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31.1.10

Evolução: até onde vai o acaso?

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

A recorrência de determinadas formas bem-sucedidas, juntamente com a efemeridade da maioria das espécies, levou a uma tensão entre duas idéias na teoria da evolução: a contingência e a convergência. O paleontólogo Stephen Jay Gould foi o defensor mais eloquente da idéia de que o acaso desempenhou papel decisivo na evolução [1]. Gould foi um personagem de grande importância e decisivo no campo da evolução – magistral como pesquisador e escritor popular, ainda que às vezes arrogante e refratário no seu modo de pensar.

Gould usava o Folhelho Bugess como seu exemplo central. O Folhelho Bugess é um modelo muito bem-preservado da profusão de formas de vida exóticas que apareceram nos oceanos da Terra pouco mais de 510 milhões de anos atrás. A maioria das linhagens não sobreviveu – Gould sustentava que não havia como prever quais desses organismos bem-adaptados subsistiria. Eventos caprichosos como impactos e meteoros tornaram a evolução altamente contingente. Segundo essa teoria, os micróbios podem ser comuns em planetas como a Terra ao longo do cosmos, mas os mamíferos e os répteis seriam improváveis, e os primatas e humanos com certeza muito raros.

Simon Conway Morris, um paleontólogo da Universidade de Cambridge, era um estudante de graduação quando tomou contato pela primeira vez com o achado valioso do Folhelho de Burgess. Sua interpretação dos mesmos fósseis [2] que Gould observara levou-o a uam conclusão muito diferente. Conway Morris não nega o papel desempenhado pela sorte, mas observa que as estratégias evolucionárias são limitadas pelas leis da física e não acontecem em um ambiente de possibilidades ilimitadas.

Peguemos como exemplo às asas e aos olhos. O vôo evoluiu separadamente entre insetos, mamíferos (o morcego) e répteis (notavelmente o pterossauro, um leviatã voador do Triássico). O desenho das asas é diferente em casa caso, mas a vantagem evolucionária de ganhar os céus é inegável. A visão foi descoberta, e às vezes reinventada, em criaturas tão diferentes quanto mamíferos, cefalópodes e insetos. Se você observar um polvo, o olho que verá é tão misterioso quanto o seu, mas ele tem uma ascendência completamente diferente. Todos esses são exemplos de convergência [3].

Conway Morris identificou um impressionante número de exemplos de convergência. Ele reconhece o elemento acaso da evolução, mas sustenta que a vida encontrou soluções semelhantes para o problema da sobrevivência inúmeras vezes seguidas. Por isso ele é otimista quanto à inevitabilidade de animais grandes e complexos e até mesmo da inteligência. Em sua pesquisa intitulada “Sintonizando as freqüências da vida”, ele escreve: “Onde quer que exista vida, haverá, no momento devido, uma mente. Se essa mente será sempre como a nossa é outra questão.

O naturalista britânico D’Arcy Thompson chamou a atenção para a convergência cerca de um século atrás, mas alguns dos exemplos mais intrigantes ocorrem no nível molecular. Dois grupos de peixes sem nenhuma relação um com o outro usam o mesmo anticongelante natural para combater os efeitos da água fria. O truque é realizado por um proteína codificada por uma seqüência dos mesmos aminoácidos repetidos indefinidamente. No caso, o peixe Nototheniidae da Antártica surgiu de 7 a 15 milhões de anos atrás, ao passo que o bacalhau ártico apareceu do outro lado da Terra há 3 milhões de anos. Em outro exemplo, anticorpos idênticos foram encontrados em duas espécies altamente distintas, o cação-lixa e o camelo. Circuitos genéticos semelhantes foram localizados na bactéria E. coli e na levedura, mostrando que a convergência também ocorre em níveis superiores de organização molecular.

A convergência molecular endossa o fato de que a criação de elementos pesados nas estrelas proporciona uma base universal para a bioquímica, assim como o fato de que componentes básicos como aminoácidos são encontrados em uma vasta gama de ambientes cósmicos. Existe um número astronômico de proteínas possíveis, assim como de outras moléculas biologicamente úteis. Ainda assim, a vida escolheu um número modesto [4] – propagada ao nível de genes, essa especificidade contribui para limitar as funções e as formas das espécies.

***

[1] O acaso é um nome fortuito que os cientistas encontraram para intitular "não fazemos idéia das causas reais". A idéia de acaso vai lentamente caindo por terra na medida em que as causas vão sendo identificadas e compreendidas, por exemplo, pela idéia de convergência (exposta logo a seguir no texto). Ainda que, conforme o próprio Impey admita um pouco anteriormente a este texto: "Na evolução, assim como na maioria dos outros ramos da ciência, não faz sentido perguntar por quê. Só faz sentido perguntar como". Ou seja: como cientista, você não pergunta porque um mecanismo que ainda não compreende inteiramente executa as suas funções de modo surpreendentemente coordenado. Primeiro procura entender como ele funciona. Os "porquês" ficam com a religião e a filosofia.

[2] Muitas vezes se pensa que na ciência não existem interpretações distintas para teorias bem fundamentadas, e obviamente não é o que ocorre. Na verdade um dos trunfos da ciência é a sua capacidade de abarcar interpretações distintas e por vezes opostas, sem que os cientistas se achem no direito de humilhar ou fazer pouco caso de seus opositores (bem, pelo menos os cientistas de verdade).

[3] Talvez a evolução da vida seja como uma corrida off-road: todos largam do mesmo ponto e seguem estradas distintas, mas para passar a outra fase da competição precisam encontrar o check-point; Até que em algum desses pontos de passagem surja, finalmente, uma mente. Nesse sentido, não é possível afirmar que a vida não siga algum plano. Muito embora daí a afirmar que este plano seja um design divino já requira alguma dose de crença.

[4] Quando um cientista como Impey usa o termo "a vida escolheu", é o caso típico de uso de linguagem metafórica. Será que todo cientista é um poeta? Ou será que as vezes a intuição acaba "burlando" a linha se segurança do ceticismo materialista? Talvez o Deus da ciência, a tal "vida que faz escolhas", seja o Deus do Acaso, um Deus desconhecido...

***

Crédito da ilustração: Simon Conway Morris e Masanori Gukuhari (espécies exóticas do Folhelho Burgess).

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28.1.10

Irmãos de armas

Dire Straits canta o seu clássico , "Brothers in Arms ", no Mandela Live Concert de 1988

Essas montanhas cobertas por névoa
Hoje são minha casa
Mas meu lugar é nas planícies
E sempre será
Algum dia vocês irão retornar
A seus vales e fazendas
E não mais irão arder para serem
Irmãos de armas

Por esses campos de destruição
Batizados por fogo
Eu vi todos os seus sofrimentos
Quando a batalha tornou-se árdua
E apesar deles terem me machucado tanto
Em seu medo e alarme
Vocês não me desertaram
Meus irmãos de armas

Existem tantos mundos diferentes
Tantos sóis diversos
E nós temos apenas um mundo
Mas vivemos em [mundos] diferentes

Agora o sol foi para o inferno
E a lua segue no alto
Deixe-me dar-lhe adeus
Todo homem tem de morrer
Porém está escrito na luz das estrelas
E em cada linha de sua mão:
Nós somos tolos por guerrear
Com nossos irmãos de armas

Tradução de Rafael Arrais para a letra original em inglês

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27.1.10

As lições da evolução

Todos aqueles que não se alistaram em guerras santas tem como tirar lições da teoria de Darwin-Wallace para a evolução das espécies; Lições de como a natureza funciona não só no nível físico, como também no espiritual. Engana-se quem pensa que a evolução determina o trunfo do materialismo sobre as demais interpretações da natureza. Se a ciência moderna optou por “esquecer” de Alfred Russel Wallace, que era espiritualista, pelo menos nada pode fazer quanto ao encerramento que Charles Darwin deu para o seu célebre livro, no último parágrafo de “A Origem das Espécies”:

“Assim, a coisa mais elevada que somos capazes de conceber, ou seja, a produção dos animais superiores, resulta diretamente da guerra da natureza da fome e da morte. Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

Sabemos que esta teoria nunca pretendeu explicar o surgimento da vida, tampouco o da consciência humana, e sim o mecanismo pelo qual a vida evoluiu a partir das primeiras e mais primitivas formas de vida na Terra. Mesmo assim, e não sem boas razões, ela se tornou um dos pilares que sustentam o pensamento materialista moderno – de que tudo o que somos se resume as partículas de nosso corpo – ainda que não façamos idéia de quais partículas formam a consciência, mas isso é uma outra história.

