia, diz pesquisa (Universia Brasil)

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