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23.12.10

Passagem

Este poema em homenagem ao passar dos anos e dos dias e dos momentos desapercebidos...

I.

Hoje estar melhor do que ontem
Que dias vem e dias vão
Iguais jamais serão
E a força que a tudo mantém
Nesse tempo a passar em vai e vem
Desponta no horizonte dessa imensidão

Já o futuro é brisa que não soprou
Eu posso esperar o amanhã chegar
Como quem caminha dentre flores
Saboreando a fragrância de seus amores
Percebendo a eternidade passar
Sem se importar com o que não chegou

Aqui há tanto para conhecer
Do que há dentro de mim
Do que há lá fora na varanda:
O sol que nasce para o ser
E no ocaso do entardecer
Rega com luz nosso jardim

E se acaso alguém lhe disser
Para apertar a caminhada
Para chegar ao céu mais cedo
Responda que seus passos são curtos
Que ainda há muito pelo que passar
Nessa viagem eterna de seres e luz
De gente a aprender a amar
Não há do que se ter medo
Não há lugar a se guardar

II.

Nada há
Que não a harmonia da passagem...

III.

À noite a lua nos conduz
Por tais campos elísios
Na ante-sala do infinito
Nosso anfitrião em silêncio
Nos diz o que devia ser dito
E então percebemos em paz
Que só nos resta aguardar
Pois que em sua casa
Há só este modo de entrar:

As mãos dadas
Os corações entrelaçados
As almas irmanadas
As ilusões em desencanto
As mentes a recordar
Da época em que nos encontramos
Sim! Sim meus irmãos
Nós mal começamos...

raph'10

***

Crédito da foto: Alfredo Mascarenhas

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15.12.10

O homem em sua unicidade

Texto de Rabindranath Tagore [1] em "A morada da paz” (Ed. Verus) – pgs. 129 a 132. Tradução de Ivo Storniolo.

No plano material, existe um parentesco de natureza entre os objetos deste mundo e nós mesmos. Partilhamos uma mesma textura fundamental com o pó dos caminhos, assim como com as pedras e os vegetais, os animais e a humanidade inteira. Todavia, no nível em que nosso ser de verdade intervém em sua unicidade, essa semifusão entre tudo e todos desaparece.

Nossa individualidade eterna, que pressentimos com nosso Eu, por trás de nosso pequeno eu limitado, não tem igual no universo. Na Criação infinita, cada Eu é uma criação sem precedentes; ele é Eu apenas, Eu sem igual, Eu sem termo de comparação. Apenas o mundo de nosso Eu nos pertence como próprio, e a ninguém mais é dado, senão à pessoa regenerada, penetrar em sua morada, na qual reside, a seu lado, o deus que a anima.

Com efeito, ó meu Deus, nosso Eu único, nosso Eu diferente de qualquer outro, abriga uma parcela igualmente única, perfeitamente individualizada, de ti mesmo, manifestada em tua Total-Felicidade. E jamais, em nenhum tempo, em nenhum lugar, escolheste duas expressões idênticas de tua Personalidade infinita. Assim, aquele que chamamos de Eu se verifica ser, na verdade, uma aspecto bem definido, totalmente distinto, do Jogo eterno de ti contigo mesmo. Nele, nosso pequeno eu deve aprender a se religar integralmente a ti. Desse modo, Eu e eu se tornarão um no coração do Uno.

Que nosso nascimento sobre a terra possa permitir a essa parcela da Alegria divina, que é nosso Eu, expressar com toda a consistência a grandeza, a pureza, a harmonia e a beleza que ele traz em si. Possa este ser que somos na verdade, na sequência sem fim das existências, realizar nesta vida terrestre a finalidade para a qual se encarnou.

No decorrer das eras, tu deste forma ao nosso Eu em sua unicidade. Tu mesmo o guiaste por entre sóis e luas, planetas e estrelas, e velaste para que sua identidade jamais se confundisse com qualquer outra. Desde o instante em que os primeiros elementos que o constituem jorraram de uma fonte de sutil luminosidade, no coração de alguma nebulosa transcendente, tu o conduziste, alimentaste, de mutação em mutação, de finalidade em finalidade, até que ele eclodisse em uma forma humana.

Nosso Eu, teu companheiro de sempre, cresce hoje em nosso corpo de matéria. Desde a origem dos tempos, tu lhe traças, através de toda a Criação, uma caminho que lhe é próprio, em que ele progride sem fim junto de ti. Esse “Ti” é seu Guia eterno, seu Amigo sem igual sobre os caminhos do Infinito. Possamos, Senhor, no decorrer desta existência cá embaixo, te reconhecer nesse Amigo incomparável.

