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24.10.11

Objetividade relativa

Texto de Miguel Nicolelis em "Muito além do nosso eu” (Ed. Cia. das Letras) – Trechos das pgs. 449 a 453. Os comentários ao final são meus.

Sem dúvida alguma, as teorias da relatividade especial e geral de Albert Einstein representam a maior expressão de sucesso de uma versão do pensamento relativístico criada pela mente humana [1]. [...] Essencialmente, para Einstein, nem o tempo nem o espaço são absolutos. Assim, a relativização do tempo e do espaço explicam uma série de efeitos contraintuitivos, coisas como a dilatação do tempo, em que o tempo observado – como no exemplo clássico em que dois relógios carregados por um par de observadores – sai de sincronia, e a contração de comprimento de Lorentz, em que o comprimento de objetos se contrai à medida que a velocidade destes se aproxima daquela da luz. [...] Brian Greene, em seu livro O universo elegante, escreve que “A relatividade especial não está em nossos ossos [porque] não a sentimos. Suas implicações não são parte central de nossa intuição”.

A despeito da quase unânime aceitação da teoria da relatividade, o conceito de relativismo permanece sendo o centro de uma controvérsia extremamente acirrada no mundo científico. Dessa forma, não é surpresa que o pensamento relativístico tenha gerado um intenso debate, envolvendo visões extremamente contraditórias sobre o que a prática da investigação científica de fato significa. Nessa disputa interminável, a filósofa irlandesa Maria Baghramian coloca num lado do ringue o argumento de que o conhecimento científico é universal, uma vez que ele pode ser verificado em qualquer lugar, a qualquer momento.

Por exemplo, de acordo com o prêmio Nobel Sheldon Glashow, os cientistas “afirmam que existem verdades universais que são eternas, objetivas, fora da história, socialmente neutras e externas à mente humana, e que a catalogação dessas verdades define o objeto das ciências naturais. Leis naturais podem ser descobertas porque são universais, invariáveis, invioláveis, sem sexo e verificáveis”. Curiosamente, Glashow finaliza seu manifesto dizendo que “essa afirmação eu não posso provar. Essa é minha fé!” [2].

No outro canto do ringue, Baghramian coloca o físico alemão Werner Heisenberg, que – como era de se esperar – mantém sua postura de incerteza ao afirmar, em The physicist’s conception of nature [A concepção da natureza por um físico], que “o objetivo dessa pesquisa não é mais um entendimento dos átomos e seus movimento em si mesmo. Desde o início, estamos envolvidos com o debate entre a natureza e o homem, no qual a ciência desempenha apenas uma parte, de modo que a divisão rotineira do mundo entre subjetivo e objetivo, interior e exterior, corpo e alma, não é mais adequada e nos leva a dificuldades”. Aqui, o homem confronta a si mesmo na mais profunda solidão.

Nesse debate, como em muitos outros assuntos científicos, defiro sem remorsos minha própria opinião em favor das visões defendidas por outro crente imaculado do método científico, o grande paleontólogo americano Stephen Jay Gould. Apesar de não subescrever a filosofia do relativismo, Gould argumenta que “nossas formas de aprender sobre o mundo são fortemente influenciadas pelas preocupações sociais e pelos modos enviesados de pensamento que cada cientista aplica a qualquer problema. O estereótipo de um método científico totalmente racional e objetivo em que cientistas individuais trabalham tão logicamente quanto robôs serve apenas como mitologia de autopromoção classista” [3]. Em vez disso, Gould propõe que:

“A imparcialidade (mesmo que desejada) não pode ser atingida por seres humanos [...]. É perigoso para um pesquisador sequer imaginar que ele pode atingir um estado de neutralidade completa, pois assim ele corre o risco de deixar de se preocupar com suas preferências pessoais e suas influências – o caminho mais fácil para se transformar em vítima de seus próprios preconceitos. A objetividade deve ser definida operacionalmente como o tratamento honesto dos dados, não a ausência de preferências pessoais.

Uma vez que todas as descobertas emergem de uma interação entre a mente e a natureza, os cientistas sábios devem escrutinar os diferentes vieses que registram nossos encontros sociais, nosso momento na história geográfica e política, mesmo as limitações impostas pela nossa maquinaria mental, no júri comparado da imensidão da evolução.”

Em minha definição operacional do ponto de vista próprio do cérebro, o conjunto de restrições fisiológicas que o processo de evolução natural impôs ao sistema nervoso desempenha o papel equivalente àquele que a luz tem na teoria da relatividade, definindo uma constante biológica universal ao redor da qual os modelos cerebrais, criados ao longo de nosso cotidiano, têm de ser relativizados [4]. A evolução das espécies em termos gerais, e a dos mamíferos e primatas em particular, tem de ser considerada como a fonte dos limites ao redor dos quais giram os mecanismos responsáveis pela gênese dos pensamentos, dado que a organização anatômica e fisiológica de nossos cérebros foi modelada pelo processo de seleção natural.

Na realidade, graças a uma série imprevisível de eventos ambientais que se desdobraram ao longo de centenas de milhões de anos, esse processo produziu um arcabouço ótimo para o surgimento do tipo de cérebro de primata que beneficia cada um de nós: desde o arranjo convoluto e compacto do córtex humano, ditado pela necessidade de limitar o tamanho da cabeça de um recém-nascido, de forma que este pudesse escorregar sem problemas pelo canal de parto de sua mãe, até a teia inigualável que prevê a conectividade para dezenas de bilhões de neurônios se comunicarem eletricamente, sempre à mercê do metabolismo, da bioquímica e da fisiologia [5].

