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25.3.11

O fogo de Prometeu, parte 3

continuando da parte 2

O Sol é a estrela central do Sistema Solar. Todos os outros corpos do Sistema Solar, como planetas, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram ao seu redor.

Sejamos como os girassóis

Poderemos então imaginar que, no final das contas, a fórmula sagrada de Einstein – E=MC² – é tão somente um arauto da destruição. Mas a mesma equação que produz a morte é essencial para a vida.

O universo é formado principalmente por elementos leves, como gases. Somente o hidrogênio representa cerca de 75% da massa detectada no espaço-tempo. Não fosse pelas reações nucleares nas fornalhas estelares, elementos pesados não existiriam, incluindo o carbono, no qual toda a vida na Terra é baseada.

Nas estrelas o que ocorre, no entanto, é a fusão nuclear, quando dois átomos se fundem e formam um outro núcleo de maior número atômico, liberando vasta energia e formando detritos, que são exatamente os elementos pesados. A fusão nuclear, apesar de produzir bem mais energia do que consome, só ocorre em ambientes com quantidades enormes de energia, como no calor das fornalhas estelares... Apesar de até hoje o homem não ter conseguido dominar este deus, é graças há fusão nuclear que existimos. Nós somos formados, literalmente, por poeira de estrelas, ou o que sobrou do choque atômico no fogo de Prometeu.

A Terra é a terceira pedra do Sol. Deve sua formação e manutenção quase que exclusivamente a esta estrela, que representa 99,86% da massa do Sistema Solar. Sua atração gravitacional, ou a curvatura que provoca no espaço-tempo, é a única coisa que nos impede de orbitar o vácuo cósmico, congelando na escuridão dentre as galáxias longínquas. A gravidade nunca nos falhou, e o Sol ainda nos auxiliará por bilhões de anos.

Desde a pré-história o homem já tem cultuado o Sol como um deus. O deus Invicto, que jamais perdeu a batalha contra a escuridão da noite... Os homens, entretanto, passam longe de terem sido os primeiros seres terrestres a prestar homenagens ao Sol. Foi graças à fotossíntese das plantas que toda a cadeia evolutiva da vida se tornou viável no planeta; Em última instância, nós realmente temos nos alimentado do Sol.

Mesmo o petróleo, este fétido ouro negro pelo qual os homens são capazes de fazer as guerras mais absurdas, nada mais é do que fruto da fotossíntese ao longo de milhões de anos, assim como qualquer outro combustível fóssil. Em nossa sede por energia na era moderna, temos buscado por soluções miraculosas, e foi assim que a fissão nuclear nos pareceu convidativa... Mas, será mesmo segura? Será mesmo que podemos bater no peito e dizer: “agora sim, nós temos exata noção do que ocorre, e podemos controlar totalmente a energia nuclear, jamais teremos outra Chernobyl...”? Acredito que a história fale por si só.

Não há nada de errado, diabólico ou “não-natural” com o uso da energia nuclear. Em realidade, ela é natural, como tudo o mais que compõe o Cosmos... O problema é insistirmos em fazer usinas em areia movediça, enquanto sempre tivemos uma Usina Central funcionando a pleno vapor. Porque não deixar que o Sol continue sendo a nossa usina nuclear? Afinal, ela sempre esteve lá, e nós temos recebido sua energia sem interrupções por bilhões de anos. Em todo caso, se um dia ela falhar, nossa última preocupação seria com o apagão no metrô.

Os girassóis são plantas originárias da América do Sul cultivada pelos povos indígenas para alimentação, foram domesticadas por volta do ano 1000 a.C. Elas tem esse nome porque acompanham a trajetória do Sol todos os dias, do nascente ao poente. Certamente os girassóis já reverenciavam o deus Invicto muito antes do homem ter surgido no planeta. Quem sabe não podemos aprender com eles? Sejamos, pois, como os girassóis!

As sementes do girassol produzem um óleo comestível, e sua produção anual ultrapassava 20 milhões de toneladas em 2008. Este óleo também serve para produzir combustível, o biodiesel, uma solução energética limpa e sustentável, muito embora continue sendo um sub produto da Usina Central.