Permite que jamais concedamos a nenhum ser, a nenhuma coisa, igual ou maior valor que à tua Presença em nosso coração. Permite igualmente que de modo nenhum deixemos predominar em nós o aspecto material biológico de nosso ser, pouco distinto das árvores, das plantas e dos animais de qualquer espécie. Atribuir a primazia a essa faceta de nós mesmos é uma tentação fácil, uma vez que temos em comum, com toda a forma de vida vegetal ou animal, igual necessidade de alimento, de ar e de água, pois a mesma vontade de sobreviver nos habita, e nos defrontamos juntos com os mesmos perigos e os mesmos tormentos. Também devemos pedir para que as necessidades de ordem física e material não cheguem a preencher nosso campo de consciência, a ponto de expulsar dela toda a percepção de nosso Amigo secreto – nosso Guia de todos os tempos –, que, sob forma individualizada, manifesta o Divino em nosso ser por meio de um toque, de um modo de ação, de uma felicidade – que lhe são absolutamente próprios.

Nos planos em que nos sentimos parte integrante da Criação material, nós te respeitamos, Senhor, enquanto Senhor deste mundo. Nós nos esforçamos para seguir tua Lei, porque, se a infringirmos, consequências se seguirão, e as consideraremos como castigo vindo de ti. Mas, onde existimos em nossa unicidade, procuraremos te conhecer como nosso Todo.

No nível do Eu, nos quiseste livres, porque, se assim não fosse, teu Amor não produziria frutos, e teu desejo de união e tua alegria de ser permaneceriam sem eco. Por conseguinte, o Eu, assim dotado de livre-arbítrio, só encontra tua razão de ser na plenitude de uma total comunhão contigo. É por isso que a mais intolerável angústia, nas regiões do ser que ela rege, é a de não sentir tua Presença; aí se encontra a angústia inerente ao pequeno eu. E a mais completa felicidade consiste em estar conscientemente ligado a ti; aí se encontra a felicidade que nasce do Amor realizado.

Como pôr fim à dor do eu que não se sente unido a ti? Para chegar a isso, o Buda se entregou a terríveis austeridades, e, para revelar a todos como se pode dissipar o mal da separação, Cristo deu sua vida.

Ó tu, que, mais que qualquer filho de nossa carne, és o Amado de nossa alma, tu, inconscientemente amado nas zonas invioladas de nossa personalidade terrestre, ó tu, que és a essência de todo ser e de toda coisa, é em tua Presença, na morada de nossa individualidade sem igual, que o Jogo de Ti contigo mesmo encontre sua plena realização. Contudo, enquanto não se realizar a união entre ti e nós, reinará cá embaixo um inevitável sofrimento, que parecerá se extinguir apenas para imediatamente renascer. E a morte não poupa nada nem ninguém, embora as Forças da imortalidade tentem, sem cessar, penetrar em suas camadas obscuras, a fim de iluminá-las para sempre. Senhor, por todo o tempo em que subsistir essa cisão entre ti e a consciência humana, tua Manifestação cá embaixo assumirá inevitavelmente um caráter dualista: o da dor e o da alegria, da separação e da união, da morte e da imortalidade. Contudo, todo aquele que te reconhece e te aceita, sem reservas, sob tua dupla face, chega a se tornar um contigo e pode, finalmente, exclamar: “Tudo se realizou! Nada mais tenho a desejar”.

***

[1] Poeta, filósofo, músico, pintor, escritor, e um dos grandes mestres espirituais da Índia dos séculos passado e retrasado, Tagore foi o primeiro ganhador não europeu do prêmio Nobel de literatura (em 1913, por Gitanjali). Também foi quem chamou a Gandhi de Mahatma (Grande Alma). O livro do qual foi retirada esta passagem é ele mesmo apenas uma pequena parte do Santiniketan, um conjunto de mensagens decorrentes das palestras matinais que Tagore proferia em sua universidade (fundada por ele próprio, ele foi também um assíduo contribuidor da educação e cultura de seu povo).
Eu geralmente trago comentários próprios para textos de outros autores, mas em alguns deles simplesmente não há o que acrescentar, e este certamente é um deles. Para quem acompanha este blog há algum tempo, perceberá que este texto resume vários conceitos que tenho desenvolvido aqui ao longo dos anos. Prestem atenção, particularmente, aos trechos que marquei em itálico... Tagore não traz nada de novo, apenas um entendiemento mais aprofundado daquilo que já era conhecido por qualquer espiritualista, porisso mesmo este é o tipo de texto que vale a pena ser relido na medida em que vamos adentrando mais e mais no Caminho.