O que eu gostaria de destacar aqui, porém, é que a evolução também traz enormes lições para uma visão espiritualista da existência:

Somos todos um
Ainda que a nível físico, somos formados por partículas, por poeira de estrelas longínquas que chegaram até nós em meteoritos e, misturando-se com os elementos da Terra em seu berço, criaram de alguma forma ainda oculta os primeiros organismos. De formas tão simples quanto bactérias, tudo o mais surgiu, evoluindo a partir do mesmo código da vida, o DNA.
Hoje a ciência sabe que não existem raças humanas, nosso genoma é praticamente idêntico do aborígene australiano ao homem branco europeu. Não apenas o racismo é ignorância, mas a própria noção de que somos seres a parte na criação, de que os animais irracionais nos servem como meros objetos, é absurda. Os índios já sabiam que somos todos um, que a natureza é uma só, e que estamos todos conectados; Mas, na época moderna, foi preciso a prova científica para que abríssemos os olhos. Esta é a maior lição da natureza: da próxima vez que olhar um pequeno roedor em sua toca, saiba que foi graças a eles que sobrevivemos à época da grande extinção dos dinossauros [1]. Nós somos filhos dos roedores, e das bactérias, porque nesse caminho cósmico, ninguém é mais especial que ninguém, a todos foi dada a mesma oportunidade de viver e de evoluir.

Nos beneficiamos das trocas
O conceito de “raça pura” foi definitivamente enterrado pela evolução. Se o nazismo surgiu no mundo, foi porque seus líderes eram também ignorantes, e perderam a oportunidade de aprender com a natureza. Seres humanos isolados, reproduzindo-se apenas em pequenas comunidades locais, são muito mais vulneráveis a vírus e doenças em geral, pois simplesmente não tiveram misturas suficientes com os genes de outros humanos que caminharam por outras partes do globo.
Porém, mais do que isso, sabemos que as trocas comerciais, culturais e religiosas são fundamentais para o desenvolvimento da humanidade como um todo. Foi com a rota da seda, da Índia para a Europa e Oriente Médio, que as grandes civilizações começaram a se desenvolver mais rapidamente. Foi na época da afluência de várias correntes filosóficas, científicas e religiosas para um mesmo local de paz que muito do pensamento humano se solidificou: da Grécia Antiga a Alexandria, de Al-Andalus ao Renascimento na Europa.
Se alcançamos tais façanhas com trocas de genes, mercadorias e conhecimento, quem sabe onde poderemos chegar com a troca de amor?

O altruísmo é uma evolução da espécie
Desde bactérias que gastam energia para produzir uma substância viscosa que faz suas colônias flutuarem na água e ficarem mais protegidas, até a troca de oferendas ancestrais de hominídeos, onde os machos traziam alimento de suas caçadas para trocar pelo sexo com as fêmeas, o altruísmo tem se comprovado como uma evolução da espécie.
Aquele que caça sozinho terá mais comida quando abater uma presa, porém a história prova que são as espécies que caçam em grupo que obtém a maior vantagem evolutiva: quando todos se ajudam e auxiliam mutuamente, ainda que tenham de dividir a caçada, existem maiores garantias de que não morrerão de fome, solitários, pois a probabilidade de haver boa caça todos os dias é bem maior em grupos que têm mais olhos e mais armas afiadas.
Desde épocas imemoriais, a natureza tem nos ensinado tal mistério: quanto mais nos afeiçoamos aos seres, mais capacidade temos de nos afeiçoar ainda mais. O amor é combustível que não acaba nunca, o fogo de sua pira é eterno e o vento só faz ele crescer mais e mais...

Das adversidades nascem os grandes saltos evolutivos
Nenhuma espécie evoluiu com vida mansa, seja pela abundância de presas para caçar ou pela ausência completa de predadores. Sem a adversidade, seja esta um predador faminto ou um estômago suplicando por energia, os seres não teriam motivo para evoluir.
Embora todos gostemos de paz, de que tudo “ande nos trilhos”, não podemos esperar que as adversidades passem ao largo. Esta seria, ao longo prazo, uma grande armadilha. A estagnação, seja física, seja mental, seja espiritual, é o grande mal da humanidade. A época negra na Europa medieval demonstrou que dogmas não nos servem de salvação, e que manuais de verdades absolutas de nada adiantam se as pessoas ainda são ignorantes da real interpretação dessas verdades. Adquirir conhecimento não faz de ninguém um santo: é preciso praticar, é preciso sujar os pés de lama, é preciso encarar o deserto e compreender que, onde quer que haja estagnação, a natureza não nos deixará relaxar.
A “guerra da natureza”, a que Darwin mencionou acima, é uma forma pela qual o seu mecanismo continua nos puxando, e puxando, sempre para cima.

O ambiente nos molda
Pequenos cataclismas submarinos, causados pelo fim da vazão de água em altas temperaturas da crosta terrestre, podem fazer com que nichos ecológicos inteiros de seres microscópicos se extinguam, levando consigo pequenas barreiras de corais e espécies das profundezas do oceano. Um rio muda de curso, as monções são interrompidas, e impérios inteiros se extinguem, ou partem para invadir novos territórios, como é caso tão comum na história do sul da Ásia...
Em nossa vã esperança de que fossemos o centro de todo o Cosmos, acreditamos que os deuses é quem deveriam nos servir, ainda que através das mais variadas formas de barganha. Ainda hoje, há cientistas que crêem que podem ditar os rumos da natureza, “criando” novas espécies ou retardando indefinidamente o envelhecimento das células do corpo. Tudo em vão: nada está parado, tudo flui, tudo vibra. A natureza se move em ciclos, e dentre eras glaciais terrestres, surgiu o ser humano e todo o seu conhecimento.
Mas nem todo conhecimento é em vão. A maior prova está na compreensão de que, muito mais do que as disputas pela sobrevivência, é o meio-ambiente que molda a evolução das espécies. E mesmo aqui, uma vez mais, os índios estavam certos: estamos todos conectados, principalmente com a natureza a nossa volta.

A natureza é livre
O homem vem tentando compreender os mecanismos da natureza, mas até hoje falha miseravelmente em qualquer tipo de previsão mais aprofundada sobre para onde o vento soprará a seguir. Prever o clima a curto prazo é possível, a longo prazo não: é que a natureza insiste em erguer o seu véu, e dentre pequenos eventos que, por não sabermos a causa real, chamamos de “caóticos” ou “aleatórios”, nada realmente pode ser previsto do futuro. Nem onde o vento vai soprar, nem onde a terra vai tremer, nem até onde a evolução poderá nos levar.
Darwin dizia que o destino das espécies “tende a perfeição”. Muito embora seja complexo definir o que seja perfeição, a natureza jamais cansará de nos surpreender. Em apenas alguns segundos do ano cósmico, surgiu o homem e todo o seu conhecimento. A perfeição é o amanhã, é o porvir, é a potencialidade das consciências etéreas a bailar por entre eras e espécies – e ninguém pode realmente prever aonde tudo isso vai dar.
De sua agenda, a vida mesmo cuida: a natureza é livre.

A vida é a função do sistema
Embora todo sistema tenha sua função, há muitos que preferem ignorar que o sistema-natureza também tenha a sua. Em cada partícula que insiste em moldar organismos que se comportam de forma anti-entrópica enquanto vivificados, encontra-se parte do texto sagrado; Texto este que, codificado, reafirma através de infinitas reações químicas em meio ao turbilhão do universo: “Produzir vida, esta é a minha função”.

A lei da evolução
Nem o mais forte, nem o mais inteligente. Sobrevive e evolui aquele que melhor se adapta as condições do ambiente, e as suas mudanças.
Fisicamente, fazemos parte da espécie que obteve o maior sucesso em se adaptar ao meio-ambiente. Exploramos e ocupamos as zonas mais remotas do planeta, e hoje estamos em via de nos lançar ao oceano do Cosmos. Que nos faltará, senão uma adaptação de consciência? Senão explorar e ocupar nosso infinito interior?

