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21.11.19

Lançamento: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda

As Edições Textos para Reflexão publicam o livro mais conhecido do primeiro escritor a tratar da Umbanda em detalhes: Leal de Souza.

O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, publicado originalmente em 1933, no Rio de Janeiro, continua sendo uma surpreendente fonte de informação acerca dos primórdios da primeira religião genuinamente brasileira (a despeito de alguns termos da língua portuguesa que caíram em desuso, e foram substituídos por sinônimos mais atuais em nossa edição).

Um ebook já disponível para Amazon Kindle e Kobo (estaremos tentando publicar também na versão impressa pela Amazon):

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***

Abaixo, segue uma amostra com o capítulo XVIII da obra:


XVIII. As Sete Linhas Brancas

A Linha Branca de Umbanda e Demanda compreende sete linhas:

A primeira, de Oxalá.
A segunda, de Ogum.
A terceira, de Oxóssi.
A quarta, de Xangô.
A quinta, de Iansã.
A sexta, de Iemanjá.
A sétima é a linha de santo, também chamada de Linha das Almas.

Essas designações significam, na Língua de Umbanda:

A primeira, Jesus, em sua invocação de Nosso Senhor do Bonfim.
A segunda, São Jorge.
A terceira, São Sebastião.
A quarta, São Jerônimo.
A quinta, Santa Bárbara.
A sexta, a Virgem Maria, em sua invocação de Nossa Senhora da Conceição.
A linha de santo é transversal, e mantém a sua unidade através das outras.

Cada linha tem o seu ponto emblemático e a sua cor simbólica:

A de Oxalá, a cor branca.
A de Ogum, a cor encarnada [ou avermelhada].
A de Oxóssi, a cor verde.
A de Xangô, a cor roxa.
A de Iansã, a cor amarela.
A de Iemanjá, a cor azul.

Oxalá é a linha dos trabalhadores humildes; tem a devoção dos espíritos de pretos de todas as regiões, qualquer que seja a linha de sua atividade; e é nas suas falanges, com Cosme e Damião, que em geral aparecem as entidades que se apresentam como crianças.
A linha de Ogum, que se caracteriza pela energia fluídica de seus componentes (caboclos e pretos da África, em sua maioria), contém em seus quadros as falanges guerreiras de Demanda.
A linha de Oxóssi, também de notável potência fluídica, com entidades frequentemente dotadas de brilhante saber, é, por excelência, a dos indígenas brasileiros.
A linha de Xangô pratica a caridade sob um critério de implacável justiça: quem não merece, não tem; quem faz, paga.
A linha de Iansã consta de desencarnados que na existência terrena eram devotados de Santa Bárbara.
A linha de Iemanjá é constituída dos trabalhadores do mar, espíritos das tribos litorâneas, de marujos, de pessoas que perecem afogadas no oceano.
A Linha de Santo é forma de pais de mesa, isto é, de médium de “cabeça cruzada”, assim chamados porque se submeteram a uma cerimônia pela qual assumiram o compromisso vitalício de emprestar o seu corpo, sempre que seja preciso, para o trabalho de um determinado espírito, e contraíram “obrigações” equivalentes a deveres rigorosos e realmente invioláveis, pois acarretam, quando esquecidos, penalidades duras e inevitáveis.
Os trabalhadores espirituais da Linha de Santo, caboclos ou negros, são egressos da Linha Negra, e tem duas missões essenciais na Linha Branca – preparam, em geral, os despachos propícios ao Povo da Encruzilhada, e procuram alcançar amigavelmente, de seus antigos companheiros [da Linha Negra], a suspensão de hostilidades contra os filhos e protegidos da Linha Branca. Por isso, nos trabalhos em que aparecem elementos da Linha de Santos disseminados pelas outras seis [linhas], estes ostentam, com as demais cores simbólicas, a preta, de Exu.
Na falange geral de cada linha figuram falanges especiais, como na de Oxóssi, a de Urubatan, e na de Ogum, a de Tranca-Rua, que são comparáveis as brigadas dentro das divisões de um exército.
Todas as falanges têm características próprias para que se reconheçam os seus trabalhadores quando incorporados. Não se confunde um caboclo da falange de Urubatan com outro de Araribóia, ou de qualquer outra legião.
As falanges dos nossos indígenas, com os seus agregados, formam o “povo das matas”; a dos marujos e espíritos da linha de Iemanjá, o “povo do mar”; os pretos africanos, o “povo da costa”; os baianos e demais negros do Brasil, o “povo da Bahia”.
As diversas falanges e linhas agem em harmonia, combinando os seus recursos para a eficácia da ação coletiva. Exemplo:

Muitas vezes, uma questãozinha mínima produz uma grande desgraça...

Uma mulatinha que era médium da magia negra, empregando-se em casa de gente opulenta, foi repreendida com severidade por ter reincidido na falta de abandonar o serviço para ir a esquina conversar com o namorado. Queixou-se ao dirigente do seu antro de magia, exagerando, sem dúvida, os agravos, ou supostos agravos recebidos, e arranjou contra os seus patrões um “despacho” de efeitos sinistros.
Em poucos meses, marido e mulher estavam desentendidos, um, com os negócios em descalabro, a outra, atacada de moléstia asquerosa da pele, que ninguém definia, nem curava. Vencido pelo sofrimento e sem esperança, o casal, aconselhado pela experiência de um amigo, foi a um centro da Linha Branca de Umbanda, onde, como sempre acontece, o guia, em meia hora, esclareceu-o sobre a origem de seus males, dizendo quem e onde fez o “despacho”, o que e por que mandou fazê-lo.
E, por causa desse rápido namoro de esquina, uma família gemeu na miséria, e a Linha Branca de Umbanda fez, no espaço, um de seus maiores esforços.
Ofertou-se as entidades causadoras de tantos danos um “despacho” igual ao que as lançou ao malefício; e, como o presente não surtiu resultado, por não ter sido aceito, os trabalhadores espirituais da Linha de Santo agiram, junto aos seus antigos companheiros de Encruzilhada, para alcançar o abandono pacífico dos perseguidos, mas foram informados que não se perdoava a ofensa à médiuns da Linha Negra.
Elementos da falange de Oxóssi teceram as redes de captura, e os secundaram, com o ímpeto costumeiro, a falange guerreira de Ogum; mas a resistência adversa, oposta por blocos fortíssimos de espíritos adestrados nas lutas fluídicas, obrigou a Linha Branca a tomar recursos extremos, trabalhando fora da cidade à margem de um rio.
Com a pólvora sacudiu-se o ar, produzindo-se formidáveis deslocamentos de fluidos; apelou-se, depois, para os meios magnéticos; e, por fim, as descargas elétricas fagulharam na limpidez puríssima da tarde.
Os trabalhadores de Iemanjá, com a água volatizada do oceano, auxiliados pelos de Iansã, lavaram os resíduos dos malefícios desfeitos e, enquanto os servos de Xangô encaminhavam os rebeldes submetidos, o casal se restaurava na saúde e na fortuna.