***

[1] Neste trecho Nicolelis fala sobre o pensamento relativístico num sentido de crítica a crença de que existe uma única “realidade absoluta e objetiva” na natureza. Falo mais sobre as teorias de Einstein nas minhas reflexões sobre o tempo.

[2] É mesmo um grande paradoxo: sabemos, decerto, que as leis da natureza são idênticas e simétricas por toda a parte e em todos os tempos, na Terra e em Andrômeda, hoje ou há bilhões de anos atrás – entretanto, cabe a uma mísera mente de homo sapiens a tarefa de interpretá-las, e a interpretação jamais será totalmente objetiva.

[3] E, em todo caso, como sempre digo: não somos máquinas a computar informações, mas seres a interpretar o Cosmos.

[4] A diferença entre o limite imposto pela velocidade da luz, e o limite imposto pelas limitações biológicas de nosso cérebro, é que ainda não sabemos exatamente até onde nossa imaginação pode realmente nos levar. A luz continuará a percorrer o universo na mesma velocidade (ao menos no vácuo), já nossos pensamentos parecem ter um parentesco mais próximo do infinito (ou da eternidade, por assim dizer).

[5] Apesar de saber muito bem que existe um número finito de potenciais de ação eletromagnética a cada momento em nosso cérebro, Nicolelis é, como todo grande cientista, um eterno maravilhado com a majestosa capacidade que este número finito pode produzir – seja na filosofia, na religião, na ciência, ou até mesmo no futebol arte...

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Crédito da foto: John Smith/Corbis

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23.10.11

Links Mayhem (33)

O Projeto Mayhem foi criado em Março de 2010 como centro de debates e discussões sobre temas Ocultistas e Herméticos. Agora, toda semana, os participantes do projeto divulgam os links mais interessantes para artigos nos blogs de outros participantes:

- Teoria da Conspiração - Consciência coletiva e o choque de egrégoras
- O Alvorecer - Introdução ao Caibalion e aos princípios herméticos (parte 1)
- Autoconhecimento e Liberdade - A tristeza dos Orixás
- Tudo sobre Magia e Ocultismo - A Terra, o universo e a mente
- Artigo 19 - Teatro da vida
- Idéia Biruta - Criando uma Religião (parte 3)
- Diário do Adeptu - O lado oculto da dança do ventre
- Labirinto da Mente - Baby, now that i've found you

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Veja também os colunistas no Portal Teoria da Conspiração:

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21.10.11

Frases (8)

Ainda mais algumas ideias que passaram voando e foram observadas primeiramente no meu twitter, e agora aqui:


"Existe uma parte do amor que independe do tempo, para ela o próximo minuto se equivale ao minuto anterior."

"Se para a indiferença, o melhor caminho seja o amor, para o ódio, o melhor caminho talvez seja a indiferença..."

"A maior magia é a magia que usa a verdadeira essência de todos os símbolos, a substância que os preenche e dá movimento, vida - a magia do amor."

"Amar não é seguir preceitos morais. Não é sacrifício nem mesmo ilusão. Amar é um privilégio - uma boa aventura."


"Uns são cadáveres atrasados, outros ideias por aflorar."

"Muitos vivem sem se dar conta da falta do personagem principal de sua própria história: a alma."

"Histórias desconexas, sem muito sentido aparente: onde a alma jaz perdida nalgum canto do ser."

"Cada ser é uma história em construção: em quantas histórias seremos coadjuvantes?"


"Duvidar se a alma afinal existe: é muito melhor do que ter a certeza de que há seres sem alma. Os escravos, mulheres e animais que o digam..."

"E qual guerra poderia ter sido santa? Essa é uma ideia estranha para mim..."

"Um dos memes mais antigos da humanidade: "Deus me livre!"; Mas ainda acho que "Graças a Deus" é mais antigo..."


"Que deus estranho esse que não acreditas, que te faz seguir seus ritos mesmo sem crer neles."

"Melhor não seria não seguir os ritos do Deus sem Ritos do que seguir os ritos do deus que não acreditas? Ou quem sabe fazer da própria vida teu rito, desse modo se assemelhando ao Deus sem Ritos..."


"Se não considerarmos as opressões e agressões sofridas, o preconceituoso tem mais a perder do que o alvo do seu preconceito."

"Diz-se (com razão, acredito) que uma das melhores coisas da vida é poder conhecer amigos na mesma sintonia de pensamento que nós. Amar... E o preconceito sendo a ignorância a priori do pensamento alheio: quantas e quantas oportunidades perdidas de convivência e amizade... Seja preconceito de cor, gênero, religião, gosto musical, etc. - No fim, quem perde mais, quem está mais sozinho, é o preconceituoso."


"Os milagres ocorrem, quase que sempre, nas pequenas coisas."

"E que são pequenas coisas? Tudo são pequenas coisas, tudo é milagre. E que é nossa vida, senão um conjunto de milagres a nos cruzar sem que percebamos a parte mais ínfima?"

"Viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Existimos para ver em parte, e quem sabe dia chegará que a vejamos face a face..."


