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11.7.11

Involuções, parte 2

« continuando da parte 1

Segundo algumas teorias espiritualistas, a evolução física da vida na Terra reflete sua evolução espiritual: desde bactérias e insetos, passando por roedores e macacos, até o homo sapiens, princípios espirituais, sementes de consciência, vieram evoluindo e habitando corpos, aqui e ali, por todo o globo terrestre. Em biologia a palavra involução está associada à autólise, a morte celular. Não existe para a Natureza, até que se prove o contrário, algo como uma “involução das espécies”: existem mutações que eventualmente acarretam em pequenos ganhos na capacidade das espécies, e as vão lentamente moldando ao longo do tempo, de modo que consigam continuar se adaptando cada vez mais as condições de seu habitat natural. As espécies podem se extinguir, e a grande maioria já se extinguiu, mas isso pode somente significar que evoluíram para novas espécies mais adaptadas, ou que sumiram da face do planeta. Nenhum homo sapiens regrediu até hoje a um bonobo, assim como nenhum inseto transformou-se numa bactéria.

No mundo espiritual, às vezes podemos dar vazão demasiada a nossa imaginação e errar aqui e ali em nossas interpretações. Por isso um dia cristãos acreditaram em escravos e mulheres sem alma, ou em guerras santas, mas isso não significa que todos os cristãos ou que todos os espiritualistas estivessem sempre equivocados. Para um espiritualista, é sempre necessário comparar sua teoria subjetiva com a objetividade infinita das leis da natureza, e foi exatamente isso que Alfred Russel Wallace, co-criador da teoria da evolução, e tantos e tantos outros espiritualistas que não viraram as costas para a Natureza, o fizeram.

Desde épocas imemoriais, desde eras em que não éramos ainda homens nem mulheres, temos singrado o Cosmos e habitado seres que se organizam e evoluem, até que surja a consciência individualizada, e até que essa consciência se expanda até o estágio atual. Foi o próprio Rabi da Galiléia quem disse que somos deuses em formação, e que faremos tudo o que ele fez e ainda muito, muito mais... E ele também mencionou as muitas moradas do Reino. Ora, a Terra é apenas uma delas. Vivemos e evoluímos nela por bilhões de anos. Passamos por muitas eras de mudanças, mas raramente vimos mudanças de eras – o mundo atual talvez veja uma delas.

Por mais que a mídia insista em divulgar tragédias, guerras e violência em todos os cantos do mundo, no fundo aqueles que tem olhos para ver sabem que nossa ética jamais esteve a andar para trás: os assassinos e criminosos são normalmente a imensa minoria. Por mais estranho que possa parecer, os escravos negros que foram soltos na Europa e na América jamais se revoltaram como seria de se esperar, jamais desceram as encostas das favelas para fazer uma guerra social. Eles se acostumaram. Ainda que possam ter se acomodado, a história moderna fala muito mais de oportunidades de amor do que de ódio.

Mas a pior parte ainda é a indiferença... Apesar de tudo, no entanto, ainda existem médicos e voluntários que vão atender e salvar vidas nos entornos dos canteiros de guerras e genocídios. Ainda existem heróis que continuam a adentrar em prédios em chamas para salvar quem possa ser salvo. Ainda existem os caridosos, os que visitam creches, hospitais e asilos... Tudo bem, estes tampouco são a maioria, mas se o fossem, o céu já teria descido a Terra.

Mesmo assim, hoje vamos ao San Siro ver um clássico do futebol onde, ainda que exista alguma violência, raramente teremos um óbito sequer, e certamente jamais uma multidão estaria a aplaudi-lo como se aplaude a um belo gol. As “feras” de hoje são os craques de bola, e não tigres esfomeados com um antebraço entre os dentes...

Sim, algo mudou, e para melhor: hoje somos 7 bilhões de pessoas a dividir um mesmo planeta, e na maior parte de seu território temos paz, ou pelo menos uma vida muito mais pacífica do que aquela compartilhada pelos 300 milhões de 2 mil anos atrás.

Nosso maior inimigo não é a violência ou a promiscuidade sexual, mas nosso desejo desenfreado de consumir, e consumir, e consumir... Até que não reste mais nada a que se chamar de natural. O deus do consumo, porém, não contava com a sabedoria da Natureza: optou ela por fazer o papel de diabo da vez, e agora nos ameaça com seu clima caótico, nos forçando a nos unir em prol de um objetivo em comum.

Hoje temos a divina oportunidade de nos unir como uma única nação, um único povo, e estudar juntos a melhor forma de viver nesse reino de forma sustentável, para que muitos bilhões de nós ainda possam passar por aqui. Temos a árdua tarefa de regenerar a natureza devastada por nós mesmos nos últimos anos, mas isso ainda é muito melhor do que realizar guerras santas e outras aventuras inúteis, fruto de nossa enorme ignorância.

Sim, hoje somos um pouco mais sábios do que outrora, mas ainda é muito cedo para cantar vitória. No jogo na Natureza consigo mesma, ainda será necessário novas provas de que poderemos, finalmente, transitar desta para a próxima era. Mas é muito tarde para ser pessimista, nossa ciência e nossa espiritualidade têm nos apontado um glorioso farol de esperança logo ali, pouco além das próximas décadas. Quem tiver olhos para ver, e um espírito aberto para sentir, vivenciará o céu prometido, sem jamais involuir.

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Crédito da foto: Christian Liewig/Liewig Media Sports/Corbis

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10.7.11

Involuções, parte 1

Há uma corrente de cientistas que postula que o câncer é uma doença moderna. Sua suposição se baseia, principalmente, no fato de que a “autópsia” de múmias do antigo Egito demonstra que a incidência de câncer era praticamente não existente na época. Segundo essa teoria, o câncer seria fruto da industrialização e das sociedades modernas, podendo estar fortemente ligado à poluição das grandes cidades, e ao consumo de produtos industrializados. Qualquer demonstrativo da incidência de câncer no mundo atual parecerá favorecer tal teoria, visto que efetivamente existe mais câncer nos países desenvolvidos do que, por exemplo, nas regiões sub-desenvolvidas da África e de outros continentes... A ciência, no entanto, está cheia de conclusões apressadas.

A expectativa de vida em países desenvolvidos no início deste século gira em torno de 75 a 80 anos. No antigo Egito, mesmo entre os faraós que mereceram cerimônias de mumificação, ela não passava de cerca de 40 anos – na maior parte da história das sociedades humanas, incluindo as sociedades “selvagens” atuais, a expectativa de vida esteve sempre abaixo dos 35 anos. O câncer é resultado, principalmente, de erros decorridos da mutação de nossas células – e, quanto mais vivermos, maiores chances teremos de contrair câncer, é uma relação simples e até mesmo óbvia. Afora isso, corpos de múmias antigas nada nos dizem sobre a incidência de câncer infantil, nem tampouco temos registros detalhados da incidência desta doença no antigo Egito, simplesmente porque os médicos da época ainda mal sabiam diagnosticá-la.

Pesquisadores ingleses dizem que há poucas evidências de que apenas a poluição e a industrialização causam maior incidência de câncer... Por outro lado, há muitas evidências de que o cigarro, o exagero no consumo de álcool e alimentos gordurosos, e a exposição prolongada a radiação, certamente aumentam em muito as chances do surgimento do câncer. O problema não é viver no mundo moderno, portanto, o problema é viver da forma moderna, venerando o deus do consumo: Comendo e bebendo e se entorpecendo, numa tentativa frenética de escapar do abismo da falta de sentido no mundo pós-moderno.

Em todo caso, ainda que continuemos a buscar boas respostas para nossas perguntas acerca do sentido da vida, hoje temos muito mais tempo para refletir sobre o tema. Hoje podemos efetivamente viver, ao invés de tão somente sobreviver. Uma pessoa de classe média baixa no mundo atual, ainda que more em uma favela, ainda disporá de muito mais conforto, saúde e oportunidades de se entreter ou buscar conhecimento do que mesmo os maiores reis e imperadores da antiguidade. Se não nos damos conta disso, deve ser porque o deus do consumo nos assopra o ouvido todos os dias: “tudo bem, agora você finalmente tem um carro, uma casa... mas veja só a casa do vizinho, tem um jardim maior; veja o carro dele, é um modelo mais novo!”.

As estatísticas, no entanto, não mentem. Veja o que o médico Hans Roslin tem a nos dizer sobre o desenvolvimento de 200 países nos últimos dois séculos, em um vídeo da BBC:

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Apesar de todo esse avanço, há também a corrente dos conservadores da moralidade, ou dos arautos do final dos tempos. Segundo os primeiros, que normalmente se julgam bastante religiosos, a moral moderna vive uma época de involução: por todos os cantos vemos violência desenfreada, promiscuidade sexual, divórcios e libertinagens em geral... Os partidários do fim do mundo vão ainda mais além – não somente concordam com o fato de haver uma involução moral, como dizem que essa é a mais forte evidência de que o mundo, finalmente, se encaminha para um final. Para muitos destes, é preferível que o mundo todo acabe num apocalipse pagão, do que ver sua própria igreja ser lentamente reduzida à um segundo plano histórico. Para estes, quanto antes tudo isso acabar, tanto melhor...