» Veja mais posts sobre Tagore neste blog

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Crédito da foto: Wikipedia (Tagore recebe Gandhi e sua esposa em sua universidade. Foto tirada em 1940)

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14.12.10

Pai Nosso em aramaico

Há alguns anos, começaram a ser divulgadas na internet algumas versões alternativas do que se intitula ser o diálogo do Pai Nosso na língua aramaica. Em verdade são mais interpretações, ou "traduções livres" (porque não dizer, também inspiradas e criativas), do que traduções acadêmicas.

Por outro lado, o aramaico tem uma peculiaridade: nesse idioma, cada "palavra" é formada pela junção de diversos símbolos. Ou seja, cada palavra é formada de outras palavras. Pode-se fazer uma tradução simples, ou buscar "as palavras que formam" cada palavra, buscando as origens, o "fundo" da mensagem. O interessante é que talvez Jesus quisesse exatamente que cada um buscasse o "fundo" de sua oração, e não ficasse preso há uma única interpretação (que aliás hoje já é arcaica). Lembremos também que Jesus falava aramaico, mas a Bíblia originalmente teve o grego como língua-base.

Eu mesmo já havia postado no blog minha interpretação do Pai Nosso há alguns anos, mas confesso que esta enviada pelo Samuel (amigo que a compartilhou nos comentários do blog) é bem mais bela e profunda do que a minha:


» Ver também esta outra versão no blog do Marcelo Del Debbio, aliás bem próxima desta acima.

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10.12.10

Frases (4)

Mais algumas frases minhas que lhes trago do meu twitter:

"Não existe maior passe de mágica do que algo surgir do nada sem uma causa."

"Não existe maior heresia do que ditar o que Deus deve fazer."

"Não existe maior ignorância do que a ignorância de si mesmo."

"A ciência será reformada no dia em que for capaz de armazenar 1 bit de pensamento em algum hard disk."

"A religião será reformada no dia que finalmente perceber que a igreja é todo o Cosmos."

"Oremos e sejamos gratos pela gravidade que nunca falhou, independente dos desejos e do conhecimento dos homens."

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Crédito da foto: H. Armstrong Roberts/ClassicStock/Corbis

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8.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 4

Continuando da parte 3

Substância – Princípio do ser, que é permanente, em oposição aos acidentes que mudam; A essência de algo; Qualquer espécie de matéria.

Há somente uma Substância

Um dos dogmas principais do cristianismo afirma que Jesus Cristo ressuscitou após três dias. O Novo Testamento nos conta que Maria Madalena foi o primeiro discípulo a ver Jesus ressuscitado. Conta também que tanto ela quanto outros discípulos a princípio se assustaram com sua aparição e somente após alguns momentos o reconheceram. Após algum tempo a notícia já se espalhava, mas um dos seguidores de Jesus, Tomé, não parecia crer nela – ele afirmou “que precisava ver para crer”.

A Bíblia diz que Jesus apareceu para Tomé e ainda permitiu que ele tocasse suas chagas... Carl Sagan admirava o ceticismo de Tomé, segundo ele este tipo de experiência – de ver, e tocar, para crer – deveria ser incentivada entre todos os religiosos. Já para os cristãos, Tomé sofria de falta de fé, e não havia nenhum mérito em seu ceticismo. Jesus chega a afirmar que “felizes são aqueles que creram sem ver” – de acordo com o Novo Testamento, é claro.

Ao contrário do que muitos céticos imaginam, há muitos religiosos que são extremamente materialistas. E não estou falando do materialismo no sentido do apego a bens materiais ou consumismo (este é um assunto para outro artigo), mas da necessidade básica que muitos deles têm de reafirmar a ressurreição da carne de Jesus, e jamais apenas de seu espírito.

Há muitos deles que tem verdadeiro asco de coisas fluidas e “imateriais”. Para eles, espíritos nada mais são que assombrações e/ou alucinações causadas por loucuras ou pela influência do próprio Diabo (e eles costumeiramente confundem as duas coisas). Poderíamos questionar o porque de apenas o Diabo ter tantos “poderes” de afetar diretamente nossa realidade, enquanto Deus “gastou” todos os seus milagres nos milênios anteriores – mas isso também seria assunto para outro artigo.