"O melhor souvenir: uma concha da praia, uma pedra da montanha, um aroma no ar."

"Olhar aquele velho graveto, aquela pedrinha rachada, e pensar: aqui passei as melhores vidas da minha existência. Aqui, na Terra."

"E então contemplar as estrelas, e agradecer: obrigado por todos esses diamantes que nos dão forma."

"E então observar o infinito além do horizonte de um grupamento de galáxias, e compreender: é para lá que eu vou..."


"Nalgum dia a Natureza acordou inspirada, e resolveu ser ainda mais criativa do que antes: inventou o sexo e a morte."

"Atenção: este mundo é desaconselhável para menores de 18 anos. Estamos todos aqui esperando que envelheçam o mais brevemente possível."


"O que eu tento ser é um turista das egrégoras alheias, um experimentador de crenças e pensamentos diversos. Vejam ali, na paisagem: bandos de memes a voar..."

"A gramática da ciência e da espiritualidade é feita de interrogações e vírgulas, e não de exclamações e pontos finais."

"A Verdade Absoluta só será Absoluta quando não for mais Verdade. O Absoluto não é Verdade nem Mentira, simplesmente é (após "L")."

"Não há porque fazer barganha com Deus: tudo já nos foi dado, basta percebermos."


"A água lava. O vento leva. A vida leve." (Carol Phoenix)

"Aprendemos a sobreviver, mas não a viver. Adicionamos anos e anos a nossa vida, mas não vida aos nossos anos." (George Carlin)

"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e embora distante, esteja sempre perto em espírito: eis o que faz da Terra um jardim habitado." (Goethe)

"Um dos maiores prazeres concedidos na Terra é o de encontrar corações que simpatizem com o seu." (Allan Kardec)

"De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade." (Epicuro)

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Crédito da imagem: Resident on Earth

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17.10.11

Diálogo zen

(Discípulo) Mestre, acabei de ler sobre uma pesquisa que fizeram no Ocidente - Perguntaram o que as pessoas tem de indispensável para o seu dia a dia, e a maioria respondeu que era o seu celular!

(Mestre) Que curioso...

(D.) Um absurdo, todo esse materialismo...

(M.) Mas o que deveria ser indispensável em sua vida?

(D.) Ora, penso que meus amigos, minha família, minha mulher...

(M.) Mas como? As pessoas não nos pertencem... Essa resposta não nos serve.

O discípulo pensou por um longo momento e acrescentou:

(D.) Muito bem, agora entendi: tudo o que temos é a sabedoria! Ela sim é indispensável.

(M.) Concordo... Mas me diga: como saberemos com certeza se temos mesmo alguma sabedoria?

(D.) Ora, pela opinião dos outros, mestre - Eu mesmo afirmo: você é um sábio!

(M.) Fico imensamente grato... Mas, e se estiver enganado? Outros podem aparecer por aqui e afirmar exatamente o oposto: que sou apenas algum louco... Ou pior, um charlatão...

(D.) Mas mestre, todos que conviverem um dia que seja contigo hão de concordar que é mesmo um sábio...

(M.) Como?

(D.) Ora, porque passarão a amá-lo como todos os outros discípulos tem lhe amado.

(M.) Mas... Amar assim tão depressa? Será que primeiramente não amariam o saber?

O discípulo acenou com a cabeça, concordando.

(M.) Então, não seria esse amor ao saber o que inicia todo esse caminho espiritual que temos percorrido juntos?

(D.) Sim mestre! Agora percebo que foi assim: primeiro me interessei por seu conhecimento, e só após nosso convívio foi que passei a amá-lo como a um pai...

(M.) E já que agora somos tão amigos, será que quando viajamos para longe um do outro o telefone não passa a ser indispensável para mantermos contato?

(D.) Bem, pode ser... Mas o telefone é apenas um objeto material...

(M.) Meu amigo, o problema não é o objeto, mas o uso que fazemos dele... De fato, não temos um telefone, não temos nossa casa e nem mesmo nossa roupa, o que temos é essa vontade tão antiga de nos conectarmos um ao outro - Eis o indispensável em nossa vida.


raph'11 (em homenagem ao blog de Aoi Kuwan: Magia Oriental)

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Crédito da imagem: budgetplaces

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Links Mayhem (32)

O Projeto Mayhem foi criado em Março de 2010 como centro de debates e discussões sobre temas Ocultistas e Herméticos. Agora, toda semana, os participantes do projeto divulgam os links mais interessantes para artigos nos blogs de outros participantes:

- Teoria da Conspiração - Jesus, o Ateu e o Bombeiro
- Labirinto da Mente - A Coragem para Viver Conscientemente
- Diário do Adeptu - Olá primavera, seu nome é Perséfone
- O Alvorecer - A figura dos alquimistas perante a separação da ciência
- Hermetic Rose - Do Lema Mágico
- Autoconhecimento e Liberdade - A três passos do paraíso
- Tudo sobre Magia e Ocultismo - As portas da percepção
- Artigo 19 - Isso deve ser amor
- Idéia Biruta - Criandouma Religião 2

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14.10.11

Almas egípcias

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 162 a 167. Os comentários ao final são meus.

