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17.4.26

Lançamento: A Montanha Mágica, de Thomas Mann

As Edições Textos para Reflexão publicam a obra-prima de um dos maiores escritores do século XX.

A Montanha Mágica, obra de Thomas Mann, ganhador do Nobel de Literatura, é um romance de proporções bíblicas que trata do amor, da morte, da percepção do tempo, da filosofia, das artes em geral e, sobretudo, do ser humano.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível em e-book e também na versão impressa:

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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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15.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 1)

Ainda me lembro bem do dia em que descobri o que era o tarot (ou tarô): fui encontrar meu amigo Marcelo Del Debbio enquanto ambos estávamos no Rio de Janeiro, e como a agenda dele estava concorrida, ficamos de almoçar juntos no intervalo da aula que ele estava ministrando próximo ao Largo do Machado. Era um sábado, e ele havia alugado uma sala em um colégio da região. Foi só quando cheguei que soube que ainda levaria cerca de meia hora de aula para o intervalo do almoço, e decidi entrar e assistir um pouco.

Já alojado em minha cadeira ginasial, recordando com um sorriso meio amargo dos tempos de escola, olhei para o quadro onde a apresentação estava sendo projetada e vi alguma pintura que me lembrou um dos meus artistas prediletos, Albrecht Dürer. Na sequência, uma outra mais conhecida, O Andarilho, do grande Hieronymus Bosch. Foi só aí que me dei conta de que o tema daquele curso era Os Arcanos Maiores do Tarot. Mas, como sou formado em Belas Artes e conhecia boa parte daqueles artistas, decidi prestar um pouco mais de atenção, afinal até então o tarot para mim era alguma outra coisa que, decididamente, tinha pouco a ver com a história da pintura.

Foi naquela meia hora que eu descobri que estava redondamente enganado sobre o que era, afinal, o tarot. Até aquele dia eu achava que se tratava de um oráculo divinatório em formato de baralho (ou algo assim), no entanto, enquanto o Marcelo explicava sobre dois dos vinte e dois Arcanos Maiores, o Louco e o Mago, eu percebi que o tarot definitivamente era muito, muito mais do que isso.

Isso foi há cerca de uma década, a data e mesmo o ano exato, já não lembro ao certo. De lá para cá eu estudei bastante, fiz o curso do Del Debbio a distância e até mesmo cheguei a iniciar a cocriação do meu próprio tarot, mas em todo esse tempo ainda não cheguei a uma conclusão acerca do que é exatamente esse jogo que, de alguma forma estranha, parece trazer nossa vida nas cartas de um baralho.

No meio ocultista e nos círculos esotéricos em geral o tarot é considerado algo muito, muito antigo, possivelmente da antiguidade egípcia. Já entre os céticos, o tarot é uma invenção moderna, com cerca de 500 anos, e 99% dos baralhos atuais têm menos de um século de idade. O mais impressionante é que ambos, de alguma forma, parecem estar certos.

Para entender com isso se dá, é preciso primeiro compreender em que contexto o tarot foi “declarado egípcio”. Antoine Court de Gébelin nasceu em uma família protestante francesa em torno de 1725. Como a França vivia uma época conturbada, seu pai, que era pastor, exilou-se com a família na Suíça a partir de 1730. Gébelin voltou à França só após a morte dos pais, em 1763, quando também já era doutor em teologia. Sua ascensão na chamada alta sociedade parisiense foi meteórica: escritor coroado pela Academia Francesa e membro de outras academias, censor do reino, erudito, gramático e especialista em mitologia, eventualmente também se tornou maçom. Em 1768, decidiu publicar um projeto grandioso, uma obra “que seria a chave de todos os séculos e de todos os conhecimentos humanos”. Lançou uma espécie de financiamento coletivo que, na época, dependia basicamente do dinheiro dos reis, príncipes e nobres em geral. Mas, ao contrário de outros enciclopedistas comuns em seu tempo, seu objetivo era outro. Gébelin não desejava listar os conhecimentos de seu próprio século, e sim buscar a fonte comum de todos os saberes humanos por meio de uma ampla síntese. O nome do seu projeto era O Mundo Primitivo.

Mais de mil assinantes sustentaram a empreitada. Ele queria publicar um volume de cerca de setecentas páginas por ano, até completar nove deles. E assim foi: entre 1773 e 1784, Gébelin escreveu mais de 6 mil páginas! Mesmo assim, tocou diversos outros projetos ao longo da escrita. Em 1780, tornou-se presidente de uma sociedade que mais tarde daria origem ao Museu de Paris, e financiou quase a metade dos seus projetos. Apesar de sua notoriedade, Gébelin não tinha linhagem na nobreza ou alguma herança familiar relevante, e quando morreu, em 1784, estava cheio de dívidas.

Ainda que tenha escrito sobre uma vasta amplitude de assuntos, Gébelin foi lembrado pela história basicamente pelo que falou sobre o tarot. Isso se deu no tomo VIII do Mundo Primitivo, cujos temas eram “a história, o brasão, as moedas e os jogos”. Lá pelas tantas, ele narra que foi convidado por uma amiga a conhecer o “Jogo dos Tarôs” junto com alguns amigos em comum e que, em dado momento, decidiram analisar com mais calma cada um dos Arcanos Maiores:

“Tivemos o cuidado de [iniciar pela] mais caricatural dentre as figuras, que não apresentava nenhuma relação com seu nome: o Mundo. Observo-a e logo reconheço a alegoria. Todos [vêm] para ver esta carta maravilhosa, na qual percebo o que os outros nunca viram; cada um me mostra outra carta e, em 15 minutos, o jogo é examinado, explicado, declarado egípcio e, como esse não era o jogo que havíamos imaginado, mas o efeito de suas relações escolhidas e sensíveis com tudo o que conhecemos das ideias egípcias, comprometemo-nos a divulgá-lo algum dia ao público: [...] um livro egípcio que teria escapado da barbárie, da destruição pelo tempo, dos incêndios e da ignorância. [Eis o] efeito necessário da forma frívola e leviana desta obra, que lhe possibilitou vencer todas as épocas e chegar até nós com uma rara fidelidade: a ignorância na qual nos encontramos até agora a respeito do que ela representava foi um feliz salvo-conduto que lhe permitiu atravessar tranquilamente todos os séculos sem que se pensasse em fazê-la desaparecer.”