E que tipo de energia enviada pelo Sol pode nos ajudar, afinal? Ora, a energia solar é a designação dada a qualquer tipo de captação de energia luminosa (e, em certo sentido, da energia térmica) proveniente do sol, e posterior transformação dessa energia em alguma forma utilizável pelo homem, seja diretamente para aquecimento de água ou ainda como energia elétrica ou mecânica. A radiação solar, juntamente com outros recursos secundários de alimentação, tal como a energia eólica e das ondas, hidro-eletricidade e biomassa, são responsáveis por grande parte da energia renovável disponível na terra. Apenas uma minúscula fração da energia solar disponível é utilizada. Ora, e a energia solar nada mais é do que a energia nuclear produzida num local seguro...

Os desertos do planeta recebem mais energia do Sol em seis horas do que todo o consumo da humanidade em um ano. Estima-se que apenas 1% da superfície de 9,1 milhões de quilômetros quadrados do Saara, onde o Sol brilha 4.800 horas por ano, seria suficiente para suprir as necessidades energéticas de todo o mundo. Esse potencial de fonte alternativa, no entanto, permanece até hoje mal aproveitado, pelas limitações logísticas que se impõem à geração de eletricidade em grande escala a partir da radiação solar. Um passo significativo no sentido de utilizar melhor a energia do sol foi dado em 2009, com a assinatura na Alemanha de uma carta de intenções num consórcio de doze empresas, que apresentou o Desertec, um projeto para produzir eletricidade no Saara, no norte da África, e abastecer a Europa.

Concluso, o megaprojeto teria uma capacidade instalada de 100 gigawatts. O sistema conseguiria atender a 15% da demanda europeia em 2050. Com ele seria possível produzir energia o bastante para suprir o Brasil por seis meses, ou o equivalente a quatro Itaipus. Seus idealizadores acreditam que, num mundo de crescente escassez energética e de necessidade premente de buscar fontes que não sejam de origem fóssil, são boas as chances de que o plano saia do papel. O investimento ganhou o apoio da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso.

Os detratores da energia solar dizem que ainda é muito cara a produção de painéis solares, e que a simples produção dos mesmos já envolve um certo gasto de energia. Mas, convenhamos, será que não vale a pena investirmos nessa tecnologia? Ou será que o gasto nessas pesquisas chega sequer a 1% dos trilhões que são gastos no comércio de armas em todo mundo?

Tolos são os governantes que preferem gastar todos os seus recursos em armamento, apenas para assim poderem manter o domínio sobre territórios ricos em ouro negro, enquanto o deus Invicto, o que possibilitou nossa vida, e dos girassóis, e que em última instância produziu o próprio ouro negro, tem flutuado acima de nossas cabeças por todo esse tempo. Prometeu tem nos enviado seu fogo a cada momento, mas não aproveitamos... Talvez a guerra e os horrores dos desastres nucleares nos pareçam mais interessantes?

Se os governantes continuam cegos, saibam que hoje ao menos podemos, pouco a pouco, aproveitar a energia da Usina Central... Conforme a tecnologia para a produção de painéis solares caseiros vai ficando mais barata, cada vez mais projetos residenciais, particularmente na Europa, vão incluindo painéis nos telhados das casas. Não é uma solução tão vasta quanto os planos para usar o Saara como receptor global de energia solar, mas já é um começo... Um passo que já foi dado há alguns anos, aliás.

Quem sabe não chegue o dia em que produziremos nossa própria eletricidade em nossa casa, e dependeremos quase que somente dela para nossa manutenção diária, e inclusive o transporte em carros elétricos. Hoje, não é algo tão difícil de imaginar. Cada casa, um girassol... Não vai acontecer enquanto não tivermos vontade que aconteça.


Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu

- Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

***

Crédito das imagens: [topo] Andreas Rocha; [ao longo] Mirian Guarnieri.

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12.2.10

Seria o Sol um buraco negro?

Essa é uma das possibilidades heterodoxas consideradas com seriedade pelas teorias de Nassim Haramein, que inclusive admite que foi expulso de algumas conferências se física exatamente por levantar essa pergunta... Ocorre que algumas evidências para suas teorias começam a surgir. Os físicos já sabem que a maior parte das galáxias - senão todas - possuí um buraco negro super massivo em seu centro. Atualmente, já se perguntam se não seriam os buracos negros os "construtores" de galáxias.

Recentemente, algumas imagens da superfície do Sol conseguidas pelo telescópio espacial japonês Enori parecem corroborar para a possibilidade do Sol ter um buraco negro em seu interior:

Claro que daí a afirmar que até mesmo átomos possuem um buraco negro em seu interior é um grande salto. De qualquer forma, talvez o "pensamento fora da caixa" de Haramein ainda seja de grande ajuda a cosmologia moderna:

O vídeo acima é parte de uma longa palestra de 45 partes que se encontra inteiramente legendada em português no YouTube.