Eis um defunto dono de sua Bela Casa da Eternidade. O feitio da tumba evoluiu no decurso de três milênios. A tumba escavada na falésia substituiu a pirâmide e a mastaba, mas um sarcófago ficou dissimulado num poço funerário subterrâneo ou no maior segredo possível.

Este lugar oculto é precedido de uma porta aberta, acessível do exterior: a capela, dotada de uma estrela sobre a qual está gravado o nome, ou, eventualmente, a efígie do morto. Aqui encontra-se a mesa de oferendas. Uma porta virtual, imitação em pedra de uma porta verdadeira, liga espiritualmente as duas salas, a de baixo e a do Além. Só o morto a pode transpor para ir buscar as oferendas que lhe são levadas: pão, legumes, aves e carne vermelha nos dias de festa. Ele aprecia particularmente o incenso que satisfaz o seu olfato, e a cerveja ou a água fresca, visto que habita na orla do deserto.

Os seus filhos devem abastecê-lo com regularidade. Muitas vezes o defunto institui, enquanto vivo, uma doação para a Eternidade, e assim os sacerdotes funerários velam pela manutenção do culto, que fornece sustento ao clero do templo, atendendo a que as oferendas são levadas para a sua mesa.

Contudo, a experiência revelou aos Egípcios, sobretudo durante os períodos intermediários de desordem, que nada perdura neste mundo, nem mesmo as doações eternas. A acreditar na magia da imagem e da escrita, e no poder da palavra, eles tomaram o cuidado de representar também as oferendas nas paredes, ou inscrevê-las em hieróglifos.

Assim, seria suficiente pronunciar o nome das dádivas para que o defunto as pudesse apreciar. É a razão desta prece, inscrita sobre muitas peças decorativas: Vós que viveis na terra e que passeis diante desta estrela, indo e vindo, se ameis a vida e detesteis a morte, dizei que há mil pães e mil potes de cerveja.

Passando pela porta fictícia do seu túmulo, o morto pode vir deliciar-se com as dádivas que lhe são oferecidas e manifestar-se de diversas maneiras, visto que a simples dualidade do corpo e do espírito não satisfaz o pensamento egípcio. Para os Egípcios, a personalidade humana é composta de um corpo material associado a vários princípios espirituais.

Tanto quanto possível, a mumificação evita que o corpo se decomponha, mas se ele se altera ou é queimado, os outros elementos a que se religou são destruídos com ele, a não ser que, dentro do túmulo, se tenha posto um corpo de reserva, uma estátua. Não é muito importante que ela se lhe assemelhe, mas é indispensável que indique o respectivo nome, porque este elemento é essencial ao homem, que, sem ele, não tem personalidade nem, consequentemente, qualquer hipótese de sobrevivência.

O que nós entendemos por alma, difere da noção que os Egípcios tinham de vários princípios espirituais: o ka, o ba, e o akh, e ainda a personalidade que comporta também uma sombra, o shouyt.

O ka é a energia vital, o que mantém a vida. É a ele que se destinam as oferendas, atendendo a que lhe é necessária a alimentação. Quando um homem nasce, o seu ka é modelado pelo deus criador Khnum, no seu torno de oleiro, e nunca mais o deixa. Ele é representado por dois braços erguidos.

O ba corresponde mais à ideia que fazemos de alma e pode afastar-se do corpo mas deve voltar para ele. É simbolizado por um pássaro com cabeça humana, firmado nos ramos de um sicômoro, ao lado do túmulo ou voando nos arredores: Tu sobes, tu desces [...]/ Tu deslizas como o teu coração deseja, / Tu sais do teu túmulo todas as manhãs / Tu regressas todas as noites.

O fato de o morto poder deslocar-se, deixando o seu túmulo, também comporta perigos: Um terceiro princípio espiritual denomina-se akh e pode atormentar os vivos como uma espécie de espírito. Um viúvo do Novo Império implora ao espírito Anchiri numa carta que a sua esposa defunta o deixe em paz, senão ele ver-se á obrigado a apresentar queixa junto aos deuses do Ocidente.

Também havia juízes no Além e antes que um defunto fosse ali acolhido, deveria apresentar-se diante dele – na sua totalidade, com todas as suas partes componentes.

O tribunal divino tem sede na Sala da plena Justiça, onde, o submundo e o Além estão em contato, e onde se situa uma grande balança. O coração do morto é colocado sobre um prato na balança sob a vigilância de Anúbis e de Toth, o deus-escriba. (Para os Egípcios, o coração é o centro real da personalidade, o assento da razão, da vontade e da consciência moral). No outro prato encontra-se uma pluma, símbolo de Maât, a ordem divina. Se os dois pratos se equilibram, o defunto está absolvido.

A vida terrena do difunto é, portanto, aqui avaliada segundo o ideal da justiça divina, e muitos raros são aqueles que estão à altura dum tal julgamento que todos receiam, porque, ao lado da balança está presente a Grande Devoradora, um monstro híbrido de crocodilo, pantera e hipopótamo, pronto a devorar o defunto se o seu coração tiver um peso excessivo. Este seria o pior dos castigos imagináveis, o aniquilamento total, a morte absoluta sem esperança de ressurreição. Mas os Egípcios estavam prevenidos e tomaram precauções enquanto viveram.