Mas será que os “conservadores” estão com a razão? Será que um inferno moral está lentamente sendo instituído na Terra, e somente alguns poucos escaparão para o céu?

A religião também está cheia de conclusões apressadas, provavelmente ainda mais do que a ciência. Há 2 mil anos, haviam cerca de 300 milhões de pessoas em todo o planeta. Numa de suas grandes cidades, Roma, o grande circo do povo era realizado dentre os muros do Coliseu, onde homens se digladiavam até a morte, ou eram devorados por bestas ferozes, para o delírio do público, e de seu imperador. Por todo o mundo dito civilizado a escravidão humana era perfeitamente aceita, e mesmo os grandes sábios da época antiga pouco tocaram no assunto. Por milhares de anos as mulheres foram relegavas a uma espécie de limbo governamental – não podiam exercer cargos de governo, não podiam aprender a ler e escrever, não podiam decidir os rumos da política, e muitas vezes foram tratadas como meros objetos, moedas de troca, por seus maridos. Há muitos ditos cristãos que, ao longo dos tempos, criam piamente que nem escravos nem mulheres tinham alma – e há muitos que mesmo nos dias atuais ainda acreditam que animais tampouco às têm.

Não ter alma significava não somente não ter a possibilidade de um dia adentrar o céu, como também significava um status sub-humano, como se Deus operasse pela criação de todo o Cosmos para que apenas os homens de certa etnia pudessem ganhar, afinal, uma alma.

Provavelmente houveram épocas felizes, quando algum imperador dizimou todos os exércitos de uma dada região, e depois a anexou ao império, e os camponeses e seres simples puderam gozar de certo período de paz. A violência, porém, obviamente sempre existiu... Há mil anos atrás não existia a televisão para divulgar quando uma jovem foi encontrada violentada e morta a poucos quilômetros de sua vila. Quando hordas de bárbaros passavam pelas pequenas cidades da Europa, estuprando, torturando, esquartejando a todos, tampouco isso chegava aos ouvidos dos camponeses a 100 Km dali, quanto mais ao resto do mundo.

Dizem que a moral é baseada nas normas de boa conduta de uma dada sociedade, e a ética, por sua vez, seria um conjunto de preceitos universais de vida em sociedade, de igualitarismo, de direito de liberdade, de civilidade, de compreensão, e acima de tudo: de amor. Quando os “conservadores” falam em involução moral, talvez estejam até utilizando o termo correto: pois, para um grupo cuja doutrina social afirma que o homossexualismo e a promiscuidade são tão ou mais condenáveis quanto os assassinatos mais cruéis (podem não afirmar isso abertamente, mas convenhamos, a maior parte pensa dessa forma), certamente a época moderna, da emancipação da mulher (para fazer sexo como bem entender) e dos direitos dos homossexuais, será uma verdadeira decadência moral. Mas isso não significa que a moral de alguns fale pela ética de todo um planeta.

» Na continuação, a evolução espiritual, a sabedoria da Natureza, e uma possível mudança de era...

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Crédito da foto: Colin McLurg

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4.7.11

Nosso evangelho

Eu digo: minha religião é meu pensamento
Pois a religião não é uma doutrina de regras fossilizadas, mas um caminho eterno, uma via que se inicia estreita, mas cujo final se perde na névoa que o próprio infinito interpõe ao horizonte.

Que não se busque a religião como quem busca um reino específico: o reino dos céus, o cume da montanha de todos os sábios, a sombra da árvore de onde se pode alcançar um nirvana...

Pois se tudo que fazemos neste mundo é reflexo daquilo que somos, daquilo que pensamos, daquilo que sentimos, daquilo que intuímos, é somente através do pensamento, da música tocada pelas mãos etéreas, que efetivamente caminhamos à frente, em Sua direção.

Eu digo: minha vida é minha bíblia
Pois ainda que exista um livro infalível, o mais sagrado de todos, isso não significa que sejamos hoje tão sagrados quanto ele. Isso não significa que estejamos em plenas condições de o compreender.

Que a verdade é como o horizonte: quanto mais a buscamos, mais e mais descobrimos o quão infinito é o mundo, e além do mundo...

No entanto, quando finalmente descobrimos uma verdade, é como se o próprio horizonte tivesse cedido, e recuado, e nos reverenciado, e nos agraciado. Este é o mistério, a angústia, e a suprema felicidade da vida: escrever nosso próprio texto sagrado com nossos passos na areia do tempo. E que hão de desvanecer, quando Seu vento soprar.

Eu digo: minha igreja é meu coração
Pois o reino não foi edificado para que fosse circundado por colunas e paredes de templos, e os escolhidos não foram apenas alguns poucos agraciados, mas todos os seres do infinito.

Que ninguém poderia ser feliz num jardim de ociosidade enquanto outros de seus irmãos ardem nos lagos de enxofre. Que o reino não é feito de fronteiras delimitadas, e todos os templos precisam ser erigidos em nossas próprias almas...

Pois se o reino está em toda parte, debaixo de pedras e dentre galhos partidos, os convites para o Seu banquete foram enviados a todos nós: os filhos do Cosmos. E só poderemos entrar no reino de mãos dadas.

Nós dizemos: Deus é nosso amor
Conforme consta em todas as leis naturais, desde o núcleo do átomo até os agrupamentos de galáxias mais distantes: tudo esta conectado, tudo está em harmonia, tudo flui, tudo vibra, tudo se atrai mutuamente pela gravidade divina, enquanto de alguma singularidade de amor Ele continua a nos arremessar no turbilhão sem fim.

Tudo se iniciou em um pensamento de amor, e todo o amor do mundo jaz neste momento aos Seus pés: o amor de todos os dias dos homens, e dos seres de outrora, e dos seres do porvir.

E todos os cânticos sagrados, e todos os poemas e orações, e todas as bênçãos e maldições, e todos os erros e acertos, e todos os códigos sagrados, e todos os evangelhos, e este nosso evangelho...

raph’11

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Crédito da imagem: Tom Grill/Corbis (modificada por Rafael Arrais)

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19.6.11

Filhos de neandertais

Há muito tempo se sabe que os neandertais são uma espécie extinta, do gênero homo, que habitaram o Oriente Médio e a Europa desde cerca de 300 mil anos atrás. Também por muito tempo acreditou-se que os neandertais eram uma "espécie inferior" ao homo sapiens – chamados homo neanderthalensis –, e que eram seres quase irracionais, praticamente “homens das cavernas”, que sequer tinham a capacidade de falar qualquer linguagem. Segundo essa crença, a extinção dos neandertais, há cerca de 29 mil anos atrás, estaria explicada pela competição com o homem moderno na medida em que este avançava para ocupar todo o globo, incluindo as terras nativas onde os neandertais se desenvolveram por milhares de anos.

Em 1856, três anos antes da publicação de “A origem das espécies”, do co-autor da teoria da evolução, Charles Darwin, foram encontrados os primeiros fósseis de neandertal numa gruta do pequeno Vale de Neander, na Alemanha [1]. Este vale, que também emprestou seu nome a própria espécie neandertal, foi assim batizado em homenagem a Joachim Neander: pastor e compositor do séc. XVII, autor de cânticos religiosos ainda hoje populares entre os protestantes alemães. Consta que ele gostava de procurar inspiração neste vale, então com uma paisagem idílica. Numa tradução para o português, o nome deste vale seria Vale do Homem Novo. Numa feliz coincidência, os neandertais não poderiam ter sido batizados por nome mais apropriado – os homens novos.

Para compreender como a mesma ciência que um dia classificou os neandertais como “homens das cavernas”, recentemente “desmistificou” esta crença, e descobriu evidências de uma espécie que, em sua época, era provavelmente tão ou mais desenvolvida que o homo sapiens, precisamos antes voltar ainda mais no tempo...

Uma comparação moderna do DNA de hominídeos (espécies ancestrais do homo sapiens) e humanos vivos sugere que o homo sapiens surgiu entre 120 mil e 220 mil anos atrás na África. Um grupo de talvez apenas 10 mil deles então deixou o continente entre 50 mil e 100 mil anos atrás, talvez pelas mudanças climáticas ocasionadas por uma erupção vulcânica monumental na ilha de Sumatra (há cerca de 71 mil anos), talvez simplesmente porque decidiram explorar o horizonte à frente.