» Mais posts sobre Nassim Haramein neste blog.

Nota: Nassim Haramein até hoje não tem trabalhos científicos publicados em sites ou revistas de renome, e suas teorias não são consideradas de forma séria (ao menos até o momento) pela comunidade científica internacional. Isso não quer dizer que seja um charlatão ou uma fraude, apenas um homem com idéias heterodoxas acerca da geometria do Cosmos.

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9.12.09

O sistema solar em movimento

Todos sabemos que os planetas do sistema solar orbitam nosso sol devido a sua atração gravitacional. No entanto, poucos se dão conta, em seus esquemas mentais para esse movimento, de que o sol não está parado. O sol e toda a Via Láctea se movem através do universo, influenciado por sua expansão e também pela atração gravitacional de outras galáxias. Vejam essa animação de alguns segundos criada pelo físico Nassim Haramein e o The Ressonance Project:

Tudo se move, e a terra nunca volta para o mesmo ponto após um ano de rotação em torno do sol - de fato, ela se move mais de onze bilhões de milhas todo ano através do Cosmos.

Nota: Nassim Haramein até hoje não tem trabalhos científicos publicados em sites ou revistas de renome, e suas teorias não são consideradas de forma séria (ao menos até o momento) pela comunidade científica internacional. Isso não quer dizer que seja um charlatão ou uma fraude, apenas um homem com idéias heterodoxas acerca da geometria do Cosmos.

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3.12.09

Ventura

Texto do poeta inglês John Galsworthy, nobel de literatura de 1932, traduzido do original (Felicity) por Rafael Arrais [1].

Quando Deus é tão bom para os campos, de que uso são as palavras – essas pobres cascas de sentimento! Não há como se pintar a Ventura nas asas! Nenhum meio de passar para a tela a glória etérea das coisas! Um único botão-de-ouro dos vinte milhões em um campo vale mais do que todos esses símbolos secos – que não poderão nunca expressar o espírito da neblina espumosa de Maio a se chocar com os arbustos, o coral dos pássaros e das abelhas, as anêmonas a se perder de vista, as andorinhas de pescoço branco em sua Odisséia. Aqui apenas não existem cotovias, mas quanta alegria de sons e de folhas; de estradas a refletir o brilho das árvores, os poucos carvalhos ainda em dourado amarronzado, e a poeira ainda espiritual! Apenas os melros-pretos e os sabiás podem cantarolar este dia, e os cucos no topo da montanha. O ano fluiu tão rápido que as macieiras já deixaram cair quase todas as suas flores, e nos prados alongados, a grama verde já deixou crescer suas “adagas”, ao lado dos estreitos córregos ensolarados. Orfeu senta-se por lá em alguma pedra, quando ninguém passa por perto, e toca sua flauta para os pôneis; e Pan pode eventualmente ser visto dançando com suas ninfas nos bosques onde é sempre crepúsculo, se você se deita e permanece calmo o suficiente no barranco da outra margem.

Quem pode acreditar em envelhecer, enquanto estamos envoltos nesse manto de cores e asas e sons; enquanto esta visão inimaginável está aqui pronta para ser observada – os carneiros de face lisa ali ao lado, e os sacos de lã secando pendurados na cerca, e grandes números de patos ainda pequenos, tão confiantes que os corvos já pegaram vários.

Azul é a cor da juventude, e as flores azuis têm uma aparência enigmática. Tudo parece jovem, muito jovem para trabalhar. Existe apenas uma coisa ocupada, um passarinho, bicando larvas para sua pequena família, acima de minha cabeça – ele deve precisar fazer esse vôo umas duzentas vezes por dia. As crianças devem ser bem gordinhas.

Quando o céu é tão aventurado, e as flores tão luminosas, não parece ser possível que os anjos de luz deste dia possam passar à escuridão da noite; que lentamente essas asas devam se fechar, e o cuco se colocar para dormir. Insetos enlouquecidos dançam junto à tardinha, a grama se arrepia com o orvalho, o vento morre, e nenhum pássaro canta...