Segundo o próprio Gébelin esclarece em seu texto, o objetivo daquele encontro não era investigar a simbologia do tarot, foi algo que ocorreu espontaneamente, e até a data ele praticamente ignorava a sua existência. Apesar disso, em cerca de quinze minutos, aquele estranho jogo foi “examinado, explicado e declarado egípcio”. Daquele dia em diante, essa ideia nunca mais seria esquecida.

Gébelin teve em mãos uma das inúmeras versões do chamado Tarot de Marselha, um dos baralhos clássicos, cuja origem remonta ao século XV e ao norte da Itália. Ele poderia ter criado um novo tarot com simbologia claramente egípcia, ao contrário daquele que, como veremos, está carregado de símbolos da Europa medieval. Se não o fez, é possivelmente por duas razões: primeiro, porque tinha honestidade intelectual; e segundo, porque acreditava que a simbologia medieval também era uma herança de ideias mais antigas. Assim, é perfeitamente possível que, do ponto de vista de Gébelin, ser “declarado egípcio” era o mesmo que ser “declarado muito, muito antigo”. Afinal, se alguém passa quase uma década pesquisando e escrevendo sobre como as ideias de um “mundo primitivo” ainda reverberam em seu tempo, é porque ele não precisava ver uma esfinge ou uma pirâmide para reconhecer que algumas das questões mais antigas do espírito humano simplesmente não podem ir embora, não podem ser totalmente esquecidas, são como histórias reencenadas em cada novo tempo por um novo conjunto de símbolos, de personagens, mas não obstante com sua essência intacta.

Se isso for verdade e soubermos interpretar o que Gébelin quis dizer de fato, isso não invalida os registros históricos que nos dizem que o tarot não pode ter muito mais do que 500 anos; mas, ao mesmo tempo, é preciso ter olhos para reconhecer o que o tarot tem de “egípcio”, no que ele dialoga com assuntos que habitam o espírito humano há milênios, até mesmo muito antes da primeira pirâmide ser erguida no norte africano. E, para tal análise, vamos precisar da ajuda da psicologia do século XX.

» Na sequência, uma coleção de arquétipos.

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Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Hieronymus Bosch (O Andarilho); [ao longo] Google Image Search (Antoine Court de Gébelin e alguns arcanos do Tarot de Marselha – incluindo O Mundo, à direita).

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31.7.18

Por que estudar filosofia? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como pode ser altamente prejudicial a sua saúde mental acreditar por muito tempo na gente que fala que filosofia é só algo chato, difícil de ler, e que não serve para nada. No entanto, lhe darei dicas preciosas para que não faça como eu, e leia Platão antes de se aventurar por Kant... No fim das contas, veremos que a filosofia serve para algo essencial em nossa vida: aprender a pensar por si mesmo.

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2.7.18

Gibran, a luz do Líbano

Gibran Khalil Gibran, mais conhecido no Brasil como Khalil Gibran ou apenas Gibran, foi o maior poeta do Líbano e um dos maiores poetas de todos os tempos, pelo menos no que tange a poesia mística. Além de poeta, foi filósofo e pintor de relativo destaque. Mas sem dúvida é hoje mais conhecido pela sua literatura, sobretudo por sua obra-prima, O Profeta.

Ele nasceu em 6 de dezembro de 1883, de família pobre. Cresceu em zona montanhosa próxima a uma floresta de cedros milenares, num dos berços mais antigos da própria civilização humana.

Em 1894 emigra para os EUA com a mãe, o irmão e duas irmãs. Apenas seu pai fica no Líbano. Gibran passa cerca de 4 anos em Boston com sua família, mas em 1898 retorna a sua terra natal para completar seus estudos árabes no Colégio da Sabedoria, na capital Beirute. Passados menos de 2 anos, retorna a Boston e passa a se dedicar a pintura e a literatura, sendo sustentado pela família.

Entre abril de 1902 e junho de 1903, Gibran perde uma irmã e um irmão para a tuberculose, e vê a mãe morrer de câncer. Resta apenas sua irmã Mariana, o que obriga Gibran a correr atrás de algum retorno financeiro para sua pintura (algo que já era difícil naquela época). Felizmente, numa de suas primeiras exposições conhece Mary Haskell, diretora de uma escola em Boston, que se torna uma mecenas e confidente durante boa parte de sua vida.

Com a ajuda de Haskell, em 1908 vai estudar arte em Paris e chega a conhecer e ter algumas aulas com o escultor Auguste Rodin. Voltando aos EUA em 1910, já tem sua carreira artística inicialmente consolidada, e decide se mudar para um estúdio em Nova York. Lá ele passará o resto da vida.

Em sua terra natal, seus livros em árabe já o tinham tornado um escritor muito reconhecido. Entretanto, após decidir traduzir alguns de seus livros do árabe para o inglês, ele acaba alcançando certo sucesso editorial também nos EUA; para tal, contou com a ajuda do seu editor, Alfred Knopf, e com as revisões e o aconselhamento de sua amiga, Mary, que nessa altura já não tinha mais necessidade de lhe manter financeiramente.