Entre as pernas de grande número de múmias, envolvidos nas suas faixas de linho, há rolos de papiro que contêm fórmulas e imagens que servem de guia para a viagem no Império dos Mortos. [...] Um certo processo de democratização permitiu, mais tarde, que os funerários e sacerdotes bem sucedidos levassem com eles estas instruções. As informações que auxiliavam o defunto estavam inscritas sobre os caixões, e mais tarde em papiros. O Livro dos Mortos podia comprar-se completamente pronto, bastando acrescentar-lhe o nome do proprietário. Custava tanto como duas vacas, um escravo ou seis meses do que era pago a um operário, do que resultava não ser acessível às classes sociais inferiores.

Este guia para o uso no Além, que teria sido redigido pelo próprio Toth, deus da sabedoria, não se refere apenas aos perigos que espreitam o viajante no outro mundo. Incluía também receitas mágicas para os atenuar, ou seja, cerca de duzentas fórmulas que, pronunciadas no momento exato, afastariam o viajante de um passo em falso.

[...] De fato, o texto é uma conjuração: encantados pelas fórmulas e pelas representações mágicas do papiro, os pratos da balança equilibravam-se e os juízes anunciavam que o defunto está em harmonia com a ordem divina: Está justificado. A Devoradora não terá direito sobre ele.

***

Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

Como podemos ver no texto acima, que trata das crenças egípcias ligadas aos seus rituais funerários, muitos dos mitos dessa civilização quase perdida em realidade penetram até hoje no íntimo de nossa sociedade, ou pelo menos da parte que bebeu da cultura egípcia através do que os gregos nos transmitiram dela... Isso demonstra, principalmente, que a espiritualidade humana é mesmo muito, muito antiga, provavelmente tão antiga quanto à primeira comunidade de caçadores-coletores; E todos esses séculos a nos separar no final das contas não nos separam tanto assim.

Para os leigos – mesmo o grande Heródoto tirou conclusões errôneas de sua passagem pelo Egito – a civilização egípcia consistia de uma única cultura que perdurou idêntica durante milênios, em que os homens e mulheres adoravam estranhos seres com cabeça de cachorro ou de águia. Para os iniciados – ou, pelo menos, os realmente curiosos – o Egito é uma concha de retalhos de várias culturas e povos se mesclando através de guerras e períodos de paz, e os deuses nada mais são do que reflexos de nossos questionamentos espirituais mais profundos. E ainda hoje o são, embora com outros nomes, desde heróis de quadrinhos até conceitos algo estranhos como “o gene da fé”.

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Crédito das imagens: [topo] Roger Wood/Corbis (escultura do deus Anúbis); [ao longo] Philip de Bay/Historical Picture Archive/Corbis (o julgamento dos mortos, onde se vê Toth como um babuíno).

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11.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 2)

« continuando da parte 1

Segunda e última parte de um artigo que pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. Não deixe de ler a primeira parte antes de prosseguir (link acima).

Podemos afirmar que o espiritismo é uma doutrina racista?
Certamente que não, pois essa seria uma grande generalização apressada.

Primeiro, porque o espiritismo não é criação de Kardec, e ele foi apenas seu codificador e organizador. Apesar dos 5 livros fundamentais da doutrina possuírem inúmeros comentários do próprio Kardec, foi baseado nas respostas dos espíritos as suas perguntas que Kardec organizou a doutrina espírita. Desse modo, ainda que se seja cético em relação a existência de espíritos, ou da possibilidade de que possamos nos comunicar de forma plenamente inteligível com eles, o máximo que se pode dizer é que as respostas dos espíritos são fruto do imaginário monumental de 3 jovens médiuns (de 14, 16 e 18 anos, respectivamente), as quais ditaram praticamente a totalidade das respostas.

Em todo caso, não é culpa dos espíritos (ou das 3 médiuns) que Kardec tenha interpretado suas respostas dessa forma. É muito comum ao ser humano interpretar de forma incompleta, errônea ou até distorcida as informações que lhe chegam de um, digamos, plano mais elevado. Kardec não foi o primeiro a interpretar a luz de uma forma difusa, e os textos sagrados da humanidade nos trazem inúmeros exemplos até mesmo muito piores (ex: o livro do Levítico, do Antigo Testamento).

Segundo, o espiritismo não é um “kardecismo”, e o próprio Kardec incentivou que esta doutrina, da qual ele foi mero codificador, fosse constantemente reavaliada e reinterpretada a luz de novas descobertas e compreensões mais elaboradas não somente no campo da ciência, como no da filosofia e da moral. Portanto, se Kardec era racista, e se hoje como espíritas ou espiritualistas nos damos conta disso, tanto melhor: identificamos então uma falha na doutrina, e cabe a nós corrigi-la, passo a passo, sempre em frente. Kardec não era infalível, nem nunca pretendeu ser... Era antes, como todos nós, humano.

Seriam os “povos selvagens” intelectualmente inferiores?
Tudo indica que não, e é esse o grande erro na interpretação de Kardec. Ora, não podemos confundir adiantamento tecnológico, econômico ou político com adiantamento intelectual ou moral a um nível “racial”. Sabemos que crianças selvagens, que se perderam nas selvas e foram criadas por animais como lobos (conforme o famoso exemplo de Amala e Kamala), quando “recuperadas” e inseridas de volta ao convívio com seres humanos, jamais deixam de se comportar como animais, sendo que na grande maioria das vezes sequer foram capazes de aprender a se comunicar (muito menos a ler e escrever). Da mesma forma que tanto crianças brancas quanto negras se parecerão muito quando criadas por animais em meio a selva, se forem criadas por pais amorosos e responsáveis, e educadas em grandes centros de ensino, não há absolutamente nenhuma teoria científica ou estudo estatístico que nos afirme que as negras, por exemplo, não se desenvolverão intelectualmente tanto quanto as brancas.