***

[1] Um biólogo amigo meu apontou uma correção: "nosso 'ancestral' sobrevivente da extinção dos dinossauros não era um Roedor, que é um grupo avançado do qual os Primatas não derivaram; mas fazia parte de ordens extintas, como os Multituberculados, que só superficialmente lembram roedores". Devido a característica poética do trecho, preferi deixar assim.

Este artigo também se encontra traduzido para o inglês: "The lessons of evolution"

Crédito das imagens: [topo] Louie Psihoyos/CORBIS (Paleontologista Doug Zhiming); [ao longo] Bettmann/CORBIS (Neanderthal)

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25.1.10

Reflexões sobre a linguagem, parte 3

continuando da parte 2...

Os nomes de Deus

Apesar do conselho do Tao Te Ching, a maioria das doutrinas religiosas insistiu em dar nome ao inominável, e com isso toda a espécie de conflito e desentendimento foi gerado ao longo dos tempos: Krishna, Jeová, Deus, Alah, Brâman, vários nomes que pretendem encerrar o mesmo conceito, quando em realidade cada ser tem o seu próprio conceito sobre qualquer um desses nomes. Ora, mesmo o “Zeus” de Epicteto já não era o mesmo Zeus da mitologia grega, e sim um “Deus dos deuses”.

Mas neste artigo, vamos manter a palavra Deus para designar o conceito de Absoluto – ou qualquer outro nome que queira dar, o nome não importa tanto, e sim o que você compreende por tal conceito.

Tanto a forma capitalizada do termo Deus quanto seu diminutivo, que vem a simbolizar divindades, deidades em geral, tem origem no termo latino para Deus, divindade ou deidade. Português é a única língua românica neolatina que manteve o termo em sua forma nominativa original com o final do substantivo em "us", diferentemente do espanhol dios, francês dieu, italiano dio e do romeno, língua que distingue Dumnezeu, criador monoteísta, e zeu, ser idolatrado.

O latim Deus e divus, assim como o grego διfος ("divino") descendem do Proto-Indo-Europeu deiwos ("divino"), mesma raiz que Dyēus, a divindade principal do panteão indo-europeu, igualmente cognato do grego Ζευς (Zeus). Na era clássica do latim o vocábulo era uma referência generalizante a qualquer figura endeusada e adorada pelos pagãos.

o ateísmo veio de uma origem etimológica intimamente ligada ao termo Deus. Originado do grego ãθεος (atheos), era aplicado a qualquer pessoa que não acreditava em deuses, ou que participava de doutrinas em conflito com as religiões estabelecidas. Com a disseminação de conceitos como a liberdade de pensamento, do ceticismo científico e do subseqüente aumento das críticas contra as religiões, a aplicação do termo passou a ter outros significados.

Tendo essas informações em mãos, talvez vocês concordem comigo quando afirmo que a discussão sobre a existência de Deus, ou seja, se ele existe ou não existe, é uma das atividades intelectuais mais inúteis que já foram inventadas... Ora, cada um tem a sua visão de Deus – mesmo entre os que atacam sua existência, há de haver antes uma concepção do que seria o objeto a ser atacado. Daí se tira que discutem sobre a existência de conceitos distintos, e dificilmente chegarão a alguma conclusão prática. Será sempre um embate de persuasão – um querendo persuadir o outro – e não um embate de razão.

Talvez isso fique melhor compreendido se pararmos para analisar os inúmeros conceitos que as pessoas têm de Deus: uns crêem que ele criou o Cosmos e interfere diretamente em cada evento, respondendo orações e enviando revelações proféticas a certos iluminados; outros crêem que após ter criado tudo o que existe, ele delegou a resolução dos eventos as leis da natureza, e deixou os seres decidirem seu destino por si mesmos. Ora, somente entre o teísmo e o deísmo já existem inúmeras divisões e sub-conceitos para o que significa Deus. Se formos entrar na questão das doutrinas abraâmicas, fica ainda mais complexo: para muitos cristãos, Jesus foi uma espécie de avatar de Deus; Para os muçulmanos Jesus foi mais um na linhagem de profetas, porém apenas homem; Já para certos judeus Jesus não passa de um herege... e assim vai, não quero nem entrar nas definições para “Deus pessoal” e “Deus impessoal”.

Se formos considerar as origens do ateísmo, tampouco chegaremos a algum lugar. Segundo a origem do termo, Jesus era um ateu para os sacerdotes judeus de sua época, visto que para eles ele deturpava os princípios de sua tradição religiosa. Mesmo em se considerando a origem do termo “religião”, ainda não chegaremos a lugar algum: Do latim re-ligare, significa literalmente "re-ligação", mas é comumente interpretado como "re-ligação aos deuses ou ao Cosmos". Também é associado ao termo em latim religio, usado na Vulgata, que pode ser interpretado como "reverência ao Deus dos deuses", embora aqui o termo já esteja intimamente ligado a uma crença específica. Obviamente o termo original pode ter inúmeras interpretações. Nem todas serão tão parecidas, mas certamente nenhuma delas pretenderá estabelecer o religare como uma crença em específico: aqui todos podem participar do mesmo religare, cada um a sua maneira e sem o intermédio de hierarquias eclesiásticas (ekklesia = “igreja”). Seria então um caminho espiritual, por assim dizer. Andamos, andamos, e no fim o Tao já havia definido isso tudo da melhor forma.

Que o caminho é próprio de cada um: pouco importa se crêem ou descrêem em um conceito, visto que esse conceito é também próprio de cada um. Antes discutir sobre problemas específicos e muito mais profundos do que se digladiar pela existência de um dentre infinitos conceitos: “Porque existe algo, e não nada?”; “O que é liberdade afinal?”; “Como surgiu a vida?”; “O que é a consciência?”; “O que é justiça?” – estes são alguns dos problemas, algumas das questões primordiais que procuro expor as pessoas, porque se fosse militante da existência ou não existência de um conceito que, no fim das contas, só mesmo eu compreendo a minha maneira, e ninguém mais, não haveria diálogo possível, e sim apenas uma batalha de persuasão. Não haveria troca de idéias, apenas a imposição das mesmas. Não acredito que assim se faça filosofia, que assim possamos nos conhecer melhor.

Melhor amar a diversidade de conceitos para algo tão grandioso quanto o Absoluto. Tão grandioso que não se pode delimitá-lo nem empacotá-lo em uma doutrina de crença ou descrença – o máximo que se pode fazer, penso eu, é admitir que se trata de um caminho, um caminho pelo qual andamos sozinhos, e o máximo que podemos fazer é trocar idéias sobre o que vemos ao longo. Cada um, porém, vê o Cosmos a sua maneira, e esta é a essência de sua grandiosidade, o assombro perante o infinito a vista.

Perguntemos "o que é Deus para você?" ao invés de afirmar "Deus é assim!" - é a melhor maneira de se fazer amigos, e não inimigos.

***

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (detalhe da pintura no teto da Capela Sistina, por Michelangelo); [ao longo] Finizio (religiosos cristãos de tradições distintas participando da mesma cerimônia religiosa - ecumenismo)

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24.1.10

Como uma oração

Uma interepretação inspirada de Madonna para um de seus clássicos, "Like a Prayer", em sua apresentação para a campanha em prol do Haiti: Hope for Haiti

A vida é um mistério, todos precisam suportar sozinhos
Eu ouço você chamar meu nome
E me sinto em casa

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá

Eu ouço sua voz, é como um anjo suspirando
Eu não tenho escolha, eu ouço sua voz
É como estar voando
Eu fecho meus olhos, oh Deus eu penso que estou caindo
Fora do céu, eu fecho os olhos
Que os céus me ajudem

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá

Como uma criança você sussurra suavemente para mim
Você está no controle exatamente como num sonho
Agora estou dançando
É como um sonho, sem fim e sem começo
Você está aqui comigo, é como um sonho
Deixe o coral cantar

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá
(2x)

Como numa oração, sua voz pode me levar até lá
Assim como uma musa
Você é um mistério
Assim como um sonho, você não é o que parece
Como oração
Sem escolha
Sua voz pode me levar até lá

Como numa oração
Eu vou te levar até lá
Isso é como um sonho para mim
(4x)

Tradução de Rafael Arrais para a letra original em inglês

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21.1.10

Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Nesses mais de três anos de artigos, contos e poesias, este blog nunca pretendeu negar que trata de espiritualismo, apesar de também falar bastante sobre ciência e filosofia. Para os que me acompanham a algum tempo, devem ter notado que volta e meia falei sobre questões espiritualistas com certo ceticismo (espero que na medida certa). Isso porque acredito que não devemos impor crenças adiante, é bem melhor esperar que as pessoas se convençam por si mesmas (ou não, mas é importante não haver imposição de qualquer forma)...