Esse movimento migratório não deve ser compreendido como um movimento exploratório, mas como uma lenta migração onde a maior parte dos descendentes terminava por permanecer nas terras próximas de onde nasceram, enquanto apenas alguns poucos continuavam seguindo adiante... Já os neandertais evoluíram a partir de um ancestral comum dos homo sapiens, provavelmente o homo erectus, e já haviam chegado a Europa e ao Oriente Médio quando os primeiros exploradores sairam da África.

Depois de um breve período de coexistência no Oriente Médio, onde tanto o homem moderno quanto os neandertais geraram filhos uns dos outros, os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas – através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu. Os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa. Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Os neandertais desenvolveram-se em homens e mulheres mais atarrancados, com braços e pernas menos alongados, para que pudessem conservar melhor o calor corporal no frio europeu do Pleistoceno. Seus narizes eram mais largos e sua faces, quem sabe, mais “grotescas”. Os cérebos, porém, eram maiores e algumas gramas mais pesados – os neandertais tinham aproximadamente “uma bola de bilhar” a mais de massa cerebral, em relação aos seus primos.

A teoria de que os neandertais careciam de uma linguagem complexa foi difundida até 1983, quando um osso hióide de neandertal foi encontrado na caverna Kebara, em Israel. O osso encontrado é praticamente idêntico ao dos humanos modernos. O hióide é um pequeno osso que segura a raiz da língua no lugar, um requisito para a fala humana e, dessa forma, sua presença nos neandertais implica alguma habilidade para a fala.

Muitos acreditam que mesmo sem a evidência do osso hióide, é óbvio que ferramentas avançadas como as do período musteriense, atribuídas aos neandertais, não poderiam ser desenvolvidas sem habilidades cognitivas incluindo algum tipo de linguagem falada. Pesquisadores identificaram genes extraídos de fósseis que comprovariam que os neandertais possuíam capacidade de falar. Sua fala teria sido lenta, compassada e naralizada.

Certamente os neandertais foram muito mais do que “homens das cavernas”. Porém, teriam sido eles mais inteligentes e avançados que os homo sapiens de sua época [2]? Se este foi o caso, como diabos teriam sido extintos? Porque afinal hoje continuamos nos entendendo como homo sapiens, e não neandertais?

Em 2008, cientistas anunciaram a decodificação do genoma mitocondrial do neandertal. Na época, concluíram que as evidências genéticas indicavam que os neandertais provavelmente não se misturaram com o homo sapiens, apesar de terem convivido com seres humanos modernos por milhares de anos. O genoma mitocondrial, porém, é só uma amostra do DNA de um organismo... Nos anos seguintes, até meados de 2010, cientistas sequenciaram 60% do genoma completo dos neandertais e compararam o resultado com o genoma de cinco pessoas de diferentes partes do mundo (África do Sul, África Ocidental, Papua-Nova Guiné, China e França).

Os autores do trabalho, detalhado em dois artigos na revista “Science”, afirmam que os humanos modernos e os neandertais “muito provavelmente” se cruzaram “em pequena medida”. A área em que os esparsos encontros românticos ocorreram, provavelmente, foi o Oriente Médio, à medida que o homo sapiens saía da África em direção à Ásia. De 1% a 4% do genoma do homem moderno parece ser dos neandertais, estimam os autores [3]. Apenas alguns africanos parecem possuir um genoma “completamente humano”, todos os outros povos da Terra têm traços do genoma neandertal.

Teriam os neandertais sobrevivido em nós? Seremos nós os filhos dos neandertais? Sabe-se que os registros de fósseis neandertais foram sumindo gradualmente na linha de tempo pré-histórica – primeiro, do Oriente Médio, depois do oeste europeu, então o norte e a região central, até que os últimos fósseis apontam para a península Ibérica, há cerca de 29 mil anos. O que teria “varrido” os neandertais para oeste, até sua provável extinção?

Isso, não se sabe ao certo. Mas eis que ainda temos uma última e extraordinária evidência de que os neandertais encontraram uma forma de, literalmente, permanecer entre nós: O menino do Lapedo foi descoberto em 1998, numa expedição ao Abrigo do Lagar Velho, na cidade portuguesa de Leiria, para estudar algumas pinturas rupestres descobertas anteriormente.

A relevância deste achado arqueológico, com cerca de 24.500 anos, se dá pelo fato do fóssil ter pertencido a uma criança que teria nascido do cruzamento de um homo neanderthalensis com um homo sapiens, o que revelaria que espécies diferentes de humanóides poderiam cruzar entre si e gerar descendentes. Com o menino do Lapedo podemos também sugerir que o neandertal desapareceu não por extinção, mas sim por interação entre eles e os homo sapiens, e uma absorção do mesmo.

Nós somos, portanto, os verdadeiros filhos dos neandertais. Carregamos em nós os registros de seus antepassados, e alguma parte de nosso DNA vêm deles... Talvez, quem sabe, a melhor parte.

***

[1] Na verdade partes de um esqueleto neandertal foram anteriormente encontradas na pedreira de Forbes, em Gibraltar, ainda em 1848. Mas por alguma razão estranha, a descoberta dita “original” pela história da ciência, e também certamente a mais famosa – tanto que deu origem ao nome da espécie –, foi esta alemã.

[2] Autores mais radicais, cujas teorias são consideradas fantasiosas pela maioria da comunidade científica, como Stan Gooch, em "Cities of Dreams: the Rich Legacy of Neanderthal Man Which Shaped Our Civilization" (1989), defendem mesmo que os neandertais eram detentores de uma cultura tão complexa quanto as atuais, e que teria mesmo servido para fundar muitos dos chamados arquétipos universais existentes entre os humanos modernos, em resultado da sua hibridização com os neandertais.

[3] Este valor seria o mínimo, alguns pesquisadores postulam que poderia chegar a 10% ou até mesmo a 20%. O DNA neandertal é 99,7% idêntico ao DNA do humano moderno, enquanto o DNA dos chimpanzés, por exemplo, é 99,8% idêntico ao nosso. Isso sugere, na prática, que somos todos espécies aparentadas de forma muito próxima... A diferença entre os neandertais e os chimpanzés é, entretanto, crucial – os últimos claramente nos precederam em centenas de milhares de anos na árvore evolutiva, enquanto que os primeiros têm uma origem muito mais recente, talvez não mais do que 100 mil anos anterior a nossa. O DNA neandertal é, portanto, provavelmente muito mais importante no que tange a cognição e linguagem humanas, fruto da nossa origem e inteligência em comum.

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Nota: este artigo chegou a ficar cerca de 6h no ar (em 19/06/11) contendo graves erros nas informações científicas, particularmente na nota #3, mas agora está corrigido. Peço desculpas pela falha.

Crédito das imagens: [topo] Joe McNally, National Geographic (reconstituição de uma neandertal fêmea); [ao longo] Bettmann/Corbis (reconstituição de um neandertal macho).

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8.6.11

Maldito Benedito, parte 2

« continuando da parte 1

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Baruch Spinoza, poema de Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais).

Uma suave cabeça pensativa

Se Descartes havia separado mente e corpo um substâncias distintas, esta material, a primeira espiritual, Espinosa foi mais além: para o pensador holandês, só poderia haver uma única substância, pois que se houvessem duas, ambas deveriam necessariamente ser o resultado de uma substância ainda anterior. Num brilhante encadeamento de causa e efeito, chegou a “substância que não poderia criar a si mesma”, sendo ela, portanto, incriada e eterna, aquela que se opõe ao nada (afinal, existe algo). Portanto, mente e corpo, e todos os componentes do Cosmos, nada mais eram do que irradiações da substância, que era o próprio Deus. Espinosa não cria que as coisas eram apenas materiais ou espirituais, mas que eram materiais e espirituais, mundanas e divinas, ao mesmo tempo.

Com toda sua filosofia edificada no próprio Deus, Espinosa terminou por ser o grande reformador do pensamento ocidental, o grande “destruidor da autoridade eclesiástica”, não porque fosse um “matador de deuses”, conforme Nietzsche, mas porque substituíra as interpretações bíblicas de Deus por uma ainda mais profunda, baseada apenas na pura lógica filosófica. Quando Nietzsche proclamou que o deus bíblico estava morto, foi porque Espinosa já o havia retirado de seu pedestal há muito tempo... Caíra um deus semelhante aos homens, e surgira um Deus cósmico, irradiador de todas as partículas e todas as galáxias do universo.

A filosofia de Espinosa, entretanto, não era para qualquer um. Era preciso uma certa abertura da mente, um certo distanciamento das paixões embutidas em crenças e descrenças, para que pudesse ser compreendida em toda sua profundidade. Apesar de “Ética” ter sido sua obra prima, as bases lógicas que a sustentam já estavam prontas desde sua juventude... Porque então Espinosa somente entregou seu livro para os amigos publicarem já nos últimos dias de vida, quando certamente já pressentia a própria morte? Ora, é que Espinosa nunca quis ser nenhum revolucionário, e em realidade sabia muito bem que seu sistema filosófico poderia, e provavelmente causaria uma revolução no mundo ocidental. E ele estava certo.