Dessa forma, por mais que nas ciências ocultas devamos considerar que em sua maioria os povos são formados por grandes egrégoras espirituais, nada impede que um espírito em grau moral e intelectual adiantadíssimo não encarne dentre os povos ditos “selvagens” [4] . De fato, teremos muitos exemplos de grandes sábios que encarnaram em meio a tais povos. Um deles, inclusive, nos deixou por escrito um registro histórico de seu grau de sabedoria. Vejamos o que o Chefe Seattle tinha a dizer ao então presidente americano, quando este lhe ofereceu uma oferta em dinheiro pela compra de suas terras (apenas um trecho):

“O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos [5].”

Conclusão
Kardec era um homem de seu tempo, mas isso não deve ser usado como desculpa para que levemos em menor consideração alguns dos seus erros de interpretação. De fato, quando o criticarmos diretamente neste ponto, estamos somente agindo de acordo com o que ele mesmo defendia como filósofo, cético e cientista – o que muitos detratores corriqueiramente se esquecem.

Se esta crítica, muitas vezes acompanhada de julgamentos ferozes e generalizações apressadas, é o máximo que os detratores do espiritismo conseguiram encontrar de errado na doutrina (ao menos no campo moral e humanista, pois se espíritos existem ou não, é uma outra história...), deveremos como espíritas ou simpatizantes nos sentir agraciados por seguirmos uma filosofia tão abrangente e extensiva, e com tão poucas falhas... E mesmo as falhas existentes, estas poderemos também reavaliar, reconsiderar, reformar!

O espiritismo não foi criado ou divulgado para se ancorar em textos seculares, pois esta seria a origem do dogma, e como cientista e livre-pensador, Kardec era claramente contrário a quaisquer espécies de dogma... Kardec fez centenas de perguntas aos espíritos, mas houveram perguntas com respostas mal interpretadas tanto quanto outras tantas que nem os espíritos souberam responder. Isso significa, obviamente, que o espiritismo não está pronto e acabado, e que cabe a nós continuarmos a codificá-lo, quebrando preconceitos e nos livrando da ignorância, um passo de cada vez [6].

O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer ser aceito livremente pela razão. Longe de temer, pela fé dos Espíritas, a leitura das obras que o combatem, diz: Lede tudo; o pró e o contra, e fazei a escolha com o conhecimento de causa (Allan Kardec).

O Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos (Revista Espírita 1861, pág. 297-298).

***

[4] Apesar de raro, não é impossível que um espírito de uma determinada cultura e etnia (e suas egrégoras) reencarne na vida seguinte numa cultura diversa. Em seus estudos de crianças que lembram vidas passadas, Ian Stevensson encontrou um ou outro caso do tipo, e a "simpatia" do espírito por sua cultura anterior era geralmente tão evidente que eles faziam de tudo para "retornar" a região de sua etnia na vida anterior. Também há casos mais dramáticos, infelizmente, quando todo um povo é dizimado, e os espíritos reencarnantes são obrigados a se "deslocar" para outros povos.

[5] Veja aqui um resumo mais extenso da Carta do Chefe Seattle, um dos grandes textos espiritualistas da humanidade...

[6] Se você é espírita, talvez se entusiasme mais por essa extensiva e detalhada defesa que Paulo da Silva Neto Sobrinho faz a Kardec em relação a acusação de racismo. No entanto, não posso afirmar que se trate de um texto totalmente imparcial, como espero que tenha sido o meu - na medida em que espero, igualmente, um julgamento imparcial de cada leitor.

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Crédito da imagem: Reed Kaestner/Corbis

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10.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 1)

Este artigo pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. A análise pretende ser imparcial (apesar de eu ser um espiritualista), se não acredita, leia até o fim antes de julgar. Se você ainda não conhece o espiritismo a fundo, recomendo primeiramente que leia esta série de artigos onde resumo a essência da doutrina, e depois retorne...

A crítica quanto à tendência racista de Allan Kardec se baseia principalmente em trechos do Capítulo XI de “A Gênese”, mais precisamente onde ele analisa a hipótese sobre a origem dos corpos humanos, e sobre como o espírito poderia, hipoteticamente, exercer influência em sua formação de acordo com sua “antiguidade ou adiantamento espiritual”.

A primeira análise que devemos fazer é em relação à validade desse tipo de crítica, e para tal nada melhor que primeiramente ler o trecho citado (Cap. IX, 30 a 32, os grifos em negrito são do texto original):

“Se bem que os primeiros homens devessem ser pouco adiantados, pela mesma razão que os fazia encarnarem-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis, nos seus caracteres e aptidões. Os Espíritos semelhantes naturalmente se agruparam pela analogia e pela simpatia. A Terra achou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes no progresso. Os corpos recebem a característica do Espírito, e esses corpos se procriam segundo seu tipo respectivo; daí resultam diferentes raças, no físico como no moral [1]. Os Espíritos semelhantes, continuando a se encarnar de preferência no meio de seus semelhantes, perpetuam o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, o qual não se perde após muito tempo, pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos.