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10.8.16

A flor e a náusea nos Jogos Olímpicos Rio 2016

Para os poetas, daqui e de fora, um dos grandes momentos da bela cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 foi este em que duas grandes atrizes, Fernanda Montenegro e Judi Dench, recitam em suas respectivas línguas, português e inglês, o trecho final do poema A flor e a náusea, do imortal Carlos Drummond de Andrade.

Abaixo, segue o áudio desta parte da cerimônia, já que não encontrei online o trecho em vídeo:

O poema inteiro, no entanto, causa bem mais impacto, conforme recitado por Carlos Vereza no Programa do Jô:

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade

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Crédito da imagem: Google Image Search

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30.5.15

O país do futuro

No país do futuro
há muitas criancinhas
que brincam pelas ruas
de catar balas de fuzil
dos tiroteios das madrugadas;
enquanto outras, mais grandinhas,
que já aprenderam a correr e pular,
brincam de subir o morro e gritar:
Vem aí os alemão!

No país do futuro
há jovens sem pai nem mãe
nem escola nem sociedade...
O que eles querem?
O tênis da moda,
a camisa do shopping,
o celular novo do comercial...
Mas, como já disse o poeta,
o seu cartão de crédito
é uma navalha.

No país do futuro
os homens de bem se trancam
em suas vilas, condomínios,
e malls maravilhosos,
cheios de grades, câmeras
e sentinelas...
Mas, quando se arriscam a sair
e apreciar a paisagem,
muito cuidado!
Eis que podem ser perfurados
pela realidade!

No país do futuro
há muitos que parecem temer
que todos esses que vivem nas encostas
subitamente resolvam descer ao asfalto,
juntos, e revoltados...
Porém, há muitos que se entreolham
nas praias, nos parques, nos estádios,
e nas vias comuns,
e indagam a si mesmos:
Mas não disse o rabi
que éramos todos irmãos?

No país do futuro,
que importa, afinal,
quem sobe
e quem desce?

No entanto, no país do hoje,
é preferível ainda
enviar todas essas criancinhas,
e jovens, e seres
condenados a viver a margem
para os morros
e as masmorras,
a depender, é claro,
do merecimento de cada um!

Depois ainda não sabem
porque diabos esse tal futuro
não chega nunca...


raph'15

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Crédito da foto: Wilton Júnior/AE

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22.10.14

Um convite para a eternidade

São rostos de todo tipo,
faces e olhares a alhures,
e restos de passados,
angústias de futuros,
e presentes aprisionados
num vagão lotado
e na tela cristalina
de um smartphone...

Não obstante, neste instante,
por entre meios fios
e rachaduras em concretos frios,
flores desabrocham,
relvas tingem o cinza,
e verdejam as plantas mais comuns,
enquanto as montanhas cochicham umas as outras
(por milênios a fio)
sobre os seres apressados
que elas viram nascer
e passar e morrer...

Cada pedra portuguesa desta calçada,
cada pequeno jardim,
cada loja de rua e padaria,
cada igreja e banca de jornal daqui
são para mim os símbolos e os emblemas
da minha breve história...

Lá do alto, porém,
de braços abertos,
e um olhar convidativo ao horizonte sem fim deste grande mar,
vela por nós o Cristo,
e nos redime de nossa brevidade,
e nos estende a mão –
um convite para a eternidade.


raph'14

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Crédito da foto: Ladyce West

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19.7.13

Manifestações

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


A primeira manifestação da noite ocorreu dentro do ônibus.

Era um ônibus de integração do metrô carioca. Estávamos parados já há uns 20 minutos na rua em frente ao Jardim Botânico, e eu já havia analisado minuciosamente todos os painéis com fotografias ampliadas da exposição do Sebastião Salgado. Eu via aqueles indígenas em "trajes de festa" e pensava como em muitos pontos o sistema tribal nunca deixou de existir, apenas "evoluiu" e, quem sabe, se corrompeu.

A manifestação do ônibus opôs a tribo dos "classe média com pressa de chegar em casa" a tribo dos "funcionários do metrô que seguem as regras a risca". Geralmente essa tribo "classe média" até gosta muito que outras tribos sigam as regras a risca, mas não poder abrir a porta do ônibus fora do ponto após 20 minutos parados no mesmo lugar já era demais. Vencemos nossa manifestação (afinal, eu era da tribo "classe média" também) e pudemos saltar livres e faceiros para seguir a pé até a Gávea.

A Gávea foi onde cresci, cercado de montanhas e com vista para uma das maiores favelas urbanas do mundo (também conhecida como Comunidade da Rocinha). Segundo algum grande poeta do século passado, "o Céu era ter uma cobertura na Gávea". Eu concordo plenamente, mas dificilmente um dia terei uma, visto que desde que eu era moleque a Gávea passou de um bairro de classe média para um baixo de ricaços. Eu estava, portanto, fora da minha tribo...

No Shopping imponente da Marquês, entrei para tomar um café antes de ir encontrar com uma amiga nas manifestações na porta do prédio onde reside o governador Cabral, no Leblon (o Leblon já há muito tempo é um bairro da tribo dos ricaços; tirando aqueles que ainda residem com os avós, quem sabe). Lá dentro constatei que a conversa dos anciãos da tribo se referia, sobretudo, ao medo "da tribo da Rocinha haver descido"... É que o trânsito estava ainda totalmente parado, e havia boatos de uma "outra manifestação" na frente da Rocinha que estava trancando todas as vias que fluem para a Barra da Tijuca (que é praticamente outro país dentro da cidade do Rio de Janeiro).

Este "medo da descida da favela" tem rondado o imaginário da elite tribal há muitos anos. De fato, nunca ocorreu da maneira que temiam. O máximo que houve foi uma procissão pacífica (de algumas semanas atrás) até a porta do Cabral, e que tampouco recebeu qualquer resposta do governador na época. Mas fato é que alguma "eletricidade urbana" fluía e pairava pelo ar. Alguma espécie de estranhamento e de medo do novo se mesclava ao velho pensamento do "investimento conservador" em se manter tudo do jeito como está para ver como fica. Ocorre que os jovens nunca foram muito adeptos desse tipo de pensamento, e é sobretudo graças a eles que os pensamentos se renovam entre as gerações.

Eu fui caminhando até o Leblon e por muitas vezes agradeci aos céus por não ter um carro.