Embora a questão espiritualista ainda esteja na maior parte intimamente ligada a experiência subjetiva, acredito que algumas questões podem, e devem, ser analisadas pela ciência. Ao falar sobre isso, vale lembrar que a ciência não é materialista nem espiritualista, e que tanto o materialismo quanto o dualismo são apenas teorias conceituais ainda não comprovadas. Não adiantará nada, portanto, visualizar tais questões com uma opnião (ou dogma) já formada, do tipo "espíritos não existem" ou "os espíritos de luz é que sabem das coisas" - nada disso irá contribuir para que alcancemos objetivamente a compreensão desses assuntos, que permeiam a história da humanidade desde antes da invenção das linguagens. Vamos aos casos:

1. Da consciência
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo.

Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'" - em suma, Eccles apenas defendia uma característica até mesmo óbvia que surpreendentemente escapou ao olhar atento de muitos cientistas (e ainda escapa): que alguma coisa em nós faz escolhas, simples e complexas, e que não sabemos exatamente onde esse 'eu' está fisicamente no cérebro (se é que está lá, ou apenas lá).

Outro defensor dessa teoria é Bahram Elahi, especialisa em cirurgia e anatomia. Diz ele que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Para saber mais: Reflexões sobre a consciência

2. Da memória de vidas passadas
Muitos acreditam que "lembrar de vidas passadas" seja um delírio ocasionado por estados de consciência alterada. Entretanto, nas práticas de Terapia de Regressão de Memória a Vidas Passadas tem sido realizada a décadas nos EUA, no Brasil e no mundo, com considerável porcentagem de sucesso - ou seja, no sentido de serem benéficas para a patologia do paciente. No entanto, é óbvio que esse tipo de experiência não pode ser analisada objetivamente, e é muito difícil encontrar casos onde adultos tenham memórias vívidas o suficiente para, por exemplo, encontrar seu endereço ou árvore genealógica de vidas passadas.

Já no caso das crianças, o assunto é bem mais interessante. Desde os estudos de Ian Stevenson nos países do sul da Ásia, a ciência tem estudado de forma mais séria essa possibilidade. Até mesmo na "bíblia do ceticismo", Carl Sagan admite que a questão merece um estudo aprofundado (embora faça questão de afirmar que não crê na possibilidade das vidas passadas). Ora, se crianças podem descrever parentes de vidas passadas com exatidão, e reconhece-los ainda vivos, além de muitas vezes poderem descrever a região e o endereço de onde viveram, é porque algum tipo de informação é passada adiante, e não de mãe para filho. Aí temos uma possibilidade intrigante, mas que é avassaladoramente ignorada pela ciência moderna, independente das evidências. Algumas dessas evidências são tão fortes que fica difícil pensar em outra hipótese, como no caso do garoto americano, filho de protestantes, e que lembrou-se de outra vida onde morreu em um combate aéreo na Segunda Guerra Mundial.

Aparentemente, são os grandes traumas ou emoções fortes os únicos capazes de fazer com que, em uma suposta "outra vida", o ser se lembre do que ocorreu na vida imediatamente anterior. Aqui temos uma hipótese onde a ciência pode começar a avalisar caso a caso, embora eles sejam raros...

Para saber mais: Crianças que se lembram de vidas passadas

3. Da mediunidade
Essa é de longe a questão mais polêmica a vista, pois é atacada por duas frentes: os céticos que se escandalizam com a possibilidade, e os evangélicos que atribuem quase todas as práticas a necromancia ou "tratos com o demônio" (ainda que Jesus tenha, aparentemente, conversado com Moisés em uma tenda). Mediunidade é a capacidade de detectar os espíritos, ou consciências fora de um corpo físico, através de sentidos que a ciência ainda não compreende bem. Lógico que, a alternativa de ser tudo delírio ou esquizofrenia dos médiuns é igualmente válida. Falta no entanto a ciência explicar que tipo de delírio é esse, que dura alguns minutos e efetivamente altera o funcionamento cerebral, mas que depois deixa o médium tão normal quanto sempre fora: sem nenhuma sequela para sua vida (o que, aliás, já descaracteriza o rótulo de "doença").

Aqui no blog estudamos as cirurgas espirituais de João de Deus, e contrastamos o estudo da Associação Médica Brasileira com as alegações do dismistificador americano, James Randi, de que as cirurgias eram "truaques de mágica": fica evidente que, independente de haver ou não cura efetiva (o que não é comprovado), as cirurgias são reais. Esperamos que mais médicos tenham a coragem de continuar com o estudo em torno desse médium conhecido internacionalmente, embora tão polêmico (e não negamos: ele não é exatamente um ser iluminado, é até bem humano).

A grande questão da meduinidade é: "de onde diabos vem as informações, talentos e habilidades desconhecidos do médium, quando este está em transe mediúnico?" - Há muito tempo mostramos um vídeo com as psicopictografias de Gasparetto, este é um exemplo, pois fora do transe Gasparetto é um pintor medíocre... E o que dizer então de um dos maiores médiuns da história moderna? Chico Xavier sequer entrou na faculdade, e tinha habilidades literárias absolutamente limitadas, no entanto escreveu centenas de livros em estilos que vão desde a poesia espiritualista a divulgação científica - no seu "Mecanismos da Mediunidade", psicografado em pareceria com Waldo Vieira, separados por centenas de quilômetros - o que não impediu que os capítulos se "casassem" perfeitamente. Ora, de onde vem essas informações? Inconsciente Coletivo de Jung? Os memes de Dawkins? Para quem não ignora as evidências, essas podem ser questões para a ciência do futuro.

Para saber mais: Introdução a psicografia

4. Da projeciologia
Waldo Vieira já foi um dos grandes parceiros de Chico Xavier na psicografia de livros em conjunto. Em dado momento, porém, se desiliudiu com os rumos do espiritismo no Brasil, provavelmente por achar que estava se tornando "demasiadamente dogmático". Decidiu então abandonar o aspecto religioso, e investir no científico: há muitos anos mantém estudos quase herméticos em seu Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia. Ele insiste em criar termos técnicos que dizem algo somente aos "iniciados", mas talvez toda a base de conhecimento que ele esteja montando seja ainda um legado para o futuro, quando a neurologia finalmente chegar a um entendimento mais abrangente da consciência e suas capacidades.

Estudos objetivos, no entanto, podem ser realizados aos montes. Em documentários internacionais, são demonstradas as experiências na "academia" de Waldo Vieira, onde pessoas em projeção tentam visualizar imagens randômicas mostradas por um monitor de computador trancado em uma sala a parte. Por menor que fosse a porcentagem de acerto, ela seria surpeendente - e ocorre que ela é bem maior do que seria de se esperar. Serão fraudes tais experimentos? Os projeciologistas não se importam que céticos apareçam para estudar o fenômeno - o problema é que esse tipo de fenômeno a ciência moderna adora ignorar.

Para saber mais: Viagem astral: fora ou dentro?

5. Outros fenômenos
Ainda temos artigos que citam outras hipóteses espiritualistas que ainda não foram analisadas com maior detalhe no blog: A aparente capacidade de certos monges de ficarem dias sem comer nem beber, ou mesmo absolutamente imóveis (embora não acredite que Ram Bonjam fique realmente tanto tempo imóvel quanto afirmam, o experimento com o yogi Prahlad Jani é absolutamente válido para a ciência); Os cristais na glândula pineal, detectados pelos estudos do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, e que podem talvez explicar finalmente o mecanismo da mediunidade pela percepção de ondas eletromagnéticas; A eficácia de tratamentos alternativos como a acupuntura e a homeopatia, que atestam que ainda falta muito para a ciência estudar acerca do efeito placebo-nocebo.