Ao descrever Deus como uma força cósmica, impessoal e sem características humanas, Espinosa não estava sendo completamente original. Sua premissa já era conhecida de místicos orientais e até mesmo da cabala judaica, além de conter referências claras a filosofia estoica e, em menor escala, ao atomismo das escolas gregas. A sua forma “geométrica” de descrição da própria filosofia, sem dúvida influência de Descartes, é que terminou por tornar a “Ética” uma obra prima tanto da filosofia quanto da espiritualidade humana... E, como toda obra desse porte, não escapa dos grandes paradoxos:

O bem e o mal
Para Espinosa o bem e o mal eram conceitos relativos às sociedades humanas, e não fazia sentido crer em um deus que observa e pune os pecados alheios. Ao mesmo tempo, entretanto, a própria busca do conhecimento de Deus era uma virtude, e os sábios que a empreendiam agiam naturalmente no bem, e afastavam automaticamente o mal, na medida da sabedoria de cada um.

Do determinismo
Em sua filosofia constatamos que a grande maioria dos homens e mulheres são guiados por desejos provenientes das paixões da alma, de modo que quase ninguém consegue ser efetivamente livre, e tudo parece estar determinado pelo eterno movimento das substâncias... Por outro lado, existiam alguns poucos que conseguiam olhar para dentro de si próprios e identificar ou até mesmo compreender tais paixões. Do autoconhecimento dos seres, em maior ou menor grau, surgia a liberdade em grau correspondente. A atividade mais nobre de um ser seria, portanto, buscar a compreensão do próprio Deus, pois no fundo somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo.

Do deísmo
Espinosa negava totalmente que as verdades acerca da criação pudessem ser reveladas, como através de santas tábuas ou inspirações divinas. Por isso foi muitas vezes considerado um líder deísta. Mas, sob outro ponto de vista, o fato de todos sermos formados pela irradiação da substância divina, e termos uma conexão direta com a eternidade, nos faz automaticamente receptáculos diretos do movimento de Deus. Talvez não fosse possível que Deus se revelasse diretamente a alguns ditos profetas, um movimento em nossa direção; Mas era perfeitamente possível que cada um de nós compreendesse parte da fagulha divina que trazemos, todos nós, num movimento em direção ao infinito.

Do panteísmo
Se por um lado os críticos terão razão em dizer que a filosofia de Espinosa faz da Natureza um novo Deus, e a engrandece, por outro estarão equivocados em afirmar que Espinosa reduziu Deus a meros eventos naturais, às coisas que compõe o Cosmos... Assim como Epicteto se referia a um “Zeus, Deus dos deuses”, Espinosa deixou claro que todos os materiais que compõe o mundo, sejam os corpos e partículas materiais, sejam os mentais, são todos irradiações da substância divina. Tudo é Deus, de modo que não faria sentido tentar encontrar a Deus apenas em catedrais grandiosas ou através da mediação dos eclesiásticos, qualquer pedra ou galho partido seria tão divino quanto tudo o mais. É somente através da razão, uma razão conectada ao Cosmos, de acordo com o logos grego, que poderemos apreciar o contato com Deus, estejamos onde estivermos.

Do ateísmo
Se por um lado Espinosa foi acusado de ateísmo em sua época, por outro qualquer um com certo discernimento compreenderá que a acusação se referia ao fato de ele ter contrariado diretamente os dogmas das doutrinas religiosas vigentes, particularmente negando milagres e a autoridade dos eclesiásticos. Mesmo sua crítica a Bíblia se focava exclusivamente na interpretação literal, e ainda que negasse os milagres enquanto eventos sobrenaturais, o próprio Espinosa buscou explicações naturais para alguns deles, como, por exemplo, o da “divisão” do Mar Vermelho, que parecia a Espinosa que fosse um evento natural, explicado pelo vento.
O grande pensador holandês não poderia, entretanto, ser menos ateu no sentido de negação a priori da existência de um Criador. Não só toda sua filosofia se sustenta em Deus, o próprio sentido de virtude e de ética que sempre defendeu consistia em, a todo momento, saber diferenciar as paixões mundanas dos desígnios sagrados da Natureza, e somente assim, seguindo a Natureza e não as próprias paixões, ser verdadeiramente livre e feliz.

Na preposição final da “Ética”, Espinosa inaugura quase que uma nova religião filosófica universal: “o estado de bênção não é a recompensa da virtude, mas a própria virtude; também não usufruímos desse estado por restringir nossas luxúrias; ao contrário, justamente porque usufruímos dele é que somos capazes de restringir nossas paixões”. A salvação, apesar de árdua e rara, não precisava ser postergada para depois da morte. A filosofia de Espinosa era uma reflexão sobre a vida, e de como, talvez um dia, alcançar a salvação dentro deste mundo – um mundo tão divino quanto mundano.

O monumento feito em homenagem a Espinosa, em Haia (na Holanda) foi assim comentado por Ernest Renan em 1882:

"Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas – pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus".

Maldito Benedito Espinosa! Maldito, na boca dos de alma pequena, somente Benedito nas demais...

***

Crédito da imagem: Wikipedia (estátua de Espinosa em Haia).

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6.6.11

Maldito Benedito, parte 1

Os Senhores do Mahamad [Conselho da Sinagoga] fazem saber a Vosmecês: como há dias que tendo notícia das más opiniões e obras de Baruch de Spinoza procuraram, por diferentes caminhos e promessas, retirá-lo de seus maus caminhos, e não podendo remediá-lo, antes pelo contrário, tendo cada dia maiores notícias das horrendas heresias que cometia e ensinava, e das monstruosas ações que praticava, tendo disto muitas testemunhas fidedignas que deporão e testemunharão tudo em presença do dito Spinoza, coisas de que ele ficou convencido, o qual tudo examinado em presença dos senhores Hahamim [conselheiros], deliberaram com seu parecer que o dito Spinoza seja heremizado [excluído] e afastado da nação de Israel como de fato o heremizaram com o Herem [anátema] seguinte:

Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza [...] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar [...] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.

Herem – anátema – pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656, quando tinha 23 anos.

O panteísmo ateu

Após ter sido excomungado do judaísmo, Baruch optou por usar a tradução de seu nome original (Baruch Spinoza) para o latim (Benedictus de Spinoza), ou na forma aportuguesada – Bento de Espinosa.

Espinosa é hoje reconhecidamente um dos grandes apóstolos do racionalismo, e um dos pensadores mais importantes da história ocidental. Entretanto, mesmo tal reconhecimento é ainda muito pouco perto de toda a revolução que seu pensamento provocou em sua época.

Em seu monumental “Iluminismo Radical” (Ed. Madras, tradução de Claudio Blanc), o professor de Princeton, Jonathan Israel, nos traz um panorama incrivelmente detalhado do que efetivamente ocorreu entre 1650 e 1750 na Europa, e de como a Filosofia, e principalmente as ideias de Espinosa, prepararam terreno para a Revolução Francesa, antes mesmo dos primeiros tiros terem sido disparados na Bastilha (trechos adaptados, retirados da obra):

“Já na década de 1740, Antonio Genovesi, um pensador do Iluminismo italiano, que nunca deixou de ser simpático ao cristianismo, examina todas as cinco tradições filosóficas que lutavam para dominar a vida intelectual europeia – o aristotelismo escolástico das escolas [que perdurava por séculos] e as quatro classes dos modernos:

O Cartesianismo merece um respeito considerável. Genovesi louvou Descartes por ter demolido o escolasticismo, usando a “dúvida” como um instrumento de investigação para superar o ceticismo, e por introduzir a “liberdade para filosofar”; e concorda que a alma humana é substância incorpórea, totalmente distinta da matéria. Entretanto, ele também acha que o Cartesianismo contém sérias falhas, sólidas percepções intuitivas imbuídas de erro, as quais levam em última instância ao “fanatismo” e à subversão da verdade cristã.

Haviam também os partidários do sistema leibniziano-wolffiano, idealistas e monistas, que lhe pareciam inofensivos; A seguir vinha o empirismo de Newton e Locke, que de acordo com Genovesi, não fornecia uma base adequada para a coexistência estável da razão e da fé.

A quarta categoria principal de modernos, e de longe a pior, eram os deístas radicais, os quais negam os Evangelhos e os milagres de Cristo, bem como rejeitam o absolutismo do “bem” e do “mal” e a imortalidade da alma. Segundo ele, o líder do deísmo moderno seria Espinosa.

Para Genovesi, nenhum dos sistemas filosóficos modernos trazia de maneira adequada o sentido do mundo: do Cartesianismo, florescera o Espinosismo, o pensamento leibniziano leva ao idealismo, e o Newtonismo, ao puro mecanicismo. O panteísmo ateu, avisa Genovesi, retorna aos pitagóricos e eleáticos da antiga Grécia e era a principal ameaça ao bem-estar da Itália [e de toda a Europa].