Chegando perto da praia, me deparei com uma fila indiana de cerca de dez policiais em trajes cinematográficos, que estavam ali parados de pé ao lado de uma árvore, impassíveis e muito sérios. Eu fiquei imaginando o que iria ocorrer mais tarde naquele dia, e também fiquei considerando quais seriam minhas "rotas de fuga" preferíveis se alguma algazarra lacrimogênea fosse eclodida. Aquela rua certamente não seria parte de minha rota... Em todo caso, fiz uma cara de "leitor feliz da Veja" e passei pelos policiais em direção ao mar.

No posto doze, em frente ao prédio do Cabral, encontrei minha amiga e seu namorado, e ficamos observando as projeções de vídeos dos manifestantes na fachada de outro prédio praiano que, convenientemente, era branco. Vimos muitas daquelas máscaras dos quadrinhos do Alan Moore. Não sei se leram, mas o personagem que usa a tal máscara não é exatamente "bonzinho", nem muito menos crê que uma manifestação totalmente pacífica é combustível suficiente para mudanças mais profundas na estrutura política de uma cidade ou país. E aquelas eram máscaras brancas, mas a minha volta eu via seres encapuzados assustadores por si mesmos, com máscaras totalmente negras, com seus sorrisos cromados refletindo a luz das câmeras fotográficas que disparavam sem parar. Era óbvio que estes seriam aqueles que entrariam em conflito com os policiais.

Lá no alto do céu havia dois helicópteros filmando tudo. Em algum canal que nunca desliga, toda a tribo de ricaços e classe média podia assistir a tudo como num filme... Mas havia também os cinegrafistas NINJAs, que filmavam in loco com câmeras de celular e transmitiam tudo ao vivo e online (com visão de videogame). Na internet, todos podiam agora ver o que realmente ocorria nesse tipo de manifestação, sem o "filtro interpretativo" do canal que nunca desliga.

Em dado momento, minha amiga me levou para conhecer a "fronteira" entre os manifestantes e a fila de policiais cinematográficos. Perto das grades reparei que havia uma aglomeração de observadores e repórteres que estavam todos interessados somente nessa área onde as agressões verbais são fartas e o conflito é iminente... Estranho ninguém filmar a gente de todas as tribos e idades (embora majoritariamente jovem, inclusive na alma) que rondavam o local e não estavam tão interessadas em passar horas gritando em frente aos policiais. Estranho ninguém captar o som das músicas animadas e das cirandas que ocorriam a poucos metros dali. Estranho ninguém haver tirado foto das "patricinhas" com suas máscaras de gás de última geração, perfeitamente trajadas para a ocasião (e que pareciam ser rebentas rebeldes das próprias tribos do Leblon).

Quando cansamos fomos beber um chopp no Jobi, que é um bar tradicionalíssimo do quarteirão imediatamente atrás do Cabral. É tanta "tradição" que um copo de chopp chega a custar mais do que uma garrafa de cerveja noutros bairros "menos tradicionais", por isso bebi somente um chopp mesmo... Quando estávamos pensando em voltar a Gávea, vimos os manifestantes numa animada procissão a contornar a esquina, circulando o quarteirão do governador. Não conseguimos resistir aos gritos de "vem para a rua" e os seguimos até o outro lado da barricada formada pela polícia cinematográfica.

Nessas horas as declarações do Eduardo Galeano na praça Catalunya, na Espanha, não saiam da minha mente. De fato, o entusiasmo dos jovens, ver aquele povo "com os deuses adentrados pela alma", era um forma de resgate do estado original da tribo, uma forma de "descorrupção", literalmente.

"Este mundo de merda está grávido de um outro", e somente compreende a verdade de tal declaração quem caminha novamente entre os jovens, seja por fora ou por dentro de si mesmo...

Mas como o namorado da minha amiga era fanático por futebol, fomos até a Gávea ver um jogo pela TV. E assim prosseguiu a minha noite revolucionária até quando, já bem mais trade, sintonizei no canal que nunca desliga e fiquei observando, através do helicóptero, os seres de máscaras negras colocando fogo nas ruas e atirando algumas pedras em algumas vidraças específicas.

Uma tribo disse que são arruaceiros e saqueadores. Outra tribo disse que estavam atacando alvos específicos: o banco que financiou o estádio superfaturado, a grife que usa trabalho "semiescravo" dos bolivianos paulistas, etc. (mas ninguém soube explicar o motivo ideológico de uma loja de bebidas haver sido saqueada). Enquanto discutiam tudo isso, fiquei pensando em como os helicópteros filmavam tudo e transmitiam madrugada adentro, sem nunca deligar, enquanto a política cinematográfica continuava parada no lugar.

Vai ver naquele horário o filme policial já tinha acabado.

Os manifestantes pediam pela dismilitarização da polícia. Eu já seria mais prático, pediria logo pelo fim da cenografia policial, e também da cenografia política do governo do tal Cabral, que até hoje ninguém sabe onde mora exatamente...

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Crédito da imagem: Google Image Search (Black Bloc)

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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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8.7.12

Estrelas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui estou novamente, num vagão de metrô da Cidade Maravilhosa...

Basta ir morar por algum tempo (meses, anos?) longe de uma grande cidade, do tipo que tem metrôs lotados, para voltar a se espantar novamente, quando retornamos a nossa antiga casa: “Nossa, se entrasse mais alguém por aquela porta, eu acho que teria sido esmagado neste poste no meio do vagão!”.

Há tanta gente em tão pouco espaço, que quando você planeja pegar o metrô do Rio em horário “nobre”, precisa realmente elaborar uma estratégia... “Se entro pela esquerda, preciso garantir minha posição próximo à porta direita, ou seria a esquerda?” – Um momento de indecisão, e é capaz de você passar do ponto sem ter tempo de sair...

Mas é entre as estações, com o trem percorrendo os corredores escuros por debaixo da metrópole, que os pensamentos mais profundos me assaltam: “Quantas histórias distintas neste mesmo vagão, quantas formas de ver o mundo... Aquele cara está com o olhar fixo nos seios daquela garota, será que ela também sabe dos seios lindos que tem? (me parecem naturais); Aquela outra ali tem pinta de nerd... Nossa, ela está lendo Game of Thrones na tela do celular, isso que é dedicação! E ali, no outro canto, aquele grupo de turistas alemães escolheu uma péssima hora para fazer turismo pelo Centro...” – Mas todos eles estão pensando. Não há aperto suficiente neste vagão que impeça alguém de pensar.

Muitos certamente estão voltando do trabalho e, invariavelmente, dedicam uma boa parte do seu tempo de reflexão a pensar no dinheiro: quanto têm, quanto almejam ter, quantas dívidas a pagar, etc. Isto tudo, sem dúvida, passou por sua educação: se não foram os pais ou familiares a lhes alertar que “tempo é dinheiro”, certamente foi a orientadora vocacional. A primeira função das orientadoras vocacionais é tentar convencer o maior número possível de jovens mentes promissoras a ingressar numa carreira “promissora”, que “pague bem”. Ultimamente, por falta de mão de obra qualificada, o empresariado brasileiro tem quase que implorado para tais orientadores: “Pelo amor de Deus, manda alguém para exatas”.