Certamente temos muitos, muitos fenômenos, que merecem um olhar mais cuidadoso da ciência, independentemente da polêmica que suscitam. Os grandes cientistas e pesquisadores são aqueles efetivamente curiosos em desvelar a natureza, independentemente de crenças e descrenças que, no final das contas, nada tem a ver com a ciência em si. Talvez um pouco de anarquia, por incrível que pareça, possa efetivamente ser benéfico para a ciência moderna, pelo menos é o que pensava Paul Feyerabend. E olhem que ainda nem falei sobre o Dr. Sam Parnia e seu estudo inovador sobre as Experiências de Quase Morte (EQMs), me aguardem!

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Leitura recomendada (livros): Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, de Ian Stevenson; Life before life, de Jim Tucker; Varieties of religious experience, de William James; A volta, do casal Leininger (sobre um caso forte de reencarnação); O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia; O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior; Encontros com médiuns notáveis, de Waldemar Falcão.

Leitura recomendada (online): paraPsi (blog que analisa com detalhe extremo os fenômenos ditos "paranormais"); Teoria da Conspiração (blog do ocultista Marcelo Del Debbio, que analisa muitas dessas questões de forma racional, com base na mitologia); Saindo da Matrix (blog espiritualista, nesse link temos apenas os artigos sobre espiritismo).

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Crédito da foto: Photo Blues

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19.1.10

O ano cósmico

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

Vamos comprimir o tempo (cósmico) por um fator de 50 mil trilhões (5 x 1016) . Essa escala reduz os 13,7 bilhões de anos desde o big bang ao calendário de um ano.

No dia do ano-novo, no hemisfério norte, todo o tempo e o espaço, toda a matéria e toda a energia são criados. No final de fevereiro, a Via Láctea está se formando. Gerações de estrelas nascem e morrem ao longo da primavera e do verão. A Via Láctea devora uma série de companheiras menores e completa uma volta a cada semana. No início de setembro, próximo do braço espiral de Órion, forma-se um estrela de tamanho médio em uma creche estelar movimentada: sua nuvem de gás foi levada à ruína pela morte violentade uma supergigante vizinha. Dois dias depois, oito grandes corpos rochosos se formaram a partir da poeira que girava ao redor do menino Sol. Um é a nossa Terra.

Dentro de uma ou duas semanas, o planeta novinho em folha está vivo. Micróbios espalham-se pela superfície do planeta e no fundo dos seus oceanos. O Sol converte hidrogênio em hélio e envia uma corrente contínua de fótons aquecidos ao espaço. Várias vezes por semana, a intervalos aleatórios, imensas rochas chocam-se contra o planeta e produzem o caos. Muitos organismos são extintos, mas o restante se adapta e se diversifica. Em outrubro, a vida inventa uma novo modo de aproveitar a energia solar, e a atmosfera começa a encher-se de oxigênio [1].

Em meados de dezembro, o ritmo da vida começa a recobrar a velocidade. Depois de vários meses sem nenhum organismo maior do que um punho, novas criaturas proliferam nos oceanos. Algumas vão até a terra firme e outras aprendem a voar. Na época do Natal, os dinossauros dominam as florestas e pântanos do planeta exuberante. Três horas antes das badaladas da meia-noite no ano-novo, aparecem os primeiros hominídios. Descendem de mamíferos, espécie sobrevivente bem-sucedida do impacto de um enorme meteoro, vários dias antes [2]. Faltando 20 segundos para meia-noite, os hominídios evoluíram para se tornar exatamente como nós, inventam as ferramentas e a agricultura, e constroem as primeiras cidades. A Revolução Coperniciana acontece quando falta um segundo para a meia-noite [3].

O modelo do tempo em escala explica a nossa chegada final à cena como forma de vida inteligente, capaz de explorar o espaço e compreender o cosmos, mas considera o seguinte: podemos não ser os primeiros. Um planeta semelhante à Terra pode ter se formado em algum lugrar do universo muito antes de nós. Digamos que seja no começo de junho. Se a evolução seguiu o mesmo ritmo da terra, haveria uma espécie alienígena atingindo nosso nível tecnológico no final de setembro, exatamente quando a vida estava começando a brotar na Terra. Do que seria capaz uma espécie alienígena agora, com uma dianteira de 4 bilhões de anos em relação a nós?

Vivemos no ápice de uma mudança exponencial. Todas as maravilhas do mundo moderno - computadores, televisão, viagens espaciais, genética, a internet - encaixam-se no último décimo de segundo do ano cósmico. A velocidade crescente das mudanças tecnológicas torna impossível predizer o futuro de modo confiável. Conhecendo a nossa insignificância no tempo e no espaço, ficamos tanto impressionados quanto impacientes perante nosso imenso potencial como espécie consciente de si mesma. Se não estamos sozinhos na posse dessa capacidade, o universo deve ser um lugar muito, muito interessante [4].

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[1] As formas de vida mais bem-sucedidas da Terra, as cianobactérias remontam a 3,5 bilhões de anos, e seus descendentes ainda são encontrados em muitos ambientes na terra e na água. Esses minúsculos organismos fotossintéticos criaram quase todo o oxigênio existente na atmosfera, e levaram ao desenvolvimento das plantas. Eles merecem o nosso respeito!

[2] No cataclisma que se seguiu, a maior parte dos dinossauros foi extinta, embora saibamos que as aves atuais sejam remanescentes deles. Em todo caso, foram pequenos roedores, sobrevivendo em pequenos e profundos túneis sob a terra, quem sustentaram nosso legado genético (e de todos os mamíferos). Também sem eles, não estaríamos aqui para contar a história.

[3] Que foi, sobretudo, uma revolução do pensamento humano. Sem esse conhecimento, provavelmente ainda pareceria que o Sol gira em torno da Terra, visto que através da observação pura é exatamente o que parece a primeira vista. Foi necessária uma grande mudança de paradigma para que a maior parte da população alfabetizada olha-se para o Sol e imagina-se que, na realidade, somos nós quem giramos ao seu redor (e ele, ao redor do cosmos).

[4] E a astrobiologia, um ramo científico muito, muito promissor.

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Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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18.1.10

Reflexões sobre a linguagem, parte 2

continuando da parte 1...

Etimologias

“Etimologia é a origem dos vocábulos, já que por essa interpretação captamos o vigor das palavras. Aristóteles denominou-a symbolon; Cícero, adnotatio, porque a partir de uma instância de interpretação tornam conhecidas as palavras e os nomes das coisas: como flumen (rio), que deriva de fluere, porque fluindo, cresce. O conhecimento da etimologia é freqüentemente necessário para a interpretação do sentido, pois, sabendo de onde se originou o nome, mais rapidamente se entende seu potencial significativo. Contudo, não foi a todas as coisas que os antigos impuseram nomes segundo a natureza, pois alguns foram impostos arbitrariamente, tal como nós mesmos também fazemos quando damos a bel-prazer nomes a nossos servos e propriedades. Há etimologias de causa, como reges (reis) que vem de regere (reger) e de recte agere (conduzir retamente); outras de origem, como homo (homem) que provém de humus (terra); ou de contrários, como lucus (bosque), que, opaco pelas sombras, tem pouca luz (luceat).”

O homem brilhante que redigiu o texto original de onde foi retirado o parágrafo acima (que é apenas um resumo) foi também bispo católico, e depois da morte, nomeado santo – Santo Isidoro de Sevilha. Basta um estudo rápido sobre as páginas de sua grande obra, “Etimologias”, para perceber o quão meticuloso era Isidoro ao tratar e organizar todo o conhecimento de sua época, entre os anos 560 e 636 d.C.

Esta que foi a primeira enciclopédia que o mundo conheceu, freqüentemente utilizada por todos os grandes escritores medievais, denota o quão importante é não só a organização do conhecimento, o “banco de dados” de tudo o que o homem já estudou, como também a interpretação do conhecimento, que afinal é o que separa os pensadores dos meros compiladores, ou imitadores.

O gosto que os autores medievais tinham pela etimologia deriva de uma atitude pró-ativa em relação à compreensão de cada palavra, quase como se “saboreassem” o sentido de cada palavra, sem as tratar como meros vocábulos que “marcam” algum conhecimento. Ou seja, para eles, palavras não eram códigos. Para a tradição medieval do Ocidente, e boa parte do Oriente ainda nos dias atuais, as palavras abrem portas para novos pensamentos, e não apenas trancam conceitos em pequenas caixas de saber.