Podem-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a grupos de imigrantes de origens diversas, que vão se estabelecer numa terra virgem [2]. Ali encontram a madeira e a pedra para fazer suas habitações, e cada uma dá à sua um feitio diferente, conforme seu grau de saber, e seu gênio particular. Ali se agrupam pela analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com seus costumes e caráter próprio.

O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; atingirão um dia o nível de seus irmãos mais velhos, mas certamente isso não se dará no corpo da mesma raça física, impróprio a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não estiver mais em relação ao desenvolvimento, emigrarão de tal ambiente para se encarnar num grau superior, e assim por diante até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos mais e mais adiantados.”

Agora passemos a análise do trecho citado tendo em mente a crítica mencionada:

Podemos afirmar que Kardec era racista?
Sim, sem dúvida. Inclusive pelo trecho que consta grafado em negrito desde o original. Está muito claro que, apesar de Kardec não ser nem de longe racista no sentido espiritual – pois que considerava que todos os espíritos, desde bactérias e animais irracionais, até os primatas e “selvagens”, poderiam eventualmente alcançar o estágio de “adiantamento moral e intelectual” do “ser humano moderno” –, no sentido corpóreo (físico), que é afinal de contas onde se efetua a crítica, ele era claramente racista a partir do pressuposto de que existiam “raças físicas” diversas, o que fica muito claro tanto no texto em geral quanto na frase grafada.

Hoje sabemos que racismo é ignorância. A ciência comprovou que não existem raças humanas (derradeiramente através do Projeto Genoma). O que chamamos de “raça” se resume a uma diferença da tonalidade da cor de nossa pele: em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pelo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido [3].

Podemos condenar Kardec por ser racista?
Talvez... Tanto quanto poderíamos condenar um filósofo da Grécia antiga por não se revoltar contra a escravatura, tanto quanto poderíamos condenar o grande pensador alemão, Schopenhauer, por ser um machista convicto que relegava o papel das mulheres na sociedade a um “segundo plano”, tanto quanto poderíamos condenar praticamente qualquer francês de sua época por ser igualmente racista, visto que ainda durante sua geração a escravidão ainda era legal em inúmeros países e colônias. E, de fato, era ainda muito comum que as crianças europeias da época fossem educadas para pensar que os escravos (em sua maioria negros descendentes de partes “supostamente selvagens” da África) possuíam intelecto notadamente inferior.

Em suma, Kardec parecia realmente convicto que povos selvagens do continente africano, da China e da Austrália, dentre outros, possuíam capacidade intelectual e moral inferior a dos europeus e suas colônias mais ricas, mas isso era não obstante um pensamento difundido em toda a França e Europa, mesmo entre os intelectuais, como era o caso de Kardec. Prova de que nem sempre, ou quase nunca, podemos nos colocar em posição de julgar qual povo é mais ou menos adiantado.

» Na segunda e última parte, analisaremos se o espiritismo pode ser considerado uma doutrina racista, e também se os povos "selvagens" seriam realmente intelectualmente inferiores...

***

[1] Aqui Kardec faz referência ao item #11 do mesmo capítulo, que resumidamente afirma que são os próprios espíritos quem auxiliam na fabricação de seus corpos, de acordo com o adiantamento de seu intelecto para tal. De modo que, segundo a hipótese de Kardec, espíritos de elevado intelecto tendem a conceber (ou auxiliar na concepção) corpos mais “aperfeiçoados e belos”.

[2] Muitos não sabem, mas o espiritismo não fala apenas da reencarnação de homo sapiens na Terra, como da evolução espiritual de bactérias até espécies hipoteticamente muito mais avançadas que o homo sapiens, assim como em transmigrações de espíritos entre planetas, de modo que o ciclo de reencarnação não está limitado a uma única espécie, e tampouco a um mesmo planeta. Nota-se, entretanto, que a transmigração entre planetas é espiritual e não corpórea (física).

[3] Os zoólogos geralmente consideram a raça um sinônimo das subespécies, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie homo sapiens - a espécie humana - a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista biopolítico matematicamente convencionado pela maioria.

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Crédito da imagem: Divulgação (FEB/Domínio público)

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Como a mais bela tribo

Amanhã fazem 15 anos que o Brasil perdeu seu grande poeta punk, que em seus altos e baixos, viveu e cantou a vida de forma intensa, talvez aberta até demais. Dentre as inúmeras letras e músicas memoráveis, resolvi lhes trazer esta abaixo, por conter tantos pensamentos e reflexões resumidos em apenas alguns minutos de pura poesia...

Em "Índios", Renato Russo não fala apenas da forma selvagem com a qual os "seres morais do outro continente" dizimaram os povos indígenas da América, como também encontra espaço para uma crítica social ("quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante, e fala demais por não ter nada a dizer"), ainda outra crítica que toca no cerne do cristianismo ("esse mesmo Deus foi morto por vocês; sua maldade, então, deixaram Deus tão triste..."), uma pitada de gnosticismo ("seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos: obrigado"), e um refrão inefável, profundo, pleno de espiritualidade:

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

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Com vocês, "Índios" no acústico da Legião Urbana (1992):

Renato, obrigado por tudo, espero que tenha encontrado uma bela tribo de luz para continuar a tecer e talhar sua poesia...