Ciências exatas! Pode ser chato de aprender, principalmente se você não gostar, mas o que importa é que “dão dinheiro” (alguns cientistas teóricos podem discordar)... Melhor seria, entretanto, se na escola alguém nos explicasse, antes de iniciar a primeira aula de química ou física: “Meus caros, vocês podem não gostar desse decoreba sem fim de fórmulas que irão vomitar sobre vocês nos anos seguintes, mas, por favor, lembrem-se ao menos disso: somos formados por elementos químicos que só podem ser gerados nos núcleos estelares! Compartilhamos a história de nossos genes com todas as espécies animais da Terra, desde as bactérias aos roedores que sobreviveram à extinção dos dinossauros... A vibração dos nossos átomos, esses que formam nosso corpo inteiro, seguem as mesmas leis dos átomos que formam pedregulhos em Marte, ou supernovas há milhões de anos-luz de nossa galáxia. Há luz por todo o lugar! Tudo bem, agora podem entrar no decoreba... Boa sorte”.

Então saberiam ao menos que, conforme as estrelas, também somos pedaços do universo capazes de produzir luz. Sim, pois todo homem é uma estrela, e toda mulher também: sua luz é seu pensamento, quando conectado ao Infinito!

E a filosofia? Bem, esta nem é mais ensinada na maioria dos colégios. Por toda parte, os “arautos da estagnação”, estes que gostariam que você não pensasse, espalharam o boato de que a “filosofia é difícil e muito, muito chata; seria melhor estudar ciências exatas, que às vezes não são assim tão chatas”. Existem, quem sabe, dois tipos de pensadores: os que usam o pensamento para manter a “ordem estabelecida”, para estes é interessante que somente alguns poucos “doutrinados” aprendam a pensar, e mesmo assim desde que não pensem em nada que possa ir contra a tal “ordem estabelecida”; existem outros pensadores, no entanto, que acreditam que todos deveriam ser livres para pensar no que quiser, e cada vez mais abrangentemente e profundamente – a estes os “estagnados” de cada época taxaram de loucos, hereges, subversivos, bruxos ou, como está tão na moda: irracionais.

Talvez a filosofia não dê mesmo dinheiro, mas certamente te ajudará a entender o porque de tantos viverem correndo atrás do dinheiro, e não da felicidade, que por vezes se perde em meio a “sobrevivência”... Pegue todos os livros da seção de autoajuda desta megastore: não equivalem a um livreto de Epicuro sobre a felicidade [1]. Com a filosofia, a verdadeira autoajuda, se aprende a viver, não somente sobreviver. Para tal, não necessitamos de tanto dinheiro assim, só do necessário (para Epicuro, um pedaço de queijo ocasional era um banquete).

Que falar das religiões então? Tudo bem, todos poderiam continuar sendo batizados antes de terem opção de escolha, assim como seus pais já escolheram seus times de futebol, em todo caso... Mas, antes da primeira missa de Domingo após os, quem sabe, 12 anos, alguém de espírito livre deveria lhes alertar: “Vá e ouça tudo o que o padre tem a dizer, mas, ainda que suas palavras sejam reconfortantes, e ainda que você não possa dialogar, dialogue consigo mesmo – duvide, questione, elabore, experimente. Não faça de sua vida religiosa mais um decoreba eclesiástico!”. O único problema é que um sujeito assim seria expulso da Igreja...

E quem seria hoje Nosso Senhor Jesus Cristo? Um socialista radical? Um hacker anônimo? Um psicólogo dos Médicos Sem Fronteiras? Aquele mendigo que mora nas escadas da paróquia? Ou mais uma dessas estrelas do céu, que insistem em irradiar sua luz antiga, para aqueles que têm alma para às admirar? Ou, quem sabe ainda, mais uma dessas estrelas espremidas neste vagão de metrô?


para Maria Luiza

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[1] Carta a Meneceu.

Crédito da foto: Claudio Lara (Metrô Rio)

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1.4.11

White Pride

Texto de Tiago de Thuin, autor do blog "Samba do Avião" e também meu amigo de longa data. O comentário ao final é meu.

Volta e meia alguém, mesmo sem ser particularmente racista (numa sociedade que é racista, não dá pra dizer que alguém seja inteiramente livre disso), repete aquela pergunta de white power, "se você pode ter orgulho negro, por que não orgulho branco, ein, ein?" A resposta que eu dou normalmente é a tradicional: porque orgulho negro se trata de orgulho de ter sobrevivido, e ainda sobreviver, a uma sociedade que lhe oprime, assim como o orgulho gay; nessa dicotomia, orgulho branco ou orgulho hétero ou bem são uma besteira sem sentido ou bem são orgulho de fazer parte dos opressores. E sinceramente, a não ser que você seja uma dominatrix, acho que ninguém acha tão legal ou virtuoso oprimir os outros quanto manter a cabeça erguida diante da opressão. O orgulho negro, ou gay, explícito, se dá justamente para afirmar o valor frente a um orgulho implícito branco ou hetero fortíssimo. É como a piada do dia internacional da mulher; agora que acabou voltamos ao ano internacional do homem.

Hoje, vendo a wikipédia sobre os bairros do Rio, achei algo que atenta para uma das facetas desse orgulho, que se mistura com a noção dos EUA como modelo de civilização. É que o brasileiro - ou pelo menos, e principalmente, a classe média brasileira, que é afinal de contas principalmente branca e poderia concordar com a frase infeliz de Gilberto Freyre quando este diz que o brasileiro se misturou com o negro e com o índio - tem, muitas vezes, um orgulho desmesurado de suas raízes imigrantes. Você tem um único imigrante na família? Basta para se proclamar "italiano," "alemão," ou "espanhol." A importância da imigração é ensinada na escola, mesmo em livros radicais de esquerda, de forma epocal; no fim do século XIX, saem as lutas dos escravos, exceto por uma nota de rodapé dizendo que não foram devidamente apoiados após a abolição, e entram os imigrantes. O povo brasileiro do século XX, nessa visão, é imigrante.

E ora, o Brasil não chega a ser exatamente um país de imigrantes, não na escala dos EUA ou da Argentina. A maior leva imigratória brasileira, de muito longe, foi mesmo a africana, forçada; 4,4 milhões de escravos, versus 3,3 de todos os imigrantes não-escravos juntos. E esses 3,3 milhões de imigrantes, ao longo da maior parte de um século, se somaram a um país que tinha, em 1872, quase dez milhões de habitantes, dos quais seis milhões de pretos e pardos. A imensa maioria do Brasil (e não da classe média) é mesmo descendente, não de imigrantes, mas de pretos, ibéricos da época da colônia, e índios; os imigrantes não chegam a ser um prato principal nessa mistura. Como foram trazidos justamente, em parte, por se acreditar na sua "superioridade racial," e se beneficiaram tanto de leis de imigração que em alguns momentos foram ridiculamente generosas quanto do racismo em geral, os imigrantes rapidamente viraram a nova classe média, expulsando dela a maior parte dos mulatos.