Como os espinosistas podiam ser derrotados em termos filosóficos? Genovesi admite que simplesmente não sabe. Talvez, no final, apenas a fé, o coração humano e a ação de um governo determinado podem repelir a ameaça.

Assim, a Filosofia pura aparentou estar falida, inclinada antes a confundir do que ajudar o homem a encontrar sua salvação. Nesse texto, escrito em italiano e dirigido a uma grande platéia, Genovesi mais uma vez cutucou Espinosa, porém sem citar seu nome, apenas aludindo a ele de modo sombrio e deixando clara sua apreensão com relação ao "filósofo mais ímpio e sangue frio do século passado"”.

Ora, se até hoje os ateus não são muito bem vistos na sociedade, como explicar a “blindagem” de Espinosa em meio a tantos ataques e acusações vindas das mais variadas frentes? Como poderia um homem simples, filho de mercadores, ter desenvolvido um sistema de pensamento tão profundo e aparentemente revolucionário de dentro dos cômodos da própria casa? Teria sido este “ímpio”, este “maldito”, sido auxiliado por forças demoníacas?

Não, não, Espinosa não acreditava no Diabo e tampouco em espíritos malignos a seduzir os desavisados... Mas no que ele cria, afinal? Sabe-se que muitas vezes são intitulados ateus aqueles que se voltam contra as doutrinas religiosas ditas “oficiais”. Espinosa cria na liberdade do pensamento, mas seria somente isso? Ou, no fim das contas, seria toda sua filosofia, o sistema que mudou o mundo ocidental, edificada tão somente em nada mais do que o próprio Deus?

» Na continuação, o pensamento de Espinosa

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Crédito da imagem: Stefano Bianchetti/Corbis.

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3.6.11

As lições do carma

Existem várias interpretações para o significado de carma, de acordo com as doutrinas hinduísta, budista, jainista, e posteriormente do espiritismo (que o chama, em realidade, de “lei da causa e efeito”), da teosofia e do movimento new age. A essência do termo pode ser associada a lei física que diz que “para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário”. A analogia, no entanto, deve ser feita com cautela: primeiro porque o carma não é uma lei científica que possa ser medida em laboratório (embora seja uma lei natural); segundo porque a “reação a ação” geralmente não se dá imediatamente, como em reações físicas, e pode até mesmo levar anos, ou vidas.

Há uma forma superficial e outra profunda de interpretarmos o carma. Imaginemos um exemplo: um inquisidor acusa e mata inúmeros inocentes nas fogueiras durante a época negra medieval, numa outra vida, ele precisará “resolver seu carma”... Na visão superficial, entende-se que ele deva morrer queimado na nova vida, exatamente como suas vítimas. Na visão profunda, entende-se que ele possa também optar, por exemplo, por ser um médico de instituições que auxiliam em zonas de guerra, tratando das queimaduras daqueles que foram vítimas da ignorância dos homens. Existe a via da dor, e a do amor, mas nem sempre estamos aptos a cumprir nossas promessas de caridade – nem sempre o futuro médico se torna, efetivamente, um médico de almas.

É importante, portanto, compreender que o carma não é um sistema de crédito e débito, de “aqui se faz aqui se paga”. Seu mecanismo não atua para “punir os maus” com uma dose de seu próprio veneno. Na realidade, se trata de um remédio, às vezes de gosto amargo, mas que visa sempre impelir aos seres da ignorância para a sabedoria, dos instintos animais para a consciência abrangente, da terra para os espaços cósmicos adiante.

Tendo essa compreensão em mente, acredito que ela possa nos trazer algumas lições:

Adeus inveja
Para quem realmente crê no carma, a inveja não faz sentido. Ora, se tudo o que somos, tudo o que temos, é resultado direto do que fizemos com o tempo que nos foi dado, com as escolhas que nos coube a decisão, então invejar o que os outros têm ou são é tão somente uma forma de ignorância persistente.
Afinal, se tudo o que somos e temos é resultado de nossa própria caminhada, jamais poderemos conseguir alguma coisa apenas porque “desejamos”, porque invejamos de outro alguém... O que parece ser mais sábio é usar os outros como modelo, como incentivo, como a meta a ser alcançada. Não exatamente o que os outros têm, pois tudo o que temos é transitório, mas o que os outros são. Não devemos invejar nem desejar a sabedoria, devemos afinar nossa própria vontade para nos movermos em sua direção. O mero desejo é estagnação, pois nada “cairá do céu” – mas a vontade é o movimento em direção à luz.

A dor aguarda os que ficam para trás
Em dado momento, todos somos livres para escolher a via do amor ou da dor. Qualquer estudioso das doutrinas cármicas saberá que viemos ao mundo para desenvolver nossas potencialidades, e não nossos vícios. Viemos caminhar à frente, e não ficar estagnados na ignorância. Que a evolução espiritual segue a física: nada anda para trás, mas a natureza não costuma poupar os que se arrastam pelo caminho.
Nessa longa trilha, por vezes pode parecer que somos como um cão selvagem com a coleira presa a uma velha carroça, rodando lentamente pelos velhos sulcos: podemos optar por seguir a frente, antes que a coleira nos puxe, ou podemos ladrar como cães raivosos, e nosso latido não impedirá que a coleira nos force o pescoço, que nos provoque dor. No fim, seguiremos a frente, quer queiramos, quer compreendamos aonde vamos, quer não. Melhor escolher o amor, enquanto há tempo, pois as dores desse mundo não se comparam as dores da alma.

Suportamos o que podemos suportar
Conforme a roda avança, a cada um é dado apenas os desafios que podem suportar. Podemos imaginar uma universidade cósmica: o calouro de física não poderá compreender as equações de física quântica ou da teoria das cordas já em seu primeiro ano, mas aqueles que se arrastam nas repetências terão eventualmente que resolvê-las, pois os reitores sabem muito bem que eles já têm a capacidade para tal.
É preciso saber avaliar os desafios por aquilo que são: não desastres, tragédias, ou problemas insolúveis, mas oportunidades de progressão, de entendimento, de edificação de nossas potencialidades.
Muitas vezes, amamos e perdemos, e essa nos parece a maior dor do mundo. Porém, curioso de se pensar: é melhor amar e perder do que nunca haver sequer amado... Os seres vêm e vão, mas a capacidade de amar é uma das potencialidades que jamais andam para trás, e que molda nosso despertar da consciência desde as eras pregressas.
Da próxima vez que estiver a se lamentar por uma perda, e desejar se ver livre do amor que sentia, e que agora dói tanto, pense novamente: a sua dor é uma luz. Os seres que se arrastam nas sombras de si mesmos, que ainda não descobriram o amor, podem parecer mais felizes, mas sua dor é muito mais profunda do que a sua – e você certamente sabe disso, mesmo que de alguma forma obscura, pois todos já estivemos na escuridão.

Só Deus o sabe
Quando nos deparamos com tragédias humanas em pequena ou larga escala, existe essa tentação própria dos seguidores de doutrinas cármicas em elaborar teorias mirabolantes sobre o porque de tais seres terem sofrido este ou aquele infortúnio... Tudo em vão!
Assim como não podemos saber por que o vento sopra aqui ou acolá, jamais poderemos compreender exatamente o que outra parte da substância cósmica experiencia. Somos todos conectados, filhos da mesma substância, formados pelos mesmos átomos e as mesmas fagulhas divinas, mas cada um pode saber apenas de sua própria visão do Cosmos. Não há nenhum ser onisciente além de Deus, ninguém que possa realmente ter habitado nosso âmago profundo e visto o horizonte da mesma forma que nós, e experienciado a caminhada dando exatamente os mesmos passos.
Quando um espírito incorpora, ele habita um corpo, e não outro espírito. Jamais estaremos dentro uns dos outros, de modo que as razões que fazem o mecanismo do carma operar desta ou daquela maneira, só o próprio ser que ama e que sofre tem um breve entendimento, e só Deus o sabe. Ele está dentro de todos nós.

O aflorar da consciência
Se na evolução física das espécies, a vida é a função do sistema, na evolução espiritual, da qual o carma é o mecanismo primordial, o afloramento da consciência é o grande objetivo a ser alcançado. Nosso caminho foi longo: de fagulhas divinas criadas sabe-se lá onde, neste ou nalgum planeta próximo habitamos coletivamente os reinos mineral, vegetal e boa parte do animal... Nas savanas africanas despertamos, compreendemos ao longo dos séculos que a vida era, afinal, muito mais do que caça e coleta, muito mais do que uma mera luta pela sobrevivência...
Até o dia em que optamos por viver, e não apenas sobreviver. Quando nossas potencialidades amorosas, artísticas e técnicas começaram a aflorar. Quando nos indagamos de onde viemos, e para onde vamos, e o que somos, e surpreendentemente começamos a encontrar elaboradas teorias para o que nos parecia inatingível. Quando olhamos para as estrelas e vimos deuses, e depois vimos fornalhas cósmicas, e depois vimos um turbilhão de galáxias além de tudo aquilo que poderíamos imaginar... Quando vimos o infinito, e lhe estendemos a mão.
A mente que adquire um novo conhecimento jamais retorna ao seu estado anterior. A alma que se abre para o Cosmos, jamais volta a se fechar novamente. A função do sistema não era, afinal, apenas a vida, mas a vida eterna.