Ainda assim, acontece. O dia se foi – o som e o glamoroso farfalhar de asas. Lentamente, o milagre do dia passou. É noite. Mas a Ventura não se retirou; ela apenas trocou o seu manto pelo silêncio, o veludo, e a pérola da lua. Tudo está adormecido, exceto uma única estrela, e as violetas. Porque elas gostam mais da madrugada do que as outras flores, eu não faço idéia. A expressão em suas faces, quando uma se curva ao crepúsculo, é mais doce e astuciosa do que nunca. Elas partilham algum acordo secreto, sem dúvida.

Quantas vozes se renderam ao fantasma da noite e desistiram de cantar – restou apenas o murmúrio do córrego lá fora, na escuridão!

Com que religiosidade tudo isso tem sido feito! Nenhum botão-de-ouro aberto; as coníferas com as sombras derrubadas! Nenhuma traça apareceu ainda; está muito cedo no ano para os noitobós; e as corujas estão quietas. Mas quem poderia dizer que neste silêncio, nessa luz macilenta a pairar, nesse ar privado de asas, e de todos os odores exceto o frescor, existe menos do incomensurável, menos disto que as palavras são ignorantes em explicar?

É estranho como a tranqüilidade da noite, que parece tão derradeira, é habitada, se alguém permanece calmo o bastante para perceber. Um pequeno cordeiro está choramingando lá fora preso a sua amarra; um pássaro em algum lugar, dos pequenos, a cerca de trinta metros, assobia da maneira mais deliciosa. Existe um cheiro também, por debaixo do frescor doce das roseiras, eu acho, e das nossas madressilvas; nada mais poderia se espalhar de tal forma delicada pelo ar. E mesmo na escuridão as rosas têm cor, talvez mais belas do que nunca. Se as cores são, como dizem, apenas o efeito da luz em variadas ondas, alguém poderia pensar nelas como uma melodia, o som de agradecimento que cada forma entoa, para o sol e a lua, para as estrelas e o fogo. Essas rosas coloridas pela lua estão cantando um som bem silencioso. De repente eu percebo que existem muitas outras estrelas ao lado daquela ali, tão vermelha e observadora. O falcão passou por ali com seus sete amigos; ele se aventurou muito alto e profundamente na noite, na companhia de outros voando ainda mais distantes...

Essa serenidade da noite! O que poderia parecer menos provável de prosseguir, e se metamorfosear novamente no dia? Certamente agora o mundo encontrou o seu sono eterno; e o brilho de pérola da lua irá perdurar, e este precioso silêncio nunca mais irá renunciar ao seu reinado; a uva-flor deste mistério nunca mais irá brilhar novamente na luz dourada...

E ainda assim, não é o que ocorre. O milagre noturno se passou. É manhã. Uma luz pálida desponta no horizonte. Estou à espera do primeiro som. O céu ainda é nada mais do que papel acinzentado, com a sombra dos gansos selvagens a passar. As árvores não passam de fantasmas. E então começa – o primeiro canto de um passarinho, espantado em descobrir o dia! Apenas uma chamada – e agora, aqui, ali, em todas as árvores, repentinamente todas as respostas vêm em socorro, e o coral mais doce e despretencioso ecoa. Seria a irresponsabilidade alguma vez tão divina quanto isso, o piar dos pássaros? Então – açafrão no céu, e silêncio uma vez mais! O que será que os pássaros fazem após o primeiro Coral? Pensam em seus pecados e seus negócios? Ou apenas dormem um pouco mais? As árvores estão rapidamente soltando a imaginação, e os cucos começam a chamar. As cores estão queimando nas flores; o orvalho as saboreia.

O milagre acabou, pois a radiação iniciou seu trabalho; e o sol está desgastando essas asas negras e ocupadas com seu dourado. O dia chegou novamente. Mas sua face parece um pouco estranha, não mais como fora ontem. Estranho de se pensar, nenhum dia é como o dia que se foi e nenhuma noite como a noite que virá! Por que, então, temer a morte, que é noite e nada mais? Por que se preocupar, se o dia que virá trará uma nova face e um novo espírito? O sol iluminou o campo de botões-de-ouro agora, o vento acariciou os limoeiros. Alguma coisa me faz sombra, passando ali em cima.

É a Ventura em suas asas!

***

[1] Admito que essa tradução estava bem além das minhas capacidades linguísticas, poéticas e zoológicas. Se você conhece inglês profundamente, recomendo ler o original - Felicity.