No caso dos bairros da wikipédia, chega a ser hilário. Alguém realmente acha que um componente importante da população de Botafogo é inglês? (No caso, como o modo de valorizar a imigração segundo o modelo americano já foi estabelecido, somaram ali uma igualmente enigmática Angola.)

Outro caso em que esse orgulho, essa ânsia de ser imigrante (e não-negro ou se mestiço só o bastante pra ter bunda, de preferência) fica engraçado é nos números anunciados da população "x" do Brasil. Fora os portugueses e os italianos, cujo número no Brasil é mesmo substancial (se bem menor, no caso dos segundos, que na Argentina), com efeito, os números propagandeados significariam que todo japonês, árabe, e alemão que veio pro Brasil teve mais filhos que o Genghis Khan. Assim, São Paulo sozinha teria mais de seis milhões de libaneses, apesar de haver, nos censos de 1920 e 1940, uns cinquenta mil imigrantes daquelas bandas. Os 250.000 alemães que chegaram até 1970 representariam a maior parte da população do Sul - uma multiplicação de 1 pra cada 50, pelo menos, o que significa que o Gobineau estaria certo e a fertilidade ariana era mesmo maior, já que se os pobres bugres brasileiros da mesma época tivessem se multiplicado do mesmo jeito, o Brasil seria mais ou menos do tamanho da Índia.

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Comentário
Existem realmente muitos racistas assumidos no país, pelo menos assumem "em família", qual a família que não conta pelo menos um? Mas a grande maioria é racista mesmo sem perceber, por isso que é sempre válido refletir sobre isso...

Para mim, o racismo é sobretudo um fardo. O que eu tenho de racista, tento sempre me livrar, pois em última instância é apenas ignorância, uma ignorância que pode me afastar de conhecer boas pessoas.

Não custa lembrar: não afirmo que o racismo seja ignorância por mera opnião, mas porque já foi comprovado cientificamente que não existem raças humanas, e todos os homo sapiens compartilham um único genoma.

"A palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica reconhecível no DNA de nossa espécie, e portanto não há nada de inevitável ou genético nas identidades étnicas e culturais, tais como as conhecemos hoje em dia. Sobre isso, a ciência tem idéias bem claras." - Guido Barbujani em "A Invenção das Raças" (Editora Contexto).

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Crédito da foto: Leonardo Martins (Quilombolas no estado do Rio, aprox. 1940)

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26.1.11

É o fim do caminho?

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É à noite, é a morte, é o laço, é o anzol

Esses são os versos iniciais de “Águas de Março”, célebre música composta por Tom Jobim no fim dos anos 50. Tom compôs este e diversos outros sucessos enquanto visitava o sítio da família na localidade de Poço Fundo, a 40 minutos de Petrópolis. A beleza da região serrana do Rio de Janeiro parece sem dúvida ter ajudado muito em sua inspiração. A poesia de Jobim fala sobretudo da vida – o vento ventando; uma ave no céu; é a promessa de vida no teu coração – e da morte – é o fim do caminho; é a noite; o fim da ladeira.

Ultimamente a natureza não tem esperado Março para enviar suas águas. Em Janeiro de 2011 a região serrana do Rio registrou a maior tragédia natural de que se tem notícia no estado: as chuvas vieram muito fortes e praticamente todos os morros tiveram deslizamentos de terra, matando centenas de pessoas, soterradas pelas próprias casas – particularmente em Nova Friburgo e Teresópolis. A casa onde Tom Jobim compôs suas canções também foi levada pela enxurrada.

Este desastre natural, entretanto, não se compara ao terremoto que devastou quase completamente Lisboa, a capital de Portugal, em 1755. Em uma época onde a população mundial era muito inferior a atual, estima-se que morreram entre 10 e 100 mil pessoas naquele que é até hoje o terremoto mais letal da história. Até aquela época era muito comum atribuir os desastres naturais a “ira divina”, num tipo de associação de ideias que data da pré-história... Entretanto, o terremoto de 1755 suscitou respostas divergentes dos filósofos iluministas. Gente como Voltaire parece ter se cansado de ficar sempre a mercê da “ira divina”, e tratou de analisar a existência como ela realmente o é – um ciclo de vida e de morte.

Nossa sociedade moderna parece ter enorme dificuldade em lidar com a morte. Tirando as funerárias e as seguradoras, parece que ao capitalismo a morte é um tremendo desperdício: altos funcionários e CEOs que acumularam conhecimento e experiência por décadas e décadas subitamente se tornam incapazes por razão do envelhecimento, se aposentam, e depois simplesmente se despedem de nós. Atores de cinema ou TV, de fama mundial, que trazem renda garantida aos grandes estúdios, subitamente se vão ainda durante as filmagens do próximo blockbuster. Até mesmo aquele economista de renome que sempre consultávamos antes de realizar nossas aplicações na bolsa de valores, ele também se vai, e não sabemos mais a quem consultar.

O capitalismo, entretanto, parece não sentir falta dos informais, das donas de casa, dos lixeiros, dos carpinteiros, dos pedreiros, dos pequenos trabalhadores do campo, enfim, dos pobres. A informação que se perde quando estes se vão não parece de tanta importância para que o giro da roda do dinheiro continue sua constância – mas fato é que todos morrem. Todos podem ser levados pela enxurrada, pelos tremores, pelos acidentes, pela violência e ignorância dos homens, ou simplesmente pelo próprio tempo em que aqui se vive. Sim, pois não há dia em que não estejamos a morrer: todas as nossas células morrem e são substituídas por outras, inúmeras vezes, durante a vida de nosso corpo. Nesse sentido, a própria vida é uma tragédia constante...

Porque então estarrecer-se com a sombra da morte? Se a morte é apenas o último tilintar dos neurônios no cérebro – estes que também morrem e nascem a todo dia – então a morte é apenas um sonho sem sonhos. Morremos então, todo dia, conscientemente – pois sabemos da degeneração celular –, e inconscientemente – quando nos deitamos na cama e sonhamos uma vez mais, até o dia seguinte, até o próximo ciclo do Sol.

Porque então agradecer aos deuses por ter sido poupado de uma tragédia, se toda a tragédia é em si uma tragédia? Por vezes, teria sido melhor não ter sido poupado, ao menos se compreendemos a morte como o fim do caminho. Nas religiões orientais, particularmente no hinduísmo, o aspecto destrutivo de Deus é tão bem compreendido quanto o aspecto criativo. Entende-se, sobretudo, que a existência não é uma história simples, um “era uma vez...”, com início, meio e fim – mas antes um ciclo incomensurável, uma existência cósmica que se estende até as beiradas do infinito, uma história onde falar em início e fim faz tanto sentido quanto falar no nascer e no por do Sol.