É a partir do sucesso de O Profeta, lançado em 1923, que Gibran passa a ser reconhecido como grande escritor, além de pintor. Com o passar das décadas, ele será lembrado em todo o Ocidente e no Oriente Médio como o grande poeta do Líbano. No entanto, Gibran mal participa desta fama internacional, uma vez que falece já em 10 de abril de 1931, em decorrência de uma crise pulmonar (a sua saúde sempre fora frágil).

A filosofia do coração
Segundo Mansour Challita, diplomata libanês que ajudou a traduzir boa parte de sua obra para o português, “Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo. Ele era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia.

Gibran nos trouxe o que talvez mais falte a nossa época, tão rica e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida. Ele redescobriu o papel do coração. Pregou a ternura no meio das máquinas e da concorrência impiedosa dos nossos tempos.”

Como tão bem descrito em O Profeta, Gibran não veio nos ensinar nada novo, mas simplesmente nos ajudar a florescer. A sua filosofia era mais coração que razão, mais poesia que lógica:

Homem algum poderá lhes revelar nada além do que já se encontra meio adormecido na aurora do que vocês já conhecem. O mestre que caminha à sombra do templo, junto aos seus alunos, não doa da sua sabedoria, mas antes da sua fé e da sua compaixão. Se ele é realmente sábio, não lhes convidará a adentrar na mansão da sua sabedoria, mas antes deverá lhes guiar até o limiar de suas próprias mentes.

O astrônomo poderá lhes falar de sua compreensão do espaço, mas não poderá lhes doar esta compreensão. O músico poderá cantar para vocês seguindo ao ritmo que existe em todos os espaços, mas não poderá lhes conferir o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a ecoa. E aquele que é versado na ciência dos números poderá lhes falar do mundo dos pesos e medidas, mas não poderá lhes encaminhar até ele.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas ao outro. E assim como cada um de vocês se encontra isolado na consciência de Deus, da mesma forma cada um de vocês deve ter o seu próprio conhecimento de Deus e a sua própria compreensão do que jaz na terra.

Os filhos
Gibran acreditava no porvir, na lenta e gradual evolução espiritual da humanidade. Isso se refletia na forma com que tratava as crianças. Apesar de nunca ter tido filhos, Gibran parecia saber muito bem de onde eles vêm:

Seus filhos não são seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vocês, mas não de vocês, e embora eles vivam ao seu lado, eles não pertencem a vocês.

Vocês podem lhes dar seu amor, mas não podem formar seus pensamentos, pois eles possuem seus próprios pensamentos. Vocês podem abrigar seus corpos, mas jamais suas almas, pois suas almas residem na Mansão do Amanhã, que vocês não podem visitar nem mesmo em sonhos.

Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem fazê-los como vocês. Pois a vida não anda para trás e nem se demora com o ontem.

Não a paz, mas a espada
Gibran sempre foi muito intenso, seja na poesia, seja na pintura, seja em sua vida pessoal (o que pode ser conferido nas cartas que trocou com Mary). Ele parece ter vivido com o coração aberto, mas isto não significa que achava que o amor era algo “tranquilo e pacífico”. Assim como o Cristo, Gibran via no amor uma verdadeira guerra, uma guerra interna:

Quando o amor lhes acenar, sigam-no, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis. Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor, para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo. O amor não possui, e tampouco pode ser possuído; pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

Na floresta
Se em O Profeta Gibran chegou ao limite da linguagem, em alguns de seus poemas isolados ele chega naquela zona mística onde as palavras já não dão conta de cobrir todo o entendimento. Assim, encerro aqui meu breve translado pela vida e a obra da luz do Líbano com Na floresta, talvez o seu poema mais inefável:

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

***
 
Bibliografia
O Profeta, Khalil Gibran (a tradução de Rafael Arrais pode ser encontrada em e-book na Amazon); O Grande Amor do Profeta, com as cartas de Khalil Gibran e Mary Haskell (livro fora de tiragem, mas pode ser achado em sebos); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Arte para o filme O Profeta; Pintura do próprio Khalil Gibran.

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5.6.18

Xamanismo, Arte e Magia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a religião, a filosofia, a ciêcia e todas as formas de arte tiveram sua origem no xamanismo ancestral. Também veremos como o hermetismo foi essencial para o advento da chamada ciência moderna, como estamos a todo momento navegando num oceano de informação, e como podemos estar fazendo magia mesmo sem saber:

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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

***

Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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13.1.18

Papo na Encruza: fui convidado para falar de Tarot

O Papo na Encruza é um podcast apresentado pelo pessoal do blog Perdido em Pensamentos: Douglas Rainho, Luiz Guenca, Roe Mesquista e Luciana Fidelis. Nele eles tratam quinzenalmente de diversos assuntos ligados a espiritualidade em geral, com foco em Umbanda e Magia.

Por exemplo, eles já falaram de Yeshuah, uma das maiores HQs de todos os tempos, diretamente com o seu autor, Laudo Ferreira; também já fizeram um excelente podcast com o Léo Lousada do canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, quando falaram de Kabbalah e Árvore da Vida. Desta vez, no entanto, o tema foi o Tarot:

O primeiro programa de 2018 está muito especial! Estamos falando sobre um dos mais populares oráculos e também uma das mais populares ferramentas de magia, o Tarot. Para não falarmos só bobagens chamamos dois especialistas, Raph Arrais, poeta, filósofo, tradutor e criador do blog Textos para Reflexão e a Professora Ediléia Diniz, Mestra em Ciências da Religião, Oraculista e professora de teologia e de tarô.