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Crédito da foto: Wikipedia (botões-de-ouro)

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1.12.09

De onde vem o sol

Em latim, temos uma curiosa semelhança entre as palavras casu e occasu. A primeira significa acaso, e a última, ocaso. A palavra ocaso hoje significa, dentre outras coisas, “o momento do dia em que o sol se põe”, e também “o ponto cardeal que indica o local onde ele se põe”. Já a palavra acaso nos chega com um significado bem diverso a primeira vista: “algo que ocorre sem causa aparente, um evento de causa desconhecida”.

Ora, sabemos que na natureza todo efeito tem causa. Se esta máxima não fosse verdadeira, dificilmente nossa ciência e mesmo nossa filosofia teriam chegado aonde chegaram. Imaginar um efeito sem causa é imaginar a fantasia na realidade, e o aniquilamento das leis naturais: nesse caso, passes de mágica e milagres deveriam ocorrer à todo momento em nossa volta. Evidentemente a realidade não é bem assim – por mais que ainda nos falte compreender a maior parte dos mecanismos da natureza, sabemos que tanto aqui na terra quanto em galáxias a milhões de anos-luz de distância, todo efeito tem causa, e as leis naturais continuam sendo válidas. Uma das características do universo que permitem que a ciência e, particularmente, a cosmologia, se desenvolvam, é exatamente essa: a simetria da natureza.

Simetria não necessariamente significa design, mas significa organização. Organização de acordo com sutis e elegantes leis que englobam todo o Cosmos. Os povos antigos, no entanto, talvez não conhecessem tão bem a tais leis como temos a felicidade de conhecer na era atual. O sol, que possibilitava a vida e a colheita, e afastava as sombras da noite, vinha de algum ponto distante além do horizonte, nascendo de sabe lá onde e se pondo do outro lado da terra. Lindo, demasiadamente maravilhoso – porém estranho, demasiadamente misterioso. Talvez, para os povos antigos, o nascer do sol e o por do sol fossem eventos tão extraordinários, embora inexplicáveis, que eles achavam que sua causa exata permaneceria oculta por todos os tempos. O acaso e ocaso do sol era um baile diário, sagrado, incomensurável, desconhecido...

No Egito antigo, porém, Eratóstenes precisou apenas de duas estacas de madeira, alguns ajudantes disciplinados, e uma mente curiosa, para descobrir o mistério das sombras que se moviam com o tempo. Eratóstenes, através das sombras de meras estacas, descobriu não só que a terra era esférica, como calculou sua circunferência com a precisão de algumas centenas de metros. Dizem que alguns livros da grande biblioteca Alexandria, que se perderam, já mencionavam que a terra era um esfera que girava ao redor de um sol fixo. Infelizmente os bárbaros e os dogmas venceram o brilho de Alexandria, e a humanidade só pôde comprovar tais previsões muitos séculos depois.

Hoje sabemos que o sol também se move, juntamente com a galáxia, juntamente com o restante do universo em expansão. Somos poeira a girar em vórtices pelo turbilhão do Cosmos. Nossa ciência percorreu um longo caminho desde que os antigos ainda olhavam para o sol com um misto de assombro e desconfiança... porém, ainda temos muito mais a avançar.

Na ânsia por explicações fáceis, que não resolvem as grandes questões da existência, muitos preferem relegar todo o Cosmos, tudo o que ocorre e ocorreu, ao acaso. Eles se esquecem que o acaso não existe enquanto explicação, mas apenas enquanto não-explicação. Dizer que o universo surgiu do acaso é o mesmo que dizer “o universo surgiu de alguma causa que nos é desconhecida” – não muito distante de dizer que a origem do universo é um “mistério divino”, não muito distante dos antigos que olhavam para o sol e fantasiavam sobre terras além do horizonte inalcansável.

Mesmo na mecânica quântica, onde tudo parece aleatório, as previsões teóricas sempre se comprovaram com acuidade quase inacreditável frente á tamanha bizarrice da natureza. Dizer que a aleatoriedade quântica poderia explicar como um universo surgiu do nada é o mesmo que dizer que um unicórnio rosa pode surgir nesse momento, em meio aos átomos que se agitam no ar a sua volta. Até que um unicórnio nos ameace com seu chifre, tudo o que poderemos afirmar com honestidade é que não fazemos a menor idéia do porque as partículas se comportam como se comportam no mundo do muito pequeno... Mas, ainda que flutuações quânticas pudessem explicar como partículas podem surgir do vácuo, ainda assim não explicaria como poderiam surgir do nada, visto que o vácuo está muito distante de ser o nada.