O que eu acho irônico é essa crença dogmática em corpos incorruptíveis, em seres que só podem retornar a vida ou se comunicar com aqueles ainda vivos na posse de um novo corpo, como num grande passe de mágica... Não pela crença em si, mas pelo fato de a grande maioria dos que creem nisso ignoram o fato de que a matéria é em todo caso intangível e invisível. Ora, Tomé não tocou nas chagas de Jesus e nem o viu a sua frente, ele apenas – supondo que o relato é real – sentiu a pressão dos elétrons se repelindo mutuamente (de sua mão e do corpo de Jesus) e percebeu os quantas de luz refletidos por seu corpo.

Tivessem eles conhecimento dos avanços da ciência moderna, se questionariam se existe assim tanta diferença entre um corpo e um espírito, ou por assim dizer entre um espírito encarnado em um corpo, e outro desencarnado. Sim, pois se eles já creem em tantas coisas jamais detectadas, o que custaria crer em seres não imateriais, mas compostos por matéria ainda desconhecida, conforme postulou Bahram Elahi?

Os espíritas, por exemplo, também são materialistas, apenas não compartilham dos mesmos dogmas de alguns cristãos. Vejamos a pergunta #82 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec: “É certo dizer que os espíritos são imateriais?” – Para surpresa de muitos, os próprios espíritos que ditavam as respostas para as jovens médiuns que auxiliavam o cientista francês trouxeram a seguinte resposta: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” Ora, hoje em dia talvez fosse possível fazer analogias mais próximas – “Matéria Escura” seria uma delas.

Entretanto, sé é muito custoso para os céticos e materialistas anti-subjetivos acreditarem que consciências possam existir longe de cérebros feitos da matéria que já conhecemos, que isso não seja uma barreira intransponível entre nós, espiritualistas, e eles...

Carl Sagan resume muito bem a questão em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios” – para alguns “a bíblia do ceticismo”:

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas.

Existam espíritos ou não, o primeiro espírito que precisamos conhecer é o nosso próprio, ainda que não passe de um efeito de nosso processo de consciência. Os primeiros cientistas na Grécia antiga, na Sicília e na ilha de Samos, já buscavam a Substância que dava origem e todas as outras – o fogo, a terra, o ar, a água? Tanto faz se estavam equivocados; Assim como Demócrito equivocou-se em sua abordagem dos átomos mas estava fundamentalmente correto em suas analogias, eles da mesma forma estavam... Todos chegaram a resultados errôneos, mas acertaram profundamente em sua busca.

Inspirado por tais sábios de outrora, o grande Benedito Espinosa chegou à conclusão definitiva em sua “Ética”: “uma substância não pode criar a si mesma” – Sim, tudo, tudo o que há, há de advir de uma única Substância, incriada, eterna, a que se opõe ao nada...

E ainda que tudo o que exista sejam “átomos e vazio” e que nossas vidas não passem de um breve lampejar de vela em noite de ventania, há espiritualidade suficiente na ideia de que estamos sim todos conectados, todos feitos das mesmas substâncias, filhos de fusões nucleares em sóis catapultados em uma imensidão que nem mesmo a luz pode dizer onde acaba.

Nós somos os filhos do horizonte, e nosso único e derradeiro pecado é ignorar tal necessidade de vislumbrar nossa essência uma vez mais – não como Tomé a apalpar as chagas do messias, mas como aqueles que perceberam tanto o mundo material quanto o espiritual, e não souberam dizer ao certo qual é o mais bonito.


Disse Jesus: se vocês disserem qual a vossa origem, dizei-lhes: viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem. Se vos disserem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso. (O Evangelho de Tomé [o Dídimo] – v.50)

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Crédito das imagens: [topo] Aidan McHae Thomson; [ao longo] Holger Spiering/Westend61/Corbis

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6.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 3

Continuando da parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

O limite do subjetivo

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro... Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência... Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade... Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista...

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[1] Por muito tempo o termo utilizado nesta série foi "materalismo subjetivo", somente meses depois da publicação inicial eu achei melhor usar o termo "materalismo anti-subjetivo" no lugar. No blog em geral, passei a usar o termo "materialismo eliminativo", não porque goste mais dele, mas porque tem sido o termo mais utilizado na linguagem comum.

Crédito da imagem: neurollero

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4.12.10

O pescador de almas

Então, após uma longa jornada de auto-conhecimento pelas terras orientais, o Mensageiro dos Céus chegou caminhando nos arredores de antigos povoados judeus, na costa do Mar da Galileia. Ficou surpreso ao ver que uma cidade romana estava a ser construída onde antes havia apenas uma aldeia de pescadores. Foi então que encontrou outro andarilho e teve com ele a seguinte conversa:

Mensageiro – Porque se erguem essas muradas em torno de Rakkat, meu amigo?