Este episódio foi transmitido no dia 12 de Janeiro de 2018, às 21 horas. Ouça o episódio gravado aqui:

Observações

1. Sobre o Tarot da Reflexão
Para quem não sabe, o Roe Mesquita é o ilustrador e criador, junto comigo, do Tarot da Reflexão. Durante diversos trechos do podcast falamos mais sobre como começou o projeto, e como está o andamento.

2. Sobre eu ser um "especialista em Tarot"
Quando vi que estavam me considerando um "especialista" em Tarot, escrevi este texto abaixo como um guia para tentar falar durante o podcast. Se você já ouviu ele inteiro deve ter percebido que não falei tudo, mas consegui falar boa parte do conteúdo:

Bem eu devo dizer que não sou nenhum especialista em Tarot, mas também nem sei se alguém é.

Tem gente, como o Constantino Riemma, autor do site Clube do Tarô, que é sem sombra de dúvida uma verdadeira autoridade mundial em história do Tarot.

Tem também gente como meu amigo Marcelo Del Debbio, que é uma das pessoas que mais entende da relação dos diversos baralhos de Tarot com as diversas ordens iniciáticas e com a Kabbalah Judaica e a Árvore da Vida. Quer dizer: faz essa mistureba toda e consegue trazer um resultado coerente.

Tem gente, como o Frater Goya, que é também uma autoridade imensa no Tarot do Aleister Crowley (Tarot de Thoth), na sua simbologia, como foi criado e tal...

Mas, assim, será que existe mesmo especialista em Tarot? Será que podemos fazer uma tese de mestrado ou doutorado em Tarot?

Eu vejo o Tarot muito como vejo a poesia. Tem um novelista inglês chamado John Galsworthy que um dia escreveu uma coisa eu que achei belíssima, e nunca mais esqueci. Ele disse que “as palavras são como cascas de sentimento”.

O que funciona na poesia é que, de algum jeito maluco, ela consegue trazer um sentimento embutido nas palavras. E isso já é meio que um milagre, se a gente for ver, porque é muito difícil descrever um sentimento. Dizer como exatamente amamos ou sentimos tristeza ou angústia e tal...

E o Tarot faz isso não com palavras, mas com imagens. E não com sentimentos, mas com arquétipos, com os grandes símbolos da humanidade, a Jornada do Herói de Campbell, as esferas da Árvore da Vida, os deuses de todas as mitologias, está tudo lá no Tarot. Mas aí que está: UMA CARTA É UMA CASCA.

É só quando a gente descasca essa casca que chegamos no fruto. E isso não está na carta, mas na nossa interpretação dela, na nossa intuição, na nossa mediunidade, quem sabe no contato direto ou indireto com o nosso Sagrado Anjo Guardião.

Por isso não adianta ser especialista em Tarot. É que nem ser especialista em história da natação. Saber todas as medalhas de ouro de todas as Olimpíadas e tal.

Mas só quem vai e mergulha entende o que é o mar!

E o Tarot não é questão de “ser especialista”. É questão de conhecer a si mesmo.

Então você não é um especialista em Tarot, mas pode ser um especialista em si mesmo, aí tudo bem...


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23.10.17

Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.

Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).

Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:


Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920

[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:

Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.

O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.

O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.

Se ela quer ver nudez, por que não satisfazer seu desejo? Não vejo nada de mal nisso. Ter aqui todos os quadros que amo seria a coisa melhor que esta escola poderia fazer pela juventude – e não é preciso que se diga uma só palavra acerca de um único quadro para que ele produza efeitos positivos. O próprio fato de estarem nesta escola parece dizer às moças: “O que veem em nós é bom, e é bom que o vejam”.

A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.

Com amor,
Mary


Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920

Adorada Mary:

A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.

Não podemos pregar a castidade do nu. As pessoas devem descobri-la por si mesmas. Não podemos conduzir as pessoas ao coração da vida. Elas devem ir por sua própria vontade, e cada uma deve ir só.

Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.

E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.

Com amor,
Khalil


***

Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)

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8.8.17

O sangue eterno

Quantos poetas sangraram
para lhe fazer ouvir?
Quantos loucos captaram
seus versos de ventania,
e preencheram de vermelho
suas almas em branco?

Há uma marcha imemorial
por entre bosques e jardins,
que segue rios e corredeiras,
vence abismos e precipícios
e deságua em êxtase,
no oceano de corações frios
deste reino de chumbo...

Sim, ó senhor, ninguém sabe
de onde surgiu a fonte da poesia;
sabe-se apenas que jorra até hoje,
e que se olharmos com atenção
veremos: o mundo nunca esteve seco!

Como soldados que jamais se alistaram
para guerra alguma,
seguimos pé ante pé
com nossos fuzis de tintas,
de olhos e espíritos bem abertos,
sangrando de livre e sofrida vontade.

E este sangue que cai
salpica de cor rubra
mesmo aos bairros mais cinzentos da cidade:
cada gota marca para sempre um ponto
no tempo e no espaço.

Sim, ó senhor, seja em Konya,
Bsharri, Lisboa, Calcutá,
ou mesmo aqui, no Real Jardim Botânico
do Rio de Janeiro,
este sangue eterno
jamais secará.


raph'17

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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5.6.17

Os dias e as letras

Os dias e as letras são tudo que nos restam.
Pronuncie alto as vogais de seu coração,
não se preocupe como ecoam na imensidão
ou como são compreendidas pela multidão;
neste longo caminho dentre mercados barulhentos
e desertos do ser,
decerto haverão andarilhos
capazes de lhe compreender.

Não se aflija se não encontrou papel para suas letras,
que toda poesia surge primeiro na alma;
e lá, desde sempre, ficou anotada
nos Anais dos Arcanjos.
Não se angustie pelos dias perdidos,
que todo o tempo do mundo
é guardado aqui, na ampulheta
deste exato momento.