A lei do carma
Faça ao próximo aquilo que gostaria que o próximo fizesse contigo.
Resta-nos saber quem são nossos próximos: será nossa família, nossos amigos, nossa cidade, nossa nação, nosso planeta? Serão apenas seres enquanto humanos, ou também os animais, os vegetais, os minerais, a natureza como um todo? Da próxima vez que levantar uma pedra, ou observar um galho partido, saiba que todo o infinito nos abarca, que o reino de Deus está em todo lugar... Apenas esperando que finalmente abra teus olhos para ver.

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Crédito das imagens: [topo] John-Francis Bourke/Corbis; [ao longo] Nacho Uranga

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26.5.11

Tempo oculto

Este artigo é um adendo da série "Reflexões sobre o tempo".

Alguns de vocês podem ter passado desapercebidamente pelo que acabei de falar sobre o tempo, mas ainda outros podem ter ficado profundamente absortos nos paradoxos transcritos. Podem ter percebido que a luz eterna – não apenas os fótons, que estão entre os cerca de 4% da matéria que podemos detectar, mas a outra luz também – paira por todo o Cosmos e que para ela a formação da primeira galáxia, da primeira estrela, do primeiro átomo de carbono, pode ser tão relevante quanto os fogos de artifício de uma festa de ano novo qualquer em alguma praia deste mundo. Ou que, mesmo tendo percebido isso de relance, seja pela filosofia, pela ciência ou pela religião, ainda não conseguimos fugir do problema do tempo, tão bem descrito por Agostinho há séculos atrás. Ainda outros podem ter passado pelo apocalipse dos rapanui, apenas para terem o pensamento renovado pelo fogo... É tão difícil dizer, como saber o que o outro pensa? Cada um de nós é uma substância a parte, uma forma do Cosmos saber sobre si mesmo.

Há quase um ano, eu escrevi um texto sobre o mito da criação, e confesso que não o compreendi por completo, mas agora este trecho começa a fazer sentido:

Seu plano para cada universo era cuidadosamente elaborado em sua mente, entre os momentos em que apenas refletia sobre si mesmo...
Cada universo tinha uma substância, e essa substância os preenchia por completo – cada estrela, planeta e partícula.
E para que houvesse movimento, o Ser permitiu que a substância fosse maleável.
E para que os seres conscientes que brotassem pudessem renascer quantas vezes fossem necessárias, o Ser permitiu que a maleabilidade da substância construísse uma sequência de eventos na consciência dos seres.
E para que tudo não fosse determinado, o Ser permitiu que um átimo dessa maleabilidade ficasse a cargo dos pensamentos e da vontade dos próprios seres conscientes.

Ora, muitos foram ensinados a imaginar o universo como uma explosão, as vezes usa-se a imagem de uma bexiga de ar para explicar como o próprio tecido do espaço-tempo se expande. Estamos nos afastando de todo o restante, independente de estarmos parados ou não – mas nada está parado. De fato, esse crescimento foi tão rápido no início, que grandes porções do universo estão além da nossa fronteira de observação, mesmo na velocidade da luz jamais chegaríamos do outro lado. Se o universo não for infinito, isso pouco faz diferença para nossa compreensão atual...

Mas essas imagens são falhas num sentido profundo: jamais poderemos observar a bexiga do lado de fora. Estamos dentro da explosão, a homogeneidade da radiação de fundo cósmica já comprovou isso. Como minúsculas partículas de poeira, somos empurrados para lá e para cá em meio ao turbilhão de uma substância infinita, que parece ter uma sede de ser cada vez mais infinita – se é que isso faz algum sentido.

A grande questão é que aparentemente nós temos um papel de certa relevância nesse plano cósmico. Os estoicos estavam corretos ao dizer que não deveríamos nos angustiar com tudo aquilo que não podemos decidir – e são muitos os eventos que nos fogem o controle –, mas eles nos lembraram de que existem coisas que podemos decidir. Existem corpos, existem mentes, existem almas, existem eventos, existem partes da substância que nos foram ofertadas... O que faremos com tamanha responsabilidade?

Franz Bardon foi um ocultista checo do qual – apesar de sua enorme popularidade entre os estudantes de magia da atualidade – pouco sabemos por certo de sua vida, além dos grandes livros que nos deixou. Em “Magia prática” (recomendo a tradução da Ed. Ground, de Inês Lohbauer), ele nos traz uma série de rituais mentais que, quase que certamente, aprendeu em alguma montanha distante do Oriente. Num deles em específico, há uma curiosa analogia com o que viemos estudando acerca do tempo e de como o percebemos através de nossas mentes. Primeiramente, ele nos fala sobre a curiosa função de nosso subconsciente – nosso inimigo a viver nalgum tempo oculto:

“Aquilo que na consciência normal entendemos como pensamento, sentimento, vontade, memória, razão, compreensão, reflete-se no nosso subconsciente como um efeito oposto. Do ponto de vista prático podemos encarar nosso subconsciente como nosso oponente. A força instintiva, ou o impulso a tudo aquilo que não queremos, como por exemplo, nossas paixões incontroláveis, nossos defeitos e fraquezas, nascem justamente dessa esfera da consciência.”

Não tenho certeza se isso ficou bem explicado, mas reconheço que é algo bastante complexo de explicar por palavras, então prefiro não me arriscar a complementar Bardon. Prossigamos adiante, quando ele nos fala do ritual mental de auto-sugestão:

“Na maioria dos casos, principalmente numa vontade fraca ou pouco desenvolvida, o subconsciente quase sempre consegue nos pegar de surpresa ou provocar um fracasso. Se ao contrário, na impregnação do subconsciente com um desejo nós lhe subtrairmos o conceito de tempo e espaço, o que passa a agir em nós é só a sua parte positiva.
[...] A fórmula escolhida para a auto-sugestão deve ser obrigatoriamente mantida na forma presente e no imperativo. Portanto, não se deve dizer: “Eu pretendo parar de fumar, de beber”, mas sim, “Eu não fumo, eu não bebo”, ou então: “Não tenho vontade de fumar, ou de beber”, conforme aquilo que se pretende largar ou obter pela sugestão.”

Para quem acreditava que magia significasse rituais com velas negras e invocações de seres sobrenaturais, essa descrição de ritual mágico de Bardon pode parecer um tanto quanto sem graça... Mas, pensem novamente: vivemos cercados por um oceano cósmico de infinita beleza, e pela luz eterna, a cada momento do tempo, e quão poucos tiveram ainda olhos para ver tudo isso, sequer de relance!

Obviamente que o ritual de Bardon, que alguns mais desaforados poderiam chamar de catalisador de efeitos placebo – sem estarem longe da razão, diga-se de passagem –, não nos servirá para tudo aquilo que os estoicos incluíram na lista do que não nos cabe a decisão. Servirá, portanto, para o autoconhecimento, o desenvolvimento da sabedoria, da sensibilidade, da criatividade, até mesmo do amor – mas de nada servirá para ganharmos na loteria, ou conquistarmos alguma amante (os amantes tem vontade própria). O que se tira disso tudo: que seu ritual serve para muita coisa.

E é precisamente aqui que me foi pedido para complementar tais ensinamentos vindos de algum canto do Oriente...

Ora, se existe certo grau de incerteza acerca de como a substância se movimentará a seguir – e a física quântica tem nos comprovado isso a décadas –, então talvez a existência não seja o mero agitar de partículas aleatoriamente, tampouco uma determinação estrita de um grande diretor de cinema cósmico, talvez afinal nossa vontade faça alguma diferença neste turbilhão!

Mas, curioso de se pensar: a maior parte de nossos desejos, a grande parte de nossa vontade, se sintoniza exatamente aos eventos que não nos cabe decidir. De nada adianta, portanto, se aventurar pelo ritual de Bardon sem primeiro compreender, de verdade, o que os estoicos diziam a tanto tempo. Só nos compete moldar o mundo naquilo que nos é dado decidir, no tempo em que dispomos para tal.

Será então, tanto mais difícil, imaginar as conquistas do ponto de vista do conquistador, sentado em seu grande trono. Talvez Bardon tenha esquecido que nem todos tinham o seu grau de vontade... Que não se imagine, portanto, “eu não fumo”, mas que se imagine cada passo dado nesta empreitada, cada olhadela para um maço sem que tenhamos pensado “e onde estará meu isqueiro?”. Que não se use a mente para visualizar um grande ser amoroso que nos empresta apenas a face, mas que se pense com cuidado em cada pequeno desafio de caridade que nos espera.