Andarilho – Herodes Antipas quis prestar uma homenagem ao imperador, eis que surge Tiberíades...

Mensageiro – Então este é o legado dos imperadores, muros de pedra a cercar antigas aldeias?

Andarilho – E não é este o legado da conquista e da brutalidade? Mas esperemos o dia que Jeová nos enviará um guerreiro para que possamos ser livres uma vez mais!

Mensageiro – E de que adianta derrubar muros com espadas, para logo após sermos forçados a reconstruí-los, para que outras espadas não os derrubem?

Andarilho – Deixaremos um legado de liberdade para nossos filhos.

Mensageiro – Liberdade? Mas quem com ferro fere, com ferro será ferido. Isso não é liberdade, mas escravidão... Antes ser escravo de Roma do que escravo da espada.

Andarilho – Você é estranho, estrangeiro. Como acha que devemos conquistar a liberdade, portanto?

Mensageiro – Primeiro, aprendemos a sobreviver, a caçar, a pescar, a plantar, e nos sustentar, e vemos que isso nos trouxe liberdade...

Andarilho – Sim, mas isso é óbvio, continue.

Mensageiro – Depois aprendemos a viver, a observar a natureza, a passagem dos dias, as brisas e as pequenas coisas do reino. Então percebemos que isso nos traz um outro tipo de liberdade, e pensamos em Deus.

Andarilho – Mas apenas pensar em Deus não basta. Precisamos orar para que Jeová nos envie logo o messias!

Mensageiro – Então aprendemos a morrer, e desvelamos o lado oculto das coisas do reino, e vivemos somente este momento sagrado, livres dos grilhões do passado e do futuro.

Andarilho – Mas essa liberdade é fajuta, não nos livra do grilhão de Roma...

Mensageiro – Você não percebe, meu amigo, que é exatamente o contrário? Mesmo os romanos, mesmo o imperador, todos estão presos dentro de si próprios, como aves enjauladas.

Andarilho – E como nos libertar, afinal?

Mensageiro – Após morrermos para nossa antiga vida, percebemos que não há realmente morte, e nos tornamos renascidos no reino de Deus. Em todo lugar onde víamos escuridão e morte, passamos a ver luz e renovação. E nenhuma murada conseguirá nos prender em nossa aldeia. E teremos liberdade para atravessar todos os muros e adentrar todos os corações!

Andarilho – Mas onde está essa liberdade? Onde encontrar tal reino?

Mensageiro – A liberdade está aqui e agora, na eternidade do ser. E o reino, se não estivesse aqui, em torno de nós, e dentro de nós, onde mais estaria?

O andarilho não sabia identificar completamente o conteúdo daquelas palavras recém pronunciadas, porém, não sabia ao certo dizer o porque, talvez a forma como foram ditas, talvez a liberdade que brotava dos olhos daquele homem a sua frente, talvez o sentimento de profunda paz que sentiu no momento – tudo contribuiu para que acreditasse no que o Mensageiro dizia, como se acredita que o Sol vai nascer novamente no dia seguinte...

Andarilho – Tu és algum sábio de terras distantes?

Mensageiro – Não, sou apenas um andarilho, como tu meu amigo.

Andarilho – Leva-me contigo, eu quero experimentar essa liberdade de que falas!

Mensageiro – Mas tu és um pescador?

Andarilho – Não, na verdade sou um rabino, tenho bastante conhecimento, mas jamais vi alguém falar como você. Poderia levá-lo para nossa sinagoga, tenho certeza que teria uma vida bem tranqüila por lá.

Mensageiro – Mas eu não procuro a tranqüilidade, em verdade eu vim trazer a inquietação e o conflito! Sinto não poder segui-lo meu amigo, mas meu Pai me disse que deveria procurar aprender mais com os pescadores, por agora...

Andarilho – Aprender com os pescadores? O que alguém como você teria a aprender com eles?

Mensageiro – Eu preciso me tornar um pescador de almas, preciso ser a rede arremessada ao mar, para que Ele possa nos puxar... Até a volta, meu amigo.


raph'10

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Este conto é uma continuação direta de "O rabi", e continua em "O unigido".

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Crédito da foto: Aliraza Khatri

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3.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 2

Continuando da parte 1

Fusão Nuclear - é o processo no qual dois ou mais núcleos atômicos se juntam e formam um outro núcleo de maior número atômico. A fusão nuclear requer muita energia para acontecer, e geralmente liberta muito mais energia que consome. Até o início do século XXI, o ser humano ainda não conseguiu encontrar uma forma de controlar a fusão nuclear como acontece com a fissão.