Os dias e as letras são tudo o que nos restam,
mas nem mesmo eles poderão ser usados na estalagem da montanha,
de onde se contempla a eternidade
no café da manhã.
Não, ó andarilho, a única moeda que teremos então
é a única que fica, a única que passa:
o amor de todos os seus dias,
o amor em todas as letras deixadas.

Não é preciso morrer para ver o Taverneiro.
Em realidade lhes digo
que ele tem lhes acenado pela beira da estrada
desde há muito, e anunciado o menu
das delícias de sua estalagem
pela música dos pássaros,
o baile das brisas,
e a dança dos torvelinhos de poeira.
Iniciados e não iniciados,
poetas e cientistas,
sábios e vagabundos,
foram todos convidados...

Mas quão poucos, quão poucos
tiveram olhos para ver!


raph'17

***

Crédito da imagem: Google Image Search/alphacoders.com

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17.6.16

Para ser feliz, parte 2

« continuando da parte 1

Muitos certamente já tiveram a oportunidade de assistir uma partida de futebol num grande estádio, junto a milhares de pessoas. No entanto, mesmo os que não tiveram, devem ter visto pela TV como esses eventos são animados, nem que tenha sido durante uma transmissão de Copa do Mundo. Afinal, nós somos o país do futebol!

Agora imaginem uma final entre dois times de grande torcida, onde quem vencer o jogo leva o caneco. Milhares de pessoas cantando, pulando, rezando juntas para que aquela cobrança de falta entre no ângulo do goleiro, indefensável... ou, que seja isolada na arquibancada.

De fato, sob esse ponto de vista, cada lance de uma partida de futebol, cada cartão amarelo, cobrança de falta, bola na trave ou gol, irá provocar um efeito de alegria ou melancolia na medida de sua importância para o resultado final da partida, isto é, na medida em que contribuí ou não para a vitória do time para o qual estamos torcendo, seja só naquele dia, seja desde criancinha.

E, desnecessário dizer, aqueles que torcem para este ou aquele time desde a infância, que acompanham os campeonatos futebolísticos como se fossem um verdadeiro embate mitológico de semideuses, são exatamente os que irão experimentar a maior intensidade de alegria ou de melancolia em cada gol, em cada partida, em cada final de temporada...

Eu tive um professor de arte que pensava um pouco diferente o futebol em si. Ele torcia para um time, de fato, mas não se importava muito com os resultados dos jogos. O que lhe causava maravilha era a própria festa que a sua torcida fazia no estádio (e não era qualquer estádio, mas o próprio Maracanã!). Ele gostava tanto daquela sensação intensa de pura vida que sentia ali que admirava mesmo as torcidas adversárias, e encontrava beleza mesmo quando via a sua própria torcida apreensiva, por estar perdendo o jogo, ou ainda calada e chorosa, por haver acabado a partida atrás no placar.

Esse professor me ensinou muito sobre arte somente por relatar tais experiências. Em seus olhos, em sua alma, era nítido que ele havia desvelado o que estava por detrás dessas ondas de felicidade e tristeza que agitavam o mar, pois que eram sempre passageiras, e encontrado a pérola sem nome, o tesouro reservado aqueles que conseguem perceber a beleza que há em tudo.

Penso que Cecília Meireles soube resumir melhor isso que não pode ser dito:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Talvez a grande qualidade das poetisas, dos professores de arte e das criancinhas seja exatamente esta: perceber a Arte de cada momento, e não se aventurar nessas apostas arriscadas, nesses jogos de azar que trazem uma hora alegria, outra hora tristeza. Afinal, nenhum time fica invicto para sempre...

Há muito tempo, ainda antes de Cristo, floresceu na antiga Grécia uma filosofia um tanto peculiar, o estoicismo. O que os estoicos defendiam, essencialmente, é que não valia a pena colocar nossa felicidade lá fora, pois tudo o que não depende de nossa vontade é mais ou menos como um jogo de futebol: há dias em que somos vitoriosos e felizes, é certo, mas isso só ocorre ao custo de muitos outros dias em que perdemos, e ficamos arrasados. Os sábios do pórtico sabiam que a grande riqueza da vida era a própria vida:

A filosofia não visa assegurar qualquer coisa externa ao homem. Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto. Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira, e o do estatuário é o bronze, a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada um. [1]

O grande ensinamento dos estoicos, que os discípulos de um de seus maiores sábios, Epicteto, incluíram logo no início do seu Manual (um verdadeiro manual para a vida), é este que trata de delimitar o que depende e o que não depende de nossa vontade, de modo a que não nos aflijamos com o último, e busquemos sempre o primeiro:

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.

É por isso que as crianças estão felizes todo o tempo quando vão assistir a uma partida de futebol num grande estádio pela primeira vez. Para elas, o resultado do jogo é o que menos importa; ante tamanha algazarra, tamanha festa de adultos que, de vez em quando, parecem mesmo se permitirem voltar a suas épocas de criança, tudo o que elas podem perceber é a essência da vida, escancarada a céu aberto.

Mas tudo isso vai até o primeiro gol, a primeira vitória ou derrota, ou mesmo aquele empate que não agradou ninguém: nesse momento elas percebem que os adultos a sua volta escolheram, apostaram num dos lados, e entraram neste jogo infindável de vitórias e derrotas, de felicidade que surge da tristeza e tristeza que surge da felicidade, pois que de fato são irmãs.

E assim, o que resta aos sábios, aos artistas, aos poetas, aos adultos que não esqueceram sua criança interior, que não nos alertar para essa imensa armadilha?