O grande problema em se acreditar que as palavras encerram idéias, e não apenas caminhos para o pensamento, é quando pessoas com “conceitos solidificados” entram em discussões, debates ou diálogos – que quase sempre não terminarão tão amigavelmente quanto começaram. Muitas vezes, tais pessoas falham em reconhecer metáforas ou situações em que as palavras são usadas no sentido poético. Por exemplo, na frase “disciplina é liberdade”, para uma pessoa que tem o conceito de “disciplina” solidificado como algo em torno de “seguir regulamentos, ser obediente as leis ou agir sempre da mesma maneira ordenada”, a frase parecerá absurda. Já para quem consegue levantar o véu e compreender a frase em seu sentido mais profundo, poético, a “disciplina que leva a liberdade” é antes a indicação de um caminho, talvez árduo de início, mas que propicia uma “liberdade mais completa” ao final – mas qual seria tal liberdade? Ora, talvez a liberdade de pensar por si próprio, sem ser influenciado pelos outros? Talvez a liberdade de se viver livre de desejos inúteis para nosso progresso? Talvez apenas “ser livre de verdade”. Em todos esses casos, a idéia de “liberdade” não é encerrada, não chega a um final, mas abre caminhos para diversas interpretações – e todas elas são muito mais profundas do que a idéia de “seguir regulamentos”.

Dessa forma, duas pessoas podem concordar no sentido que dão a liberdade, mas ainda assim discutir arduamente sobre o sentido da frase acima. Basta que uma delas tenha o conceito de “disciplina” solidificado em meros verbetes de dicionário, e a discussão, absolutamente inútil, seguirá noites afora.

Mas toda discussão não é totalmente inútil. Porém, notem que o contexto em que usarei a palavra “inútil” não é mais o mesmo do parágrafo acima. Afinal, o ato de dialogar envolve não só pensamento próprio, como pensamento alheio – é esse intercâmbio que moldou nossa cultura, e que produziu os grandes pensadores. Homens e mulheres que simplesmente conheceram o mundo, sem se preocupar em solidificar conceitos em dogmas. Nesse sentido, o problema dos debates é quando terminam em violência, que nem precisa ser física, mas a violência de se ignorar o modo de pensar alheio, a violência de se impor o conhecimento adiante, como se este conhecimento pudesse realmente ser “empacotado”, quando não pode.

É preciso estar atento, portanto, não somente para o contexto em que as palavras são usadas, mas principalmente para a forma de pensar das pessoas que trazem tais palavras a nós. Não é a toa que Sócrates passou boa parte de sua época áurea apenas dialogando com seus discípulos. Ora, um dos grandes pensadores da humanidade poderia realmente aprender algo com aqueles que o cercavam? Certamente, todo sábio está sempre atento ao mundo e, principalmente, as pessoas. Segundo Espinosa e Epicuro, as pessoas são o maior bem que podemos buscar nesta vida, isto é: as pessoas que são nossas amigas, porque nos compreendem, e porque nós também as compreendemos. Ora, se dois filósofos que viveram em épocas tão distintas concordam quase que completamente sobre isso, é porque no mínimo o conceito tem alguma base de verdade...

Quanto sangue derramado, quantas guerras inúteis seriam evitadas se as pessoas aprendessem a enxergar efetivamente umas pelos olhos das outras, e deixassem de classificar pessoas como “coisas”. Assim, não teriam existido escravos nem castas, nem ontem, nem hoje. Entretanto, é preciso seguir em frente, é preciso compreender o belo e profundo mundo que nos cerca, e a etimologia sem dúvida nos ajuda na frugal e divertida tarefa de buscar a origem do pensamento humano.

Na seqüencia, irei falar sobre os inúmeros nomes de Deus, e como o debate sobre sua existência ou inexistência é quase sempre inútil...

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Leitura recomendada: “Revista Língua Especial: Religião e Linguagem”, artigo “O padroeiro dos etimologistas”, por Luiz Jean Lauand (Editora Segmento).

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Crédito da imagem: Wikipedia (página de "Etimologias").

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16.1.10

Haiti: onde há vida, há esperança

Sei que há muitos pessimistas em relação ao futuro da humanidade, mas para esses vale ressaltar que os otimistas não retiram seu otimismo "do nada", mas de eventos reais. Essa enfermeira que ficou quase 3 dias sob os destroços do pequeno hospital onde atendia, está grávida de 1 mês e diz ter mantido a esperança através de sua fé, nas noites em que passou sozinha e sem comida, água, ou luz. Sim, está grávida, e não "estava", pois foi resgatada com vida, sem ter a gestação afetada, nem ferimentos graves. Mais uma que poderá em breve voltar a atender, e ajudar na reconstrução de seu país.

Talvez, ante a manumental contagem de mortos, eventos como esse pareçam sem importância. Mas os estóicos diziam que devemos nos preocupar apenas com o que é possível mudar. Nesse caso, a tregédia não volta atrás, mas é possível recomeçar, sempre é. Pelo menos para os que ainda acreditam no amanhã, e na força de sua própria vontade.

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15.1.10

O Haiti é aqui

O cônsul geral do Haiti em São Paulo, Gerge Samuel Antoine, apareceu em reportagem exibida na noite desta quarta-feira no programa "SBT Brasil" dizendo que o terremoto está "sendo bom" para seu trabalho e que a tragédia pode ter ocorrido por causa da religião praticada por boa parte dos haitianos, descendentes de africanos. O vodu é uma delas.

Sem saber que estava sendo gravado pela equipe da repórter Elaine Cortez, o cônsul diz um interlocutor: "A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f#$&@*"

O pior é saber que, longe de ser o preconceito de uma minoria, esse tipo de idéia está presente nas mentes cegas de muitos religiosos, ditos "cultos", e que têm cargos importantes, seja aqui no Brasil ou em outros países, como este "evangelista" dos EUA. É duro perceber até que ponto vai a ignorância humana (como se terremotos só ocorressem no Haiti ou na África), mas a esperança de melhora é, ainda assim, a última que morre...

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Quanto ao aparente "azar" do Haiti, creio que ele é melhor explicado por razões políticas, e não religiosas, conforme o artigo do meu amigo Tiago de Thuin explica.

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Reflexões sobre a linguagem, parte 1

Nosso maior dom

Há quem se pergunte qual o maior dom do ser humano: os sentidos, a visão que nos possibilita nos maravilhar com o mundo, a audição que nos permite ouvir a sinfonia das esferas? Talvez não os sentidos, mas o amor que nos une a todos os seres, a razão que nos permite compreender o elegante mecanismo da natureza? Bem, pergunte a um antropólogo, e ele lhe dirá sem pestanejar: a capacidade de interpretar símbolos, o que nos possibilita o uso da linguagem.

A capacidade de interpretar a realidade é o que nos permite compreender aos quantas de luz que os olhos nos enviam, ou as ondas sonoras que nos chegam pelos ouvidos – porém, ao contrário das espécies irracionais, nosso cérebro também é capaz de desenvolver linguagens a partir desses dados enviados, e associar conceitos físicos e, principalmente, metafísicos, aos símbolos. Sem essa capacidade dificilmente nossa arte, religião e ciência teriam se desenvolvido, e estaríamos até hoje caçando animais com machados de lasca de pedra, todos invariavelmente feitos da mesma forma mecânica, pois a criatividade também praticamente inexistiria.

Entretanto, ainda hoje sabemos que nossa linguagem nem sempre é apurada o suficiente para descrever certos conceitos. A tradição religiosa oriental é conhecida por ser afoita a nomear as coisas por palavras, numa tentativa de reafirmar a beleza de se nomear livremente o mundo. Dessa tradição vem a célebre frase: “Cavalo branco não é cavalo”, de Gong Sunlong, um retórico chinês que viveu entre 320 e 250 a.C. – Com a frase, ele quer demonstrar que recusa a idéia de que as categorias do pensamento que formam e/ou são formadas pelas palavras estejam realmente vinculadas à realidade concreta. Ou seja, o genérico “cavalo” nada tem a ver com o cavalo singular e concreto (branco, a título de exemplo) que esteja sendo observado através dos olhos.