A maçã atômica

Conforme vínhamos dizendo, a filosofia de Demócrito não despertou tanto interesse, na época, quanto as de Pitágoras, Sócrates ou Platão. Mas coube a Aristóteles resgatar suas ideias décadas após sua morte.

Aristóteles dizia que o raciocínio que guiou Demócrito para afirmar a existência dos átomos foi o seguinte: o movimento pressupõe o vazio no qual a matéria se desloca, mas se a matéria se dividisse em partes sempre menores infinitamente no vazio, ela não teria consistência, nada poderia se formar porque nada poderia surgir da diluição sempre cada vez mais infinitamente profunda da matéria no vazio. Daí concluiu que, para explicar a existência do mundo tal como o conhecemos, a divisão da matéria não pode ser infinita, isto é, que há um limite indivisível, o átomo. "Há apenas átomos e vazio", disse ele. Observando um raio de sol que penetrou numa fresta de um recinto escuro, Demócrito viu partículas de poeira num movimento de turbilhão, levando-o à ideia de que os átomos (os indivisíveis da matéria) se comportariam da mesma maneira, colidindo aleatoriamente, alguns se aglomerando, outros se dispersando, outros ainda nunca se juntando com outro átomo.

Talvez seja mais conveniente ilustrar o pensamento de Demócrito por seu experimento mental onde imaginamos cortar uma maçã com uma faca (claro, o experimento não necessariamente precisa ser apenas mental, mas em sua época só era possível visualizar aos átomos através da imaginação pura – guardem isso):

“Quando cortamos a maçã” – afirmou Demócrito – “a faca deve passar pelos espaços vazios entre os átomos. Se não houvessem tais lacunas, então a faca iria encontrar algum átomo impenetrável, e a maçã não seria cortada. Em uma escala muito pequena, a matéria exibe uma aspereza irredutível – o mundo dos átomos.” Segundo Carl Sagan, os argumentos de Demócrito não são os mesmos que usamos hoje, mas são elegantes, sutis, e derivados da experiência do dia a dia, a observação da natureza – suas conclusões estavam fundamentalmente certas.

Para Demócrito, nada ocorria aleatoriamente, tudo advinha de alguma causa material. Ele sabiamente afirmava “que preferia conhecer uma causa do que ser o rei da Pérsia.” Ele acreditava que a pobreza em uma democracia era muito melhor do que a riqueza em uma tirania. Foi essencialmente um livre-pensador, um observador meticuloso da natureza.

O atomismo foi essencial para o desenvolvimento da física ao longo da história da ciência, mas hoje se sabe que os átomos são muito, muito menores do que poeira flutuando num facho de luz, ou pequeníssimas lascas de poupa de maçã... Os átomos são constituídos por um núcleo de prótons e nêutrons com elétrons girando ao redor, porém mesmo estas partículas ainda são constituídas de grupamentos de partículas ainda menores, os quarks. Atualmente os quarks são o limite do “muito pequeno” observável por instrumentos, mas através de elegantes teorias matemáticas os físicos postulam que as menores unidades materiais podem ser cordas cuja vibração produziria partículas de maior ou menor massa – mas isso já é uma outra história.

Demócrito estava fundamentalmente correto quando postulava sobre a quantidade de vazio que existe entre os átomos, mas certamente não pôde vislumbrá-la em toda sua magnitude... Para se ter uma ideia básica, consideremos o hidrogênio, o elemento mais abundante do universo. A maior parte dos átomos de hidrogênio é bem simples: um único próton com um único elétron girando ao redor (é também o único elemento que não necessariamente possuí nêutrons). Caso o núcleo do hidrogênio fosse do tamanho aproximado de uma maçã, o elétron a orbitá-lo estaria vagando a cerca de 3Km de distância... Isso demonstra um universo bastante vazio!

Mas não para por aí: felizmente os elétrons jamais se chocam na natureza, a não ser em condições extremas como no núcleo das estrelas... Graças a força de repulsão eletroestática, os elétrons não se chocam (como quando aproximamos dois imãs de mesma carga). Não fosse por isso, ao cortarmos maçãs ou apertarmos a mão uns dos outros, causaríamos verdadeiros incidentes nucleares com a fusão nuclear de nossos átomos...