Há muita coisa que ganhamos e perdemos nesta vida: dinheiro, status social, fama, amizades, amores, doenças, tristezas, alegrias, e até mesmo partidas de futebol, mas nada disso precisa necessariamente determinar o que realmente sentimos, o que realmente somos, neste e em todos os outros momentos da vida.

Para os estoicos, a virtude era o suficiente para a felicidade, isto é, para ser feliz bastava ser virtuoso. Mas, o que eles entendiam por “virtude” era precisamente esta capacidade de saber discernir a essência do passageiro, o ser do ter, em suma, o que somos daquilo que nunca fomos.

Por força do hábito, muitos chamaram isso de “felicidade”. Mas, aquilo que vi nos olhos do meu professor de arte, ou que os pais veem no sorriso dos filhos em sua primeira vez num estádio, isso nunca teve nem nunca terá um nome.

» Na próxima parte, a verdadeira vontade...

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[1] Epicteto, Discursos.

Crédito das imagens: [topo] Pexels.com; [ao longo] Google Image Search

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13.5.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte final)

« continuando da parte 5 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Luciano Prado e Rafael Arrais.

O poder da arte é imediato e irrefutável, imenso. Ela altera a consciência, consideravelmente, tanto do artista quanto da sua audiência. Ela pode mudar a vida dos homens e, dessa forma, mudar a história e a própria sociedade. Ela pode nos inspirar a maravilhas ou horrores. Ela pode oferecer as mentes jovens, maleáveis e expansíveis, novos espaços de habitação, ou oferecer conforto aqueles que se encontram perto da morte. Ela pode lhe fazer se apaixonar, ou fatiar a reputação de algum ídolo num piscar de olhos, e o manter mutilado frente aos seus adoradores, morto para a posteridade. Ela conjura demônios de Goya e anjos de Rosetti até a aparência visível. É ao mesmo tempo a perdição e o instrumento mais amado dos tiranos. Ela transforma o mundo em que vivemos, altera nossa visão do universo, altera a nossa visão daqueles a nossa volta e até de nós mesmos. Qual a conquista da feitiçaria que já não foi alcançada pela arte? Ela conduziu um bilhão para a luz e assassinou outro bilhão. Se o nosso objetivo é o desenvolvimento do poder e das habilidades ocultas, não poderíamos ter um meio mais produtivo e poderoso do que a arte para chegarmos lá. A arte pode não fazer sua vassoura ter vida própria e fazer uma faxina para você... mas tampouco poderia a magia, em todo caso... no entanto, simplesmente por haver imaginado a cena, Walt Disney ganhou dinheiro mais do que suficiente para pagar alguém para que cuidasse disso em seu lugar. E ainda sobrou o suficiente para guardar sua cabeça neste enorme cubo de gelo marcado por hieróglifos nalgum lugar abaixo do Magic Kingdom. Isso, certamente, é toda a implacável influência satânica que qualquer um, são ou louco, poderia pedir [Moore se refere a uma provável lenda urbana, difícil dizer se está sendo irônico ou não].

Ao reclamar a magia como A Arte, nua e furiosa numa selva de Rousseau sem nenhuma cabana, é provável que os apreensivos pela preposição sejam aqueles que se sintam desprivilegiados pela ideia, aqueles que suspeitam que a sua oferta artística está aquém da tarefa dada. Tais temores, embora compreensíveis, não podem estar ao lado da imagem heroica, destemida, que muitos ocultistas têm de si mesmo. Será que não há realmente nada, nenhum artesanato ou ofício, que eles não possam usar para implementar sua magia? Eles não têm nenhum talento que possa ser usado de forma criativa e mágica, seja para a matemática, a dança, os sonhos, o toque de tambor, a comédia stand-up, o strip-tease, o grafite, o encantamento de cobras, as demonstrações científicas, ou mesmo para serrar vacas perfeitamente ao meio, ou esculpir bustos assustadoramente realistas dos monarcas europeus a partir de suas próprias fezes? Ou, tipo, qualquer coisa? Mesmo que tais habilidades não sejam hoje abundantes ou evidentes, tais almas tímidas não poderiam imaginar que a capacidade para algum trabalho honesto precisa ser primeiro desenvolvida para depois ser aplicada para algo de útil? O trabalho duro não deveria ser um conceito totalmente estrangeiro para o Mago. E não é nem mesmo A Grande Obra que nós estamos necessariamente discutindo aqui, é apenas a Obra Boa-Mas-Nem-Tanto-Assim. Algo muito mais atingível. Se até mesmo isso soa muito difícil e trabalhoso, você pode sempre tornar a aquisição de talento artístico profundo e a conquista do sucesso o desejo mais íntimo do seu coração e então simplesmente bater uma para um sigilo. Aparentemente, nunca falha. Então, qual a desculpa que alguém teria para não abraçar a arte como magia, e a magia como A Arte? Se você é, por qualquer razão, realmente incapaz de ter alguma criatividade, hoje ou sempre, então você tem realmente certeza que a magia é o campo certo para você? Apesar de tudo, as redes de fast-food estão sempre contratando. Em dez anos você poderia se tornar um gerente.

Ao compreender a arte como magia, ao conceber caneta ou pincel como varinha mágica, nós então devolvemos ao mago seus poderes xamânicos originais e a sua importância social, damos de volta ao ocultismo tanto um produto quanto um sentido. Quem sabe? Pode ser que ao implementarmos tal mudança terminemos por remover toda a nossa necessidade egóica de encantos e maldições , nossa magia superficial. Se formos realizados e prolíficos em nossa arte, talvez os deuses se preparem para nos enviar vales postais substanciais a cada semana, sem que nós sequer peçamos. Nos assuntos sexuais e românticos, como artistas nós nos sairíamos tão bem quanto Picasso. Mulheres e homens e animais se ofereceriam nus aos nossos pés. Já acerca da destruição de nossos inimigos, nós simplesmente não nos incomodaríamos de chamá-los para nossas celebrações e inaugurações, e eles simplesmente morreriam, com o tempo.