Em todo caso, os céticos dificilmente entenderão como pode este povo tão simples, aparentemente tão ignorante, continuar louvando ao Deus do cristianismo mesmo após tamanha tragédia natural. Tragédia natural é ato divino, é coisa da natureza, e da natureza cabe o cuidado de Deus. Se ele poupa alguns e toma outros, porque agradecer, porque se revoltar, porque enfim, acreditar?

É que naqueles que creem, mesmo que seja na sombra da sombra do Deus de todo o Cosmos, reside esta distinta intuição de que nada ocorre ao acaso, até mesmo porque ninguém sabe o que diabos é o acaso... E se o próprio acaso for ele mesmo mais um deus, será em todo caso tão desconhecido quanto Aquele outro. E ainda que permaneçam fiéis ante a maior das tragédias, como os apóstolos a serem pregados nas cruzes, é porque em seu íntimo sabem, de alguma forma, que a morte não é o fim do caminho, mas apenas a passagem de um ambiente ao outro, na grande casa do Cosmos.

Mas e aqueles que não creem? O que lhes resta senão encarar face a face este aparente “grande nada”, o vazio, o buraco negro que suga tudo o que há? Talvez, conforme os estóicos e epicuristas, devam se contentar com o que podem mudar, o que podem decidir, o que podem sentir, no aqui e no agora. E, conforme disse Carl Sagan, de alguma forma se contentarem com viver na memória daqueles que os amam – a vida após a vida – embora não estejam mais aqui para saber...

E, finalmente, aqueles que compreendem a morte mais profundamente, sabendo perfeitamente que ela é ao mesmo tempo um fim e um recomeço, ao mesmo tempo uma enorme mudança e uma fugaz renovação, ao mesmo tempo o arauto do desespero e a promessa da evolução, não há que se ater aos fantasmas das mentes alheias. Não há que se estagnar com o tempo e a vontade nas mãos. Não há que cair na ilusão de que o mundo todo é tão somente isto que vivemos aqui, neste planeta ínfimo na periferia de uma de bilhões e bilhões de galáxias do Cosmos... Somos, sim, seres a viajar por esse universo infinitamente belo, tanto pelo milagre da vida quanto pelo caos da destruição, que no fim apenas permite que a vida se renove e renove, rumo a algum lugar cada vez mais alto na montanha divina, rumo aos galhos ao topo da árvore da vida, onde o Sol pode ser visto em toda a sua glória, e onde tudo o que há é amor a irradiar-se nos mais variados espectros de pura luz.

Aos que tem olhos para ver, restará sempre esta promessa de vida em seus corações. Não de um céu de tédio eterno, mas do trabalho contínuo, do caminhar passo a passo, do navegar em mar revolto e noite fria, mas sempre rumando ao próximo farol.

Perto deste conhecimento, perto desta visão distinta do jogo da vida consigo mesma, do turbilhão de seres e potencialidades a desafiar a entropia cósmica, um mero terremoto, uma pequena enxurrada, é tão significativa quanto à destruição de um ninho de formigas... Embora mesmo a menor das formigas seja, ela também, parte da mesma teia que nos conecta a todo o Cosmos.


E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

(trecho final de poema de Otávio Fossá)

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Elis Regina e Tom Jobim cantando "Águas de Março".

Crédito da foto: Wikipedia (ruínas do Convento do Carmo, destruído no terremoto de 1755)

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29.11.10

A outra margem

No início do século XIX, a Família Real portuguesa, juntamente com sua corte, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, fugindo da agressividade de Napoleão na Europa. Os “quadrilheiros”, que faziam o papel de polícia na cidade, não pareciam ser suficientes para proteger a corte na colônia brasileira – cerca de 60mil pessoas, mais da metade escravos.

Então em 1809, D. João VI, o príncipe regente, criou a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte, formada por 218 guardas com trajes idênticos aos da polícia de Lisboa. Nessa época ainda existia a escravidão e os direitos das mulheres eram praticamente nulos, existia uma margem muito bem estabelecida entre os príncipes e a nobreza, os eclesiásticos, os grandes comerciantes e burgueses, e os camponeses e escravos. Ninguém poderia vislumbrar uma travessia a outra margem; Não é que se entendiam como raças distintas, era até mesmo além disso: segundo alguns “religiosos”, escravos nem mesmo tinham alma!

Alma é um termo que deriva do latim anǐma, este refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo, o que é animado ou o que faz mover. Quem não possuía alma, segundo os “grandes estudiosos de outrora”, não fazia parte do gênero humano, não poderia chegar ao céu, e havia nascido para ser subjugado (como os animais, também sem alma) por aqueles que tinham alma. Aos escravos, portanto, restava apenas cumprir o seu papel de subjugação e servir aos seus “mestres”...

O tempo passou e as mentes se iluminaram. Houve a independência da colônia e a proclamação da república brasileira, a abolição da escravidão e o reconhecimento dos direitos das mulheres. Agora, tanto mulheres quanto escravos têm alma, e mesmo os eclesiásticos admitem (esperamos que chegue a vez dos animais um dia)... Mas nem tudo correu tão bem. Houveram guerras, e não foi apenas a do Paraguai.

Dizem que uma alma colhe tão somente aquilo que planta. Mas, e a alma de um país, o que terá colhido? Por um lado, os escravos passaram a ser tratados como pessoas, gente com alma mesmo... Por outro, foram largados a própria sorte num mundo desconhecido, fora das senzalas. Como sempre, tudo o que fizeram desde então passou a ser pré-julgado como algo perigoso – a margem que existia entre eles e seus antigos “mestres” ainda era muito extensa.

Um dia os cânticos da Umbanda já foram caso de polícia, assim como as primeiras rodas de samba. Talvez os abastados tivessem medo que eles viessem a se vingar, a se reunir, se organizar, e atacar a sociedade hipócrita que um dia lhes deu a “liberdade”. Liberdade em termos, meia-liberdade, meia-alma... Mas os antigos escravos apenas tocaram a vida, e o tempo passou, e hoje seu sangue corre na veia de quase todos nós, e sua cultura é também a nossa. Mas não bastou a ciência provar que não existem raças humanas além do homo sapiens, há muitos de nós que ainda crêem nessa margem que nos separa uns dos outros – sua ilusão é persistente.

E o Rio de Janeiro, que já foi o Distrito Federal, que ainda ostenta a mesma polícia que um dia protegeu o príncipe regente, é o símbolo máximo dessa divisão: o corte profundo que fez sangrar, e esse sangue preencheu a margem entre todos nós na cidade maravilhosa.