Se tudo que existe é, de fato, átomos e vazio, consideremos quão bizarro é este mundo onde seres constituídos de átomos deslizam para cá e para lá, e julgam estar caminhando, tocando o solo; e julgam estar realmente tocando a água ao mergulharem no mar; e julgam realmente estar tocando uns aos outros nas relações sexuais... Não, toda a matéria é intangível, e tudo o que há são átomos a deslizar em turbilhão pelo vazio infinito.

Mas e o que isso tudo tem a ver com nossa questão em relação ao materialismo? Ora, é muito comum vermos seres ignorantes responderem abruptamente quando afirmamos, enquanto espiritualistas, que não somos materialistas – eles dizem mais ou menos assim:

“Ora, então você não crê na matéria? Então vá chutar uma parede para ver se a sua perna não te convence!” – Como se o mero ato de caminhar contra o vento já não provasse algo semelhante... Ou ainda, de fato, o mero fato de estarmos aqui inteiros, sem termos explodido em uma reação nuclear, levando conosco boa parte de nossa cidade (a bomba de Hiroshima tinha apenas 0,6g de urânio enriquecido).

O que ocorre é essencialmente uma confusão de nomenclaturas e conceitos, o que, aliás, parece ser a principal razão das discussões inúteis no ramo da filosofia, da ciência ou mesmo da religião... De fato, todos somos materialistas, no sentido de crer em átomos, ah não ser talvez os mais alienados ou alucinados. Há mesmo muitos religiosos que são extremamente materialistas. Mas, então, que espécie de materialismo se opõe ao espiritualismo?

Para responder essa pergunta, primeiro teremos de analisar a grande aposta do materialismo científico...

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Crédito da imagem: Igor Kostin/Sygma/Corbis (maçãs contaminadas por radiação em Chernobyl)

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O poder do mito

"O poder do mito" é uma inebriante entrevista com Joseph Campbell - um dos maiores pesquisadores de mitologia do século XX -, conduzida pelo jornalista Bill Moyers na aclamada série da PBS nos EUA, transmitida para o mundo inteiro e aqui no Brasil pela TV Cultura. Ela foi lançada em DVD pela Log on Editora Multimidia, mas também temos os vídeos disponíveis online:

Este vídeo, com legendas em português, nos traz apenas a primeira entrevista, intitulada "A mensagem do mito" (ao todo são 6 entrevistas com aprox. 1h cada); Para ver as outras 5 entrevistas, clique nos links abaixo:

» Entrevista 2: "A saga do herói"

» Entrevista 3: "Os primeiros contadores de histórias"

» Entrevista 4: "Sacrifício e felicidade" (*)

» Entrevista 5: "O amor e a Deusa"

» Entrevista 6: "As máscaras da eternidade"

Obs: Os vídeos costumam sair do ar de tempos em tempos, por questões de copyright. Tento manter todos os links atualizados, mas ultimamente tem sido difícil achar os vídeos disponíveis no YouTube ou Vimeo...

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(*) Esta inicia-se com um texto particularmente espetacular, um dos mais belos da humanidade, retirado da famosa Carta do Chefe Seattle ao Presidente em Washington

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2.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 1

A matéria (do latim: materia) é aquilo que existe, aquilo que forma as coisas e que pode ser observado como tal; é sempre constituída de partículas elementares com massa não-nula (como os átomos, e em escala menor, os prótons, nêutrons e elétrons).

A descoberta do invisível

Empédocles foi um filósofo pré-socrático que viveu na atual região da Sicília, entre 490 e 430 a.C.; Também foi médico, legislador e místico. Aproximadamente 2460 anos antes de Darwin e Wallace, já postulava que “os seres evoluíram da água por processos naturais” e que “sobrevive aquele que está mais bem capacitado”. Empédocles viveu em uma era onde os sábios ou filósofos eram ao mesmo tempo religiosos e cientistas.

Por exemplo, ele defendia que o universo era mantido por suas forças fundamentais: o Amor unia os elementos e o Ódio os separava. Esse tipo de nomenclatura pode afugentar os cientistas atuais (bastaria substituir o termo “amor” por “gravidade” para, quem sabe, mudarem de ideia), mas os bem informados saberão que a própria ciência deve muito aos pensadores daquela época. Ao contrário de Pitágoras, Empédocles não achava que a natureza poderia ser desvendada apenas pelo pensamento ou pelo estudo místico dos números. Ele era, portanto, um místico observador...