Este re-imaginar da magia como A Arte poderia beneficiar claramente o mundo ocultista em geral e o mago individual em particular, mas não esqueçamos o fato de que ele também poderia beneficiar as artes. É preciso ser dito que a cultura de massa [mainstream]  moderna, em grande parte e sob a maioria das perspectivas civilizadas, é um balde plástico cheio de doença. Os artistas de nosso tempo (admitidamente, com algumas notáveis exceções) parecem ter a única intenção de refletir adiante o vazio e a consequente obsessão com a mera superficialidade que nós também achamos nos líderes e governantes de nossa era. Apenas um ou dois anos atrás, a retrospectiva de Blake na antiga Tate Gallery despertou nos críticos mordazes comparações com os artistas britânicos habitando atualmente um bairro descolado, destacando que a geração moderna de visionários se torna um tanto pálida quanto comparada com a sua luz. A “loucura” estudada e autoconsciente de Tracey Emin [artista multimídia britânica; Moore continua citando outros artistas contemporâneos a seguir] se torna domesticada ao lado da loucura santificada de Blake. Damien Hirst é chocante numa maneira superficial, mas não chocante ao ponto de ter prestado juramentos de lealdade, ou de ter de lidar com turbas de inquisidores ou julgamentos de sedição. As contribuições dos irmãos Chapman [Jake e Dinos] para o Apocalipse (a exposição, não a situação no Iraque) não são de forma alguma uma revelação. William Blake poderia tirar um apocalipse muito superior da bunda de uma escultura de um dragão vermelho sem nem pensar muito no assunto. O mundo da arte moderna hoje lida com itens de conceito sofisticado, como os campos da publicidade. Ele parece sofrer de certo problema de visão, se é que pode ainda ver alguma coisa, e oferece muito pouco para o caminho de sustentação da cultura em sua volta, que tem fome o suficiente para uma refeição decente, agora mesmo. A reafirmação da magia como arte não poderia prover a inspiração, emprestar a visão e a substância que estão tão claramente em falta no mundo da arte nos dias atuais? Tal infusão de alma não permitiria que a arte vivesse para o seu propósito, a sua missão, de insistir para que a voz humana interior e subjetiva seja efetivamente ouvida na cultura, no governo, e em todos os grandes palcos do mundo? Ou deveríamos nos sentar e esperar que os intelectos super-humanos de Sirius ou a vassoura mágica de Disney ou o próprio Aeon de Horus finalmente cheguem e resolvam toda essa confusão para nós?

Uma união produtiva, uma síntese da arte e da magia propagadas numa cultura, um meio ambiente, uma paisagem mágica sem os muros dos templos e os móveis antigos que todos ignoravam em todo caso. Encenado entre as samambaias ornamentais e o vapor púrpura de uma reestabelecida biosfera ocultista, essa conjunção apaixonada de duas faculdades humanas certamente constituiria um Casamento Alquímico em que, se formos sortudos e as coisas saírem completamente de controle na Recepção Alquímica, poderá precipitar uma Orgia Alquímica, um incidente, uma explosão turbulenta de impulsos criativos, uma copulação astral de ideias resultando em múltiplos nascimentos de quimeras e monstros radiantes. Ferozes centauros conceituais com suas patas de perfume e cabeças de música. Noções sereiantes, oscilantes filmes mudos que são arquitetura da cintura para baixo. Esfinges de gênero e mantícoras de estilo. Mutações desconhecidas e jamais sonhadas, formas de novelas copulando e se adaptando rápido o suficiente para acompanhar o mundo atual, agindo mais como formas de vida, como fauna e flora, proliferando em nossa projetada selva mágica. Esta possível liberação de energia de fusão tornada possível quando esses dois massivos elementos de nossa cultura, a magia e a arte, são levados a uma proximidade dinâmica o suficiente, poderá inundar nossa selva de luz faérica, e até mesmo ajudar a iluminar este pântano de cultura de massa [mainstream] em que estamos todos atolados.

Nada nos impede de nos livramos dos compassos e dos freios, das rodas de treinamento que têm retardado o progresso da magia por tanto tempo que o musgo já cobriu tanto as linhas férreas quando os sinalizadores de desvios. Nada pode nos impedir, caso tenhamos vontade, de redefinir a magia como uma forma de arte, como algo vital e progressivo. Algo que, em sua habilidade de lidar com o nosso mundo interior em vias de utilidade realmente demonstráveis, pode efetivamente ajudar as pessoas comuns, com seus mundos internos sendo usurpados cada vez mais por um exterior tirânico, colonialista, cujo objetivo é extrair até a última gota dos seus sonhos, da sua alegria ou automotivação. Se assim nos decidirmos, poderíamos restaurar a magia a sua potência, um propósito que mal foi tocado nos últimos quatrocentos anos. Caso estivermos preparados para assumir a responsabilidade desse empreendimento então o mundo poderá assistir novamente aos grandiosos e terríveis magos que, fora dos meigos e inofensivos livros para crianças ou dos filmes com orçamentos obscenos e extravagantes, ele tão somente se direcionou a esquecer. Pode ser arguido que neste momento angustiante de nossa situação humana as perspectivas mágicas não são apenas relevantes, mas necessárias e indispensáveis caso desejemos sobreviver com nossas mentes e personalidades intactas. Ao redefinir o termo “magia” poderíamos uma vez mais confrontar as perversidades e trevas mundanas com o nosso método preferido, honrado por sua ancestralidade: com uma palavra.