Subindo o bairro da Gávea e adentrando a Rocinha, temos em vista um verdadeiro milagre: as mansões mais luxuosas próximas aos barracos da favela. De alguns deles, é possível ver a cantina de um dos colégios mais caros da cidade, assim como as piscinas refletindo o céu azul. Mas o milagre não está na desigualdade, pois esta existe em todo mundo. O milagre está no fato de que esse povo consegue viver a maior parte do tempo sem conflito algum.

Apesar da falta de oportunidades, do descaso histórico, secular, para com os filhos dos filhos dos filhos dos escravos, a grande maioria deles é honesta, trabalhadora, de bem com a vida, sorridente, apreciadora de coisas simples como um bloco de carnaval de rua ou uma roda de samba. Mesmo em meio a esgotos em céu aberto e a casas de pouquíssimos metros quadrados, eles não se revoltaram, não se rebelaram, jamais realizaram aquela “temida revolução” que seus antigos “mestres” predisseram. Alguns deles, aliás, são hoje parte da considerada “elite abastada”...

Mas ainda assim, são muitos, muitos vivendo nessas condições e de olhos abertos para tal desigualdade escancarada. Era de se esperar que alguns deles enveredassem por caminhos obscuros. E esse era para ser o papel da polícia: punir os contraventores e ilegais, de modo a que aprendessem a respeitar a lei. Na prática, no entanto, isso nunca funcionou muito bem. Alguns dos antigos nobres, hoje chamados apenas de ricos mesmo, precisavam praticar seus vícios e um comércio de drogas surgiu ao longo do século XX. De início, os donos das “bocas de fumo” eram vistos com bons olhos pela sua própria comunidade, como verdadeiros robin hoods, usavam o lucro da venda de drogas para ajudar e melhorar as próprias favelas.

Então vieram as grandes guerras e golpes militares, e a repressão policial tornou-se cada vez mais violenta. Foram nas prisões do Rio, o lugar onde deveriam ser reformados, que os pequenos traficantes entraram em contato com os presos políticos, gente de maior educação, que soube se organizar na época da ditadura militar. Resolveram seguir seu exemplo, e criaram as primeiras facções criminosas, e mesmo essas já nasceram divididas...

E a ditadura acabou, os agitadores políticos não tinham mais razão para se organizar de forma obscura, a margem da lei... Mas seus ensinamentos foram muito bem utilizados pelos criminosos: saindo da cadeia, começaram a transformar pequenas bocas de fumo em cadeias de tráfico, e o crime na cidade maravilhosa começou a dar dinheiro, muito dinheiro... Os burgueses de outrora teriam inveja!

Isso foi na década de 80, de lá para cá, após 30 anos de descaso, ineficiência, conivência, ou pura e simplesmente ignorância dos governantes para com o problema, o corte apenas alargou, mais sangue jorrou e hoje temos uma verdadeira hecatombe social. Facções de traficantes que fazem da cidade um tabuleiro de guerra, presídios que sequer conseguem bloquear a comunicação por telefone de seus detentos, agentes penitenciários mal pagos e sem preparo ou perspectiva alguma, policiais corruptos ou correndo eterno risco de vida por sua honestidade, e principalmente os políticos – esses mestres de ilusionismo e sedução, que nos prestam contas apenas de 4 em 4 anos, e ainda assim mal mexeram as pernas, mal elaboraram ou aprovaram leis referentes a questão da segurança nessas 3 décadas... Mas somos nós que votamos neles. No fim, um país também colhe aquilo que planta.

Mas o pior são aqueles que fingem que está tudo bem, consciente ou inconscientemente. Isso não é uma condenação, mas uma constatação. Eu morei quase todo o ano de 2004 no bairro de Vila Isabel, numa vila de casas bem próxima a uma das entradas do Morro dos Macacos, que na época tinha tiroteio dia sim e dia sim também... Acordar de madrugada com estrondos de granada ou mal ouvir minha esposa através do som metálico das metralhadoras não era o pior – o pior era constatar que a velhinha que morava há 50 anos naquela vila, ou o vendedor de balas, o motorista de ônibus, a lojista no shopping, todos haviam aprendido a viver “como se estivesse tudo bem”... “É isso mesmo, o Rio não tem mais jeito!”; “Não adianta sair daqui, pois está ruim em todo lugar!”; “Esse país vai pro buraco mesmo!”

Eu não acreditei que um dia acharia normal ouvir gente morrendo a menos de 1Km de casa, mas fato é que eu também fiquei entorpecido pela situação de caos. Não fosse pela bendita síndrome do pânico, talvez nunca tivesse reaprendido a respirar... Passei quase um ano com dores no peito e respirava muito mal, puro stress, só fui redescobrir a respirar quase um mês após me mudar do Rio. Hoje moro em outro estado e vejo as coisas de longe, mas minha alma sempre será carioca.

Não porque creia em nações ou fronteiras, não porque creia em margens e raças à parte, mas exatamente porque minha alma anseia por ver a cidade dividida voltar a se unir – não apenas num estádio de futebol ou na praia, mas no outro lado da margem. Essa mesma margem sombria que tem nos separado entre senzalas e casas-grande, morros e asfalto, de um e outro lado das grades dos condomínios, ela não é determinação divina ou algo intrínseco a nossa sociedade, ela é apenas fruto de nossa própria falta de visão, falta de contato, falta de alma.

Que a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte não se engane – todos nós somos membros da mesma corte. Estamos apenas colhendo o que plantamos: enquanto nossas políticas públicas forem baseadas em populismo ou breves shows pirotécnicos, e não em sólido e continuado investimento em educação, em presídios para reformar cidadãos e não para condená-los de vez ao inferno, em obras sociais não apenas nos morros próximos as áreas nobres, mas naqueles tão afastados que a maioria sequer sabe o nome, continuaremos afogados no sangue da margem aberta, do corte que não vai estancar...

É preciso ter alma. De nada adianta encher valas com corpos de criminosos, enquanto eles viverem isolados na sua margem – e nós na nossa –, mais deles virão, e cada vez piores. Seres nascem e renascem todos os dias, mas a alma de todos nós é um imenso coletivo que não suporta mais tropeçar em corpos. É melhor viver do que sobreviver.


Olho por olho, dente por dente, e a humanidade continuará profundamente carente – Gandhi, a Grande Alma.

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Crédito das imagens: [topo] FeFreitas; [ao longo] AS500 (Rocinha); Fábio Lopez (jogo de tabuleiro baseado no War, da Grow).