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Crédito da foto: Divulgação (renatorusso.com.br)

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7.10.11

A little moonwalk

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencéfalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantaram em muito a quantidade de erros.

Desde os primórdios do estudo do cérebro – em roedores, primatas e humanos – os cientistas tenderam a crer que o cérebro possuía regiões e neurônios específicos para cada uma das atividades do corpo físico: havia então a região dos neurônios relacionados ao equilíbrio, outra aos responsáveis por codificar informações sensoriais, ainda outros neurônios para cuidar do movimento de um dedo, uma mão, um braço, uma perna, etc. Mas Nicolelis muito cedo percebeu que o cérebro era muito mais incrível do que uma empresa dividida em setores e departamentos responsáveis por cada uma dessas tarefas – ele era maleável, adaptável, uma verdadeira máquina miraculosa!

Somente estudando grupos de centenas e milhares de neurônios simultaneamente que Nicolelis, paulistano e torcedor do Palmeiras, pôde finalmente avançar em suas leituras cada vez mais precisas do código elétrico gerado pelo cérebro: como numa final de campeonato de futebol, quando todos os torcedores de um time cantam como se fossem um só, assim também operavam os neurônios...

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Uma etapa importante da experiência era a certificação de que a troca de informações entre Durham e Kyoto ficasse abaixo da casa de 250ms, e o cientista Gordon Cheng estava radiante: ele havia cumprido o prometido, estavam na casa dos 230ms!

Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Foi, sem dúvida, um grande passo para o conhecimento humano. Aqueles que hoje não se dão conta disso, certamente um dia se darão – nem que seja apenas quando Nicolelis ganhar o prêmio Nobel, algo que muitos dão por quase certo... Pelo fato de nenhuma parte do corpo físico de Idoya ter sido envolvida na operação desta ICM, pelo menos a partir do momento onde a esteira foi desligada, esse e outros experimentos [2] sugerem que, no futuro, pacientes severamente paralisados devido a uma lesão da medula espinhal poderão tirar proveito desta tecnologia. E isso seria, é claro, só o começo...

Desde o advento do eletroencéfalograma (EEG) e tecnologias similares, os cientistas tem conseguido observar, maravilhados, o tráfego eletromagnético que se opera incessantemente nos cérebros dos seres vivos. Postularem eles, não sem razão, que todo nosso corpo físico é mera ferramenta do cérebro, comandado por esse divino condutor da mesma forma que robôs humanoides passam a ser comandados, à distância, por cérebros de pequenos primatas. Porém, como garantir que o cérebro não é, ele também, apenas mais uma ferramenta no meio do processo?

Hoje sabemos como fazer com que macaquinhas caminhem em esteiras, oferecendo frutas e biscoitos como recompensa. Mas, saberemos um dia porque alguém decide se suicidar de um penhasco? Ou porque bombeiros arriscam a própria vida para salvar vidas alheias em grandes acidentes? Ou porque alguém algum dia resolveu pintar um quadro ou escrever poesia? Ou, finalmente, o que alguém compreende exatamente por “vermelho”? O maior paradoxo da ciência moderna consiste no fato da consciência ter sido reconhecida como um processo evidente dos seres racionais (e até irracionais), para então ter sido reduzida ao mero tilintar dos neurônios, num processo que até hoje tende a ser descrito como ocorre no experimento de Nicolelis: como se tudo o que buscássemos na vida fossem uvas-passa e pedaços de biscoito...

Um dos títulos mais inspirados de uma teoria científica se chama “o problema difícil da consciência” – através dela, diversos cientistas de bom senso continuam a debater sobre o que vem a ser exatamente a consciência e, sobretudo, a vontade. Talvez ainda levem anos, séculos, nessa discussão, mas ninguém disse que seria simples – de fato, é este um dos grandes mistérios de nossa existência.

Observar o baile elétrico dos neurônios e dizer que se chegou à origem da vontade é o mesmo que observar um curto-circuito em um poste de energia e afirmar: “é dali, é dali que vem toda a energia da cidade!”. Mas, fato é que ainda não sabemos onde fica a usina de nossa própria vontade. Pode ser um tilintar “meio aleatório” dos neurônios, pode ser um “fantasminha camarada” a pilotar um cérebro, ou pode ser algo ainda mais sutil, elegante, maleável, além do alcance de nossa ciência e racionalidade, de nossa filosofia e espiritualidade atuais... Pode ser algo que esteve profundamente oculto por toda a história da humanidade, mas que no fim termine por se comprovar como a única coisa que realmente somos, a nossa essência liberta, como um cérebro com asas de águia a planar pelo Cosmos, como uma macaquinha esperta e ágil, que insiste em escapar a nossa detecção, mas que pode muito bem estar agora mesmo incorporando primatas... ou robôs.

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[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em “Muito além do nosso eu” (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler o livro!

[2] Dias atrás Nicolelis e sua equipe anunciaram outro estudo surpreendente que envolve um feedback não apenas visual, mas que incluí também o sentido do tato. Ele foi largamente anunciado na mídia, e ganhou a capa da revista Science, assim como a publicação na conceituada revista Nature.

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Crédito das fotos: [topo] treklens.com; [ao longo] Fábio Barriel (foto de Miguel Nicolelis)

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