Faça com que a palavra “magia” signifique algo novamente, algo digno do nome, algo que, como uma definição de tudo o que é mágico, o deixaria encantado quando você tinha seis anos; ou quando tiver setenta. Caso alcancemos tal conquista, caso consigamos reinventar nossa arte assustadora, selvagem e fabulosa para estes novos tempos assustadores, selvagens e fabulosos pelo qual caminhamos, então poderemos oferecer ao ocultismo um futuro muito mais glorioso, transbordante de aventura, do que jamais pensamos ou desejamos que o seu passado fabuloso pudesse ter sido. A humanidade, trancada nesta penitenciária de um mundo material que temos construído para nós mesmos por séculos, talvez nunca tenha necessitado mais da chave, do bolo com uma serra oculta, do perdão de última hora do governo que a magia representa. Com suas religiões de pedófilos e os seus fundamentalistas dementes, com suas eminências farsantes e seus demagogos mais desavergonhados em atingir suas vis ambições do que jamais foi visto, a sociedade contemporânea, seja no leste ou oeste, parece ter imensa carência de um centro moral e espiritual, parece ter carência até mesmo da mais ínfima pretensão de algo parecido. A ciência que sustenta a sociedade, cada vez mais, em suas mais remotas fronteiras quânticas, descobre que precisa recorrer à terminologia da cabala ou da literatura sufi para afirmar adequadamente o que agora sabe sobre nossas origens cósmicas. Em todas as suas muitas áreas e compartimentos, todos os seus campos dispersos, o mundo parece estar praticamente gritando para que o numinoso venha e o resgate dessa frenética cultura material que nada mais fez do que comê-lo inteiro e cagá-lo através de uma peneira. E onde está a magia, enquanto tudo isso vem acontecendo?

Está tentando forçar nosso namorado a voltar para nós. Está esfregando dinheiro para afastar nossa dívida no cartão de crédito, tentando dar àquele babaca que fugiu com nossa ex-mulher algo terminal. Está garantindo que festas do pijama com o tema Teen Witch corram bem. Está colocando insignificantes pessoas New Age em contato com seus insignificantes anjos New Age, e elas estão todas dizendo, tipo, “De jeito nenhum”, e os anjos estão dizendo, tipo, “Tanto faz”. Está atendendo a todos os nossos repetidos rituais com o entusiasmo que um patrocinador vem assistir à peça The Mouse Trap pela centésima sétima vez. Ela gasta os finais de semana tentando ler nossos péssimos sigilos debaixo da obscurecedora camada de giz, e em retaliação somente nos coloca em contato com entidades capengas, Elohim do serviço comunitário que tagarelam como cientologistas bebuns e nunca fazem um tiquinho de senso. Está no escritório de marcas registradas, registrando selos mágicos. Está lidando com uma agência de encontros que representa nossa única chance de alguma vez conhecer uma estranha buceta gótica. Está conseguindo pra nós uma oferta melhor naquele Renault novo, ajudando a prolongar a miserável vida de nosso cego e incontinente cachorrinho Gandalf, fazendo networking como louco pra garantir os diretos daquele Tarot de Hogwarts do Harry Potter. Ainda está tentando resolver o congestionamento resultante do Aeon de Horus ter furado através do canteiro central e invadido a pista sentido sul, sendo atingido de frente pelo Aeon de Maat, que derramou sua carga de penas pretas no acostamento. Não tem certeza se a ketamina foi realmente uma boa ideia. Está sentada olhando nervosa para mil estantes de livros desde entrevistas com necrófilos sobre estilo de vida e retrospectivas de moda na família Manson. Está aparecendo em celebrações neo-nazistas perto de Dusseldorf. Está se perguntando se deve introduzir uma política de “não pergunte, não conte” com relação ao 11º Grau. Está aconselhando Cherie Blair sobre tachinhas de acupuntura, e Islington inteira sobre Feng Sui. Colocou piercing no pênis numa tentativa de chocar seus pais classe média dos Home Counties, que estão mortos há dez anos, de qualquer maneira. Ela queria ser David Blaine. Ela queria ser Buffy. Ou, bem francamente, qualquer um.

Poderíamos, se desejássemos, ter as coisas de outra maneira. Ao invés de uma magia que está em servidão com um passado de ouro ingenuamente imaginado, ou ainda em romance com um futuro lugubremente fantasiado de parque temático do Deus Ancião, poderíamos tentar ao invés disso uma magia adequada e relevante à sua própria e extraordinária época. Poderíamos, se assim decidíssemos, garantir que o atual ocultismo seja lembrado como o auge de uma fanfarra ao invés de um suspiro decadente; um balbuciar moribundo e envergonhado; nem mesmo uma lamúria. Poderíamos transformar este terreno árido em um abundante paraíso, um trópico onde cada pensamento poderia florescer como arte. Sob o altar está o estúdio, a praia. Poderíamos insistir nisso, fôssemos verdadeiramente quem dizemos que somos. Poderíamos atingir isso não rabiscando sigilos, mas compondo histórias, pinturas, sinfonias. Poderíamos permitir que nossa arte espalhasse suas asas de escaravelho psicodélico em toda sociedade mais uma vez, e talvez ao fazê-lo, deixar que alguma luz ou graça caia sobre aquele dolorido e obscuro organismo. Poderíamos ser refeitos em nosso ninho fresco, permanecer reinventados num verdadeiro alvorecer de nossa Arte dentro de um mundo matinal, com nossa tinta ainda fresca, recém saídos do ovo e com nossos olhos ainda avermelhados no Éden. Recém-nascidos na Criação.

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Crédito da imagem: Google Image Search/lexprojects.com (Alan Moore, The Great I Am)

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