No caso de um cavalo, talvez este pensamento seja exagerado: se cada pessoa escolhesse um nome diferente para nomear um cavalo, ou que seja – um cavalo branco que não é mais apenas cavalo, as linguagens seriam pessoais, e a comunicação entre duas pessoas já seria complexa; Imaginem então a comunicação entre uma vila ou grande cidade – seria praticamente impossível. Portanto, é inevitável que a linguagem se torne um “ditador” de conceitos, e o máximo que podemos fazer é nos valer das metáforas para tentar dizer “algo além” do que pode ser dito com as palavras.

O primeiro verso do Tao Te Ching, obra primordial do taoísmo, afirma que “O nome que pode ser dito não é o Nome eterno. No principio está o que não tem nome (o Tao).” – Ora, o Tao é um nome peculiar, ele é o nome do que não tem nome, pois é indizível, impossível de se conter em uma palavra, pois se trata não apenas de um conceito (por mais complexo que seja), mas de uma experiência. O Tao significa não somente a origem de tudo, mas o caminho em busca desse conhecimento primordial, em suma: a chamada experiência religiosa.

Na fé primitiva, o conhecimento ritual não tendia a se dar, evidentemente, por escrito. A novidade do Oriente Médio foi a fé no livro e, com ela, veio a configuração do discurso ritual, que o Ocidente esquematizou numa liturgia em parte devedora da estrutura oratória clássica. A retórica se firmou, nas religiões que dão peso ao verbo, como um campo importante da construção da religiosidade. A experiência religiosa, intransferível, foi, é e continuará subjetiva. Mas ao ser comunicada, ao ser partilhada em comunidade, a experiência mística segue princípios de persuasão.

No Ocidente, a religião está intimamente atrelada à linguagem, a evangelização. No Oriente, embora seja igualmente subjetiva, a religião é muito mais um caminho pessoal do que algo que se possa propagar adiante por discursos e sermões, ou mesmo por livros sagrados. Para a tradição oriental, livros sagrados geralmente são guias que tem de ser decifrados por cada um, e os líderes religiosos podem no máximo aconselhar sobre as melhores práticas nesse caminho.

Porém, religião à parte, a linguagem é também o meio primordial pelo qual as artes e as ciências são, respectivamente, comunicadas e codificadas. Impossível interpretar a arte sem o contato com símbolos (embora nem sempre sejam palavras); Impossível transmitir e organizar a ciência sem o uso de códigos simbólicos, como números e equações.

Outra característica importantíssima da linguagem é o seu correto uso em discussões e debates. Não é raro discussões ferozes serem travadas pelos motivos errados, simplesmente porque as pessoas não se entendem quanto ao significado das palavras que usam. Já citamos o amor, que certamente é outra palavra cujo conceito ainda não foi totalmente compreendido, a despeito dos esforços de poetas e religiosos ao longo da história.

Serão os conceitos universais possíveis de serem corretamente compreendidos e encerrados em palavras, em linguagem? É isso que veremos a seguir...

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Leitura recomendada: “A pré-história de mente”, de Steven Mithen (Editora Unesp); “Revista Língua Especial: Religião e Linguagem”, artigos “O nome do Tao”, por Inty Mendoza, e “A retórica do pregador”, por Luiz Costa Pereira Junior (Editora Segmento).

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Crédito da imagem: Bettmann/CORBIS (tabela alquímica de elementos)

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14.1.10

Monte Castelo

Para quem conhece Legião Urbana, vale a lembrança; Para quem não conhece, eis aqui uma de suas músicas mais inspiradas - assim como alguns dos versos mais inspirados de Paulo de Tarso e Camões:

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem.
Agora vejo em parte, mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

Composição: Renato Russo (O soneto 11 de Luiz Vaz de Camões, foi adaptado musicalmente pelo grupo Legião Urbana. A letra é complementada com referências ao texto bíblico 1 Coríntios 13, de Paulo de Tarso).

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13.1.10

Teorias conceituais

Fonte: Dicionário Céptico, em seu excelente artigo sobre teorias (utilizamos aqui apenas uma parte do artigo).

O termo 'teoria' pode ser compreendido tanto numa acepção 'forte' como numa acepção 'fraca'. Na acepção 'forte', uma teoria é um princípio ou conjunto de princípios para explicar, organizar, unificar, e/ou compreender o sentido de um conjunto de fenômenos. Na acepção 'fraca', uma teoria é uma crença ou especulação. Não-cientistas comumente usam o termo 'teoria' na acepção fraca para se referir a uma crença ou a uma especulação ou palpite baseados em informações ou conhecimento limitado, por exemplo, minha teoria sobre o sexo antes do casamento é... ou, minha teoria sobre por que os Yankees vencem tantos campeonatos é... Nós nos preocuparemos aqui apenas com teorias na acepção forte.

Poderíamos dividir as teorias em científicas e não-científicas. As últimas poderiam ser ainda divididas em empíricas e conceituais. (...)

Uma teoria conceitual é não-científica e não-empírica. Algumas teorias conceituais são explanatórias, por exemplo, teorias metafísicas como criacionismo, materialismo ou dualismo. Como todas as teorias conceituais, criacionismo, materialismo e dualismo não podem ser testadas empiricamente. Elas não são falseáveis nem tem nenhum valor preditivo. Cada teoria é logicamente coerente, isto é, não há nenhuma contradição lógica em acreditar que tudo o que é real é físico, nem há nada de contraditório em acreditar que existem duas realidades, uma física e outra espiritual. Não há nada de contraditório em acreditar que o universo teve um Criador, nem o ateísmo é inerentemente auto-contraditório. Cada teoria é consistente com o que nós sabemos sobre o mundo. Tudo o que pode ser explicado por espíritos ou realidades não-físicas, pode ser explicado pelo materialismo. Apesar de tudo, nem o materialismo nem o dualismo podem ser testados empiricamente; logo, nenhum pode ser confirmado empiricamente de nenhuma maneira significativa. Não há nada no universo que possa ser explicado por um Criador que não possa também ser explicado sem referência a um Criador. Por outro lado, teorias conceituais também não podem ser refutadas. Não há nenhuma forma de alguém provar que o teísmo ou o ateísmo, ou o materialismo ou o dualismo são falsos apelando para evidências empíricas. Além disso, tudo o que puder ser dito a respeito do valor e da validade do materialismo ou do ateísmo se aplicam igualmente às teorias do dualismo e do teísmo.

Algumas teorias conceituais são prescritivas, por exemplo, teorias éticas como o utilitarianismo. Elas declaram o que deve ser, ao invés de tentar explicar o que é.

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11.1.10

Os dois lados da moeda

Cara

Nós encontramos consolo e salvação nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. O verbo divino nos diz que ninguém irá ao Pai senão através dele. Nossa Igreja detém o único caminho para a verdade e a libertação dos pecados de uma vida mundana e inútil para a eternidade que nos aguarda após a morte. Não perca tempo com o paganismo e o ateísmo. Siga-nos, enquanto há tempo, antes que seja tarde demais!

Coroa

Nós encontramos beleza e elegância no método científico. A ciência nos demonstra que a natureza só pode ser compreendida objetivamente pela matemática. A experimentação realizada pela ciência oficial é o único caminho para desvendar a natureza. Livre-se da irracionalidade das práticas religiosas, das superstições e das pseudo-ciências. Venha conosco e abrace a felicidade que advém naturalmente em se viver pela razão!

Remédio-pensamento

Dizem que o conhecimento da verdade nos libertará. No entanto, que é exatamente a verdade? Quem pode dizer, sem parecer um lunático de antemão – “eu detenho a Verdade Absoluta”?

Embora a história tenha nos demonstrado que os dogmas foram criados por igrejas e doutrinas que pretendem ditar um “único caminho a ser seguido até a salvação”, nos dias atuais encontramos homens dogmáticos e evangelizadores, no mau sentido, mesmo entre os ditos ateus.

Tais seres se esquecem que a miríade infinita de personalidades que abrange a humanidade é bela e profunda, exatamente pelo fato de não existir ninguém igual a ninguém mais. Se alguém critica a sua doutrina ou ideologia de vida, alegre-se: você não encontrará ninguém mais como ele em todo o Cosmos!