Dessa forma, quem sabe, até mesmo o inconsciente, até mesmo o tempo oculto, venha em nosso auxílio. Não após a conquista, num tempo ainda imaginário, mas nesse exato momento – no momento em que planejamos nossa jornada de autoconhecimento, nosso lampejar de consciência.

Que nosso inimigo jamais nos quis mal, ele tão somente serve de contrapeso para nossa longa jornada. Como um arquirrival, um Lúcifer que se presta ao papel de bode expiatório, até que tenhamos consciência de que toda a ignorância sempre partiu de nós mesmos – e não poderia ser de outra forma, que não nascemos sabendo, nem fomos programados para a perfeição.

Quem diria, quem diria que a substância, além de tão bela, ainda nos teria dado tal relíquia, tal tesouro... A capacidade de conquistar a consciência por nosso próprio mérito e esforço, a divina vontade! Perto desta, nenhum tempo permanecerá oculto por muito tempo...

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» Saiba mais sobre Franz Bardon em "Bardonista".

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Crédito das imagens: [topo] Maria Eugênia Guimarães ; [ao longo] Bardonista (foto de Franz Bardon).

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25.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 3

« continuando da parte 2

Igne Natura Renovatur Integra (INRI) - Pelo Fogo a Natureza se Renova Inteiramente.

O fim do tempo

De tempos em tempos acontece, e nem precisa ser uma “data cheia”, como o ano 1.000 ou o 2.000 (esquecem-se de que o milênio novo se iniciou em 1.001 e 2.001, respectivamente), a última data “prevista” foi 21/05/2011, precisamente às 18h do horário local de cada país do mundo... Segundo o pastor protestante Harold Camping, os bons seriam arrebatados aos céus de acordo com seu respectivo fuso-horário: na Nova Zelândia teriam a oportunidade de se aventurar aos céus mais cedo, na ilha de Samoa seriam alguns dos últimos, já que o governo ainda não efetuou a troca de fuso-horário.

E para quem os portões do céu não se abrissem, restaria o inferno na Terra até 21/10/2011, data em que um deus colérico poria fim não somente ao planeta, mas a toda criação – o fim do Cosmos, o fim de todo o espaço-tempo!

Não é a primeira vez que Camping foi ridicularizado por uma previsão errada do fim do mundo. Ele chegou a escrever um livro sobre como o arrebatamento ocorreria em 1994, e já estava errado desde aquela época. Interessante como eles parecem não se importar... O ocultista (e ultimamente, especialista em desmistificar lendas do fim dos tempos, como a baseada no calendário maia) Marcelo Del Debbio costuma dizer que não tem coisa mais inútil do que se prever o fim do mundo – se o sujeito errar, será ridicularizado; se acertar, não restará ninguém para lhe dar atenção (há não ser aqueles poucos que conseguirem se encontrar no céu, supondo que quem previu não tenha cometido o pecado da falsidade em previsões anteriores).

Saibam que a previsão de Camping nem de longe soa tão absurda quanto a que Charles Russell realizou para 1914, e sobre a qual as Testemunhas de Jeová depositaram toda sua fé... O absurdo não é por ter se equivocado, mas porque existem Testemunhas que creem que o mundo acabou em 1914. O que vivenciamos hoje é uma espécie de sonho, uma ilusão que nos impede de perceber que o mundo já acabou. Sim, não faz sentido, mas e daí?

Um dia recebi em minha caixa de correio uma carta de uma Testemunha me convidando para visitar uma de suas igrejas. A carta era muito amável, mas o que realmente me surpreendeu é que foi escrita a mão! Fiquei imaginando quantas cartas aquela senhora escreveria toda semana, de próprio punho, provavelmente para serem descartadas antes mesmo de terem sido lidas... Os religiosos gostam de se sacrificar por suas causas, e que maior sacrifício, que maior evento divino, cósmico, que o próprio fim dos tempos?

Quando, em 1722, o explorador holandês Jakob Roggeveen alcançou, num domingo de Páscoa, aquela distinta ilha isolada do resto do mundo por muitos quilômetros de oceano, encontrou apenas alguns nativos miseráveis, com barcos de pesca precários, numa terra árida... Mas viu também os gigantes de pedra, os moais de formas humanas, que chegavam a ter até 10m e em torno de 270 toneladas. Como aquele povo miserável conseguira erguer tamanhas maravilhas?

Os moais da ilha da Páscoa nada mais eram que a testemunha de um pequeno fim do mundo local... Se hoje o cenário da ilha é desolador, fósseis encontrados na lava vulcânica de Terevaka, um deus vulcão, revelam que a ilha chegou a abrigar a maior espécie de palmeira do mundo e uma floresta tropical com mais de 21 espécies de grandes árvores. Essa foi a grande fonte de matéria prima da civilização dos Rapanui em seu apogeu.

Nessa época, entre 1400 e 1600, a sociedade se dividia em 12 clãs. Eles compartilhavam pacificamente os recursos naturais da ilha. A competição se resumia à fabricação dos moais, a partir das rochas vulcânicas. Eles representavam membros mortos das elites dos clãs. Ao longo da história da ilha, o tamanho dos moais foi aumentando, o que sugere um acirramento na competição ente os clãs ou um maior apelo aos deuses. As árvores da ilha precisavam ser derrubadas para a construção de trenós, trilhos e alavancas para a construção dos moais (além, é claro, para as canoas de pesca e residências). Infelizmente, para os Rapanui, a natureza tinha um limite...

O desmatamento desenfreado teve impactos profundos na ilha. As poucas aves marinhas que não foram extintas pela caça predatória dos Rapanui ou dos ratos, migraram. Erosões no solo dificultavam o plantio. Em 1500, já não haviam mais árvores para a construção de canoas, e então a pesca de peixes grandes desapareceu. Por volta de 1680, explodiram guerras civis, e os clãs começaram a derrubar as estátuas dos rivais (Roggeveen já encontrou a maior parte delas no chão). Nobres e sacerdotes das elites já não conseguiam justificar seus status junto aos deuses, e foram eliminados por uma milícia que assumiu o poder na ilha.

Os novos donos da ilha adotaram um deus menor do antigo panteão e começaram a desenhar homens-pássaros e genitais femininos nos antigos moais, representando a nova divindade. Faminta, a sociedade se degradou até o canibalismo – muitos foram morar em cavernas. Em 1700, 70% da população de Páscoa havia desaparecido. No lugar dos imensos moais, escultores agora faziam pequenas estátuas (os moais kavakava) que mostram pessoas famintas, com o rosto fundo e as costelas à mostra.

Após a chegada de Roggeveen, vieram às epidemias de doenças europeias, os sequestros de insulares para trabalhar como escravos no Peru, e em 1864, com a vinda dos missionários católicos, o que restava da tradição oral dos antigos Rapanui foi perdido. Em 1872, restavam 111 habitantes de um povo que um dia, estimasse, contou 15 mil pessoas. Os moais, restaurados, são a testemunha petrificada do fim do tempo de um povo – na maior parte, causado por ele mesmo [1].

Teriam os sacerdotes Rapanui previsto um fim do mundo? Nesse caso, teriam eles acreditado que o fim da ilha da Páscoa significava o fim de toda a criação? Teria sido a construção de moais cada vez maiores uma tentativa desesperada de barganhar com os deuses em troca de alguma espécie de salvação, de arrebatamento dos “puros” aos céus?

O tempo e o espaço da ilha da Páscoa soa assustadoramente como um espaço-tempo contido, uma bolha temporal, de nossa civilização como um todo... Em nossa ignorância, em nossas desavenças, cremos que deuses virão para salvar somente um pequeno grupo, uma pequena elite, “preparada” para a salvação. Para estes, estranhamente, o fim dos tempos não é uma coisa ruim. O fim de toda a vida no Cosmos se justificaria se, em troca dessa catástrofe, alguns poucos se encontrassem com algum deus estranho nos céus, para fazer “não se sabe o que”.

A história dos Rapanui, entretanto, nos traz lições de como tudo poderia ter sido diferente... Prosperaram por séculos dividindo de forma harmônica os recursos da natureza ao seu alcance. Foi o desejo de competição, de parecer “mais especial” perante aos deuses, que fez com que se arriscassem a ir além dos limites de seu ecossistema, apenas para erguer estátuas de pedra. Erguidas não para os deuses, mas para eles próprios, para que o clã ao lado se sentisse inferiorizado.

E o que tem sido a história de nosso tempo, e de nossas igrejas, senão um reflexo do tempo de Páscoa em maior escala? Senão uma tentativa desesperada para fazer os infiéis, os escolhidos dos “outros deuses”, se sentirem inferiorizados perante as conquistas e a “verdade” de suas próprias igrejas?