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25.11.10

Waste Land

Eu não teria porque postar o trailer de um documentário aqui, seria melhor esperar ele ser lançado para ver se valeria a pena divulgá-lo. Porém, quando o próprio trailer já é uma história relevante por si só, acho que merece ser passado adiante... Waste Land contará a história do trabalho de Vik Muniz (artista plástico brasileiro famoso em todo mundo e que costuma trabalhar com lixo) com os catadores de lixo de Jardim Gramacho, subúrbio do Rio de Janeiro. Vamos ao trailer então:

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2.10.09

2016: vontade de crescer

O Rio de Janeiro acaba de ganhar a disputa para sediar os Jogos Olímpicos em 2016. Ganhamos de Madrid na votação final. Os espanhois no entanto talvez tenham chegado além do que se esperava, pois todos os "especialistas" e as casas de aposta apontavam uma final entre Rio e Chicago (que acabou ficando apenas como a quarta escolha do Comitê Olímpico Internacional). Talvez Madrid tenha chegado mais longe devido a chamada "Cerimônia da Chama Sagrada", segundo anunciado pela BBC: "Todos vão se reunir para concentrar energias e convocar o mundo espiritual para que Madri seja eleita a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 - afirmou a sacerdotisa xamã espanhola Martha Elena na apresentação do evento à imprensa". Será que o "mundo espiritual" pode ter ajudado Madrid? Nesse caso, será que o Rio não ganhou com a ajuda dos umbandistas de plantão?

Talvez... Mas ainda acho que o que mais importa mesmo é a vontade das pessoas. Sabe-se que entre os americanos e japoneses a aceitação da olímpiada não era tão grande quanto entre os brasileiros e espanhois. Chicago chegou até mesmo a organizar um site pró-Rio (e anti-Chicago). Quando lembramos que o Pan-Americano de 2007 (no Rio) custou mais de dez vezes a mais do que o anterior, talvez tenhamos uma boa dica das razões que levaram os americanos a rejeitar uma olimpíada em plena era de crise econômica (bem, pelo menos no lado norte).

Pode-se pensar que a vontade das pessoas não é assim tão relevante. Que não adianta juntar milhares de pessoas na praia de Copacabana para torcerem pela vitória se a cidade não dispõe de um bom planejamento e infra-estrutura para sediar os jogos. Ora, isso é óbvio, mas quem disse que ter um bom planejamento e infra-estrutura também não passa pela vontade das pessoas? É a vontade das pessoas que decide eleições, que pressiona os políticos para roubarem menos e produzirem mais, e que efetivamente permite que um país cresça. Infelizmente no caso do Brasil, essa vontade é superficial, limitada a conquistas esportivas na maior parte das vezes... Quem poderia saber onde estaríamos hoje se, a 60 anos atrás, torcessemos mais pela melhoria de nossa educação básica do que pela conquista da Copa do Mundo? Se estivéssemos mais preocupados com a qualidade de nossos políticos do que com a habilidade de nossos atacantes? Se passássemos a iniciar o ano útil não após o carnaval, mas após o reveillon? Bem, fosse este o caso, certamente estaríamos no mínimo no mesmo nível tecnológico e educacional da Coréia do Sul, que passou esse tempo se dedicando a seu sistema educacional, e hoje pode ir mal na Copa do Mundo, mas vai muito bem no Índice de Desenvolvimento Humano (que a 60 anos, era muito pior do que o nosso).

Mas tudo isso já foi tão falado que as pessoas até perderam a paciência de escutar (e outras, ainda, de continuar insistindo no assunto)... Fato é que a "Cerimônia da Chama Sagrada" não foi capaz de nos tirar os Jogos Olímpicos de 2016. Ainda que os jogos sejam originalmente uma manifestação pagã, parece que o "paganismo brasileiro" venceu o paganismo tradicional, e que a nossa cerimônia regada a música e praia se mostrou mais "fortalecida" pela vontade de um povo que é sem dúvida sempre forte e alegre, quando se lembra de acordar.

Agora nos resta torcer para que até lá o Rio não precise fazer uma "maquiagem" para sediar os jogos, mas que esteja devidamente alçado a categoria de uma cidade segura, com infra-estrutura adequada e transporte urbano de qualidade. Isso sim seria uma grande vitória. Se para nós sediar os jogos parecia uma utopia a alguns anos, talvez possamos ter alguma centelha de esperança que a cidade maravilhosa seja realmente maravilhosa na vida real, e não apenas nos vídeos de cerimônias olímpicas.


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Crédito da foto: Ernanib

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15.8.08

O ciclo da hipocrisia a beira-mar

Não me incomoda o barulho do tiro
Mas pensar que ele pode ter um alvo potencial
Não me incomoda o alvo que morre
Mas a matéria escancarada na seção policial
Não me incomoda o medo que a mídia gera
Mas lembrar que tudo isso podia ter tido solução
Não me incomoda a espera pela boa política
Mas o imenso atraso em nossa educação
Não me incomoda a criança carente
Mas o que ela poderá fazer contratada pelo tráfico
Não me incomoda o estado paralelo
Mas a insegurança das ruas da zona sul
Não me incomoda a violência
Mas a classe que a financia e consome a droga
Não me incomoda o rico viciado
Mas os pobres que se amontoam nas encostas
Não me incomoda a favela
Mas os tiroteios sasonais
Não me incomoda o armamento do bandido
Mas saber que foi comprado de policiais

Não me incomoda o barulho do tiro
Quase nada me incomoda
Exceto quando não faz sol
Nem dá praia
Na cidade maravilhosa

raph’08

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28.1.07

Punição Exemplar

A cidade foi dividida por grades
Os que ficavam de um lado se achavam seguros
Daquilo que ficava de fora
Mas as grades não foram à solução
E hoje há aqueles que esperam o crime
Entrincheirados nas próprias casas
Enquanto outros preferem sair
E se arriscar no lado de lá

A cidade foi dividida em turnos
Os que ficavam ao sol seguiam em paz
Os que ficavam sob a lua contavam suas estrelas
Mas os turnos já se foram
E hoje o medo se espalha pelo dia e pela noite
Sendo que uns preferem morrer à luz
Enquanto outros contam as vítimas da madrugada
E abraçam a escuridão

A cidade foi dividida em áreas
Para que a polícia pudesse assim atuar
Mas os policiais não tiverem a quem seguir
Já que a moral dos burgueses hipócritas
A financiar o crime do qual diziam fugir
Beirava a ignorância do menor abandonado
Contratado pelo Barão da Droga
E esquecido pela escola

A solução então foi essa
O caos para aqueles que fingiam não ver
Que a cidade e suas crianças
Caminhavam pelo fio da navalha havia muito
A cidade foi dividida
Pelo corte da cegueira e do egoísmo
O corte foi profundo e fez sangrar
E a punição é exemplar

raph'03

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Dizem que é das situações mais precárias que nasce o verdadeiro desejo de mudança. Quem sabe a Cidade Maravilhosa não dê a volta por cima, quem sabe?

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