Porque, ao invés de procurar ditar um rumo a seguir, até a “salvação” ou a “vida racional”, não procuramos demonstrar as qualidades de nossa doutrina ou ideologia pelos seus frutos? Pela fala mansa, pelo olhar complacente, pela sabedoria e a paz de quem se basta a si mesmo, e não precisa que outros o aplaudam nem tampouco o sigam. Pela doação de conhecimento e, sobretudo, de amor. Quem está certo e satisfeito com o que pensa, não se preocupa em “evangelizar” tal pensamento adiante. Ou, em outras palavras, atrai aos seres pelo exemplo moral, e não pela sedução oratória e intelectual.

Que conquistar a si mesmo é mais difícil e complexo que conquistar o mundo, e os Alexandres e Gengis-khans nos demonstraram isso claramente...

Não espere chegar a Verdade Absoluta para se libertar, que essa – felizmente ou infelizmente – ainda custará muitas eras a chegar. Liberte-se, hoje mesmo, de preconceitos e delírios de grandeza, dessa inquietante necessidade de expor sua verdade adiante, na vã esperança que ela “se torne mais verdadeira” somente porque um bando de pessoas a deriva se converteu a ela. Pois que estamos todos a deriva nesse turbilhão universal, nessa dança incessante de partículas e seres na imensidão do infinito.

E dogmas nada mais são que âncoras que nos prendem no lugar, e nos impedem de seguir o fluxo das águas – águas profundas, que deságuam em algum lugar do outro lado do Cosmos... Quem sabe nalgum dia, nessas margens distantes, possamos vislumbrar o pouco que seja da verdade que vêm à frente.

Liberte-se, pois que somente libertos poderemos um dia vislumbrar a verdade face a face. Solte esta âncora, deixe o rio fluir, tome este remédio-pensamento; Baste-se a si mesmo, percorra este mundo, encontre e ame aos seres; Deslumbre-se com a variedade exuberante de teorias para o sentido e o mecanismo do evento mais fantástico que existe: viver!

Cara e Coroa

Minha religião é meu pensamento.
Minha vida é minha bíblia.
Minha igreja é meu coração.
Deus é nosso amor.

Minha ciência é meu pensamento.
Minha vida é minha equação.
Minha academia é meu coração.
Nós somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

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Crédito da foto: Ramperto

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6.1.10

Algumas reflexões, parte 2

Continuando da parte 1...

A profetisa

Dizem que o maior de todos os medos é o medo de morrer. Bem, eu não sei se isso é verdade – acho que tenho mais medo de ser atropelado por um cavalo a galope e continuar vivo e todo esturricado – mas deve estar, em todo caso, bem próximo da verdade... Dizem também que o homem imaginou os deuses e o além-vida como forma de amenizar esse tal medo da morte. Ora, mas se o homem imaginou a Deus, com quem é que os profetas costumam conversar?

Eu não me lembro de ter conhecido algum profeta pessoalmente, mas sim uma profetisa! A amiga de minha prima católica, da qual não me lembro o nome, costumava dar conselhos para os fiéis que se dirigiam a ela com os mais variados problemas existenciais – alguns profundos, como “o que Deus quer de mim?” e outros nem tanto, como “quando vou encontrar o homem que Deus está guardando para mim?”. Mas fato é que ela sempre tinha as respostas na ponta da língua, seja qual fossem as indagações existenciais...

A profetisa, católica fervorosa, no entanto tinha uma estranha tristeza no olhar, uma melancolia que me parecia altamente contrastante com a felicidade e consolo que suas respostas traziam aos que lhe traziam perguntas e olhares igualmente angustiados... “Minha nossa”, eu pensei, “se ela tem esse dom tão maravilhoso, o que diabos a deixa tão triste?”

Ao final de uma das suas sessões de respostas proféticas – que eram realizadas, por pura caridade mesmo, em sua própria casa – eu tive a oportunidade de lhe perguntar:

“Você está triste porque não consegue falar com Deus não é?” – e sim, eu juro que não faço idéia de porque exatamente complementei a pergunta com a afirmação... Talvez eu também tenha “absorvido” brevemente seu dom de profetizar.

Ela nem precisou responder nada: seu olhar já me dizia que era exatamente esse o seu problema. E, se eu já havia acertado a primeira aposta, acho que desenvolvi bem a habilidade em seguida:

“Mas não fique triste. Veja bem: todas essas pessoas vêm até você com suas dúvidas e seus problemas, e você parece ter sempre uma boa resposta para lhes dar. Não acho que você seja adivinha, acho que é Deus quem fala através de você... Nunca havia percebido isso? Logo você, que reclama que Deus nunca lhe responde, é aparentemente quem está mais próxima dele, e não se deu conta!”

Ela se comoveu com essa resposta, e nos emocionamos juntos. Ela, porque percebeu que sempre esteve próxima de Deus. E eu, porque adorei a experiência de estar próximo de Deus, ainda que tenha durado tão pouco tempo. Na verdade, como sempre, só percebi a profundidade da experiência algum tempo após o ocorrido - no momento em que ocorreu, me pareceu algo tão natural quanto apreciar o nascer do sol.

Isto é, se é que Deus existe... Entretanto, se não foi Deus quem nos causou uma impressão tão avassaladora dos sentidos e da alma, não sei o que possa ter sido. A experiência religiosa é sim, subjetiva, mas quem passa por ela, e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, nunca mais esquece.

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Crédito da foto: Max Tuta

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Algumas reflexões, parte 1

O pequeno sábio

Um dos primeiros conselhos de genuína sabedoria que recebi foi quando ainda era um garotinho, aprendendo a andar a cavalo em Monte Verde, no sul de Minas Gerais. Eu havia escorregado da cela enquanto meu cavalo estava galopando, e fiquei com o pé enroscado no estribo – de modo que o máximo que podia fazer para evitar ser esfolado pelos cascos do cavalo era segurar com toda a força na correia, e rezar para que ele parasse de galopar.

Mas não me lembro se na época eu sabia rezar, provavelmente não, visto que ainda hoje não sei bem. Em todo caso, havia um outro garotinho que me seguia, em outro cavalo, apenas este era parente do homem que alugava os cavalos, e tinha bem mais experiência no ramo, apesar da idade. Foi ele quem fez o meu cavalo parar de galopar, até que pudesse pará-lo para que eu pudesse me desenroscar do estribo e finalmente me dar por seguro, são e salvo!

Talvez não me lembrasse bem desses eventos, não fosse pelo que o garoto me disse após perceber que eu estava apavorado com a idéia de ter de subir de novo na sela do cavalo – afinal ainda estávamos no meio do caminho e tínhamos de retornar ao hotel onde o dono dos cavalos nos aguardava:

“Agora você tem de subir de novo, senão vai ficar com medo, e nunca mais vai andar a cavalo!” – Falou o sábio-mirim, do alto de seus poucos anos de experiência com o hipismo.

“Subir de novo? Mas eu quase me arrebentei agora pouco... Prefiro voltar puxando o cavalo pela correia...”

“Você até pode voltar no meu, se quiser... Mas o melhor é você voltar no mesmo cavalo, que daí vai dominar o medo, e ele não volta mais.”

E foi o que eu fiz. Parece incrível, mas eu nunca tive medo de andar a cavalo, por mais que tenha visto gente caindo do cavalo na minha frente. Por mais que tenha galopado por terrenos escorregadios e quase – por mais de uma vez – tenha voltado a cair do cavalo... Quem sabe qual é o segredo para dominar o medo? Em todo caso, fato é que nunca mais enfiei minha canela adentro do estribo!

O sujeito que me deu o tal conselho, o fez do fundo de sua alma. Ele não era meu parente nem meu amigo, e não tinha idade para trazer algum mal obscuro no coração. Eu me lembro de seu olhar e seu riso disfarçado, que tampouco era de zombaria – ele decerto havia passado pela mesma situação que eu, e decerto deve ter ficado com medo de andar a cavalo de novo, e decerto alguma outra pessoa o incentivou a vencer o medo, até mesmo porque no seu caso, ele não tinha escolha: seus pais viviam do aluguel de cavalos, e ele tinha de ajudá-los.

É pena eu não ter transportado tal conselho para outros eventos traumáticos em minha vida. Quem sabe, se hoje tenho alguns de meus medos, é porque não tive a coragem de encará-los frente a frente ainda lá no início, na primeira vez que bateram a minha porta.

Continua em "A profetisa"...

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Crédito da foto: Edu Hana

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