Enquanto andamos por esse Cosmos seguindo a luz do ocaso, não deixemos que a noção do acaso sem causa nos contamine a mente e nos faça desistir de prosseguir nessa infinita jornada de conhecimento. Do real conhecimento da causa de todo esse mecanismo elegante do sistema-natureza, e não apenas das respostas fáceis que pairam sobre aqueles que continuam a temer o desconhecido – tal qual aos antigos, temendo que o sol se pusesse para nunca mais voltar.

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Crédito da foto: Joseph Umbro

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9.6.09

Uma breve história da magia, parte 2

continuando da parte 1...

A evolução da simbologia mágica

Uma das maiores conquistas evolutivas do homo sapiens é a capacidade de reconhecer e interpretar símbolos. O termo "símbolo", com origem no grego σύμβολον (sýmbolon), designa um elemento representativo que está (realidade visível) em lugar de algo (realidade invisível) que tanto pode ser um objeto como um conceito ou idéia. Um símbolo pode ter representação gráfica (bidimensional ou tridimensional), sonora e até mesmo gestual - sendo o catalisador da linguagem e da cognição humana. Como diz o ditado: "uma imagem vale mais do que mil palavras"; No entanto, mesmo as palavras nada mais são do que símbolos elas mesmas.

A simbologia, tendo estado presente na evolução humana desde a pré-história, obviamente surgiu antes da escrita, que nada mais é do que um código de interpretação de símbolos bidimensionais (palavras). Quando nossos ancestrais pintavam animais nas cavernas, não estavam representando somente o animal em si, mas toda uma gama de conceitos simbólicos que hoje em dia talvez não possamos desvendar, mas provavelmente envolvia o animal em si, o espírito do animal (simbólicamente o conceito ou essência do animal), uma celebração pela oportunidade da caça do alimento, um pedido aos deuses pela abundância da caça, e talvez muitos outros conceitos. Não nos importa, para esse pequeno estudo em específico, procurar compreender as condições de nossos antepassados no horizonte tribal, mas sim o mecanismo peculiar pelo qual nossas mentes evoluíram na capacidade de interpretação simbólica.

Um mero símbolo, fosse um gravura na caverna, um escultura de pedra ou metal, um grito de guerra ou o gesto de um xamã, representava por si só uma série de conceitos e idéias entrelaçadas e encadeadas, que de certa forma evoluíram conosco ao longo das encarnações, não exatamente porque de alguma forma obscura nossos genes passaram essas informações adiante, mas simplesmente porque nós mesmos, ou nossas mentes, estavam lá - vivendo no horizonte tribal, caçando e sobrevivendo na imensidão do mundo. Não que seja impossível compreender a evolução da simbologia humana de outra forma, mas principalmente dentro do estudo da magia e do ocultismo, a reencarnação sempre foi um conceito chave, muito embora tenha sido mal compreendido ao longo dos tempos.

Além disso, a prática de magia surgiu primordialmente através da figura do xamã, uma espécie de mediador entre a tribo e os espíritos da natureza. A palavra xamã vem do russo, tungue saman corresponde à práticas dos povos não budistas das regiões asiáticas e árticas especialmente a Sibéria. Outros povos lhes darão outros nomes, como o pajé indígena da América do Sul ou o seiðr dos povos vikings da Europa, mas o que importa é que provavelmente foram os primeiros magistas da espécie humana. Há muitos céticos que atribuem o surgimento dessa mediação entre o xamã e os espíritos à crenças religiosas antigas de homens que, por não conseguirem compreender a natureza, atribuiram-lhe o mecanismo à função de seres sobrenaturais. Porém, o estudioso do oculto saberá muito bem distinguir o que era animismo e o que representava simplesmente o contato ancestral dos povos primitivos com os guias espirituais que, de uma forma ou de outra, sempre estiveram velando pela evolução terrestre. Nesse vai e vem de tribos e seres, a evolução espiritual se entrelaça e confunde com a evolução da cultura humana, e certamente não poderia ser diferente. Fato é que não há povo de caçadores-coletores que não seja guiado, em última instância, por um xamã (e toda nossa espécie surgiu desses povos).

Já a religião correu por caminhos ainda mais estreitos e obscuros. O horizonte tribal já havia passado, e com a agricultura surgiu o horizonte agrícola... Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. Deus era a Lua. O matriarcado e o canibalismo dominaram grande parte do período em que se cultuou a Grande Deusa, e o nascimento era o grande mistério.