Houvessem eles lido nas entrelinhas da natureza, houvessem eles se apercebido que vivemos numa pequena ilha cercada de infinito por todos os lados, saberiam que todo o tempo do mundo se resume ao momento em que o ser se encara, face a face com Deus, com o Cosmos, com a substância que permeia todo o tecido do espaço-tempo... Esse momento é eterno, e se faz na consciência, no paradoxo da mente que sabe de cada momento de sua ascensão, mas ainda assim os encena com maestria, passo a passo, rumo ao que quer que seja que os gigantes de pedra estão a observar – mas não houve tempo para nos contar.


Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de edificar, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria, tempo de espalhar pedras e tempo de juntar pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, tempo de buscar e tempo de perder, tempo de guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de coser, tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz (Eclesiastes 3:1-5).

***

[1] Ver o artigo “As testemunhas de pedra”, de Pedro Pracchia, na edição especial da Superinteressante sobre “O fim do mundo” (Maio/2011). Porém, esta teoria pode estar errada, conforme explico no adendo a este artigo.

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Crédito das imagens: [topo] Gary Sean Burrows; [ao longo] Micheal Kenna (Silent World).

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23.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 2

« continuando da parte 1

“Existe este gigantesco híper-momento onde tudo ocorre, apenas nossa mente está ordenando tudo em passado, presente e futuro.” – Alan Moore.

O tempo em nossas mãos

Santo Agostinho de Hipona talvez tenha sido o primeiro homem a se aprofundar na reflexão filosófica sobre o tempo. O grande pensador do cristianismo abriu caminho para sua análise com um comentário bastante peculiar:

“Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. [1]”

Então, logo após, colocou em xeque a própria noção da divisão do tempo em passado, presente e futuro:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [2]”

Para tentar resolver tal paradoxo, Agostinho foi se aprofundando cada vez mais no problema do tempo, até que seu caminho puramente lógico lhe levou a uma intrigante conclusão, talvez uma das conclusões mais importantes da história da filosofia – e que até hoje não foi superada por nenhum pensador que lhe precedeu:

“O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. [3]”

Mas a solução de Agostinho não era propriamente uma solução, ela apenas deslocava o problema do tempo para nossa percepção subjetiva do mesmo. Isso significava, é claro, que o tempo não poderia realmente ser medido de forma objetiva, e tampouco era uma medida absoluta. Agostinho havia precedido Einstein em muitos séculos, o ex-boêmio havia se embriagado, desta vez, não de vinho, mas do conhecimento do Cosmos... Ele já sabia que o tempo não poderia ser o mero movimento dos corpos:

“Ninguém me diga, portanto, que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando, com a oração de Josué, o Sol parou, a fim de ele concluir vitoriosamente o combate, o Sol estava parado, mas o tempo caminhava. [4]”

Podemos ser céticos com relação ao fato do Sol ter realmente parado, mas a essência lógica do pensamento agostiniano estava tão correta na época quanto nos dias atuais...

Atualmente, o tempo é um tema especialmente quente na física. A procura por uma teoria unificada (das quatro grandes forças da natureza) força os físicos a reexaminar diversas suposições básicas, e poucas coisas são mais básicas que o tempo. Alguns físicos argumentam que não existe algo como o tempo. Outros acham que o tempo deveria ser promovido em vez de rebaixado. Entre essas duas posições há a fascinante ideia de que o tempo existe, mas não é fundamental. Um mundo estático dá, de certa forma, origem ao tempo que percebemos. Essas ideias vêm sendo debatidas desde a época dos filósofos pré-socráticos, mas só agora os físicos as estão levando mais a sério como genuínas possibilidades para teorias científicas consistentes... De acordo com uma delas, o tempo pode resultar da maneira como o universo está dividido; ou seja, o que percebemos como tempo reflete a relação entre as partes.

O que normalmente chamamos de tempo é tão somente uma maneira de descrever o ritmo de um movimento ou mudança, tal como a velocidade em que pulsa o coração, ou ainda a velocidade de giro de um planeta. O curioso é que tais processos podem ser relacionados diretamente um ao outro, sem fazer referência ao tempo em si. Por exemplo, tanto podemos afirmar que a luz viaja a 300 mil km/s, que o coração dá 75 batimentos por minuto ou que a Terra faz uma rotação por dia quanto, igualmente, poderíamos dizer que enquanto o coração humano dá 108 mil batidas, a Terra gira em torno de seu eixo uma vez; ou que, por exemplo, a luz viaja a 240 mil km por batimento cardíaco.

Assim, alguns físicos dizem que o tempo é uma moeda comum, tornando o mundo mais fácil de descrever, mas não tendo existência independente. Medir os processos em termos de tempo poderia ser como usar o dinheiro em vez da troca direta de bens e serviços, em nossas relações comerciais. Por exemplo, se uma xícara da café custa US$ 2, um par de tênis custa US$ 100, e um carro usado sai por US$ 2 mil, poderíamos simplesmente esquecer do dólar e concluir de uma forma mais simples, talvez, que um par de tênis vale 50 xícaras de café, enquanto que um carro usado sairia por mil xícaras. Nós usamos moedas para facilitar a vida, pois ninguém vai querer comprar um carro com mil xícaras de café. No entanto, cédulas monetárias nada mais são do que folhas de papel com curiosas gravuras impressas, é a nossa crença em seu valor que as fazem valer isto ou aquilo. Não seria o tempo, portanto, apenas o resultado de nossa crença de que existe um tempo?

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty argumenta que o próprio tempo não flui realmente e seu fluxo aparente é produto de nossa atitude de “colocar secretamente dentro de um rio uma testemunha de seu curso”. Ou seja, a tendência de acreditar que o tempo flui é resultado de esquecer de colocarmos a nós mesmos – e nossas conexões com o mundo – no quadro geral. Merleau-Ponty estava falando de nossa experiência subjetiva de tempo e, até recentemente, ninguém imaginou que o tempo objetivo pode, ele mesmo, ser explicado como resultado dessas conexões. O tempo pode existir apenas ao quebrar o mundo em subsistemas e olhando para o que os une. Nesse cenário, o tempo físico surge pelo mérito de pensarmos sobre nós mesmos como separados de todo o resto [5].

Se optarmos por nos arriscar a realmente encarar o problema do tempo face a face, precisamos retornar a origem de tudo o que há, ao Big Bang, pois que Einstein também nos provou que tempo e espaço são ambos constituintes, fios tecedores do tecido do espaço-tempo. Não é possível falar de um sem falar do outro, e não é possível falar de ambos sem falar do todo, de todo o Cosmos.

O grande Espinosa, em sua genial análise do primeiro capítulo de sua “Ética”, já havia chegado a conclusão de que “uma substância não pode criar a si mesma”. Como a história cósmica é uma sucessão de transformações e danças de matéria e energia, pela lógica somos obrigados a concluir que tudo o que há é fruto de uma única substância.

Talvez o Cosmos seja como a roda da carroça do velho Lao Tsé, sempre a percorrer os velhos sulcos... Talvez o eixo seja a essência, através da qual a substância se irradia para o aro, que parece-nos girar... Supomos que ele realmente gira, principalmente porque vivemos neste aro, porque estamos todos conectados – somos poeira de estrelas, fagulhas divinas das fornalhas solares, enfim, somos também parte da mesma substância...

Enquanto o aro gira, sustentado pelo eixo, parece-nos que os eventos realmente se sucedem. Mas, e se o aro for o espaço-tempo, sendo constantemente sustentado e mantido pela irradiação que parte do eixo, temos que o tempo, assim como o espaço, nada mais é do que fruto da dança cósmica que a substância de Espinosa têm nos agraciado observar desde o início das eras.

Se for este o caso, não devemos nos angustiar com a profundidade do infinito, tampouco com a ansiedade do futuro ou a saudade dolorida do passado. Se tudo o que há é a substância, tudo o que há é também este momento, o momento em que temos o tempo nas mãos e a vontade, a sagrada vontade, para o esculpir a nosso bel-prazer. Talvez o paradoxo de Agostinho nem precise ser resolvido, não enquanto ainda temos coisas mais urgentes para resolver. Se o passado já não existe, e o futuro não chegou, agarremos ao presente com toda nossa alma, e façamos dele um hino em homenagem à substância, um hino para toda eternidade.

» Na continuação, o final dos tempos...

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[1] Confissões, livro XI (14).

[2] Confissões, livro XI (14).

[3] Confissões, livro XI (20).

[4] Confissões, livro XI (23).

[5] As referências científicas dos 4 últimos parágrafos foram retiradas do excelente artigo "O tempo é uma ilusão?", do filósofo da ciência Craig Callender, para a Scientific American (edição especial #41, “A longa história do universo”).

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Crédito das imagens: [topo] Laurence Acland/First Light/Corbis; [ao longo] Joe Sachs/Corbis.

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