De fato, um dos primeiros experimentos científicos de que se tem notícia foi realizado por Empédocles com um instrumento de cozinha bastante simples – o ladrão de água. Tratava-se de uma espécie de esfera de latão com perfurações de um lado e um longo cano fino no lado inverso. É usado até os dias de hoje, mas mesmo em sua época já vinha sendo usado há muito tempo. Basta imergir a esfera em qualquer balde com água, segurando-a pelo cano e sem tapa-lo, e depois retirar da água tapando o orifício do cano com o dedão – enquanto mantemos o cano tapado, a água da esfera não sai, mas quando retiramos o dedo do cano, ela vira uma espécie de regador e respinga a água para fora por suas pequenas perfurações.

Ora, muita gente deve ter inserido a esfera na água com o cano tapado, por engano, e percebido que nenhuma água havia sido “roubada” do balde pelo ladrão de água... Para praticamente todos isso não tinha nenhum significado oculto ou profundo, mas nas mãos do cientista isso era de uma significância até mesmo aterradora – se não havia “nada” dentro do ladrão de água, se ele estava sem água alguma, como pôde a água do balde não conseguir adentrá-lo apenas porque pressionamos a ponta do cano com os dedos? A única explicação era que o próprio ar ocupava aquele espaço!

Empédocles havia descoberto o invisível. “O ar” – pensou ele – “deve ser matéria em uma forma tão divinamente dividida que não podia ser vista”. Certamente os antigos já consideravam o ar um dos elementos básicos da criação, e Empédocles partilhava dessa crença. Porém, talvez para eles o ar fosse o elemento visto nas nuvens ou sentido nas ventanias e mesmo nas brisas sutis... Mas certamente ninguém havia concebido que o ar ocupava espaço, que preenchia o aparente vazio entre nós e os móveis de nossa casa, ou a árvore do outro lado da estrada. Empédocles havia provado a existência do ar através da observação da natureza, algo que não poderia ser feito somente com a mente, ou com os números.

Toda a ciência moderna se baseia naquilo que pode ser percebido ou diretamente pelos olhos, como um utensílio de cozinha ou uma árvore, ou através de instrumentos, como ondas de rádio ou galáxias distantes. A ciência moderna não considera aquilo que é percebido apenas pela mente, dentre outras coisas porque normalmente não é uma experiência que pode ser percebida por mais de uma pessoa – ou seja, geralmente não é um experimento replicável. Por isso costuma-se pensar que todo cientista é uma materialista, mas isso faz sentido?

O termo “materialismo” só foi cunhado em torno de 1702 pelo filósofo alemão Leibiniz, mas seu conceito está diretamente relacionado ao atomismo, que nada mais é do que um desenvolvimento das ideias de Empédocles por um filósofo que, apesar de ter vivido na mesma época de Sócrates, está “historicamente agrupado” também entre os pré-socráticos: Demócrito.

Nascido em 460 a.C. na região da Trácia, Demócrito foi um discípulo de Leucipo de Mileto, e depois seu sucessor. É considerado por alguns “o pai da ciência moderna” pelo desenvolvimento do atomismo, mas há quem afirme que ele apenas continuou o trabalho de Leucipo, inspirado pelo pensamento de Empédocles. Em todo caso, nenhuma obra original de Demócrito sobreviveu até a modernidade, o que se sabe sobre ele é, sobretudo, o que outros pensadores de sua época disseram a seu respeito. Dizem que Platão o detestava, por exemplo, e que gostaria que seus livros fossem queimados, mas isso é provavelmente apenas uma anedota que procura demonstrar como o atomismo era, de certa forma, o oposto do idealismo platônico.

Outra anedota talvez seja mais realista, e conta que Demócrito dizia que “o riso torna sábio”, além de retratá-lo como alguém que costumava levar a vida com muito bom humor e gargalhadas ocasionais – “a vida sem festas ocasionais é como uma longa estrada sem estalagens pelo caminho”. Por essas e outras, ficou conhecido na Renascença como “o filósofo que ri”... Mas certamente os partidários do idealismo e particularmente do cristianismo não partilharam de seu bom humor: relegaram sua obra a um ínfimo “rodapé histórico”, uma espécie de filosofia apócrifa.

Mas com o renascimento da ciência, seu pensamento voltou à tona e, apesar de termos apenas pequenas referências de sua obra, sabemos que ele estava fundamentalmente correto quando defendia que “tudo é feito de átomos”. Apenas não pôde vislumbrar o quão profundamente sagrados eram tais átomos.

Na continuação, como cortar uma maçã sem causar um incidente nuclear...

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Democritus, por Hendrick ter Brugghen); [ao longo] Imagem retirada do episódio 7 da série de TV Cosmos, de Carl Sagan (eis o ladrão de água descrito no artigo).

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