Porém, o homem antigo continuava evoluindo, já compreendia melhor o mecanismo do seu nascimento (físico), e acabou por compreender que sem a luz do Sol, o solo não poderia ser fértil: em realidade o Grande Deus era o Sol. Ele passou a ser adorado por diversos nomes por todas as partes, sendo Osíris o nome mais relacionado ao estudo do oculto, pois foi durante seu culto que muito do que se estuda até hoje em ocultismo surgiu no Egito antigo, através da grande mente de Hermes Trimegisto, o três vezes grande. Essa nova "iluminação" resultou em avanços sem precedentes para a civilização. Armados com o conhecimento solar dos ciclos das estações, os lavradores começaram a organizar o culto das lavouras. Cidades surgiram e com elas as economias e os exércitos dos grandes Estados-nação. O patriarcado superou o matriarcado e as deusas de inúmeras culturas se tornaram "esposas" de novas divindades masculinas. O Sol no entanto "morria" todas as noites e "ressuscitava" todos os dias, sua morte era o novo mistério. E assim os deuses dos grandes cultos - Orfeu, Hércules, Dionisio e até mesmo Cristo - foram assassinados e ressuscitaram. A narrativa de Perséfone nos Mistérios de Elêusis é um exemplo perfeito da evolução da simbologia da Grande Deusa para a simbologia do Grande Deus.

Foi necessária a compreensão científica de que o Sol era "apenas" uma esfera incandenscente em volta da qual a esfera terrestre fazia viagens anuais, de acordo com a gravitação universal, para que o grande mistério da morte fosse lentamente sendo deixado de lado. Não havia mais necessidade de temer as trevas, nem a morte. Para quem nunca compreendeu a Deus, e cultuava um "deus da barganha", que enviava os seres para o Inferno ou para o Céu, de acordo com seus pecados, a questão da existência retornou em plena força: nada mais estaria garantido sem a acomodação dessa crença vazia da barganha de nada por coisa alguma, e portanto a transição não foi pacífica - que o digam as fogueiras medievais. Desde esses novos tempos temos visto a queda do colonialismo e a destruição dos últimos vestígios do domínio patriaracal dos reis europeus, juntamente com o poder da Igreja. A simbologia do culto a Grande Mãe (violentamente reprimida durante o culto solar) foi transformada pela evolução da consciência humana, e ressurgiu na forma de movimentos relacionados ao meio ambiente, ecologia e a emancipação das mulheres na sociedade moderna.

Nessa nova época, a que muitos chamam de Nova Era, a consciência espiritual da humanidade desperta aparentemente subitamente, como se doutrinas a exemplo do espiritismo e da umbanda sagrada fossem completamente novas, revelaçoes divinas; O estudate do oculto, entretanto, percebe claramente o encadeamento da teia da vida e da lenta evolução humana, passo a passo em direção ao infinito. Ação e reação, causa e efeito. Um turbilhão de símbolos a girar pelo universo imenso e abrangente - o que a consciência humana é capaz de perceber e compreender hoje, pagou com o sangue e o suor de milhões de anos de evolução. Nós temos percorrido um longo caminho, cheio de armadilhas e passadas em falso, cheio de ignorânica e incompreensão, cheio de doutrinas míopes, porém certamente não absolutamente cegas... O Deus que buscávamos no mistério do ventre da Terra-Mãe, que tateamos na escuridão das noites aflitos pela ausência do Sol-Pai, e que hoje temos a chance de compreender à fundo através do estudo meticuloso dos mecanismos da natureza, é o mesmo do qual nascemos, o mesmo ser-substância eterno e imutável para a qual inevitávelmente iremos um dia retornar, senão fisicamente, decerto espiritualmente. O que está em cima é como o que está embaixo, mas nunca estivemos "longe" ou "fora" de Deus: essa é a grande fórmula mágica, a grande compreensão, o grande mistério do existir.

Na continuação, irei encerrar com um ritual mágico, para ninguém dizer que nunca ensinei nada oculto por aqui...

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Bibliografia (da parte 2): "A Magia de Aleister Crowley" - Lon Milo DuQuette (apenas no que tange a história dos eóns da magia) - editora Madras; "O Espírito e o Tempo" - J. Herculano Pires - editora Paidéia.

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Crédito da imagem: Wikipedia (lista de deuses da Suméria em escrita cuneiforme)

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